Antigamente, para a minha sogra, eu era “a labrega mal-amanhada”. Agora, quase todos os dias, ela telefona-me a elogiar. Eu sei a razão desta mudança de comportamento e não acredito numa única palavra da minha sogra!

Ontem, ao reler umas notas antigas, lembrei-me de como tudo mudou. No início, para a minha mãe, a Inês era uma preguiçosa, uma aproveitadora. Agora, quase todos os dias me telefona a pedir desculpa, a chamar-lhe santa. Mas eu não acredito numa única palavra. Só quero dizer: “Bem feito! Colhe o que semeaste!”

Em 2017, casei-me com a Inês. Conhecemo-nos na universidade, no primeiro ano, e assim que terminámos a licenciatura fomos viver juntos. Ela não era de Lisboa, veio de uma aldeia pequena do Alentejo. Como éramos estudantes e não tínhamos dinheiro, decidimos morar em casa da minha mãe, Dona Margarida. Ela tinha um T3 no centro, todo remodelado. Eu achei que era uma boa ideia – pouparíamos mais depressa para a nossa própria casa, sem pagar renda.

Mas a minha mãe nunca a aceitou. Não hesitava em dizer que queria uma mulher melhor para o filho:

– Aldeã mal lavada. Aqui na cidade as regras são outras, minha querida. Pensaste que casavas para ficar com o apartamento? Não vais!

Na altura, a Inês já trabalhava como assistente num gabinete de traduções. Mesmo assim, esforçava-se por limpar a casa e cozinhar. Mas nunca conseguia agradar à minha mãe.

– Isso é lavagem de porcos?
– É canja, acabei de fazer.
– Tu deves ter feito essas canjas para os porcos da tua terra!

Eu nem tentava falar com a minha mãe, porque tinha muito medo dela. Tinha receio que nos pusesse na rua.

Mas os problemas não pararam aí. Ao fim de um ano, juntámos uma boa quantia, mas o dinheiro todo foi para as obras em casa da minha mãe. Compramos frigorífico novo, micro-ondas, lava-loiça, exaustor e armários. E o frigorífico velho ela não deitou fora – colocou-o no nosso quarto. Lá guardávamos a nossa comida. Um dia, a Inês tirou uma manteiga dela – fez um escândalo como se a tivesse roubado.

Vivemos naquele manicómio mais três anos. Quando a pandemia chegou, tudo desabou. Eu fui despedido, fiquei em casa o tempo todo. A Inês trabalhava remotamente, com um computador portátil da empresa. A minha mãe ainda arranjava maneira de a criticar:

– Isso é trabalho? Mais valia levantares-te e lavares a loiça!
– Já vou, só preciso de preencher uns papéis.
– E a comida? Olha para o Pedro como está magro! És uma má dona de casa!

A Inês não aguentou mais. Arrumou as coisas e voltou para os pais no Alentejo. Eu liguei-lhe uma vez, a pedir que fizesse as pazes com a minha mãe. Não resultou. Divorciámo-nos. Ela, graças a Deus, trabalhava bem e conseguiu comprar um apartamento na cidade. Há pouco tempo, ainda comprou um carro. Agora vive em Lisboa, abriu o seu próprio gabinete de traduções e tem uma equipa excelente.

Há um mês, a minha mãe ligou-lhe de repente:

– Inês, és tão inteligente. Ouvi dizer que tens um óptimo emprego. Sempre disse que havias de conseguir muito na vida.

A Inês ficou sem palavras, lembrando-se como a minha mãe a “elogiava” antes.

– Obrigada…
– Ainda não casaste?
– Não. Isso interessa-lhe?
– O Pedro anda a definhar sem ti. Talvez pudessem encontrar-se?

Descobri que, depois do divórcio, eu nunca mais arranjei nem mulher nem trabalho. Passei estes anos todos pendurado na minha mãe, com uns biscates aqui e ali. E ela, ao saber do negócio e do apartamento da Inês, decidiu “reconciliar-nos”. Agora telefona-lhe quase todos os dias. A Inês fartou-se e, finalmente, pôs um ponto final na conversa:

– Sabe, a senhora deve ter-se esquecido de como me chamava “aldeã mal lavada”, de como criticava a minha comida, de como me ralhava por causa do trabalho.
– Isso foi há tanto tempo. O que passou, passou.
– Não, não funciona assim. Deus castigou-a por isso! Agora trate do seu filhinho e arranje-lhe uma mulher digna. Porque eu sou a tal “aldeã mal lavada”!

Não me envergonho nada do que ela disse. A minha mãe – a minha ex-sogra, na verdade – destruiu o nosso casamento. Agora quer paz? Obrigado, mas como se diz, água passada não move moinho. Fica a lição: quem não valoriza o que tem, acaba por perder tudo.

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Antigamente, para a minha sogra, eu era “a labrega mal-amanhada”. Agora, quase todos os dias, ela telefona-me a elogiar. Eu sei a razão desta mudança de comportamento e não acredito numa única palavra da minha sogra!
La suocera si trasferisce da noi, ma non resto in silenzio