O meu primeiro voo como comandante de avião tornou-se um pesadelo. Depois de salvar um passageiro, o meu passado apanhou-me.

O meu primeiro voo como piloto-comandante transformou-se num sonho estranho e inquietante, quase de pesadelo. Depois de salvar um passageiro, o passado regressou, distorcido como o reflexo numa poça de água no Rossio.

Desde criança, sentia uma fascinação pela imensidão celeste. Tudo começou com uma fotografia encardida e amarrotada que me mostraram no lar de acolhimento onde cresci em Coimbra. Na imagem, teria uns cinco anos, sentado no cockpit de um velhíssimo avião, sorrindo como se Lisboa inteira coubesse numa só mão. Atrás de mim estava um homem de boina de aviador, e durante vinte anos acreditei piamente que aquele era o meu pai.

Ele apoiava a mão pesada no meu ombro, distinguia-se por uma grande mancha de nascença escura a dominar metade da face. Aquela fotografia tornou-se o meu fio de prumo, o elo ao meu passado e o bilhete de entrada para o futuro. Cada vez que a realidade me tentava atirar ao Tejo, regressava àquela imagem. Guardei-a na carteira, sobrevivendo a exames, contas impossíveis em euros, e turnos longos para pagar as horas no simulador. Dizia para mim: não fora acaso alguém sentar-me naquele cockpit.

Hoje, era o dia em que o sonho deslizava do nevoeiro para ganhar feitio. Aos 27 anos, finalmente sentava-me na cadeira do comandante de um avião comercial. Era o meu batismo oficial. Nervoso, senhor comandante? perguntou-me o copiloto, Gonçalo. Fitei a pista a perder de vista a caminho do sol poente, passei a mão pela fotografia no bolso, mesmo sobre o coração. Só um pouco, Gonçalo. Mas às vezes os sonhos antigos escolhem voar, não achas?

O estranho incidente a dez mil metros
A descolagem decorreu sem mácula, tudo encaixado como peças de azulejo na parede da estação do Oriente. Estávamos na altitude de cruzeiro e, de súbito, a porta do cockpit escancarou-se. Clara, uma das assistentes de bordo, pálida como o mármore dos claustros, irrompeu: Duarte, anda depressa! Temos um passageiro a sufocar!

Nem hesitei. Gonçalo tomou conta dos comandos e eu corri pela cabine agitada. No corredor, um homem estava colapsado, lutando por cada sopro. Ajoelhei-me ao lado dele e, no compasso de um relâmpago, reconheci a mancha a ocupar-lhe metade da face. O cérebro imobilizou, mas o instinto tomou o lugar. Enlacei-o e iniciei a manobra de Heimlich. Primeira tentativa, nada; segunda, igual; à terceira, toda a força: um objeto pequeno e duro saltou-lhe da boca. O homem tombou para a frente, respirando fundo, e a cabine explodiu em palmas abafadas, mas para mim, o mundo calou-se. Olhei-o fixamente era ele, o da fotografia.

Pai? balbuciei. O homem fixou o meu uniforme, depois a minha cara, e abanou a cabeça devagar. Não, não sou o teu pai. Mas sei quem és, Duarte. Por isso vim neste voo.

O peso do tempo
Conta-me, ali, entre a vertigem dos bancos e os sons dos rodízios das bagageiras, que conheceu os meus pais, que voou com o meu pai e que foram mais do que irmãos: cúmplices. Então sabias onde eu estava, acusei, sentindo nódoas a ferver na garganta. Porque nunca foste buscar-me ao lar? Fiquei a olhar para as mãos dele. Porque me conhecia, Duarte. Voar era tudo. Não tinha raízes, não sabia ancorar ninguém. Achei que era mais decente deixar-te lá do que arrastar-te comigo enquanto tentava ser quem não poderia ser.

Só agora viera, confessou, porque perdera para sempre a licença de voo má visão, olhos vencidos pelo tempo. Só queria saber quem eu tinha-me tornado. Tirei do bolso a fotografia e mostrei-lha. Fui atrás deste pedaço de papel durante anos, achando que significava algo perfeito. Significa que te tornaste piloto por minha causa murmurou ele, esperança vã a brilhar nos olhos. Duarte, deixa-me sentar só mais uma vez no cockpit. É o único pedido que tenho.

Endireitei-me, o peso das divisas a latejar nos ombros. Procurei-te anos, a pensar que eras tu o motivo da minha vertigem pelos céus. Enganei-me. Não fiz isto por ti, mas pelo sonho de um homem imaginado. Agora que te conheço, agradeço nunca ter-te encontrado antes.

Lágrimas desenharam trilhos na face marcada. Eu voo porque o céu é o meu sítio. Esta fotografia foi a semente, mas eu reguei-a. Foi meu esforço, não teu. Não tens direito de pedir nada.

