Quando foi a última vez que olhaste para ti ao espelho? perguntou o marido. A reação da esposa foi tudo menos previsível.
Miguel estava a acabar o café da manhã e espreitava, de canto de olho, para Teresa. Cabelo apanhado num elástico infantil, daqueles com bonequinhos da Disney que compram nos chineses.
Já a Filipa, lá do terceiro direito, era sempre um espanto revigorada, cheirinho a um perfume caro que ficava a pairar no elevador muito depois de ela sumir.
Sabes, disse o Miguel largando o telemóvel, às vezes parece que vivemos juntos só como, bem… como vizinhos.
Teresa congelou com o pano na mão.
Mas o que é que isso quer dizer?
Nada de especial. Só que… olha, quando foi a última vez que olhaste para ti ao espelho?
Ela olhou-o muito devagar, com uma atenção que até incomoda. E o Miguel percebeu logo: isto não está a correr como eu pensava.
E tu? Quando foi a última vez que realmente olhaste para mim? perguntou Teresa num sussurro.
Silêncio constrangedor.
Teresa, não faças disto um drama. Só digo: uma mulher deve estar sempre impecável. É básico! Olha para a Filipa, por exemplo. Tem a tua idade.
Ahhh, Teresa esticou o a. A Filipa.
E houve ali uma mudança subtil na voz dela do género ligaram-me o interruptor.
Miguel, fez ela depois de uma pausa, olha, estou a pensar em ir para casa da mãe uns dias. Refletir sobre o que disseste.
Pode ser. Ficamos cada um com o seu canto, pensamos um bocado. Mas atenção, que eu não te estou a expulsar!
Sabes, pendurou o pano no gancho com uma delicadeza quase solene, talvez esteja mesmo na hora de me olhar ao espelho.
E começou a fazer as malas enquanto Miguel ficava na cozinha, só a pensar: Bolacha, era mesmo isto que eu queria. Só que estranho… não dava alegria nenhuma. Só vazio.
Três dias depois, Miguel sentia-se num mini-resort. O café matinal sem pressas, os jantares livres, sem dramas de novelas cheias de traições e lágrimas.
A verdadeira liberdade masculina ou assim pensava ele.
Nessa noite, cruzou-se com a Filipa à porta do prédio. Ela vinha do Pingo Doce, salto alto, vestido a la medida.
Miguel! saudou ela. Que é feito da Teresa? Já não a vejo há algum tempo.
Está em casa da mãe. A recarregar baterias, mentiu com um sorriso.
Ah, compreendo, Filipa assentiu. Às vezes precisamos mesmo de um intervalo. Da rotina, da lida da casa…
Falava assim, como se ela própria nunca tivesse apanhado um pó, nem cozinhado arroz na vida. Parecia que o lar dela se auto-limpava e jantar aparecia por magia.
Filipa, olha, e se tomássemos um café um dia destes? Assim, como bons vizinhos.
Porque não? sorriu ela. Amanhã à noite?
Não dormiu nada, a decidir roupa, perfume, cuecas novas. Não vá o Diabo tecê-las.
De manhã, toca o telefone.
Miguel? era uma voz de senhora. Fala Dalila Sousa, mãe da Teresa.
Sentiu o coração apertar.
Sim, diga.
A Teresa pediu-me para avisar que vai buscar as coisas no sábado, quando tu não estiveres em casa. Deixa as chaves com a porteira.
Mas como assim, buscar as coisas?
Achavas que ia ficar eternamente à espera que te decidisses se ela te faz falta ou não?
Dona Dalila, eu não disse nada de grave…
Disseste mais do que devias. Adeus, Miguel.
Desligou.
Aquela tarde foi passada a olhar para o telefone com ar de tonto. Porra, mas eu não me estou a divorciar! Só pedi tempo para pensar. Mas eles já decidiram tudo sem ele!
O café com a Filipa foi… estranhamente insosso. Ela simpática, a contar histórias de banqueira, a rir das piadas dele. Mas quando ele tentou uma aproximação, ela afastou-se com delicadeza.
Miguel, tem de perceber… Você é casado.
Mas estamos a viver separados…
Por enquanto. E amanhã? Olhou para ele de soslaio.
Miguel acompanhou-a até à porta. Subiu para casa, recebeu a solidão e o cheiro a masculinidade sem filtro.
Chega sábado. Vai à rua de propósito para não ver Teresa tirar as coisas. Evitar dramas.
Mas às três da tarde já roía as unhas de curiosidade. O que terá levado? Tudo? Só o básico? E como estaria ela, afinal?
Às quatro não aguentou. Voltou para casa.
À porta, um carro com matrícula de Lisboa. Ao volante, um homem de quarenta e poucos, bem parecido, casaco de marca. Estava a ajudar alguém a carregar caixas.
Miguel sentou-se no banco de jardim, como quem espera o fim da novela.
