As Minhas Regras
Olha, João, é mesmo bom que tenhas vindo! Dona Carminda sentou-se em frente ao filho, apoiando o rosto nos punhos pequenos, sorridente. Tinha tantas saudades tuas. Vá, come, come, querido. Ponho-te mais um croquete?
João abanou a cabeça, recusando.
Não gostaste? perguntou a mãe, com um susto na voz, endireitando-se. O seu rosto, que estava descontraído e enrugado, ficou tenso, com as sobrancelhas levantadas. Preparei tudo como sempre Disse logo ao teu pai que tu já não comes carne de porco Disse-lhe! Achas que sabe estranho?
Carminda ficou nervosa. Esperara tanto por João, tinha feito comida como se fosse receber um batalhão, e ela, Dona Carminda, chefe da cantina de campanha, tinha de alimentar, aconchegar e mimar toda a gente. E agora, uma desfeita dessas o filho sem vontade das almôndegas
Não, mãe, não comeces outra vez! Está ótimo, está, só que não aguento mais!
João pousou com cuidado o garfo, demasiado delicado e pequeno para a sua mão de gigante, ajeitou o guardanapo, minúsculo também, parecia um lenço de criança. Era estranho imaginar que uma mulher tão franzina como Carminda tivesse um filho tão bem constituído: isso herdara do pai, António, um homem forte, grande, de ombros largos. Carminda parecia uma rapariga ao lado dele.
Estava perfeito, como sempre! João levantou-se, chegou-se à mãe, passou-lhe a mão pelos ombros, como quem põe um casaco quente. Sentiu logo uma paz calma e segura Então, o que querias falar comigo? Diz rápido, que tenho de ir embora. Vamos ao shopping comprar roupa para o Rodrigo.
Bárbara, a sua mulher, era organizada, trabalhadora, de uma beleza típica de Portugal.
João, quando a viu pela primeira vez ao sair do café, ficou tão embasbacado que trocou os pés e tropeçou no marco do correio, esfolando logo a testa. Bárbara, surpreendida com a comoção, abriu muito os olhos e boca, enquanto João afagava o marco, preocupado por o ter danificado
Depois, juntos, foram ao centro de saúde. Bárbara, divertida e inocente, perguntava, preocupada, se ele estava tonto, agarrando-o pelo braço. O coração dele girava, sim, e como! Estava com aquela Bárbara, uma beleza única
Casaram-se. Agora tinham o Rodrigo, Bárbara era terapeuta da fala, recebia muitos alunos em casa, o que dava jeito para dar atenção à família. João, todas as manhãs, ia trabalhar, deixava Rodrigo na escola, não numa escola qualquer: Bárbara conseguiu uma vaga para ele num colégio de referência, para futuros cientistas. Viviam bem, em harmonia, rodeados de dedicação e amor.
Então e a Bárbara não veio? perguntou Dona Carminda, arrumando a mesa. Sabia bem que Bárbara estava com alunos, que nem ao fim de semana parava, mas ganhou coragem, precisava pedir um favor ao filho.
Já disse, mãe, hoje tem dois alunos. E o Rodrigo, aqui João gostava de chamar o filho pelo nome completo, como quem anuncia um senhor importante, está a fazer os trabalhos de casa. Então?
Tomou as chávenas das mãos da mãe, com delicadeza de quem segura cristal, colocou-as na banca da cozinha e, rodando Carminda para si, fitou-a nos olhos. Mãe, estás a assustar-me. Há algum problema com o pai? Ele não sai do quarto. Endividaram-se? Foram enganados? Empenharam a casa ou algum órgão? Ou apareceu finalmente o meu suposto irmão gémeo, o tal que se perdeu na maternidade?
João sorria, seguro do seu próprio humor. O mundo parecia-lhe alegre e soalheiro como a primavera.
Obedeceu ao gesto da mãe, sentou-se, afagou a barriga, espreguiçou-se batendo com a mão no armário da cozinha. Sim, era uma casa pequena, não tinha comparação com a de João e Bárbara: espaçosa, três quartos, varanda, cozinha ampla. Herdaram-na dos parentes de Bárbara, que foram morar para a serra, perto da terra natal, e deram-lhes o apartamento. Todos os anos, enviavam batatas, beterrabas, um estranho legume o tupinambo e ramos de dálias e crisântemos do campo. Carminda adorava as flores! Chegavam com as encomendas de um velho furgão do tio Manuel, o antigo dono do apartamento. Porquê tanta simpatia pela Bárbara, João nunca percebeu, mas estimava o velho Manuel, ajudava sempre na carrinha. Vivia em casa de calções com palmeiras, de bem com a vida.
