Ora aí está! exclamei eu, Alexandre. Está tudo certo! A última palavra tem mesmo de ser do homem.
Logo de manhã, cheguei do Porto à casa dos meus avós, os Costa, numa aldeia perto de Vila Real, à procura de batatas. Sempre ajudei os avós a plantar e a apanhar a batata nunca falho, é uma tradição nossa.
Conta lá, Alexandre, como vai essa vida com a tua Filipa? perguntou logo a avó, dona Teresa, enquanto mexia com as panelas ao lume.
Olha, avó, às vezes melhor, outras pior Nem sempre é fácil respondi, meio a contragosto.
Espera lá, intrometeu-se o avô Manuel, com ar desconfiado. Como assim, nem sempre é fácil? Andam já aos arrufos, ou quê?
Bem, para já ainda não discutimos a sério. Mas andamos a tentar decidir quem é o chefe da casa, confessei.
Valha-me Deus suspirou a avó com uma risada. Isso vê-se logo à partida.
Pois, gargalhou o avô. Toda a gente sabe que quem manda é sempre a mulher.
Olha, olha atirou a avó do fogão, a fazer-se desentendida.
Avô, estás a brincar? olhei para ele, entre o surpreendido e o divertido.
Não estou nada, rapaz, garantiu o avô Manuel. Se não acreditas, pergunta à tua avó. Anda lá, Teresa, diz tu: de quem é a última palavra aqui em casa?
Não digas disparates, homem respondeu a avó, mas de sorriso nos lábios.
Diz lá, vá, insistiu ele. Quem é que cá toma as decisões finais, tu ou eu?
Lá sou eu
A sério, avó? Nunca dei por isso. Sempre achei que devia ser o homem a mandar em casa.
Deixa-te de coisas, Alexandre, riu o avô Manuel. Numa família verdadeira isto não funciona assim. Olha que já tenho umas histórias para te contar e vais perceber logo tudo.
História
Pronto, lá vai ele outra vez, resmungou a avó, meia a brincar, meia a sério. Agora vai contar a do motorizada
Mas que motorizada? perguntei, curioso.
Aquela que está a ganhar ferrugem no barracão, confirmou o avô, animado. Deve fazer uns cem anos, pelo menos. Mas sabes como é que a tua avó me fez comprar aquilo?
A avó é que te fez comprar?
Pois foi. Ela apareceu-me com o dinheiro todo dela, guardado ao tostão, e obrigou-me. Mas antes disso, há outra história.
Ganhei uns bons euros num trabalho daqueles sazonais, suficiente para comprar uma motorizada com atrelado, para transportar as batatas da quinta. Antigamente tínhamos uns terrenos longe para cultivar.
A dona Teresa bateu o pé: disse que era melhor comprarmos uma televisão a cores na altura era uma fortuna. Disse que eu que transportasse as batatas de bicicleta, como sempre fiz.
O saco no quadro e siga. Lá aceitei. O que ela diz é lei. Fomos comprar a televisão.
E a motorizada? perguntei.
Acabámos por comprar também suspirou a avó. Mas só mais tarde. O teu avô aleijou-se nas costas e depois fui eu quem teve de carregar quase toda a batata para casa, sozinha.
Quando vendemos dois porcos em novembro e entrou mais dinheiro, dei-lho todo ao avô e disse-lhe: vai lá buscar a tua motorizada com atrelado.
E no ano seguinte, no outono, voltámos a ter algum dinheiro extra, continuou o avô. Eu disse: desta vez é para fazermos um anexo novo. O outro, dos tempos do meu pai, já estava podre e o telhado a cair. Mas a tua avó quis era comprar móveis novos. Que estava farta do que tínhamos.
Cedi outra vez: pronto, a tua palavra é a última. E fomos comprar os móveis.
Mas depois, na primavera, o teto do anexo foi-se com o peso da neve e caiu tudo, completou a avó. Foi um inverno rigoroso, ninguém aguentava. Depois disso, decidi: o que o Manuel disser, é o que se faz.
Está a ver! exclamei, entusiasmado. A última palavra tem de ser do homem.
Nananinanão, Alexandre, gozou o avô, a rir-se. Antes de fazer qualquer coisa, chego-me à beira dela e digo: ó Teresa, estou a pensar em mudar o fogão. Aprovas? Ela diz se sim ou não, e o que ela disser, não se fala mais no assunto.
É verdade, a partir daí sempre lhe digo: fazes como achares melhor.
Portanto, Alexandre, seja como for, a palavra final deve ser sempre da mulher, concluiu o avô. Percebeste?
Fiquei calado a pensar, depois desatei a rir. Voltando a mim, sorri e a cabeça ficou leve.
Agora sim percebi, avô. Quando chegar a casa digo logo: «Pronto, Filipa, vamos passar férias ao Algarve, como tu preferes. O carro fica para arranjar depois. A caixa automática está a falhar, mas logo se vê.
Se o carro pifar, paciência. Vamos trabalhar nos autocarros durante o inverno. É levantar cedo, não custa nada» Fiz bem, avô?
Ótima decisão, respondeu o avô, satisfeito. Vais ver que daqui a uns anos chega tudo a bom porto.
E assim deve ser: a mulher é que manda, e o homem vive mais descansado. Eu sei do que falo.







