Estarei Sempre ao Teu Lado

Eu sempre estarei ao teu lado

Não voltes a insistir! Já falámos sobre isto mil vezes! Porque é que temos de voltar sempre à mesma questão? Mariana fez um gesto cansado e virou-se outra vez para o fogão.

O dia estava a ser cinzento, sem qualquer alegria. Começou às cinco da manhã, quando o Diogo chegou ao quarto dela e lhe tocou no ombro:

Mãe! Dói-me a garganta!

Meio adormecida, Mariana encostou os lábios à testa do filho e o sono fugiu-lhe num instante.

Tens febre, meu amor. Vá, anda cá! Mariana pegou no Diogo ao colo e saiu do quarto, fechando bem a porta para não ouvir depois do Rui reclamações por não ter dormido.

Mediu-lhe a febre, deu-lhe um ben-u-ron e deitou-o na cama. Olhou para o relógio e percebeu que já não fazia sentido deitar-se outra vez. Mais valia esperar pela abertura do centro de saúde e chamar o médico para casa. Certificou-se de que o filho dormia e foi para a cozinha. Preparou um café, pousou junto à janela e ficou a ver o bairro.

O inverno, este ano, estava surpreendentemente chuvoso e frio. A rua estava coberta de um lençol branco de geada que caíra durante a noite. A maior parte do passeio estava intacto, só aqui e ali se viam pegadas de quem, de madrugada, ia para o trabalho. Mariana, com a visão periférica, viu um movimento e riu sozinha. O gato da vizinha, a Dona Amélia, saltava pelo quintal, enfiando-se nas poças de gelo e saindo de rompante logo a seguir. Em dias destes, só o Tobias se aventurava lá fora. Era tão independente que se recusava a usar a caixa de areia em casa, obrigando a Dona Amélia a abrir-lhe a porta sempre que ele exigia. E sabia exigir! O prédio inteiro ouvia os miados se ela demorava a deixar o Tobias sair. Mas justiça seja feita: nunca fazia nada em casa.

Na véspera, Mariana descia para buscar o Diogo à escola e viu o Tobias a sair apressado, refilando com a dona.

Anda, vai! Também agora a reclamar? Olha que figurinha! Parece que ele é o meu dono e não o contrário! resmungava a Dona Amélia. Olá, Marianinha! Olha só este maroto! Parece mesmo um comandante. Cheguei tarde do trabalho e agora estou a levar sermão.

Olá Dona Amélia! É mesmo um senhor muito exigente!

Pois é! Parece que é destino, só me calham homens exigentes…

Mariana sorriu, acenou e seguiu o seu caminho. Não tinha nada para lhe dizer. O filho da Dona Amélia, Martim, também era levado a sério. Era inteligente, com um humor delicado, mas poucos reparavam nisso. Para quase todos era só um rapaz magro e discreto, de óculos. Mas Mariana e Martim eram amigos desde que se conheciam. Desde sempre, Martim estava ali para ela. Até quando a mãe da Mariana, Isabel, morreu atropelada na passadeira, atravessando corretamente, como sempre lhe ensinaram mas nem isso a salvou. Para Mariana foi o pior pesadelo: sempre lhe disseram que se seguisse as regras nada de mal lhe aconteceria.

Tanto ela como Martim tinham dez anos nessa altura. Mariana entrou num mutismo estranho. Só chorava, não falava, fugia de todos. Qualquer tentativa de consolo era rebatida com um abanar de cabeça, fechando-se nalgum lado para chorar. O psicólogo a quem o pai a levou entrou em pânico e recomendou ação urgente já se notavam consequências na saúde da Mariana.