Bom, queria pedir-te uma coisa… Carminda encheu-se de coragem, empurrou ao filho um pratinho de broas de mel. Lembras-te da Dona Matilde?
João franziu um pouco o sobrolho.
Claro, mãe! Quem não se lembra! acenou finalmente. As broas de mel cheiravam muito bem, irresistíveis Serviu-se de chá e pegou na maior, com o castelo de Sintra desenhado.
Ora, acontece que a Dona Matilde tem de ir ao hospital central, vai ser operada aos olhos Não sei o diagnóstico exato, mas é complicado
João mastigava e escutava. Lembrava-se bem da vizinha do lado, sempre ajudava Carminda, tomava conta dele em criança. Toda a vida usara uns óculos enormes, de lentes grossas, que lhe davam um ar de olhos arregalados.
Então? ele perguntou, reparando que a mãe agora agitava as mãos e olhava ansiosa a toalha.
Podia ela ficar em tua casa com a Bárbara enquanto faz tratamento? Alugar quarto ou hotel é caro, e ir e vir não dá, já não tem saúde. Eu própria sinto-me em dívida, ela praticamente te criou.
João parou de mastigar, engoliu o chá, limpou a boca. Hesitou. Não era bem o que tinha planeado: por uns tempos, tinha de esconder os calções de palmeiras, e a Bárbara já não podia vaguear pela casa na camisa de noite. Mas se era preciso
Está dito! Claro que pode! Ajudou-me em miúdo, agora é a minha vez! sorriu. Sentiu-se nobre, generoso e correto. Bárbara iria ficar orgulhosa dele, e a mãe também. A Dona Matilde merece ser bem tratada na velhice!
E na rua, como um halo, brilhou o sol, saltando nos olhos felizes da mãe e dançando nas paredes. Os sinos da igreja ali perto tocaram uma melodia tão bonita que a alma de João ficou leve.
Verdade? Ai, João, que orgulho! Isto é que é um GESTO! Um verdadeiro gesto, meu menino! Estou feliz por ter criado um rapaz tão sensível e bom.
Aproximou-se, fez-lhe festas na cabeça, como ao menino que fora.
Se Bárbara visse, torceria o nariz, sempre se ria das exaltações de Carminda pelo filho.
Mas agora, sem ninguém a ver, João voltou a sentir-se o menino elogiado pela mulher mais importante da sua vida.
João amoleceu, ficando à mesa.
Mas Talvez devêssemos perguntar à Bárbara murmurou Carminda. João, meio adormecido num aconchego infantil, murmurou que a mulher não se importaria. Então vou já chamar a Dona Matilde, para combinarem tudo
Carminda saiu apressada, ouviu-se o jornal do pai na sala. João pegou no telemóvel e ligou à mulher.
Bárbara ouvia, a dar um retoque no rimel.
E quantos dias é para ficar? perguntou ela.
Duas semanas, acho. Bárbara, é importante é uma operação Não tem onde ficar João insistia.
Mas no hospital não há enfermarias? começou Bárbara, mas o marido interrompeu.
Depois da operação tem de voltar para consultas, para que andar sempre a viajar? És uma ótima anfitriã, a Dona Matilde é discreta, vão dar-se bem, e…
Sinceramente, não gosto disso. Lembro-me dela no nosso casamento. Olhava-me de lado, nunca simpatizou comigo, a tua D. Matilde.
Mas gosta de ti! Vai ajudar até com o Rodrigo, ela é
O teu filho tem dezasseis anos, João. Em que é que ela o pode ajudar? sorriu Bárbara, a retocar o baton, mas, dando conta de si, parou, contrariada.
Em tudo, Bárbara! Ela tem experiência de vida! João tentava convencer. Mas não te importas, pois não?
A verdade é que Bárbara importava-se, muito, mas não ousou dizer, não queria magoar o marido.
Está bem. Para quando, então? respondeu seca.
Ouviu João dizer que era já no domingo.
Neste? Amanhã? olhou em volta para a confusão normal de uma casa de família. Nunca tinha mostrado isso a estranhos! Só os alunos ficavam na sala ampla com muita luz, mas nunca entravam mais. Antes de receber visitas, limpava tudo de ponta a ponta. Sentia sempre que não correspondia às expectativas do que devia ser uma dona de casa perfeita.