Passados dez minutos, saiu uma mulher do prédio de vestido azul. Cabelo apanhado elegantemente, maquilhagem leve mas eficaz.
Miguel pestanejou. Era Teresa. A SUA Teresa. Mas outra.
Levava o último saco, e o homem foi logo acudi-la, a dar-lhe o melhor dos tratos, como se ela fosse feita de cristal.
Foi então que Miguel não resistiu. Levantou-se e foi ter com o carro.
Teresa!
Ela virou-se, ele viu-lhe o rosto. Calmo. Lindo. Sem aquele ar estafado habitual.
Olá, Miguel.
És mesmo tu…?
O homem ao volante ficou alerta, mas Teresa sossegou-o com um gesto.
Sou eu. Só que agora olhei para mim.
Teresa, espera. Podemos conversar.
Sobre o quê? perguntou sem fúria, só surpresa. Sempre disseste que a mulher deve ser deslumbrante. Olha, levo isso tão a sério que resolvi ser incrível, mas para mim.
Mas não era isso que eu queria! quase implorou Miguel.
Então, o que querias? Que eu fosse bonita, mas só em casa, só para ti? Interessante, só à porta fechada? Gostar de mim, mas só até não ter coragem de sair de um homem que me ignora?
À medida que ela falava, Miguel sentia a terra a fugir-lhe sob os pés.
Percebi continuou ela, que deixei de cuidar de mim, não por preguiça, mas por já nem existir naquela casa. Eu era invisível. No lar, na vida.
Teresa, não foi isso que eu queria…
Claro que foi. Queres uma esposa-fantasma: arruma, limpa, cozinha, mas não incomoda. Se enjoares, trocas por uma versão mais colorida.
O homem murmurou qualquer coisa a Teresa, ela fez que sim.
Temos de ir, disse ela. O Vítor está à espera.
Vítor? Miguel engoliu em seco. Quem é esse?
Alguém que me vê. Conhecemo-nos no ginásio. Mesmo ao pé da casa da minha mãe. Imagina, aos quarenta e dois, fui pela primeira vez levantar uns pesos e mexer-me.
Teresa, não faças isso. Dá-nos uma chance, fui um parvo, admito…
Miguel, lembra-te só: quando foi a última vez que me disseste que estava bonita?
Miguel engoliu em seco. Nem se lembrava.
E quando te preocupaste com o meu dia?
E viu: não perdeu para o Vítor, nem para o destino. Perdeu para ele próprio.
Vítor deu à chave de contacto.
Miguel, não estou zangada contigo, a sério. Arranjaste-me o espelho fui capaz de me ver. Se eu não me vejo, ninguém vê.
O carro arrancou.
E Miguel ficou a ver a vida partir não era a esposa, era mesmo a vida. Quinze anos que pensava serem rotina eram afinal felicidade mas só agora sabia.
Meio ano depois, cruzou-se com Teresa no Colombo, por acaso.
Escolhia café em grão, a inspecionar etiquetas. Ao lado, uma rapariga de vinte e poucos.
Leva este, sugeriu ela. O meu pai diz que arábica é melhor que robusta.
Teresa? aproximou-se ele.
Ela virou-se, sorriu com aquela leveza que não lembrava em anos.
Olá, Miguel. Conhece: esta é a Inês, filha do Vítor. Inês, este é o Miguel, o meu ex-marido.
Inês cumprimentou, meio curiosa, estudante, presumia ele sem hostilidade.
Então, tudo bem? perguntou Teresa.
Vai-se andando.
Ficaram ali, no corredor do café, o silêncio desconfortável dos antigos amantes. Ele estudou-a: bronzeada, roupa leve, novo corte de cabelo. Feliz. O pormenor: FELIZ.
E tu? indagou Teresa. Como vão as mulheres?
Maus resultados, suspirou ele.
Teresa sorriu com aquele olhar de quem sabe.
Sabes, Miguel, tu queres uma mulher tão bonita como a Filipa, mas submissa como eu fui. Inteligente, mas não suficientemente perspicaz para ver que gostas de olhar para outras.
Inês olhava para a Teresa, completamente embasbacada.
Não existe, concluiu Teresa com calma.
Vamos, Teresa? chamou Inês. O pai está à espera no carro.
Claro. Teresa escolheu o café. Boa sorte, Miguel.
Foram-se, e ele ficou perdido entre prateleiras. Teresa tinha razão. Procurava uma mulher que não existe.
À noite, Miguel sentou-se na cozinha, serviu chá, pensou na Teresa e em tudo o que ela se tornou. Às vezes perder é o único jeito de descobrir o valor daquilo que se tem.
Talvez a felicidade não esteja em arranjar uma esposa “funcional”. Talvez o segredo seja mesmo aprender a olhar para a mulher que está ao lado.







