Margarida conseguiu escorregar para a despensa num segundo antes de a fechadura girar.
Apressouse contra a prateleira onde ficavam os tarros, sentiu a maçaneta por dentro e puxoua até deixar uma ranhura tão estreita como a largura de um dedo.
Respirava ofegante, a garganta áspera, e mantinha a mão sobre a boca, pois o corredor estava absolutamente silencioso; qualquer som teria ecoado por todo o apartamento.
A porta da entrada escancarouse.
António tossiu, avançou para o hall. Margarita, pela fenda estreita, viu as suas mãos: dois sacos brancos cheios de compras, as alças de corda encravadas nos dedos.
Mãe! gritou ele. Estás em casa?
Margarida apertou a mão contra a boca.
***
Antes de toda essa história, Margarida vivia só há já cinco anos. Quando o seu marido, António, partiu de repente como costuma acontecer com quem calada guarda a própria dor o coração não suportou e tudo acabou.
O primeiro ano sem ele fora o mais penoso: não foi o luto que a derrubava, ela sabia manterse ereta; era o silêncio na casa que a consumia. António gargarelava à frente da televisão a ponto de cada palavra ouvirse na cozinha.
No banheiro cantava desafinadamente, mudava a letra e a melodia ao mesmo tempo sem jamais se envergonhar. Agora, com a porta do banheiro fechada, nada se ouvia além do ruído da tubulação, e esse ruído lhe parecia ensurdecedor.
A filha Filomena chegou de Porto nos primeiros dias. Permaneceu duas semanas: limpava, cozinhava, à noite sentavase na sua cama e simplesmente ficava ali, sem precisar de conversar.
Era algo valioso.
O filho Tiago nunca apareceu, nem então nem depois. Já fazia onze anos que Tiago se fora, e Margarida há muito deixara de explicar em voz alta o porquê, embora por dentro revivesse tudo repetidamente como um disco arranhado.
A partida de Tiago fora dolorosa e confusa, como costuma ser quando a verdade se esconde demais. Tiago era difícil desde pequeno: temperamental, explosivo, com crises por qualquer motivo.
Na escola quase se arrastava, ficou duas vezes na mesma classe, saía com notas medianas por força de vontade. A sua irmã, Leonor, era a completa antítese: calma, exemplar, trazia só dezes da escola.
Tiago ressentiase da irmã, reagia às críticas, e António por vezes perdia a paciência, embora tentasse conterse ao máximo.
Quando Tiago fez dezenove, António enviouo ao verão para a mãe, a avó Dona Maria, à aldeia perto de Viseu. Pensou que o trabalho manual, o cheiro da terra e o ar puro o afastariam da vida urbana.
Dona Maria era direta ao ponto, não sabia esconder o que dizia e não achava isso necessário. Quando Tiago estragava algo no pomar, ela lhe lançava, num tom áspero:
E o que esperas de mim, miúdo?
Tiago regressou a Lisboa no mesmo dia. Deixou a mala no corredor, foi à cozinha, sentouse e, quase sem entoar, perguntou:
É verdade?
Margarida olhou para António. António devolveu o olhar.
Já faziam tempo que pretendiam dizerlhe a verdade, mas sempre adiavam, convencendose mutuamente de que ainda era cedo, que ele ainda cresceria um pouco mais.
É verdade respondeu Margarida. Levámoste de casa quando ainda eras um bebé de oito meses. Gritavas muito, fazianos estremecer, mas quando nos viste, calastete e olhasteme nos olhos.
Naquela altura eu dizia a António: não há mais nada a perder.
Tiago levantouse e retirouse para o seu quarto. Margarida e António ficaram na cozinha até à meianoite, falaram de tudo menos disso, porque não sabiam como abordar o assunto.
Alguns dias depois Tiago desapareceu. Levou consigo o dinheiro que ele e António poupavam para lhe arrendar um quarto num dormitório, pretendendolhe fazer uma surpresa no outono.
Ele fezse a surpresa primeiro.
António quase nunca falava de Tiago em voz alta. À noite, ficava longas horas à janela, a observar a rua.
