“Fujam daqui, fujam daqui, com certeza há algo mau neste lugar…”, disse o padre com uma voz perplexa, antes de se levantar e nos deixar…

Eu e a minha esposa acabámos de fazer um crédito à habitação para um apartamento novinho em folha num bairro ainda em obras só pó e gruas à janela. Temos de o abençoar! Ninguém lá viveu ainda, e como é que se entra numa casa sem proteção divina?, começou imediatamente a insistir a minha avó Margarida, como só ela sabe fazer. Claro, a casa tem de ser benzida, não vais tu arriscar-te a que nos caia alguma desgraça em cima. Precisamos é de alegria, saúde e prosperidade neste novo lar, incentivou também a minha mãe, sempre dramática. Apesar de estarmos mais para o cético, não resistimos à pressão familiar e lá decidimos organizar uma cerimónia de bênção.

Isto é imprescindível, sentenciou a avó, de mãos na cintura. No dia e hora marcados, alguém tocou à campainha e apareceu-nos à porta um padre de cabelo grisalho, barba à moda dos tempos antigos e um certo ar de filósofo distraído. Ao pescoço pendia-lhe uma cruz enorme, tipo medalha olímpica, e vinha com um incensório numa mão e uma mala de cabedal que já vira melhores dias na outra. Distribuiu velas por todos e começou a explicar os passos da cerimónia.

Minhas filhas e meus filhos, declarou o padre com solenidade de quem já fez isto mais vezes do que comeu caldo verde, acessem as vossas velas e sigam atrás de mim. Obedecemos, preparados para um ritual daqueles a cheirar a santidade. Mas, mal o meu pai tentou acender a vela, começou o espetáculo: só fazia fumo, chispava, recusava-se a pegar lume, fosse com isqueiro, fósforo ou aquele truque de soprar no pavio. Tentativa atrás de tentativa, e nada feito. O padre, já a suar em bica, meteu rapidamente os apetrechos na mala.

Valha-me Deus, saiam daqui, saiam daqui isto tem coisa, de certeza…, exclamou o padre num tom entre o alarmado e o enfadado. Pegou na mala e saiu disparado do nosso apartamento, deixando-nos especados no corredor entre o tapete e a parede.

Padre estranho, vela birrenta, comentou logo a minha esposa Inês, notando que a vela do padre, essa sim, já ia alegremente a arder escada abaixo.

Se calhar era só um daqueles dias que o Santo António não está para rituais, olha que ele também tem mau feitio, brincou a minha mãe, a tentar tirar-nos do embaraço.

Fala, fala, mas no fim foi ao ar. Se calhar onde ele vai não há sequer Wi-Fi, pensei eu, tentando achar graça àquela cena caricata. Até porque escapar daqui não podemos, já estamos hipotecados a este sítio até aos próximos quinze anos o banco não aceita desculpas.

Então e agora, ficam ou procuram outro padre? a voz da avó diamante trouxe-nos de volta à realidade. Estava visto que ainda íamos ter de inventar solução antes que algum santo nos batesse à porta outra vez.

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“Fujam daqui, fujam daqui, com certeza há algo mau neste lugar…”, disse o padre com uma voz perplexa, antes de se levantar e nos deixar…
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