Eu explic por que não quero deixar as minhas filhas com as avós: mãe a tempo inteiro em Lisboa, entre tradições antigas, conselhos improváveis e experiências do passado

Olha, deixa-me contar-te porque é que não gosto nada da ideia de deixar as minhas filhas com as avós.

Tenho 31 anos e sou mãe a tempo inteiro de duas meninas, a Beatriz de 3 anos e a Mafalda de 1 aninho. Escolhi mesmo dedicar-me só a elas nesta fase, e não sinto falta do trabalho fora de casa, acredita!

Quando fiquei grávida da Beatriz, imaginei, meio ingénua, que as avós iam logo pôr mãos à obra e iam ajudar imenso, pelo menos nos primeiros meses Mas olha, na prática foi mais ao contrário senti mesmo que acabavam por complicar mais que ajudar, e tratei das coisas sozinha.

Deixa-me contar como foi: depois do parto da Beatriz, e ainda para mais quando vim para casa, sentia-me completamente perdida, nem sabia por onde lhe pegar, nem como pegá-la ao colo, como dar banho O que hoje é rotina, há três anos parecia-me um bicho de sete cabeças, e os dramas cá em casa eram diários.

E claro, as instruções para cuidar de bebés não vêm escritas em lado nenhum, não é? E eu pensava que as avós, com aquela experiência toda, iam saber tudo: trocar fraldas, dar banho, cortar unhas, como tratar de uma constipação Mas não, rapidamente percebi que cada uma tinha ideias completamente diferentes, até para dar banho foi uma confusão.

Acabei por aprender sozinha a trocar fraldas como uma ninja, e tantas outras coisas.

Tenho muito respeito pela minha mãe e pela minha sogra, claro! E às vezes até me rio ao lembrar-me destas coisas:

A Avó 1 (a sogra):
Deves rezar um Pai Nosso à água e só dessa água é que a menina pode beber.

Uns meses depois, sim senhora, comprámos um filtro de água.

O banho tinha de ser com sabonete azul e branco (aquele clássico), nada de gel de banho. E para as irritações de pele, mais sabonete ainda.

Os teus filhos ficam doentes porque tu não fazes as coisas como deve ser. (Ainda hoje não sei que coisas eram essas)

Para a rapariga não berrar tanto, devias levá-la a uma bruxa de aldeia, ela resolve isso.

A Avó 2 (a minha mãe):

Gritar? Isso passa. Febre? Toma um comprimido, isso resolve-se logo.

Dás brinquedos a mais às miúdas, elas depois não ligam a nada! Tens de ser mais poupadinha

Pronto, sábado posso vir às 13h ficar com elas, mas só até às 16h porque depois tenho de ir ao cinema. (E isto é todos os fins-de-semana!)

Doces, salgados? Aos seis meses já podem provar um pouco de tudo Se a Mafalda pedir, deixa provar que não morre!

Adoro a minha mãe, claro, mas às vezes pergunto-me a sério como é que ela nos criou!

Lembro-me que passávamos dias inteiros em casa da minha avó só a comer massa, e lá em casa era sempre cozido, feijoada, comida pesada. E depois, quando tossíamos, faziam de conta que não era nada resultado: uma vez apanhei tosse convulsa porque ninguém ligou.

Agora olho para trás e percebo de onde vêm os meus problemas de estômago! E claro, o meu fígado também não foi lá muito poupado

No fundo, dou-me lindamente com as avós das minhas filhas, mas não sou capaz de imaginar deixá-las com elas durante dias. Só mesmo se eu estiver lá a controlar a coisa. Não é paranóia, é mesmo receio Sabes como é, cada um à sua maneira!

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