Surpresa entre os moradores: cadela em casa abandonada alimentava algo inesperado, e não eram cachorrinhos

As pessoas ficaram surpreendidas: cadela em casa abandonada alimentava não crias, mas algo inesperado

Regressava eu do supermercado, de sacos pesados nas mãos, perdido nos meus pensamentos. Os joelhos voltavam a doer, a neta prometera ligar, mas até agora nada, e este inverno em Lisboa parecia estranho ora chovia sem parar, ora vinha aquele frio húmido que entranhava. A cabeça andava a mil, quando quase tropecei e me estatelei no passeio.

Olhei para trás uma cadela rafeira, malhada e magrinha, contornara-me pelas pernas. Chegava a ver-se-lhe as costelas de tão magra, o pelo sujo e despenteado.

Eh pá, onde te enfias tu, malandra! saiu-me, meio aborrecido.

Mas a cadela nem se deteve, ia disparada, como se a estivessem à espera em algum lado. Trazia na boca qualquer coisa que parecia pão.

Lá vai, deve ter parido ninhada nalgum canto, resmunguei cá para mim. Já se sente o cheiro da primavera, os bichos logo se põem a criar.

Ajeitei os sacos e continuei, mas a cena não me saía da cabeça. Parecia-me estranho aquilo.

No dia seguinte, tudo igual a mesma cadela, o mesmo pedaço no focinho, o mesmo caminho em direção à casa abandonada no fim do pátio da vila, aquela onde a dona Serafina u dia vivera. Já morrera há meses, e a casa andava ali ao abandono, escura e triste.

Ó António, olha lá que a tua amiga do costume voltou! gritou do terraço a vizinha Lurdes. Todos os dias a mesma coisa. Onde é que ela desencanta comida?

Que comida? perguntei.

Olha ali, não vês? Anda pelas lixeiras, de certeza. Anda a alimentar as crias, é o instinto.

Mas tens a certeza de que são crias?

O que mais havia de ser? Ainda estamos em fevereiro, mas a natureza manda.

Acenei, mas a dúvida ficou cá a roer. Era lógico, sim, mas sentia que faltava ali qualquer coisa.

A cadela sumiu por entre uma fenda do muro torto da velha casa da Serafina. Fiquei ali parado.

“Que raio, mas sou criança agora? pensei. Vou lá ver, senão isto ainda cai nas bocas de todo o bairro.”

Apropriei-me pela abertura. O muro gemeu, mas aguentei. Dentro, só mato, urtigas até ao joelho, vidros partidos, velharias enferrujadas.

Lá do fundo, ouvi um gemido baixinho.

Segui o som, rodei o barracão meio caído e parei, sem acreditar no que via.

A rafeira estava junto a uma casota velha. No chão, deitada, uma grande cadela preta, focinho já grisalho, presa a um poste por uma corrente curta e rija.

Cega.

Olhos toldados por uma névoa branca, corpo magro, pelo embaraçado. Respirava mal.

A rafeira pôs-lhe o pão à frente, empurrou-o com o nariz e ficou à espera.

A preta procurou à toa, achou o pão, devorou-o com pressa. A rafeira limitava-se a observar, sentada. Não abanava o rabo, não pedia nada.

Quando o pão acabou, lambeu-lhe timidamente o focinho, depois encostou-se-lhe.

Fiquei especado. A comoção quase me fez chorar.

“Meu Deus Ela alimenta a outra. Todos os dias. Ela própria esfomeada, mas partilha.”

Não sei quanto tempo lá fiquei. Mal despertei, a rafeira estava a olhar-me, olhos fixos. Pareciam dizer: “Então? Ajuda ou sai do caminho”.

Espera aí… murmurei.

E larguei a correr para casa como não corria desde rapaz. O corpo protestou, mas insisti.

Em casa, peguei em tudo o que tinha de comestível frango, arroz, um resto de chouriço, a tigela de água, e voltei.

A cena repetia-se: a rafeira fiel à amiga doente.

Ora toma, suspirei, de cócoras. Vê lá se te anima.

Depositei o frango diante da rafeira, mas ela nem olhou. Esperava.

Estás parva? Também tens fome, nota-se-te os ossos!

Finalmente percebi. Cheguei o prato à focinheira da preta. Ela cheirou e começou, com muito esforço, a comer.

A rafeira engoliu em seco, esperou. Só quando a preta se saciou, ela provou o que restava.

Assim sim murmurei.

Beberam água, as duas. Fiquei a olhar, a limpar lágrimas.

Então, andas a chorar? ouvi atrás de mim. Era a Lurdes, atónita no muro, olhos arregalados.

Já viste, Lurdes Ela não alimenta crias é esta cadela.

A Lurdes fez silêncio, inspirou com força.

Quem é que lhe fez isto?

Deve ter sido a Serafina. Prendia-a. Morreu, ninguém cuidou da cadela.

Já lá vão meses.

Meses e meses nisto. Só esta rafeira a descobriu. Todos os dias aqui.

A Lurdes veio sentar-se comigo, fez-lhe festas.

És inteligente, menina inteligente…

Ao final da tarde, metade do prédio se reuniu ali no pátio. Uns trouxeram comida, outros cobertores velhos. Os homens tentaram partir a corrente, mas era grossa demais.

Uma rebarbadora, é o que é preciso! declarou o senhor Joaquim. Amanhã trago.

Voltou de manhã com a ferramenta. O pessoal juntou-se outra vez à volta.

