A sogra decidiu pôr Olga à prova. O resultado foi surpreendente

A sogra decidiu pôr Leonor à prova. O resultado foi surpreendente

Maria do Rosário ligou na quinta-feira à noite. Miguel atendeu o telemóvel, trocou duas ou três palavras, depois foi ter com Leonor à cozinha com aquela expressão de quem traz uma notícia pouco simpática, mas ainda está a decidir como a vai dizer.

A minha mãe vem cá, anunciou ele. Vai ficar umas duas semanas.

Leonor mexeu o caldo verde com a concha.

Quando?

No sábado.

Leonor desligou o fogão.

Duas semanas. Ela já sabia o que eram duas semanas para Maria do Rosário. Era como aquele põe só um bocadinho de sal nas receitas dela conceito completamente subjetivo.

A sogra chegou no sábado, mesmo à hora de almoço. Trazia uma mala de viagem volumosa que fazia barulho a cada passo, e aquele olhar de inspeção típico de quem avalia um apartamento antes de comprar.

Ora bem, comentou, avaliando o hall de entrada, não se vê pó. Já não é mau.

Miguel soltou uma gargalhada. Leonor esboçou um sorriso.

Naquele contexto, não era só um elogio, era quase um prémio.

Maria do Rosário avançou para a cozinha, espreitou o frigorífico assim de passagem, como quem não quer a coisa e comentou:

Só compras iogurte magro? O Miguel devia tomar dos normais, olha que ele é delicado do estômago.

Foi ele que pediu esses, explicou Leonor.

Sim, sim, pedir é fácil, respondeu a sogra enquanto fechava o frigorífico, satisfeita com a sua descoberta.

À noite, quando Miguel foi tomar banho, Maria do Rosário sentou-se no sofá, pousou as mãos sobre o colo e disse de forma calma, quase terna:

Leonor, não leves a mal. Quero apenas ver bem como és de verdade.

Maria do Rosário tinha anos de experiência nesta arte. Trabalhava em silêncio, como um restaurador que, com delicadeza, vai revelando camada após camada até chegar ao que lhe interessa. Cada observação era uma pincelada, sempre acompanhada de um sorriso, quase inocente.

No segundo dia, foi a vez das toalhas.

Leonor, disse, enquanto segurava uma toalha na casa de banho, sabes que as toalhas secam melhor se as pendurares com a argola para baixo?

Sempre pendurei assim, respondeu Leonor.

Pois, claro, aceitou Maria do Rosário, pendurando a sua com a argola para baixo, como que a marcar território.

As camisas de Miguel estavam impecavelmente passadas, por cores, alinhadas nos cabides. A sogra abriu a porta do roupeiro, inspeccionou longamente, aprovou com um aceno de cabeça, mas murmurou, quase para si:

As golas estão um pouco amarrotadas. Talvez desse para fazer melhor.

Leonor ouviu, mas percebeu que aquilo nem era um pedido de resposta. Era um facto, formulado assim de propósito.

No parapeito, o velho ficus, que fizera a mudança com Leonor do outro apartamento, estava segundo a sogra regado de forma completamente errada.

Leonor, os ficus não querem água por cima, é no prato.

Este está comigo há oito anos, respondeu Leonor.

Pois, mas podia estar melhor.

O ficus manteve-se quieto. Provavelmente, muito sábio da parte dele.

A arrumação dos alimentos no frigorífico foi tema para uma aula à parte. Laticínios na prateleira do meio, carnes lá em baixo, sempre no recipiente, as ervas aromáticas em saco furadinho, se não murcham, ovos no compartimento próprio e nunca na porta do frigorífico porque abana. Leonor ia ouvindo e acenando, mas os ovos continuaram na porta.

À noite, Maria do Rosário fazia telefonemas e Leonor, que não queria ouvir, ouvia na mesma, porque as paredes são finas e a voz da sogra ensinada anos a fio em salas de aula.

