Depois de uma Noite Gelada de Plantão, Tânia Só Pensava em Dormir – Mas um Estranho Molhado e Abando…

Depois de um turno inteiro à noite no hospital de Santa Maria, Mariana mal sentia as pernas de tanto cansaço. As geadas daquele janeiro tinham dado lugar a um daqueles típicos dias húmidos e chuvosos de Lisboa, e todos os dias caía neve ou melhor, aquela lama fria misturada com gelo a que o lisboeta chama neve. Mariana escorregava a cada passo, tentando manter-se de pé entre o empedrado e as poças traiçoeiras.

Não conseguiu pousar nem um minuto a cabeça durante o plantão. Primeiro, trouxeram um rapaz com apendicite; depois, uma idosa com fratura no fémur. Parecia até de propósito esperavam sempre pela noite para chamar a ambulância e rumar à urgência do hospital. Mariana só sonhava com o momento em que chegaria a casa e poderia enfim dormir. Olhava para os pés, concentrada para não cair, e foi por isso que não viu o homem que, discretamente, se desprendeu da sombra do prédio e lhe cortou o caminho.

Mariana estacou e levantou a cabeça. À sua frente encontrava-se um homem de uns quarenta anos, com aspeto desalinhado, barba por fazer e roupa ensopada, desajustada ao corpo, como se tivesse sido emprestada por alguém maior do que ele. Tentou afastar-se na calçada, sem força nem ânimo para correr.

Desculpe… pode ajudar-me? a voz rouca do homem surpreendeu-a.

O instinto de auxiliar ligou-se logo. Mariana era enfermeira, e um pedido de auxílio parava-a como travão de comboio.

Eu… o homem passou as mãos pela cabeça e fechou os olhos, pálido. Fui empurrado do comboio. Tive sorte em aterrar no monte de neve. Nada partido, só algumas nódoas negras.

Talvez não devesse beber tanto… murmurou Mariana, tentando contornar o estranho.

Não bebi nada! Só chá. Meteram-me qualquer coisa no copo, adormeci de imediato. Fui roubado, até à roupa me tiraram. Ainda bem que me deixaram vestido, e nem foi longe da sua estação.

Que sorte a sua. O senhor devia ir à polícia e ao hospital. Está com dores de cabeça? Sente-se enjoado? Pode ser concussão cerebral disse, retomando o passo.

Já estive na polícia. O próximo comboio só parte daqui a umas horas. Ficar no posto a esperar… Prefiro andar por aí. O polícia disse que não iam apanhar os ladrões. No compartimento vinha um velhote com ar de professor, barba afilada e óculos, mas disseram-me que eram seguramente falsos. Devia ter cúmplices. Olhe, só preciso de lavar-me e trocar de roupa, estou todo encharcado. Prometo devolver-lhe a roupa.

Pois sim! E não quer também as chaves da casa e os cartões do Multibanco? Mariana não conteve a indignação.

Ninguém acredita em mim… Porquê, senhor? o homem olhou para o céu, olhos tão sofridos que Mariana quase teve pena dele. Observou-o com atenção: desalinhado, sim, mas com modos e discurso correto; não parecia um sem-abrigo.

Bem. Venha comigo, senão ainda apanha uma pneumonia. Arranjo-lhe algo para vestir.

Obrigado. É a única que me ouviu. O homem seguiu-a, agradecido.

Mal Mariana chegou a casa, largou-se sobre o banco do hall, estafada, olhos já a pular de sono.

Vai ao banho apontou, indicando-lhe a porta estreita da casa de banho. Vou procurar-lhe qualquer coisa para vestir. Como se chama?

João Mendes. Ele acendeu a luz e fechou-se lá dentro. Mariana ouviu água a correr.

Resignada, Mariana esqueceu o tão merecido descanso. O irmão já morava no Porto, mas ficara alguma roupa velha sua no roupeiro. Faz-se um jeitinho, pensou. Reuniu peças limpas, bateu à porta e avisou que deixava a roupa em cima do móvel do corredor.