Quem ajudou foi o Martim. Tendo perdido o pai dois anos antes da mãe da Mariana, talvez por isso compreendesse melhor do que os adultos o que ela sentia. Praticamente passou a viver em casa de Mariana. A Dona Amélia nunca se opôs, tinha pena da menina. Ela e outros vizinhos faziam o que podiam: traziam comida, ficavam com a Mariana quando o pai precisava de sair. Nunca ouviu uma única queixa por ter o Martim lá até tarde, ora a obrigá-la a fazer trabalhos de casa, a ler para ela, a convencê-la a jogar ou a levá-la às atividades que a mãe tinha sonhado que a filha teria dança, ginástica. Aos poucos, a Mariana, com a atenção paciente daquele rapazinho, começou a abrir novamente o coração. Um dia, quando encontraram um gatinho recém-nascido na rua e o levaram para casa da Dona Amélia, foi a primeira vez desde a tragédia que Mariana falou pediu leite para alimentar o animalzinho. A Dona Amélia entregou-lhe o biberão e sub-repticiamente murmurou:

Graças a Deus que estás a voltar!

O gatinho ficou com Martim porque o pai da Mariana, António Rodrigues, era alérgico.

Nunca mais Martim deixou de estar lá. Mariana habituou-se tanto a tê-lo ao lado, dia e noite, que o via quase como uma extensão dela própria. Ambos filhos únicos, no outro descobriram o apoio, amizade e aquela sensação de pertencerem, difícil de encontrar até entre irmãos.

Nem precisavam de explicar sempre o que sentiam. Entendiam-se só com um olhar. Ela começava uma frase, ele acabava. Os adultos achavam estranha aquela relação absoluta, mas nunca interferiram sabiam que aquela amizade dava força para aguentar a dor.

Os problemas vieram no fim do secundário. Mariana cresceu, tornou-se uma jovem bonita, inteligente e cheia de pretendentes. Martim olhava, calado, porque percebia que Mariana não dava grande importância a nenhum deles até ao aparecimento do Rui. Conheceu-o num tropeção à entrada do pavilhão de ginástica:

Está tudo bem contigo? Ajudo-te a levantar? perguntou o rapaz alto e bonito. Isto mais parece uma pista de gelo! Partiste alguma coisa?

Mariana olhou para o seu salvador e ficou sem palavras. Sempre dissera que não acreditava em amor à primeira vista, mas naquele instante percebeu que estava enganada.

Estou feita, Martim! Perdidamente! Ele é…

É o quê? Martim franzia o sobrolho.

O melhor! E girava pela sala. Podias dar-me os parabéns, ao menos!

Parabéns, querida amiga! Martim sorriu forçado e saiu.

Mariana nem percebeu. Começou a namorar com o Rui e, depois de três anos, decidiram casar-se. Informaram os pais e deram entrada no registo civil.

É uma pena não poder ter um amigo da noiva em vez de madrinha Mariana rodopiava à frente do espelho, a experimentar o vestido que ia ser ajustado.

Martim, sentado no sofá da costureira, olhava para ela.

Não devia o noivo ver a noiva vestida antes do casamento!

Ele não é o noivo! É só o meu amigo!

Amigo… murmurou a costureira. Isso é inédito…

Então mas não podem as pessoas ser só amigos? Mariana, temos de tratar ainda do bolo, despacha-te lá. Tenho que aparecer no trabalho hoje ainda.

Tenho cá o pressentimento que isto vai correr bem depressa! riu Mariana.

Depois, recordando o casamento precipitado e os primeiros anos de vida a dois, Mariana perguntava-se: como foi possível não perceber logo o que se passava com Rui? Tendo sempre ao lado o seu cavaleiro Martim, ela achava que seria sempre princesa, a quem cuidariam e protegeriam. Mas os príncipes e os papéis mudam.

As primeiras desilusões vieram quando Mariana adoeceu seriamente, seis meses após o casamento. Uma amigdalite que, desvalorizada por querer ser a mulher perfeita, acabou por provocar problemas sérios. Quando precisou de exames dispendiosos, Rui protestou:

Queres gastar o dinheiro das férias nisso? És tão nova, não precisas de nada! Só querem é roubar!

Mariana olhava incrédula.

Estás a falar a sério?

Claro! Vais ver, férias e sol resolvem isso!

O pai dela, António Rodrigues, pagou-lhe o tratamento em silêncio.