Olhei uma última vez para o retrato e deixei-o na mesinha dele, junto ao pacote vazio de tremoços que quase o matou. Fica com ela. Já não me pertence.

Voltei ao cockpit, fechei a porta, feito um mergulho para dentro de mim. Gonçalo olhou de lado: Tudo certo, comandante? Apertei o manche, sentindo cada vibração das turbinas como o pulsar do Tejo invisível lá em baixo. Soube, naquele instante, que esta vida não me foi dada fui eu que a agarrei, como num sonho de miragens e névoas. Sim, respondi com um meio sorriso virado para o horizonte. Agora, tudo faz sentido.

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O meu primeiro voo como comandante de avião tornou-se um pesadelo. Depois de salvar um passageiro, o meu passado apanhou-me.
Išla som navštíviť brata na Vianoce… a zistila som, že ma vlastne nepozval, pretože jeho žena „nechce ľudí ako som ja“ vo svojom dome. Mám 41 rokov, môj brat 38. Celý život sme boli veľmi blízki – vyrastali sme spolu, delili sa o izbu, tajomstvá, brigády, aj tie zlé chvíle. No odkedy sa oženil, niečo sa v ňom zmenilo, aj keď som si to nechcela priznať. Minulý rok, už začiatkom decembra som cítila niečo zvláštne: brat nespomenul ani slovo o vianočnej večeri. Pritom sme ju vždy slávili spolu. Vždy. Jedného večera som si povedala, že už čakať nebudem. Pomyslela som si: „Ak ma brat nepozýva, pozvem sa sama.“ Veď je to môj brat, nie cudzí človek. Na Štedrý večer, okolo šiestej večer, som mu napísala, v koľko pôjde po mňa. Neodpovedal. Volala som mu – telefón vypnutý. Vnútri ma niečo pichlo. Zavolala som taxík a išla rovno pred jeho dom. Keď som prišla, počula som hudbu, smiech, deti, ako behajú… prestretý stôl, sviatok. Bolo mi až trápne klopať, lebo bolo jasné, že oslavujú. Ale zaklopala som. Brat otvoril. Zbledol. Rýchlo ma objal, ale bol viditeľne nesvoj. Povedal: — „Ahoj sestra… prečo si mi vopred nedala vedieť?“ Odpovedala som: — „Lebo ty si mi nedal vedieť nič. Preto som prišla. Čo sa deje?“ Skôr, než ma pozval dnu, pozrel sa dozadu – akoby váhal. Vošla som… a ostala stáť. Pri stole – celá rodina jeho ženy: bratranci, strýkovia, tety, dokonca sused. Všetci. Len ja som chýbala. Jeho žena ma pozdravila falošným úsmevom a pokračovala v servírovaní, akoby som nebola. Sadla som si na gauč, rozpačitá, neviditeľná. A práve v tom tichu som začula, ako bratova žena hovorí svojej mame – mysliac si, že to nepočujem: — „Vravel som ti, že príde pokaziť večer. Nechcela som tu ľudí ako ona.“ „Ľudia ako ja?“ Čo to znamená? Čo som urobila? Ťažko som sa nadýchla, snažila sa neplakať pred všetkými. Brat to tiež počul. Tvár sa mu zmenila. Prišiel ku mne a ticho povedal: — „Sestra, nevšímaj si ju. Ona je taká.“ Pozrela som sa naňho: — „Taká – aká? Čím som jej ublížila? Ako je možné, že prídem ku bratovi a cítim sa ako votrelkyňa?“ Vtedy mi priznal všetko: — „Ona ťa nechcela pozvať. Povedala, že máš silnú povahu, priveľa rozmýšľaš, stále chceš pomáhať a miešaš sa do vecí, kam nemáš. A… nechcel som sa na Vianoce hádať.“ Ostala som v šoku. Môj vlastný brat radšej nepozval mňa… len aby nemal konflikt so svojou ženou. Neurobila som žiadnu scénu. Nič som nepovedala. Len som vstala a povedala: — „Netráp sa. Odchádzam.“ Prosil ma, aby som zostala, ale nemohla som. Nechcela som byť niekde, kde som „navyše“. Išla som na roh ulice, s hrčou v hrdle. Doma som si zohriala ryžu s kuracím a večerala sama. Pozrela som si staré vianočné fotky s bratom. A zacítila som, že vo mne niečo prasklo – lebo nevedel ochrániť moje miesto pri sebe, našu blízkosť, našu minulosť. Dodnes sme sa o tom neporozprávali. On navrhuje, že „jeden z týchto dní“ ma príde pozrieť… ale ja ešte neviem, či s ním vôbec chcem hovoriť, alebo to nechať tak. Jedno je isté: tieto Vianoce už s nimi nezostanem.