É possível ser feliz sem filhos? A história de uma mulher portuguesa que escolheu trilhar o seu próprio caminho

É possível ser feliz sem filhos? A história de uma mulher que seguiu o seu próprio caminho

Um encontro que mudou para sempre a minha visão sobre a felicidade

Não me lamente, por favor pelo contrário, sinto-me verdadeiramente feliz. Certa vez, a caminho de uma consulta de dermatologia, deparei-me, como habitual, com uma longa espera na sala de espera do consultório. Foi precisamente ali que me aconteceu um encontro que viria a transformar a minha perspectiva de vida.

Umas cadeiras mais à frente, encontrava-se sentada uma mulher. O seu porte transmitia serenidade, confiança e uma paz tranquila, marcada por um leve sorriso e um vislumbre de uma profunda harmonia interior. Calculava-lhe cerca de 65 anos, mas durante a nossa conversa revelou já ter passado dos 70!

Criou-se logo um entendimento mútuo entre nós. O olhar dela era atento, as suas palavras ponderadas e serenas. A história que me contou surpreendeu-me.

Partilhou que foi casada duas vezes. O primeiro casamento, ainda na juventude, foi marcado pelo amor. Mas havia entre eles uma grande diferença: ela nunca quis ter filhos. Sempre deixou essa decisão bem clara desde o início, e o marido, na época, dizia-se de acordo com a sua escolha.

Com o tempo, a opinião do marido mudou. À medida que se aproximava dos trinta anos, ele voltou a insistir no assunto, na esperança de que nela despertasse algum instinto maternal, que ela nunca chegou a sentir. Depois de muitas conversas difíceis, acabaram por se separar.

O segundo marido já tinha uma filha de um casamento anterior e não queria formar mais família. Viviam um relacionamento livre de exigências, pleno de harmonia eram tudo um para o outro. Infelizmente, ele partiu prematuramente, deixando-a sozinha.

Desde então, leva uma vida tranquila na sua casa grande, rodeada de livros, plantas e memórias queridas, sem se perder em nostalgias desnecessárias.

Muitos acham que ter filhos é o seguro para uma velhice tranquila, confidenciou-me ela com um sorriso. Mas eles crescem, seguem o seu caminho, criam o seu próprio destino é o curso natural da vida.

Nunca desejou ser mãe, e não sente qualquer arrependimento por essa escolha.

Todas estas atividades dão-lhe sentido à vida e um profundo sentimento de realização.

Para terminar, disse com um sorriso: Quanto ao copo de água enquanto puder pedir a alguém para mo trazer, não vejo nenhum problema.

Por instantes, fiquei calado. Não porque dissesse concordar com tudo, mas porque me impressionou a clareza de espírito, força tranquila e aceitação plena das próprias escolhas.

A grande conclusão: será possível alcançar harmonia e plenitude sem ter filhos, mantendo-se fiel a si próprio? O exemplo desta mulher mostra que sim a felicidade nem sempre depende das expetativas tradicionais da sociedade.

No fundo, cada um percorre o seu próprio caminho em busca de sentido e felicidade. A sua história recorda-nos que uma vida plena e serena está ao alcance de quem respeita os seus desejos e assume as consequências das suas decisões.