Margarida via que ele sofria, mas não ousava interrogálo; António tinha o seu modo de lidar com a dor o silêncio e ela respeitavao. Anos depois, o coração de António também parou.
Tiago reapareceu no início de abril. Bateu à porta com delicadeza, não tocou a campainha, como se não tivesse a certeza de que lhe abririam.
Margarida abriu e, por alguns segundos, ficou a olhar para ele: um homem de trinta anos, barba por fazer, ligeiramente curvado, segurando um saco de tangerinas.
Mãe disse ele. Perdoame. Fui tolo.
Com um ar infantil.
Ela ficou imóvel, sem saber o que fazer.
Quero reparar acrescentou ele. Se me deres uma oportunidade.
Abraçouo na soleira. Ele respondeu com um abraço desengonçado, aquele tipo de aperto que quem passa anos sem abraçar esquece a forma.
No jantar contou que fora cozinheiro por todo o país, de Faro a Coimbra, começou em tabernas baratas e acabou por trabalhar em restaurantes de renome. Cozinhava, de verdade, muito bem.
Margarida observavao habilidoso a fatiar o frango e pensava que a vida era realmente curiosa: alguém desaparece por onze anos e volta a fritar almôndegas para ti.
Ficou a viver ali. Reocupou o velho quarto, organizou as coisas nas prateleiras, e todas as manhãs fazia papas ou ovos mexidos.
Ligava a Filomena todas as noites.
Voltou, dizes? a filha respondeu, ainda a bocejar ao telefone. E como está?
Bem. Muito educado. Cozinha impecavelmente.
Mãe, tens a certeza de que está tudo bem? Já passaram onze anos.
Filomena, ele é meu filho. Como podias dizer coisa contrária?
Telefonava a parentes por todo o país, contando a todos: Tiago voltou, Tiago está em casa. A prima de Faro exclamava ao telefone que não há fumaça sem fogo e que não se volta das terras do outro lado sem motivo.
Margarida respondia que não se tratava de fofocas, que tudo estava bem.
Cerca de duas semanas depois sentiuse mais cansada que nunca. À noite a cabeça parecia cheia de algodão, de manhã sentia tontura.
Decidiu que era a primavera a fazer-lhe efeito: falta de vitaminas, variações de pressão, a idade. Aos sessenta anos a saúde já é um caminho incerto, não tinha nada concreto a queixarse. O essencial era ter o filho ao lado.
Filomena perguntava ao fim do dia como estava. Margarida dizia que estava normal, que cansa um pouco, mas que passaria.
Talvez devesses ir ao médico?
Ah, deixa, não vou ao centro de saúde a cada cansaço. Lá tem fila de duas semanas; curarei sozinha.
Mas não melhorava. A náusea aumentava, a cabeça ficava pesada ao meiodia.
Tomava vitaminas, fazia chá de rosmaninho e tentava não ficar a ruminar.
Numa noite acordou antes das seis, o céu de abril cinzento, a rua vazia.
A boca secoua tanto que quase engasgou ao engolir. Calçou as pantufas e foi à cozinha buscar água. No corredor não acendeu a luz; conhecia a casa de cor do bolso, cada esquina.
Antes de chegar à cozinha parou.
Tiago estava junto ao fogão. Uma única chama ardia sob a panela de aveia.
Tinha nas mãos um pequeno saco de plástico com um pó, derramouo delicadamente na panela e, com uma colher, mexeuo bem.
Margarida recuou pelo corredor, foi ao quarto, deitouse na cama e puxou o edredom.
Ficou a olhar o teto com os olhos abertos. Depois de uns minutos, a porta do quarto rangeu.
Fechou os olhos, respirou fundo, fingindo dormir. Sentia Tiago a observara da soleira.
Ele ficou ali, fechou a porta e bateu à entrada.
Margarida abriu os olhos.
O amanhecer surgia pela janela. Ela revivia mentalmente as datas: quando começou a sentir-se mal, quando surgiu a náusea, quando se instalou aquela fadiga de chumbo.
