Estado da Alma

Estado de Alma

Gracinda Matos sentava-se à mesa da cozinha, olhando para a rua através da janela. Era primavera a começar em Lisboa, o sol já derretia os restos de geada, mas por dentro sentia-se arrastada por um outono profundo. Já lá iam três anos desde que o marido a deixara, mas não aliviava. Achava que tinha aceite, que se tinha resignado, mas continuava vazia. Como se lhe tivessem retirado a peça mais importante e agora o mecanismo teimava em funcionar aos solavancos, a ranger.

Os filhos estavam longe. O Nuno vivia no Porto, a Madalena em Coimbra. Os netos já crescidos, cada um no seu mundo. Ligavam em dias de festa, por vezes mandavam fotos no WhatsApp. Gracinda sorria para as imagens, mandava uns emojis, e voltava a pousar o telemóvel, sentando-se depois à janela a ver a vida dos outros a acontecer lá fora.

A vizinha, Dona Amélia, costumava chamar para irem até à pastelaria ou dar uma volta ao bairro. Que voltinhas?, pensava Gracinda. Sentar-se num banco do jardim a dissecar doenças e tratar de lamentos? Não lhe apetecia nada. Antes, ela e o António caminhavam juntos no Jardim da Estrela, iam ao cinema ao fim-de-semana ou a casa de amigos. Agora não era só não ter com quem ir, era a ausência de vontade.

No frigorífico, pouca coisa. Para ela sozinha, não valia a pena mais. Na televisão, telenovelas de amor que só lhe provocavam mais saudade.

Gracinda, tu assim vais murchar! suspirava a amiga Idalina quando passava pela casa numa das suas visitas semanais. Tens de sair desse marasmo. Vai, inscreve-te num clube, aulas de dança de salão, verás que te faz bem!

Que danças, Ida? desviava a conversa Gracinda. Não tenho par, nem motivos.

Idalina balançava a cabeça e despedia-se. Gracinda voltava à sua janela.

***

Já no final de maio, a neta Constança apareceu-lhe à porta. Estudante universitária, cheia de energia, sempre com os fones espetados nos ouvidos. Entrou pela casa dentro como vendaval:

Avó, cheguei! Fico o verão todo! Cansei-me do Porto, preciso de sossego e dos teus bolinhos!

Gracinda renasceu. Os bolinhos, o arroz-doce, as almôndegas voltou a pôr mãos à obra. A neta comia com gosto, contava coisas da faculdade, das amigas, de um tal Tiago, que lhe fazia bater o coração mas não percebe recados.

E tu, avó, andas bem? perguntou ela, já na mesa, com uma chávena de chá e compota de ameixa.

Bem… ouro pouco para contar, Constança. Sou mais de ouvir. Amanhã estava a pensar lavar as janelas.

Sentes falta?

Sinto, filha. Muita.

Constança olhou-a bem de frente e os olhos brilharam-lhe de repente:

Ó avó, e se te sacasse aquela aplicação dos encontros?

Quase se afogou no chá.

Estás tola, miúda? Encontros? Vou fazer sessenta e oito anos!

E então? Aquilo está cheio de gente com a tua idade. Também querem companhia, conversar. Podes arranjar uma amiga, ou alguém para passear!

Que disparates cortou Gracinda logo. Passei quase cinquenta anos casada, agora ia procurar homens no telemóvel? Que vergonha.

Quem é que te obrigava a contar? Riu Constança. Fica segredo nosso. Anda lá, só para vermos como é.

Gracinda resmungou e abanou as mãos, mas à noite, enquanto a neta foi sair com as amigas, o dedo fugiu-lhe para o telemóvel. Só de curiosa. Só para ver o tal.

Instalou, registou-se. Não quis uma foto recente, pôs uma antiga em que estava na Nazaré, de braço dado com o António cortou-o do enquadramento, claro. Escreveu: Gracinda, 68 anos. Procuro companhia para passeios e conversa.

E esqueceu. Pelo menos até de manhã.

***

O telemóvel apitou cedo, ela foi ver: mensagem na aplicação.

