A amiga do meu marido pedia a ajuda dele com uma frequência suspeita — até que precisei intervir

Ó Miguelito, por favor! Eu não sei mesmo o que fazer, a água está a jorrar, daqui a nada inundo os vizinhos, e tu conheces aquela bruxa do terceiro andar, ela vai-me levar à loucura! As mãos tremem-me, nem sei onde fica a torneira geral! a voz estridente e aflita ecoava tão alto do outro lado da linha, que Beatriz ouviu cada palavra, mesmo com o telemóvel encostado só à orelha do marido sentado defronte dela à mesa.

Beatriz pousou devagar o garfo no prato. Na tranquilidade da cozinha, o som da loiça sobre o prato soou como o gongo de uma luta que já durava três anos. Do outro lado da mesa, Miguel, o marido, olhava ora para o cozido já frio, ora para o telemóvel a brilhar.

Leonor, acalma-te murmurava ele ao telefone. Que torneira, a debaixo do lava-loiça ou no WC? Fecha o registro geral.

Não sei onde isso está! Miguel, por favor, vem cá! Estou cheia de medo! E se for água a escaldar? Estou sozinha…

Miguel suspirou e olhou para a mulher. Aquela expressão de súplica e derrota era-lhe já tão familiar que Beatriz nem pestanejava.

Bé, ouves? Vai dar asneira. A Leonor é tããão desastrada, parece uma criança. Tenho mesmo de ir.

Pois claro que tens! respondeu Beatriz, num tom calmo, mas por dentro fervia. Afinal, hoje não é o nosso aniversário. Não planeámos este jantar durante duas semanas. E não estive eu a cozinhar três horas. Vai, Miguel. Salva a Leonor. Ela sem ti não sobrevive.

Não comeces, por favor… Miguel levantou-se de chofre e agarrou as chaves do carro. Somos amigos desde miúdos. Ela só tem a mim. Eu vou e volto num instante. Muda o cozido para o forno, para não arrefecer.

A porta bateu. Beatriz ficou sozinha, a casa perfumada para um jantar de comemoração, agora misturada com o sabor amargo da desilusão. Chegou à janela, viu o carro do marido desaparecer na noite.

Leonor. Era o nome incómodo que pairava entre eles. Amiga de infância, colega no colégio, quase um rapaz como Miguel dizia. Voltou à convivência deles logo depois do divórcio, e nunca mais dali saiu. No início, era só ajudar nas mudanças, depois arranjar o computador. Miguel, sempre prestável e bondoso, nunca sabia dizer que não.

Pouco a pouco, os pedidos de Leonor tornaram-se catástrofes meteóricas. Uma roda furada na autoestrada, uma prateleira que caía na casa de banho, um armário por montar. E era sempre quando Beatriz e Miguel tinham planos: uma saída, um jantar, um domingo a dois.

Beatriz não era do tipo ciumento nem de cenas. Sabia distinguir amizade de outra coisa. Mas o seu instinto avisava-a: ali não eram só canos partidos. Leonor era vistosa, sempre impecável, olhar lânguido, e falava aos homens como se lhes estivesse a prestar vassalagem. Sabia fazer-se de desamparada; Miguel inchava o peito e vestia-se de herói.

Guardou o jantar. O apetite desaparecera. Miguel voltou três horas depois, sujo mas satisfeito.

Cheguei a tempo! Aquilo ia virar um dilúvio. O tubo saltou, precisei de ir à loja 24h buscar juntas. Leonor estava à beira de um ataque, já a beber valeriana.

Ao menos ofereceu-te um chá, ó salvador? perguntou Beatriz do sofá, fingindo-se alheada num livro.

Chá e fatia de bolo de maçã ainda morno. Mandou desculpas por estragar a noite e pediu para te dar lembranças.

Bolo de maçã? pensou Beatriz. Então com a cozinha a inundar, ainda teve tempo de fazer um bolo? Está bem visto….

Não disse nada. Sabia que fazer uma cena era inútil: se discutisse, Miguel acusava-a logo de má vontade e de ridícula. Era preciso agir com subtileza. Na próxima, não ficaria em casa. Iria salvar Leonor com ele.

A oportunidade não tardou. Era sábado. Planeavam ir ao pinhal, fazer churrasco. No carro já estavam as espetadas e o carvão, o sol radiante, tudo pronto. De repente, o telemóvel de Miguel tocou. Beatriz gelou. Reconheceu logo o toque personalizado para Leonor.

Sim, Leonor? Como assim a faiscar? Cheira a queimado? Não toques em nada, desliga o quadro no corredor! Ok, já vou aí.

Miguel pôs o telefone no bolso e olhou para Beatriz, que já segurava as mudas de plantas para levar.

Bé… aconteceu outra…

Tomada? interrompeu ela.

Pior. O quadro está a deitar faíscas. Diz que cheira a plástico queimado pela casa. Tem medo que pegue fogo. Não há eletricista de urgência que atenda ao sábado, e os privados levam uma pipa de massa e demoram.