Devagar aí, Joaquim! avisava a Lurdes. Não assustes a pobre.

O ferro rangeu, saltaram faíscas. A preta estremeceu, quis levantar-se.

A corrente partiu.

Já está, livre! suspirou o Joaquim, limpando a testa.

Ajoelhei-me junto da cadela liberta, afaguei-lhe a cabeça devagar.

Vai vir comigo, sim? Dou-te comida, calor. E levo também a tua amiga rafeira. As duas.

A preta abanou o rabo, quase imperceptivelmente.

Tentei pegá-la, mas nem consegui pesada demais.

Eu levo, sugeriu o Joaquim. Para onde?

Para o terceiro andar. Porta vinte e um.

Ao atravessarmos o pátio, os vizinhos faziam-se de lado, olhando-nos em silêncio. A rafeira colava-se a nós, sem ousar afastar-se.

Anda lá, falei baixinho. As duas vêm.

À porta, as “avós” de serviço já se tinham posto na conversa.

Ó António, mas vais meter esses bichos em casa?

Vou, sim.

Mas têm pulgas! Sujam tudo! Vão cheirar mal!

Eu lavo.

E os vizinhos?

De repente, ouvi-me a gritar:

E o que é que há para dizer? Meio ano ali presa a apodrecer! Cega, sem comer! Ninguém viu nada! Só esta cadela é que a viu! E nós? Nós só passamos!

A voz embargou, precisei respirar fundo. As avós ficaram em silêncio, desviando o olhar.

Não fazia ideia, murmurou uma. A Serafina morreu, ninguém falou na cadela.

Pois, ninguém disse nada! enxuguei os olhos. Ninguém quis saber.

Entrei em casa, o Joaquim atrás, com a cadela preta nos braços, a rafeira colada a nós.

Espalhei uma manta velha no chão. O Joaquim deitou a cadela com cuidado.

Está feito. Precisas de ajuda?

Não, obrigada. Agora é por minha conta.

Quando fechou a porta, encostei-me, cansado. A rafeira sentou-se junto da preta e olhou-me diretamente. Num olhar que parecia dizer “obrigado”. O meu peito apertou.

Pronto, suspirei. Vamos lá conhecer-nos. Eu sou António. E vocês?

A rafeira ladrinhou baixinho.

Ficas Riscas. E tu, virei-me para a preta és Preta. Ficamos assim?

Levei-lhes arroz e carne. Pus à frente da Preta, que cheirou com receio do sítio novo.

Vá lá, tirei-lhe um bocadinho, levei ao focinho.

Ela aceitou da minha mão, devagar.

Boa menina, murmurei. Come, come.

Fui-lhe dando, paciente, com carinho. A Riscas encostou a cabeça aos meus joelhos, e percebi: era genuína gratidão.

À noite telefonou a Lurdes.

Então, como estão?

Vão dormir.

E tu?

Fico a pensar.

No quê?

Deixei-me ficar calado um pouco.

Penso que, às vezes, somos piores que os animais. Uma cadela não esquece a outra E nós, tantas vezes, fazemos de conta que não vemos nada.

Sossega, homem.

Não consigo! gritei. Não consigo! Vergonha é o que sinto! Vergonha desta cadela!

Desliguei, sentei-me junto dos animais a dormir, abracei os joelhos, chorei baixinho.

Passou-se uma semana. A Preta ganhou força. De início só deitada, depois aos poucos ergueu-se, ainda cambaleante, mas em pé. A Riscas sempre ao lado, qual guia de olhos.

És uma guia, não és, Riscas? Melhor não há.

A história espalhou-se logo pela vizinhança a Lurdes fez questão.

Já ouviste do António? sussurravam nas escadas. Ficou com duas cadelas!

Dizem que uma esteve seis meses acorrentada, cega, ali esquecida.

E a outra alimentava-a! Imagina!

A sério?

Palavra da Lurdes!

Quando me punha a passear com elas, toda a gente olhava. Uns com respeito, outros com pena.

És grande, António, atirou-me um dia o Joaquim. Homem de verdade.

Eu, homem? fiz pouco caso. A Riscas é que é. Eu só não virei costas desta vez.

Uma noite, bateram à porta. Era uma rapariga jovem.

Boa noite, é o António?

Sou. Quem és tu?

Sou Mariana. Contaram-me dos seus cães. E pensei posso ajudar? Sou veterinária, posso ver como está a Preta. Sem cobrar nada.

Mesmo?

Mesmo. Só quero ajudar, a sério. Dá licença?

Entrou, examinou a Preta com calma.

Ela já é velha, está doente. Não vai recuperar a visão. Mas vai viver desde que seja bem tratada.

O que faço?

Ela tirou uns remédios:

Isto são vitaminas, isto é para as articulações, esta pomada é para as patas. Escrevo tudo.

Quanto lhe devo?

Nada! sorriu. É um presente, meu e de todos que souberam disto.

Outra vez os olhos me arderam.

Obrigado.

Nós é que agradecemos disse, fazendo uma festa à Riscas.

Quando fechou a porta atrás dela, fui sentar-me. A Preta encostou-se aos meus pés, a Riscas deitou-se ao lado. E, pela primeira vez em muitos anos, senti: alguém realmente precisava de mim.

E isso foi felicidade.

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Surpresa entre os moradores: cadela em casa abandonada alimentava algo inesperado, e não eram cachorrinhos
Изминаха едва три седмици от погребението на майка ми, а брат ми вече покани оценител за къщата.