A recuperação foi longa e o coração dela nunca recuperou totalmente. Quando ficou grávida, colocaram-na logo em risco.

Compreenda, tem de pensar muito bem dizia-lhe a médica. Uma gravidez exige muito fisicamente, arrisquei muito…

Não tenho nada para pensar. Vou ter o meu filho!

Foi um teste duro. Mariana passou os últimos três meses em repouso. O Diogo nasceu saudável, mas ela e só ela (e Martim) sabiam o custo. Rui, ao saber do nascimento, saiu a festejar e desapareceu durante três dias. Mariana, angustiada, ligava insistentemente para o pai. Ele só lhe disse:

Está tudo sob controlo. Não te preocupes agora!

Ali percebeu que o conto de fadas não era dela. Só não pediu o divórcio assim que saiu do hospital porque viu em Rui um afeto sincero pelo filho. Rui sempre olhou Diogo como um milagre, acordava de noite, trocava fraldas e fazia questão de estar presente. Por vezes, Diogo irritava-o, pedia à Mariana que o levasse, mas passado pouco tempo voltava a ser o melhor pai do mundo. Esta instabilidade deixava Mariana confusa, mas ainda ia aguentando.

O casamento evoluiu para uma convivência paralela quase nunca se cruzavam verdadeiramente. Enquanto Diogo era pequeno e adoecia frequentemente, Mariana nem pensava nisso. Dava tudo por tudo pelo filho sozinha, preferindo não pedir ajuda a Rui para evitar discussões. Podia ser carinhoso e atencioso, como podia ser agressivo perante qualquer pedido.

O pai, percebendo tudo há muito, aguardava Mariana dar o primeiro passo. Só uma vez, quando Diogo estava com dois anos, após dias de febre alta, Mariana exausta adormeceu no chão da sala ao lado do sofá, ao entregar o filho ao avô. Quando acordou, ele limitou-se a dizer:

Marianinha, não me meto na tua vida, mas sabes que nunca estás sozinha.

Obrigada, pai. Eu sei… Ainda não estou pronta, percebes? Ainda não decidi. O Rui é meu marido.

O pai acenou, abraçou-a e não falou mais sobre o assunto.

Tudo o que Mariana precisava, era Martim a resolver: ir à farmácia, levar o carro à revisão, levantar receitas, levar Diogo ao médico, tudo especialmente quando o carro dela avariava. Ela sentia que abusava, mas não conseguia evitar confiava nele mais do que em qualquer pessoa.

Agora, ao olhar pela janela para o pátio coberto de branco, pensava: Martim regressava hoje de Lisboa, e se fosse preciso podia contar com ele para levar Diogo ao médico, já que o seu carro estava outra vez na oficina e não tinha dinheiro para arranjar. As finanças estavam apertadas. Rui dizia que investia tudo no negócio, e o salário dela só dava para o essencial não conseguia trabalhar a tempo inteiro por causa das constantes licenças do Diogo. Ao menos tinham casa, pois viviam no apartamento do pai ele aproveitara para ir morar na antiga casa de campo remodelada, longe do stress da cidade.

Mariana consultou as horas e ligou para o centro de saúde. Teve sorte, a médica de família já estava de volta e marcaram visita.

Deixou o telefone e foi fazer o pequeno-almoço quando entrou o Rui, ainda ensonado.

Outra vez? O que se passou esta noite?

O Diogo está doente respondeu Mariana, seca.

E era por isso que ficavas a andar de um lado para o outro? Assim ninguém dorme! Olha, vou para o duche e quero o pequeno-almoço já, depois tenho mil coisas para tratar.

Ela calou-se e preparou os panquecas, mais para o filho, que doente gostava sempre do menu dos doentes, como Mariana lhe chamava. E Rui também não resmungava quando havia panquecas.

E então, falaste com o teu pai?

Não.

Estás sempre a adiar!

Já disse que não quero falar do assunto com ele, nem vou pedir-lhe para pôr a casa no nosso nome.