Então, adia-se o churrasco?

Não é preciso. Vamos lá, eu vejo, se for grave chamo alguém. É caminho. Só uma hora.

Pois, eu vou contigo.

Miguel ficou perplexo.

Para quê? Fica em casa, não vale a pena.

Vou. Vamos juntos, reparamos e seguimos. Não tenho paciência para esperar sozinha. Há séculos que não vejo a Leonor, aproveito.

Miguel cedeu. No carro ia tenso, tamborilando no volante. Beatriz permanecia serena, mas cá dentro, só se ouvia o barulho do sangue a ferver.

Leonor, de robe de seda curto e maquilhagem irrepreensível, abriu a porta. Ao ver Beatriz sair do carro, por um instante, o sorriso vacilou, os olhos faiscaram, mas recuperou a postura num segundo.

Bia! Que surpresa! E eu aqui, num estado lastimável! Entrem, venham depressa. Miguel, preciso tanto de ti, aquilo está um terror!

Atravessaram a casa. Um ligeiro cheiro a queimado, mas discreto. Miguel foi direto ao quadro elétrico, tirando da algibeira o testador e a chave de fendas.

Bia, anda tomar um café comigo enquanto o Miguel resolve isso despejou Leonor, pronta a afastar a rival dali.

Prefiro ficar aqui, pode ser que o Miguel precise de uma ajuda respondeu Beatriz firme. Posso segurar o lanterna.

Ai tu e as tuas modernices Leonor desatou a rir O Miguel faz tudo só com as mãos. Não é assim, Miguel?

Miguel, imerso nos fios, só resmungou.

Leonor disse Beatriz fitando-a friamente Por que não ligaste à administração do prédio? Eles têm piquete todos os dias, vinte e quatro horas. É eletricidade, é perigoso.

Ai, nem pensar! Leonor fez um ar ofendido São uns broncos, vêm todos sujos, fazem porcaria… Já o Miguel, é de família. Só nele confio!

As mãos de ouro do meu marido Beatriz apertou as palavras hoje deviam estar a segurar espetadas. Íamos passar o sábado fora.

Mil desculpas, estou sempre a estragar tudo Leonor juntou as mãos, teatral. Não aguento estar só, Bia… fizeste tanta sorte, tens um pilar ao teu lado… Não imaginas o que é viver sozinha.

Miguel terminou passado quinze minutos.

Era só um fio desencapado. Limpei e reapertei, mas, Leonor, tens de trocar o disjuntor, isto já não está seguro.

Oh Miguel, consegues tu? Vais comprar e montas tudo? Eu dou-te o dinheiro! Leonor praticamente se colava ao ombro de Miguel.

O Miguel não pode cortou Beatriz. Vamos para o campo hoje e temos bilhetes para o teatro no sábado. Chama um eletricista, Leonor. O Miguel escreve-te aí num papel qual o modelo.

Leonor olhou-a com ódio, mas rapidamente sorriu em demasia para Miguel:

Ao menos fiquem para um café! Trouxe uns éclairs, que tu adoras, Miguel!

Obrigada, estamos cheios respondeu Beatriz, conduzindo o marido até à porta. Temos o dia planeado.

Quando saíram, Miguel bufou de alívio, mas rapidamente começou a defender Leonor.

Bé… Foste um pouco seca. Ela só queria ajuda.

Ajuda, ou atenção, Miguel? Não vês? O roupão, o olhar, o tempo dos pedidos… ela não quer só que lhe arranjes as tomadas.

Isso é imaginação. Somos amigos há décadas. Ela olha para mim como para um irmão.

Pois… irmão que vai arranjando isto e aquilo, serve de ombro e alimenta o ego dela. Muito conveniente para ela.

Foram ao campo, mas o mal-estar ficou a pairar. Beatriz sabia: aquilo não acabava ali. Leonor não ia desistir gostava de puxar os cordelinhos e ver o marido de Beatriz a correr ao chamado.

Duas semanas depois, a cena repetiu-se, mas Miguel estava em Lisboa em trabalho. Ia chegar na sexta à noite. Às seis, ligou a Beatriz.

Bé, vou-me atrasar. Já entrei na cidade, mas a Leonor telefonou… Deu asneira.

Qual o drama agora? Uma pedra caiu-lhe em cima?

Comprou um varão novo, daqueles bem pesados para as cortinas. Tentou pôr sozinha, caiu-lhe em cima do pé. Diz que não consegue andar, o varão ficou pelo meio da sala, não consegue mover. Pede que passe lá e aproveite para ir à farmácia comprar pomada. Eu juro que é rápido…

Beatriz respirou fundo.

Miguel, ouve-me. Vai para casa. Eu vou tratar disso com ela.

Tu? A sério? Para quê?

Porque sou mulher, sei avaliar melhor. Cuido do pé, levo o que falta. Vais tu repousar, janta sossegado. Fico por ela.