Não, Teresa, no geral está tudo bem. Ela esforça-se. Só que vê-se logo, não tem muito jeito. Faz sopa de feijão, imagina! O Miguel come, claro, sempre educado. Mas nota-se. As toalhas, as plantas… Precisa de aprender tanto.

Enquanto lavava uma caneca, Leonor perguntava-se quanto tempo mais teria de durar aquilo. Sentia-se já reprovada no teste. O que viria a seguir?

Miguel assistia a tudo com aquela estranha distância dos homens, que parece querer dizer: Eu vejo, mas faço de conta que não, porque não sei o que fazer e espero que isto passe.

À noite dizia:

Não ligues. Ela preocupa-se, só isso.

Eu sei, respondia Leonor.

Não é por mal.

Eu sei, Miguel.

Só quer ter a certeza que estamos bem.

Eu sei.

E Miguel olhava-a com um misto de alívio e culpa. Que sorte não haver discussões. Que sorte ela ser calma.

Que bom, pensava Leonor, indo lavar os pratos.

No décimo dia, Maria do Rosário deixou a cozinha de propósito desarrumada. Leonor chegou do trabalho às seis e meia e encontrou chávenas por lavar, migalhas de pão e uma embalagem de manteiga aberta. A sogra estava a ver televisão na sala.

Leonor arrumou tudo. Limpou. Lavou.

À noite, Maria do Rosário chamou por Miguel no corredor, baixando a voz, convencida de que Leonor ainda estava na casa de banho:

Miguel, reparaste como a cozinha voltou a ficar desarrumada? Acho que ela não consegue dar conta.

Leonor estava mesmo ali atrás, com a toalha na mão.

Miguel não respondeu.

Pronto, ficou claro, pensou Leonor.

Não ficou triste, nem levou a peito, pelo menos nada que se notasse.

No dia seguinte, porém, quando, ao pequeno-almoço, Maria do Rosário anunciou que na semana seguinte viriam as três irmãs dela assim, só para estarmos juntas, conhecerem-te melhor, Leonor sorriu e respondeu:

Ótimo. Vai ser um prazer.

Miguel olhou-a com surpresa. Maria do Rosário, desconfiada. Leonor acabou o café e foi preparar-se para o trabalho.

Vamos ver, pensou, tal como a sogra tanto gostava de dizer.

As visitas chegaram no sábado, às duas e meia.

As três irmãs de Maria do Rosário Ernestina, Deolinda e Quitéria eram senhoras de respeito, cada uma com opiniões decididas e vozes afinadas pelas experiências da vida. Entraram, olharam em volta, rápidas e criteriosas, e começaram a tirar os casacos.

A casa é luminosa, elogiou Ernestina.

Há quanto tempo fizeram obras? quis saber Quitéria.

Faz agora três anos, respondeu Leonor.

Já se nota, comentou Quitéria, deixando no ar o sentido da frase.

Maria do Rosário recebeu as irmãs com um ar de encenadora, pronta para ver como o espetáculo corria. Miguel ajudava com as roupas. Leonor, de lado, tranquila, com um sorriso discreto, sem uma ponta de nervosismo.

Aquilo desconcertou a sogra.

Sentaram-se na sala. Ernestina ajeitou uma almofada no sofá, habitual nos gestos, e perguntou:

E então, Leonor, o que é que vai hoje à mesa?

Foi então e aqui reside o insólito da história que Leonor fez o inesperado.

Virou-se para Maria do Rosário, serena, sem drama e com toda a naturalidade do mundo.

D. Maria do Rosário, pensei que hoje ia tomar conta da cozinha. Sempre disse que cozinha melhor do que eu. Não vou pôr-me a envergonhar-me à frente das suas irmãs.

Silêncio.

A sogra olhou-a. Leonor retribuiu com simpatia, genuína, como quem faz a proposta mais natural do mundo e não percebe por que razão tal coisa causa dúvidas.

Eu começou a sogra.