Olá Gracinda, sou a Mariana, 64 anos. Também procuro uma amiga para caminhadas. Adoro os jardins, preciso de companhia. Encontra-se comigo?

Leu, releu. Mariana. Uma mulher. Nada do que esperava.

Constança! chamou ela. Vem cá depressa. Escreveu-me uma senhora!

Que senhora? atirou Constança, apressada do quarto e agarrando logo o telemóvel. Olha, avó! É alguém da tua idade. A convidar-te para um passeio!

E agora, Constança? baralhou-se Gracinda.

Vai, claro! Porque não?

Três dias depois encontraram-se no Jardim da Estrela. Gracinda andava numa pilha de nervos, trocou de blusa e de saia três vezes, acabou por vestir o de sempre e saiu de casa.

Mariana era miúda, franzina, de olhar vivo e voz animada. Abriu logo a conversa:

Gracinda, estava desejosa de a conhecer! Ficar em casa sozinha é uma morte lenta. Sabe, também fiquei viúva. Tem filhos? O meu está emigrado na Bélgica, vejo-o pouco. Vamos ser amigas!

Falaram durante três horas. Passearam pelo jardim, sentaram-se nos bancos, voltaram a andar, como se o tempo deixasse de existir. Mariana também gostava de bordar, via os mesmos filmes antigos, também sentia o vazio da ausência. E, como Gracinda, não sabia o que fazer com os dias.

Repetimos? disse Mariana, já ao despedir-se.

Repetimos aceitou Gracinda. Sábado?

E, pela primeira vez em muito tempo, sorriu sem forçar.

***

Um mês depois, estavam juntas quase todos os dias. Era o jardim, a beira-rio, chá e palabreado na cozinha. Mariana trazia novas ideias de cada vez:

Deviamos juntar mais gente! propôs ela um dia. Há imensas mulheres como nós na aplicação, fechadas em casa, solitárias. Organizávamos um grupo.

Um grupo como? duvidou Gracinda.

Um clube! Junta-se para chá, para conversa, passeios, até caminhadas como fazem os nórdicos, sempre disseram que faz bem à saúde. Sozinha é uma maçada, mas num grupo é outra coisa.

Gracinda hesitou primeiro. Clubes? Caminhadas? Mas Mariana não largava. Passada uma semana arranjaram mais duas senhoras Laurinda e Rosa. Em mais alguns dias eram já sete.

Nasceu assim o Passos Leves. O nome foi ideia da Laurinda, antiga professora de matemática, habituada a organizar metade do mundo.

Marcha nórdica às segundas, quartas e sextas! ordenava. Terças de chá e conversa de livros. Quintas para cinema ou exposições. Fins-de-semana de descanso, a menos que queiramos passeio!

No início Gracinda só seguia. Mas de repente reparou que já liderava o grupo do WhatsApp, que era ela quem apontava novas participantes, quem coordenava. Até presidente a tinham feito ideia da Laurinda outra vez.

Gracinda, tens dom para isto! elogiava Mariana. Somos um grupo graças a ti, inspiras-nos a todas.

Gracinda encolhia os ombros, mas por dentro sentia-se aquecida.

***

A notícia do clube chegou à Gazeta de Lisboa. Um jovem jornalista apareceu, fez perguntas, tirou fotos, pôs tudo no bloco de notas. Uma semana depois saiu um artigo: Idosas activas: amizade e projetos pelo bairro.

Gracinda leu e releu a reportagem, olhos colados na foto: ela, com bastões de marcha nórdica, no centro do grupo, a sorrir. Um sorriso novo, brilhante.

Depois foi o telefonema de um canal regional.

Dona Gracinda, queremos filmar um pequeno documentário sobre o vosso clube. Podemos?

Ela só queria recusar. Mas Mariana e Laurinda não lhe deixaram alternativa:

Para o nosso bem, Gracinda! Pode ser que outras pessoas se juntem. Não queres ajudar mais idosos?

E acabou por ceder.