Serviu sopa numa tigela, pôs a aquecer no micro-ondas e sentou-se, inquieta. Se a mãe chegar agora, nunca acredita nisto! Se a visse a aquecer a comida, com um homem a tomar duche, o escândalo era certo. Ó Senhor, que ela se demore no supermercado ou em casa da Dona Isabel, rezou baixinho. Mas Deus, ocupado com outros afazeres, não atendeu.

O trinco rodou.

Mariana, já chegaste? gritou a mãe do corredor, e ela espreitou a medo. Engraçado, jurava que eras tu no banho! Então quem é aquele, hum? e semicerrava os olhos, desconfiada.

Mãe, calma. É um passageiro perdido do comboio. Vai só tomar banho e depois vai-se embora.

Ah, já percebi. Foste buscar a roupa do Luís para ele? O que aconteceu?

Foi assaltado e atirado do comboio. Ficou sem nada.

Ó Senhora da Agonia! E trazes estranhos para casa? Se for um ladrão ou pior? Deixa estar, vou já ligar à polícia.

Mãe, já lá esteve, não complica. Não há comboios agora, estão em obras na linha. Já te disse que ele só se vai lavar e sai.

O chuveiro calou-se. O homem pegou na roupa e fechou a porta novamente.

A mãe sentou-se, de frente para a porta da cozinha, esperando. Pouco depois, João veio, ainda meio atrapalhado, e cumprimentou tímido.

Mostre-se lá então. Como é que um homem deste tamanho foi roubado no meio do dia? provocou a mãe.

Peço desculpa pela invasão. Ia à boda da minha filha em Braga. Deram-me uma coisa para dormir, apaguei logo. Roubaram tudo. Ficou-me isto, e atiraram-me à neve perto da estação de Entrecampos. Sem telemóvel, documentos, nem um cêntimo.

E veio cá ter porquê? Não moramos junto à estação.

Mãe, deixa o homem comer em paz! interrompeu Mariana, zangada. Sente-se, João, ainda está a sopa a fumegar.

Mariana, em pequena, trazias para casa gatos e cães perdidos, agora trazes homens despejados dos comboios. Mas afastou-se, libertando o lugar à mesa.

João, faça favor de comer. E cuidado: se a minha mãe simpatizar consigo, não sai daqui sem casar! disse Mariana com humor ácido.

Agora passas a vida no hospital, dia e noite. Não tens ninguém, só idosos e crianças rodeiam-te. Trinta anos quase, nada de marido suspirou a mãe.

Mãe, não inventes tentou Mariana, rindo . O João vai-se embora assim que puder.

Pronto, pronto a mãe resmungou e retirou-se para o quarto.

É mulher de pulso firme, a sua mãe comentou João, que agora já parecia menos constrangido.

Criou-nos sozinha, a mim e ao meu irmão. Tem pavor de eu ficar sozinha na vida, como ela.

E é médica?

Não, enfermeira. Mas e agora, sem documentos e dinheiro, como vai comprar outro bilhete?

Disseram que a polícia ajudava. Posso usar o telefone? Preciso avisar a minha filha e um amigo.

Claro. Vou buscar.

No quarto, a mãe despejava para uma caixa as alianças e uns brincos de fantasia.

Mãe…?

Xiu. E se ele for ladrão mesmo? Vou já entregar isto à Tia Celeste murmurou, saindo apressada.

Mariana não insistiu bem conhecia a teimosia da mãe.

João telefonou à filha, e o desapontamento com que desligou o telefone não passou despercebido. Ligou ao amigo, pediu o endereço da casa.

Vai chover, já pediram ao motorista para me vir buscar. Nem devia ter ido à boda, a minha ex-mulher não queria que eu fosse. Foi a minha filha a convidar-me. Devia era ter ido de carro ou de avião, mas pronto… confidenciou, com mágoa.

E afinal, quem é o senhor, que vem motorista buscar?

Tenho uma pequena firma de reparações, com um sócio. Ele convenceu-me a não ir de carro, porque ia beber no casamento, mas agora já vi o erro. Não se incomode, logo à noite já me vou embora.

Mariana olhou para João. Em roupa emprestada parecia quase elegante. A mãe tivera razão: seria bom ter ali alguém à espera, regressar a uma casa cheia. Mas a vida dela quase trinta anos e tudo igual, o passado de mágoas ainda a marcar.