E agora esta Dona Matilde iria circular por todo o lado, ver tudo! Iria logo achar que Bárbara era má dona de casa!
A casa limpa é sinal de cabeça limpa, dizia a mãe dela. Primeira coisa que se nota é se está tudo arrumado. Bárbara, és tão desmazelada!
Bárbara fechou os olhos, abanou a cabeça, como se a mãe ali estivesse, e ela, cheia de culpa, olhando para o chão…
No outro domingo, então. disse João.
Menos mal respondeu ela. Vou avisar o Rodrigo
Assim teria tempo para superar o limite do caos caseiro, lavar, passar, arrumar tudo
Rodrigo não se impressionou com a vinda da tal senhora que tinha cuidado do pai em pequeno. Vem, que venha, qual é o drama?
Deixa-te disso, mãe! Vive normalmente, pronto! proferiu, vendo-a a correr atrás do aspirador. Isto é nosso habitat, somos a população local. Ela é uma espécie invasora, vai ter de se adaptar, ou não sobrevive!
Nem somos população, Rodrigo, somos selva! E nem vou ter tempo de limpar Vai, ajuda-me, senão vou passar vergonha! Ela diz logo à avó Carminda.
A avó já sabe tudo e nunca se chateia! encolheu os ombros e saiu.
Bárbara continuava nervosa, mas logo tocou a campainha: era o aluno gaguejante, Toninho, redondinho como um pão de Deus. O rapaz, esforçado, tentava e tentava, corava de fazer força, sorria ao ser elogiado. E Bárbara, de olho no salão: o que limpar, o que devia brilhar…
Os vidros! Esqueci-me dos vidros!!
Os vidros têm de parecer que nem existem! Assim é que se conhece uma boa dona de casa!, ecoava a mãe na cabeça dela.
João chegou entretanto, interrompeu as limpezas e, a caminho do shopping, elogiava Dona Matilde, como lhe devia. Bárbara assentia, com um sorriso forçado.
Pai, já percebemos, vem a tua segunda mãe. Agora chega do assunto! perdeu a paciência Rodrigo.
E Bárbara ficou-lhe grata…
O domingo seguinte chegou num instante, como se alguém acelerasse o tempo.
No sábado, João foi buscar Dona Matilde, enquanto Bárbara cancelava as aulas e preparava a casa para receber a visita.
Rodrigo foi ao cabeleireiro, o cão Tobias tomou banho e ficou cheiroso, os vidros brilhavam.
Então, Bárbara, lá para as três chegamos, avisou João. Não stresses, Dona Matilde está nervosa por atrapalhar a vossa vida.
Está bem, fico a contar convosco ao almoço.
Ia fazer frango no forno, batatas com grelos, salada como manda a tradição de bem receber.
Acordou às sete, mandou Rodrigo passear o Tobias, tomou um duche demorado a cantar E depois do adeus…, saiu a enrolar a última nota, vestiu o robe e foi lavar os dentes, quando ouviu a chave na porta da rua, as vozes a grave do marido, uma mais fina, levemente tímida e desconhecida, Tobias ladrava de felicidade, Rodrigo suspirava conformado.
O espelho embaciado revelou o retrato dela no momento da chegada dos convidados…
Cá estamos… anunciou João, mostrando a mulher de robe e escova de dentes na mão, quando arrastava a enorme mala vermelha e entrava atrás dele uma senhora, a própria Dona Matilde, rosto afável, a elogiar tudo, deliciada, cheia de Oh que bonito!. Bárbara só pensava que estava de robe, desgrenhada, com o frango cru e Tobias com as patas sujas… Pronto, era oficial: má dona de casa. E Dona Matilde apertava os lábios, evitando as poças de água que Tobias deixara, olhando para Bárbara que fugia para compor-se.
Está será o teu quarto mostrou João. Sente-te à vontade. Vou preparar qualquer coisa para comermos, deixa-me só trocar de roupa.
Dona Matilde agradeceu, fechou a porta.
… Porque vieram tão cedo?! sibilou Bárbara da sala. Não estava à espera! Não estou pronta! João, acabaste de me envergonhar!
João, sentado na cama, via o reflexo da mulher no armário, encantado com as linhas do corpo.
O quê? distraído.
Porque tão cedo, João? ela ajustava o vestido, penteava o cabelo. Fecha-me o fecho, por favor.