Esse teu orgulho começa a cansar-me! Só eu a trabalhar! Sempre a pedir dinheiro! Eu a matar-me a trabalhar, há anos que não tiro férias!

Ele continuou a desabafar, mas Mariana já não o ouvia. Sentiu dentro de si aquela corda a partir a última ligação. Todos os beijos, ternura e dias felizes a corda partira-se.

Com muita calma, pousou a colher e voltou-se:

Vou dizer uma vez só e vais ouvir-me: hoje arrumas as tuas coisas e sais. Vamos divorciar-nos, Rui. Não quero mais esta vida, nem tu, também já não aguentas. Não vamos discutir dinheiro. Vamos pensar só no Diogo ele merece que nós dois continuemos a ser pais dele, mesmo em casas diferentes.

Rui ficou sem fala, tentou responder, calou-se, atirou o garfo para a mesa.

Disse tudo? Pensa bem no que acabaste de dizer até à noite. Espero que ganhes juízo. Vou para os meus pais.

Como quiseres. Mariana voltou-se para o fogão, segurando as lágrimas.

Ele saiu da cozinha e Mariana acalmou-se, chorando baixinho enquanto Diogo dormia.

Quando ouviu os passos pequeninos do filho a ir para a cozinha, limpou as lágrimas e serviu-lhe a comida.

Ora então, o mais corajoso do mundo já acordou! Vais comer?

Não tenho muita fome, mãe. Agora também me dói a cabeça.

Panquecas com doce de morango ajudam?

Isso ajuda sempre! Diogo sorriu maroto.

Pouco depois da consulta, Mariana preparava-se para sair à farmácia quando alguém bateu à porta. Só Martim dava sempre dois toques. Era uma espécie de código secreto.

Olá!

Olá! Como estás? vinha com uma caixa de brinquedo para o Diogo. Mariana nem se lembrava da última vez que Rui oferecera um presente ao filho.

O Diogo está constipado outra vez. Ficas com ele enquanto vou à farmácia?

Vou eu, dá-me só a lista.

Quando o Martim saiu, o telemóvel de Mariana tocou.

Mariana Rodrigues?

Sim?

Da parte do Hospital de São João, é a filha do António Rodrigues?

Sim, o que se passa? apertou o telemóvel com força.

Infarto agudo do miocárdio. Está grave, mas está a ser assistido.

Estou a caminho.

Começou a correr pelo apartamento, sem saber o que pegar primeiro. O pai nunca se queixou do coração. Só aí Mariana percebeu como tudo pode sumir de um momento para o outro.

Ligou a Rui.

Rui

O que é? Arrependeste-te? Agora eu é que vou pensar

Rui, o meu pai está no hospital, teve um enfarte.

E? Queres que faça o quê agora? Vais-te divorciar de mim, não é?

Ela, estarrecida, desligou.

Martim, ao voltar, encontrou-a já de casaco vestido.

Onde vais?

O meu pai está no hospital. Teve um enfarte.

Não precisou de mais explicações. Martim chamou a mãe e Dona Amélia ficou com o Diogo. Mariana e Martim seguiram para o hospital.

Passaram o dia inteiro na sala de espera, em silêncio, até que Mariana murmurou:

Obrigada Que sorte ter-te ao meu lado.

Eu estarei sempre ao teu lado.

Eu sei, Martim. Agora sei mesmo.

O médico apareceu uma hora depois e viu Mariana a dormir, com a cabeça encostada no ombro do Martim. Este acordou-a com jeitinho.

O seu pai está estável, já saiu do perigo. Precisa de tempo para recuperar, mas já podem ir descansar. Amanhã podem vê-lo.

Mariana abraçou o Martim e chorou até sentir que, finalmente, toda a dor saía dentro dela.

No fim deste dia longo, percebi de verdade: há laços que sobrevivem a tudo e a todos. Às vezes, só percebemos o real valor de quem está ao nosso lado quando tudo à volta desaba. E nunca mais quero esquecer isso.

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