É muito boa pessoa, Mariana. Um dia vai ser mesmo feliz disse-lhe João de repente, como se lesse os seus pensamentos.

E o senhor? Porquê sozinho? Tem tudo

Assim é a vida. Casei cedo de mais, se calhar. Não encontrei quem fosse como a Mariana, simples, boa. As pessoas hoje pensam muito em dinheiro, tanto homens como mulheres. Mas desculpe, não a deixo descansar.

Conversaram até a noite cair. O telefone tocou.

É para mim. O motorista chegou disse João, levantando-se.

Mariana pensou: Vai-se embora e nunca mais o verei. E tudo volta à monotonia de sempre.

Deixei o meu número guardado como João do Comboio disse ele, sorrindo triste. Se precisar de mim, já sabe. Vou devolver a roupa. E peça desculpa à sua mãe; acho que ficou convencida que sou ladrão.

Mariana quase chorou quando o viu sair. Ficou à janela, vendo-o na rua, acenando, a neve a cair devagar sobre Lisboa.

Já foi? perguntou a mãe, entrando.

Agora queixaste-te de o trazer, agora perguntas porquê foi embora respondeu Mariana, tentando disfarçar a tristeza.

Via-se que era bom homem.

E foste tu a esconder a bijuteria.

Uma tolice de velha, foi o que foi… suspirou a mãe.

Três semanas passaram. A véspera de Ano Novo chegou, e parecia tudo um sonho distante. O hospital estava tranquilo; pouca gente internada, poucos acidentes, talvez conseguisse dormir.

Então, Mariana, juntos de plantão outra vez? sorriu o Dr. Gouveia, cirurgião de olhar maroto.

Ela sabia: aquilo não era coincidência. Ele inventava sempre forma de calhar com ela nas noites. Gouveia era conhecido pelo gosto pelas enfermeiras novas, mas Mariana fazia-se de desentendida.

Estás aqui? Ó, Mariana, tens de ver isto! irrompeu Inês do serviço de urgência.

Já trouxeram alguém? perguntou Gouveia, a pôr a máscara e as luvas no bolso.

Está ali o Pai Natal! Verdadeiro! Com presentes! Quer passar pelo internamento todo. Deixo entrar?

Pai Natal em Lisboa? Porque não? Vamos ver, Mariana disse Gouveia, pegando-lhe no braço.

Já no corredor, ouviam a voz de barítono no átrio: Pai Natal de fato vermelho e barba falsa, saco às costas, a tentar convencer as auxiliares a deixá-lo distribuir prendas.

Vim diretamente da Lapónia, deixem-me levar alegria a quem precisa! bradava, e a voz tinha um timbre, uma inflexão… que a Mariana reconheceu.

Mas então o Pai Natal não mora em Montalegre? gracejou Gouveia. Vá lá, mas sem grandes festas , cedeu.

O Pai Natal entrou, distribuiu tangerinas e chocolates pelas mesas de cabeceira. As idosas e velhos pacientes sorriam como crianças. Do serviço de medicina interna, a enfermeira Cláudia veio pedir que visitasse também o seu setor. O Pai Natal, hesitante, olhou para Mariana.

Sinto muito, mas a Sininho é só nossa. brincou Gouveia, puxando Mariana para si.

Minutos depois, regressou o Pai Natal, agora despido da fantasia. Saco pendurado, chapéu e barba na mão era João. Mariana não conteve uma gargalhada.

Sabia que estava de plantão. Quis surpreendê-la, animá-la um pouco. Consegui?

E de que maneira! Vai ser difícil adormecer alguém hoje! Mariana voltou a rir.

Vejo que esta noite faço guarda sozinho dramatizou Gouveia. Vão, vão lá os dois viver a magia; se for preciso, a Inês dá-me uma mão. Aproveitem!

Mariana não hesitou. Um mês depois, entregou o pedido de transferência e foi viver com João. A mãe não cabia em si de alegria. Filha casada, posso morrer descansada! Ou melhor, ainda vêm netos, tenho de durar para ajudar.

Na vida, chamamos destino ao que corre mal, e sorte ao que nos enche o coração. Sem um, o outro talvez nunca chegasse.

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