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É possível ser feliz sem filhos? A história de uma mulher portuguesa que escolheu trilhar o seu próprio caminho
Vou casar-me, mas nunca com esse rapaz bonito. Sim, ele é ótimo em todos os sentidos. Mas não é para mim «Minha mãe apareceu de novo com o companheiro e ainda trouxe um outro homem. Já estavam meio bêbados — sentei-me no canto atrás da mesinha. E não tem para onde fugir, lá fora já caiu neve. Estou tão cansada de tudo isso. No verão termino o nono ano e vou para a cidade. Vou entrar no Instituto Politécnico e virar professora. A cidade nem fica tão longe, só dez quilômetros, mas vou morar no lar de estudantes.» A mãe e os convidados sentaram-se na cozinha. Ouvi o som das bebidas nos copos, o cheiro de chouriço invadiu o ar. Me absorvi pensando no aperto: — Espera aí, menina! — gritou minha mãe. — O que é que você está se fazendo de difícil? — Vocês são dois… — balbuciei. — Como se fosse a primeira vez com dois caras assim — ironizou Micael, o companheiro da minha mãe. Ouvi barulho de louça caindo, cochichos e respiração pesada. Eu me agarrei ao canto, tentando me esconder. O barulho parou de repente. — Olha, Nuno, ela está dormindo… — disse o companheiro. — Você mesmo disse que é uma boa menina. E sei lá, ela me irrita, tenho algo contra ela… — Ouve, mas ela tem filha… — Que filha? — A Irina, já crescida. Aposto que se escondeu no quarto. — Chama ela aqui! — respondeu Nuno, animado. — Irina, onde você está? — Micael entrou no quarto, viu-me e sorriu de um jeito nojento. — Venha sentar com a gente! — Estou bem aqui mesmo. — Para de vergonha! — Micael tentou me agarrar. Peguei de repente o vaso da mesinha e bati na cabeça do companheiro da minha mãe. Vidro quebrando. Escapuli e corri para fora. — Segura ela! — ouvi. Mas já estava na porta. Sem tempo para calçar botas, saí correndo de meias, camiseta velha e calção. Eles correram atrás de mim. A rua do bairro estava deserta. Fugir pela neve, à noite? Gritos atrás de mim. Passei por uma casa grande, ouvi latidos e uma voz mandando o cão calar. Corri para o portão e bati. Um homem quarentão abriu. — Ajude-me, por favor! — pedi olhando suplicante. — Entra logo! — ele me puxou e fechou a porta. — O que foi, Oleg? — a esposa apareceu no corredor. — É essa menina, — respondeu o dono. — Uns homens estavam perseguindo ela. — Rápido para dentro! — a mulher me puxou pela mão. — Lá dentro você explica tudo. — Irina, saia daí! — ouvi a voz de Micael lá fora. — Oleg, não se mete! — gritou a esposa. — Entra logo! Do lado de fora, mais gritos. No quintal, o cão latindo. — Vou ligar para a Polícia! — a mulher pegou o telefone. — Polina, não precisa. Resolvo isso sozinho, parecem ser daqui. — E vai resolver como isso? — Pelo diálogo. Você acalma a menina! O anfitrião pegou uma sacola, foi à geladeira. Colocou uma garrafa e um pedaço de chouriço dentro. Acariciou o cão no quintal e foi para a rua. Micael, o companheiro da minha mãe, veio até ele: — Devolve a Irina! — Tome aqui e sumam! — Que é isso? — abriu a sacola, sorriu, fez sinal pro amigo. — Vamos, Nuno! *** — Então! Eu sou Polina. — a senhora botou a chaleira no fogo. — Senta, conta tua história. — Sou Irina, — gaguejei tremendo. — Moro lá no final da rua… — Filha da Kira? — Sim. — Moramos aqui há pouco, mas de tua mãe já ouvi falar… A cabeça baixo, chorei. — Pronto, não chora! — Polina me abraçou de leve. O gesto foi tão estranho para mim que chorei ainda mais, agora aliviada. — Calma, calma! Vamos tomar um chá. Oleg entrou: — Resolvido. — E o que fazemos com essa linda menina agora? — sorriu Polina. — Amanhã decidimos! Agora vamos ao chá e depois banho nela. — Quer comer? — Polina me ofereceu chá, comida, bolo. — Come, come! — Oleg sorriu, vendo como eu olhava para os alimentos. Pararam de me bombardear com perguntas e deixaram que eu respirasse. Depois do jantar, Polina me levou ao banheiro: — Lava-te, veste esse robe! *** Tudo que eu queria era não ser expulsa para a rua de novo. Como é bom a água quente — frio insuportável lá fora. Mas logo acabei o banho, os anfitriões esperavam. Saí. Polina e Oleg sentados no sofá, agradeci embaraçada: — Muito obrigada! — Veja bem, Irina, — começou Polina. — Ninguém vai te procurar mesmo. E não quer voltar para casa. Olhei para baixo, sem coragem. — Amanhã cedinho viajaremos… Você fica sozinha. Nem abra porta. O cão Jack não deixa ninguém passar. Entendeu? — Sim! — gritei animada. — Se quiser, faz uma sopa de beterraba para