Está bem… desde que não dês cabo dela. Já sofrou muito.

Beatriz despediu-se e pôs-se a mexer. Não planeava ir fazer massagens à Leonor: ia tratar da situação.

Pela internet, encontrou Marido de Aluguer, escolheu o empreendedor com melhor avaliações, contratou. Pediu também entrega de medicamentos pomada, ligadura elástica para casa de Leonor.

Chegou ao prédio de Leonor ao mesmo tempo que o estafeta da farmácia. Subiu, porta encostada. Entrou sem bater.

A sala estava com meia luz, velas, duas taças e garrafa de vinho. Leonor, de robe curto, esticava a perna dramática no sofá. O varão estava caído, mas, à vista, foi deixado ali de propósito.

Ouviu-se a voz lânguida:

Miguel, amor, és tu? Trouxeste a pomada?

Beatriz ligou de rajada a luz de teto. Toda a cena ficou ridícula.

Leonor saltou no sofá, esquecendo logo o pé.

Bia?! O que estás aqui a fazer? Onde está o Miguel?

O Miguel está em casa, a descansar. Eu trouxe-te a pomada e a ajuda.

Que ajuda? Eu queria o Miguel! Ele é forte, pões o varão no sítio!

Quem põe o varão é o senhor habilidoso que já vem aí pago por mim.

Nisto, a campainha tocou. Beatriz recebeu um senhor com o fato-de-macaco e mala de ferramentas.

Chamaram? Preciso pôr um varão, disseram.

É ali na sala. A dona explica.

O homem entrou, conferiu parede, varão, preparou o berbequim.

É parede das robustas, preciso de buchas. Dona, mostra-me o escadote.

Leonor corava de raiva, olhos chispando contra Beatriz.

Mas tu… porque fizeste isto? sibilou, entre dentes, enquanto o barulho do berbequim abafava tudo.

Eu? Só estou a ajudar. Medicamentos, um profissional para arranjar o que precisavas. O Miguel não é bombeiro teu. Podes ligar aos profissionais são pagos para isso. Ou querias era o meu marido?

Leonor levantou-se, bem depressa para alguém aleijado.

Vai-te lixar! gritou. Fazes-te de santa, mas o Miguel vai acabar farto de ti, só tens regras, não tens graça!

Talvez. Mas ele é meu marido. E tu? Por cada parafuso que inventaste, expuseste-te ao ridículo. És bonita, Leonor. Procura um homem livre. Pára de bater à porta dos outros.

Desaparece!

Assim seja. O senhor acaba em vinte minutos. Já está pago. Melhores as melhoras.

Beatriz saiu dali leve, quase a flutuar. Não agrediu ninguém, apenas revelou a verdade.

Em casa, Miguel esperava-a, ansioso.

Como correu? Ela lesionou-se muito?

Beatriz sentou-se, serviu-se de chá, olhou-o de frente.

Não tem nada. Já está a correr pela casa. O varão está a ser montado por outro.

Por outro? Podia ter ido…

Senta-te, Miguel. Tu nunca viste a cena? Velas, vinho, roupão, e tu sempre chamado quando eu não estou ou temos planos?

Miguel corou até à raiz dos cabelos, remexeu no pão do cesto.

Se calhar, suspeitava…, mas fazia de conta que não via. Ficar-lhe mal dizer que não, é tão sozinha…

Sozinha? Ela manipulava-te como um garoto. E tu, para seres bonzinho, esqueceste o que é ser marido. Hoje vi: esperava-te a ti não ao técnico.

Miguel só conseguiu dizer:

Desculpa, fui parvo.

Um bocadinho. Mas bom parvo. E eu amo-te. Mas acabou. Ajuda à Leonor termina hoje, tens o número do serviço. Se ela tiver problemas, liga para lá. Chega de emergências inventadas. Está bom?

Está. Obrigado por ires. Se eu lá fosse e visse as velas… corria mal.

Leonor nunca mais telefonou. Nem uma semana, nem um mês. Talvez o orgulho, ou a vergonha.

Um dia, já passados meses, Beatriz viu Leonor no Colombo, agarrada a um senhor de boa aparência, sacos caros nas mãos, sorridente. Cruzaram olhares. Leonor ergueu o queixo, desdenhou e seguiu.

Beatriz mal conteve um sorriso. Estava feliz por ela: finalmente alguém que montaria varões e consertaria tudo legalmente. Em casa de Beatriz e Miguel, reinava a paz. Nada de emergências, nem de telefonemas às nove da noite.

Tomavam chá, planeavam férias, e finalmente sabiam: se decidissem ir à casa de campo, iriam mesmo. Porque os limites de uma família defendem-se sob pena de alguém, disfarçado de indefeso, entrar e ficar.

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A amiga do meu marido pedia a ajuda dele com uma frequência suspeita — até que precisei intervir
– Veď ty bezo mňa zahynieš! Nič nedokážeš! – kričal manžel, keď si balil svoje košele do veľkej tašky.