Ah. A Dona Matilde tinha consulta hoje, esqueci-me. Resolvemos vir mais cedo.
E tanta bagagem?
Mulheres são assim, nunca viajam leves!
João sorriu, orgulhoso da piada
Sentaram-se para pequeno-almoço. Bárbara fez ovos mexidos, Rodrigo, vendo a mãe atrapalhada, cortou pão para sandes.
Dona Matilde chegou por último, observou a cozinha. Sentou-se ao lado de Rodrigo.
Bom apetite a todos. Que casa tão acolhedora. Bárbara, lembro-me de ter oferecido um serviço de chá com papoilas no vosso casamento Não? Era outro casal?…
Bárbara encolheu os ombros. O serviço partira-se todo no dia a seguir ao casamento, João deixara-o cair pelas escadas Tudo em cacos.
João não fazia ideia das papoilas nem do serviço.
Devia ser outro casal. apressou-se Bárbara.
Aqui está frio, Bárbara, posso sentar-me no teu lugar? pediu Dona Matilde.
Rodrigo olhou para a mãe, intrigado.
João abriu o peito. Vá, troquem. Não convém que ela apanhe um resfriado antes da operação! levantou a mulher como um banco, sentou a visita a seu lado.
Eu criei o João desde pequenino, começou Dona Matilde. Trocava-lhe as fraldas sempre, era um menino complicado, comia mal. Só melhorou mais tarde.
Bárbara engasgou-se, Rodrigo sorriu trocista.
E tu, jovem, vai fazer os trabalhos de casa. O João fazia de manhã para fixar melhor. levantou-se, retirando a loiça do Rodrigo, lançando um olhar à dona da casa, que voltou a ficar atrapalhada.
Rodrigo, amuado, foi-se embora.
Agradecendo o pequeno-almoço, Dona Matilde retirou-se, voltou a chamar João para lhe mudar o televisor de lugar.
Têm poucos livros, notou ela, enquanto se cruzavam no corredor, Rodrigo a sair para o futebol. O teu filho devia ler clássicos, como Eça de Queirós. Trouxe uns livros para ele. Vamos estudar o que ele sabe esta noite.
Pois, pois. Só pensa em futebol! brincou João, piscando o olho ao filho, passando-lhe o saco do equipamento.
Ele sabia que Dona Matilde tinha mania de andar sempre com um livro clássico na mão sem nunca o ler, só para parecer mais culta.
Rodrigo saiu, João também.
Vai sair a que horas? perguntou Bárbara à Dona Matilde.
Eu? À uma. Diga-me, já o Rodrigo tem namorada? O João teve logo na escola, uma Ritinha, toda maleável Estas são as melhores, obedientes. E o cão, tire-o da sala, por favor. E seria bom mudar o móvel do calçado, está mal colocado. Já estraguei isto! tropeçou, caíram sapatos e chinelos. Sapatos desses danificam, sabia? Bom, vou andando. Obrigada por me receber!
Deu uma festa no ombro de Bárbara e fugiu para o elevador.
Bárbara ficou ainda um pouco, fechou a porta
Mãe, ela já se faz de dona disto tudo! Até o Tobias já foi enxotado do sofá! resmungava Rodrigo, depois do treino, acariciando o cão. Tobias suspirava, abatido.
Ela é assim, está habituada a educar. Mas é só por uns dias Aguenta aí
Bárbara sentia-se envergonhada, até o cão parecia sentir-se fora da própria casa. Mas não era capaz de confrontar uma senhora que tanto ajudara o marido em criança.
À noite, Dona Matilde organizou um mutirão de pastéis de bacalhau, ocupando a cozinha toda, enquanto João não a largava em gentilezas.
Piorou: segunda-feira, Dona Matilde pôs todos a pé cedo, toda a gente a fazer ginástica.
Quando é afinal a tua operação? perguntou Bárbara, varrendo o suor da testa. Dona Matilde era avançada nos treinos, com cronometragem do telemóvel, todos a suar nas flexões e abdominais: só Rodrigo faltou, dizendo logo adeus à vida saudável, indo para a escola. João aplicava-se, motivando a mulher.
Vamos, Bárbara! Só mais um pouco! animava-o.
Então, é quando? insistiu Bárbara.
Amanhã. João, vais-me visitar ao hospital, não vais? perguntou ela, triste.
Mas são só dois dias! surpreendeu-se João, mas anuiu.