A gravação foi longa. A repórter, uma rapariga chamada Leonor, era gentil e delicada e perguntou tudo: como começaram, o que lhes dava o grupo, porquê.

Veja, disse Gracinda para a câmara, perdemos quem amamos e parece logo o fim. Parece que estamos sozinhas no mundo e ninguém precisa de nós. Especialmente quando os filhos vivem longe. Mas na verdade… na verdade ainda precisamos de nós mesmas. E dos outros. Encontrámo-nos umas às outras e, agora, acordar de manhã tem sentido. Caminhar, conversar, viver um dia novo!

O segmento passou nas notícias do serão. Gracinda passou a noite a atender telefonemas vizinhos, amigas antigas, colegas. Numa semana, entraram vinte novas membros no grupo.

***

O septuagésimo aniversário de Gracinda chegou. Ela queria esquecer a data festa de quê, já vivi tanto? mas o clube preparou-se:

Vai haver festa! anunciou Mariana. Fomos ao café do bairro, vai haver música e dança. És a nossa estrela, tens de brilhar.

Gracinda protestou, mas ficou contente. Comprou finalmente um vestido novo, azul com flores pequeninas, como usava nos vinte anos, e uns sapatos de salto baixo.

Nessa tarde o telefone tocou. Era o Nuno, o filho:

Mãe, vamos todos ao teu aniversário. Eu, a Marta, e os miúdos.

Como assim, filho? Vocês têm escola, trabalho…

Já tratámos de tudo. Não podíamos faltar.

Na véspera, não dormiu. Arrumava, preparava, ansiava. Quando o filho entrou a manhã seguinte, percebeu que não via os netos há três anos. Já grandes, mudados.

Avó! exclamou a neta. Estás diferente. Pareces mais nova!

Gracinda riu:

Isto aqui até rejuvenesce. Temos um clube ativo, menina, não há tempo para envelhecer!

A festa foi linda. Estiveram quase todas as senhoras do clube flores, presentes, vestidos coloridos. Vieram vizinhos, antigas colegas de escola. Mariana animou a noite, Laurinda trouxe poesia, Rosa cantou fado com guitarra.

O filho olhava para ela, incrédulo. Três anos antes, vira-a cinzenta, cabisbaixa, sem brilho. E agora

És mesmo tu, mãe? perguntou, num momento a sós.

Sou, filho sorriu. Antes estava sozinha. Agora tenho amigas, tenho o grupo. Há motivos para acordar, para viver. Percebes?

Percebo, mãe. Desculpa se não vim mais vezes.

Não faz mal desvalorizou ela. Tens a tua vida. Eu agora também tenho a minha.

Nessa noite, uma videochamada de Constança:

Avó, parabéns! Sabes que quando falei da aplicação, disseste que era uma maluquice?

Maluquices, filha sorriu Gracinda. Às vezes é mesmo disso que a vida precisa.

***

Epílogo

Passado um ano, o Passos Leves era conhecido em Lisboa inteira. Chamavam-nas à rádio, escreviam sobre elas nos jornais. Abriram novos grupos: de crochet, de pintura, até de teatro amador.

Gracinda era agora coordenadora de tudo. Tinha ajudantes, agenda cheia e ideias para o futuro.

O filho passou a visitar mais. Os netos escreviam-lhe mensagens, trocavam piadas e fotos. Constança, agora jornalista estagiária, dizia-lhe:

Avó, és minha inspiração.

E Gracinda só sorria, olhando finalmente pela janela para uma primavera luminosa.

A vida continua. E é bela.

Gracinda mantém a velha aplicação no telemóvel. Às vezes espreita novos perfis, mas não procura mais ninguém. Para quê? Já encontrou o mais importante: a si mesma.

Meninas diz às novas, tímidas, assim que entram no grupo, não tenham medo. A vida é longa, mais do que pensamos. Em qualquer idade podemos recomeçar. Mesmo quando parece que tudo acabou.

E elas acreditam. Porque veem à frente uma mulher viva, feliz, a florescer aos setenta anos. Que mostrou que idade é só número. Viver é um estado de alma.

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