nós amanhã, — sugeriu Oleg sorrindo. — Sabe fazer? — Sei! — falei rápido, temendo ainda que me expulsassem. — Sou boa de cozinha e posso limpar também. — Limpa se quiser, — autorizou Polina. *** Acordei com os donos da casa, fiquei quietinha na cama, sempre achando que iam me tirar dali. Depois tudo parou, saíram. Fui para a cozinha: pão, queijo, chouriço. Costelinhas de porco na mesa. Comi, limpei tudo, lavei o chão. Vi o aspirador no corredor e aspirei a casa. Quando desliguei o aspirador… — O que significa isso tudo? — uma voz atrás de mim. Virei. Um rapaz alto, bonito, devia ter uns dezoito anos, os olhos castanhos curiosos. — Estou limpando, — murmurei. — Quem é você? — Pois bem… — balançou a cabeça e pegou o telefone. — Mãe, estou em casa. Quem é essa aí? — Filho, deixa ela morar uns dias conosco. — Por mim tudo bem. Guardou o telefone, olhou-me de cima abaixo, foi pra cozinha. — Quer que eu prepare chá? — perguntei. — Eu mesmo faço. *** Guardei o aspirador, fui tirar pó, ouvindo cada som vindo da cozinha. Ele comeu, foi ao banheiro. Saiu perfumado, barba feita. — Ei, me passa mais uma garrafa! — ouvi um grito do lado de fora. — Que será isso? — o rapaz olhou pela janela. — Não abra! — gritei assustada. Ele olhou para mim com curiosidade e foi até a porta. Corri para a janela. No portão, Micael e seu comparsa gritavam. Fiquei apavorada. O rapaz saiu. Eles correram pra cima dele e… caíram na neve, parecia que juntos. O rapaz falou algo, eles se levantaram cabisbaixos e partiram para a casa da minha mãe. *** O rapaz voltou. Olhou para mim por um instante, aproximou-se: — Tá com medo? Sem controlar, encostei no peito dele e chorei. — Como se chama? — perguntou. — Irina. — Eu sou o Ruslan. Não chore, eles não voltam. *** Ruslan subiu, ficou no quarto até o fim do dia. Preparei sopa de beterraba, sentei-me pensativa na cozinha. Queria ficar ali, com aquelas pessoas boas, mas sabia que havia invadido todos os limites. Os donos voltaram. Polina ficou surpresa com a limpeza. Oleg elogiou a sopa. — Acho bom eu voltar para casa — disse. — Obrigada por tudo! — Fique mais alguns dias! — Obrigada, Polina! Mas já vou, — repeti. Caminhei até a porta e parei. Andava desde ontem pelo lar na roupa deles. — Venha! — Polina pôs a mão no meu ombro e foi comigo ao armário. Pegou umas calças jeans, um suéter, uma jaqueta esportiva bem quente. — Vista! Temos quase o mesmo tamanho. — Não… precisa. — Não vai sair sem roupa! Vista e pronto! Não vou ficar pobre por isso! Vesti. Nunca tive roupas tão boas. No corredor, me obrigou a pegar gorro e botas de inverno. — Use com saúde, Irina! — Obrigada, Polina! *** A vida voltou ao que era. Não exatamente igual. A mãe foi trabalhar na quinta. O companheiro dela e o amigo sumiram. Chegou a primavera. Um dia, estudando, alguém bateu no portão. Olhei: era Ruslan. Ele acenou: “Venha!” Saí correndo. — Oi! — sorriu. — Olá! — Minha mãe pediu você. *** Entrei naquela casa onde passei um dos dias mais felizes. — Oi, Irina! — Polina me abraçou. — Olá, Polina! — Senta, vamos tomar chá! Preparou chá, sentou-se comigo. — Quero falar sério contigo. Eu e Oleg vamos viajar para a Turquia por um mês — falou animada. — Meu filho mal vem em casa. Pode cuidar da casa? Alimentar o Jack e o gato, regar as flores? Tenho muitas plantas… — Claro, Polina! — Ótimo, — ela tirou dinheiro. — Aqui, vinte mil. — Não precisa! — Aceite! Não vai nos faltar nada. Venha, mostro tudo! Fui aprendendo onde ficavam os vasos de flores, a comida do gato e do Jack. Polina chamou: — Ruslan! — Ele saiu do quarto. — Apresente a Irina ao Jack! — Vem! — Ruslan pôs a mão no meu ombro. Saímos juntos, soltamos Jack, fomos caminhar. Ruslan falou da faculdade, do karaté, do negócio com o pai. Mas eu pensava diferente. Entendi que havia um abismo entre mim e ele, como entre minha mãe e os pais do Ruslan. Eles são ótimas pessoas, mas não é conto de fadas de Cinderela, é vida real. «Daqui dois meses faço vestibular para o colégio, vou passar. Estudar, trabalhar, batalhar, mas vou ser alguém. Vou casar, mas nunca com esse rapaz bonito. Sim, ele é ótimo em tudo. Mas não é meu! Sou grata à Polina pelas roupas e pelos vinte mil. Vai ajudar quando eu for para a cidade.» Intuitivamente, entendi que, naquele instante, terminava minha infância difícil. E começava a vida adulta — tão dura quanto, mas agora só depende de mim. Chegamos ao chalé. Acariciei o Jack, sorri para Ruslan e fui para casa. Amanhã começa o meu novo trabalho. Só trabalho — mais nada!