A segunda-feira foi cansativa. As aulas de Bárbara falharam, uns miúdos doentes, outros fora da cidade, outros simplesmente não queriam sair de casa.
O telemóvel tocava, corvos crocitavam na árvore da janela, Dona Matilde ouvia Amália Rodrigues alto, e ela própria cantava, acompanhando, batendo o pé e dançando.
Bárbara ficou a olhar pela porta. Ela está só nervosa, explicou João. Quando está assim, ouve Amália. Dá-lhe paz.
Ao jantar, Dona Matilde quis ler Eça com Rodrigo ele recusou. Ela ficou escandalizada, mas ouviu-lhe tudo, inclusive a opinião sobre as visitas dela. Sacudiu-se, e depois chamou Bárbara, que ia ao telemóvel, combinando aulas extra com os pais de Toninho.
Não! arrancou-lhe o telemóvel e falou à senhora, Não vem o seu filho agora?! Então ele vai ficar a gaguejar para sempre! Meta-se a caminho já, senão vai-se arrepender! Digo-lhe eu: nunca mais dou aulas ao seu filho. Quem sou eu? Secretária de Bárbara Lourenço! devolveu o telefone à dona da casa, voltando a olhar pela janela.
Bárbara, finalmente, explodiu:
Olhe, Dona Matilde! Não se meta mais na minha vida nem no meu trabalho! Faça os seus pastéis na sua casa! Não quero saber quantas fraldas mudou ao meu marido! Chega de mandar, de controlar, isto é a minha casa! Eu é que decido quem dorme no sofá e quando compro conservas! Espero sinceramente que corra tudo bem na operação e que volte rapidamente para casa.
Rodrigo aplaudiu, Tobias choramingou, mas Dona Matilde finalmente sorriu.
Bárbara ficou surpreendida.
Ainda bem, Bárbara. Nunca deixes que passem por cima de ti! Diz sempre não quando precisares, a menos que seja uma questão de vida ou morte. Gosto mesmo de ti, só tinha medo que fosses demasiado mansa, do género que faz tudo por medo do que os outros pensam Não sejas assim. Deixa-os pensar! Tu sê firme. Não é não! Não queres que eu viva aqui, diz logo. Isso simplifica tudo. Ganha coragem, vive como queres. Perdoa a velha, acho que exagerei. Sempre fui provocadora. O João sabe. E olha, nervosa antes da operação, perdi a noção Tobias, és um cão simpático! fez-lhe festas na cabeça. Querem marmelada de maçã? Trouxe uma milagrosa de Óbidos. Rodrigo, queres?
O rapaz revirou os olhos. Mulheres eram mesmo misteriosas!
Tocaram à porta: era Toninho, trazido pela mãe. Depois da aula, também ganhou marmelada. A mãe pediu desculpa a Bárbara, suplicando para não serem riscado da lista.
Ou falo com a sua secretária? arriscou a mãe do aluno.
Não se preocupe. O seu rapaz está a ir bem.
Bárbara piscou para a secretária
À noite, João e Rodrigo estavam a jogar consola, e Dona Matilde sentada na poltrona descrevia os tempos do João, como riscara as paredes dela, como quase se afogou, e como ela o salvara. Depois falou da Ritinha, a primeira namorada: Tão sem fibra, tão moldável Não gostava dela. O serviço de chá partido para dar sorte, por isso João vivia feliz. E agradeceu a Bárbara pelo abrigo, pela generosidade.
A marmelada derretia-se no prato, o crepúsculo caía, via-se uma faixa laranja-avermelhada no céu.
Está na hora… sussurrou Dona Matilde. Às oito já lá devo estar…
João colocou-a no carro. Bárbara foi também, sentou-se ao lado da senhora, sentia a sua mão a tremer.
Vou ligar à noite, disse, ajeitando-lhe o casaco. Não discuta! Depois venha para cá.
Dona Matilde sorriu. Era bom conviver com os jovens especialmente com Rodrigo, tão diferente do pai, tão destemido. Mas, como dizia Rodrigo, É o meu habitat, é assim que sou. E estudar, isso estou sempre disponível.
A vida em família é como uma casa: às vezes, ao abrir portas e receber quem ajudou no passado, recebemos também desafios e aprendemos o valor de defender o nosso espaço, crescer nos nossos próprios termos. Porque, em última análise, viver bem é ser verdadeiro com os outros, mas, sobretudo, connosco mesmos.