Tem tudo preparado. Frango, legumes, salsa. Fui comprar frescos hoje de manhã. O Miguel elogia sempre a sua comida.

Miguel, afundado na poltrona, começou subitamente a examinar o padrão do tapete.

Deolinda e Ernestina trocaram olhares. Quitéria fitou Maria do Rosário, curiosa.

Pois então, aceitou Maria do Rosário. E deslocou-se para a cozinha.

Leonor sentou-se junto de Ernestina e puxou conversa:

Fizeram boa viagem? Muito trânsito?

Ernestina, um pouco baralhada, respondeu de acordo. Daqui a nada, Quitéria meteu conversa sobre o trânsito. Deolinda desabafou do movimento no seu bairro ao sábado. A conversa foi fluindo, como é suposto quando calha um silêncio estranho.

Da cozinha vinham ruídos.

Primeiro, portas a bater. Depois, pausa. Mais portas. Depois, barulho de tachos. Depois, um som de quem procura algo nos armários e não encontra.

Leonor! chamou Maria do Rosário. Onde tens a travessa para assados?

No armário de baixo, à direita, respondeu Leonor, sem se levantar.

Pausa.

Não estou a ver.

Debaixo do tabuleiro de forno.

Silêncio longo.

Ah, já vi.

Ernestina pigarreou. Deolinda fingiu grande interesse pelo quadro da parede. Quitéria olhava com ar inocente pela janela.

Leonor voltou-se para Deolinda:

Sra. Deolinda, quer que vá já pondo água a ferver para o chá?

Quero sim agradeceu Deolinda, aliviada.

Leonor foi à cozinha, cruzou-se com a sogra e ficaram em silêncio. Maria do Rosário mantinha-se de pé diante da bancada, com ar de general chamado subitamente para descascar batatas.

Não se disseram nada.

Leonor pôs a água ao lume, pegou nas chávenas e voltou para a sala.

O jantar foi saindo ao fim de uma hora e meia, não foi rápido, ficou meio trapalhão, o frango um bocado seco, o molho demasiado líquido. Maria do Rosário pôs a mesa com ar de quem cumpre um dever mas preferia estar noutro lado.

Ernestina provou e, diplomática:

Maria, tu sempre cozinhaste bem.

À mesa, era só silêncio. Não constrangido, apenas um silêncio compreensivo. Ninguém ia comentar todos perceberam tudo. Comiam, falavam do tempo e elogiavam o jantar, com esforço e vontade genuína.

Leonor esteve discreta. Perguntou pelos filhos da Deolinda, conversou sobre férias, serviu chá.

Maria do Rosário ficou na cabeceira, calada.

Quando as visitas saíram e a cozinha estava arrumada, Maria do Rosário saiu de mãos secas do pano (pendurado, claro, com argola para baixo).

Leonor ficou na sala, chá em punho. Miguel ao lado.

A sogra parou à porta, depois sentou-se na poltrona. Ficou em silêncio. Lá fora, já estava escuro e, no mesmo silêncio, ouvia-se a televisão dos vizinhos.

Arranjaste bem isto tudo, disse Maria do Rosário.

Só faço questão de fazer como gosto, respondeu Leonor.

Maria do Rosário acenou com a cabeça, levantou-se, e antes de entrar no quarto, quase sem se virar, disse:

A sopa de feijão, para dizer a verdade, nem estava má.

E saiu.

Miguel levantou os olhos para a mulher.

Quando é que pensaste nisto, Leonor? perguntou em voz baixa. Sobre a cozinha.

Quando tu não disseste nada no corredor, respondeu ela.

Ele acenou e não mais voltou ao assunto.

Três dias depois, Maria do Rosário foi embora. Arrumou tudo sozinha, chamou o táxi. Na despedida, abraçou Miguel, e, hesitante, Leonor também.

Leonor fechou a porta. Foi à casa de banho e voltou a pendurar a toalha argola para cima, claro, como sempre fez.

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