Contavase ao contrário. As contas coincidiam exatamente com o dia em que Tiago se instalara e assumira a cozinha.
Levantouse, vestiuse e decidiu ir à vizinha Tamara, no terceiro andar, que era uma senhora sensata, de palavra curta e capaz de resolver sem lágrimas. Enquanto vestia o casaco no hall, a fechadura girou.
Não chegou a perceber como ficou presa na despensa.
Através da fissura, viu Tiago pegar o telemóvel e pôro ao ouvido.
Alô? Sim, já estou em casa. Pausa. Não, a avó desapareceu, não sei onde está. Ele caminhou pelo corredor. Não te preocupes, digo eu.
Já não lhe restava muito tempo. Pensava que fosse apenas falta de vitaminas ou pressão. Resmunga. No fim, vamos fechar o apartamento, é fácil, e vou direto a ti.
Vamos viver!
Tiago, irritado, disse:
Ah, esquecime da farmácia outra vez. Vou ter de ir ali agora. xingou. Tudo bem, já volto, espera.
A porta bateu. No degrau, o som dos passos silenciou.
Margarida saiu da despensa e ficou no meio do hall. Ficou ali, a observar o casaco pendurado, as botas à porta, as chaves do segundo fecho na prateleira.
O fecho inferior só tinha a sua chave; não fez cópias para ninguém.
Empacotou a mala em vinte minutos: documentos, cartão de pensionista, uma foto pequena de António numa moldura.
Lembrouse de Filomena.
Mãe, porque acordas tão cedo? bocejou Filomena ao telefone.
Estou a pensar, Filomena. Vou viajar para ti.
Sentime falta.
Vem, claro. Quando?
Hoje.
Hoje?! Filomena ficou realmente acordada. E Tiago? Que ele também venha, quero rever o irmão.
Tiago foi trabalhar, está fora. Só eu irei.
Então manda o número do comboio, encontrote.
Margarida desligou o telemóvel, recolheu as coisas de Tiago que tinham acumulado no mês: algumas camisolas, uma lâmina de barbear, um livro gasto, tudo metido na sua mala e fechou a cremalheira.
Depositou a mala no patamar da escada junto à porta.
Tirou da bainha um papel e uma caneta. Escreveu devagar, legível:
«Tiago. Amote, sempre te amei e, ao que parece, continuarei a amar, mesmo que não tenhas merecido.
É por isso que não irei à polícia. Mas não quero mais verte.
Nunca mais. Mãe.»
Dobrou o papel e pôso sobre a mala.
Saiu. Trancou a porta com a chave do fecho inferior.
Guardoua no bolso do casaco.
Chegou à estação de comboio de Lisboa Campo de Ourique de autocarro. Desceu ao metro, entrou no comboio e, em vez de observar os anúncios, viuse refletida no vidro escuro.
O comboio partiu e seguiu.
Até à Estação de Rossio o percurso foi curto, com troca na Baixa. No andén estava vazio, só ecos.
Comprou o bilhete para o comboio diurno a Porto, encontrou um banco na sala de espera e sentouse. Ao lado, um senhor alimentava pombos com migalhas de pão.
Os pombos empurravamse, batendo as asas.
Margarida refletia sobre ter de contar tudo a Filomena algum dia. Não hoje, não ao chegar, mas em breve.
Filomena era inteligente, compreendia e não choraria à toa.
Tiago tentavase esquecer, mas tudo lhe escapava.
Filomena encontroua no andén do Porto, correu, abraçoua apertado, antes mesmo de dizer palavra alguma. Margarida encostouse ao ombro da filha e fechou os olhos.
Mãe sussurrou Filomena. O que aconteceu?
Contarei depois respondeu Margarida. Primeiro vamos para casa.
Ambas caminharam pelo andén, Filomena carregando a mala, o sol da manhã a brilhar suavemente.
Margarida prosseguiu, lembrandose da despensa em Lisboa, onde ainda se encontrava um frasco de compota de cereja, fechado desde aquele agosto passado, guardado para o inverno e jamais aberto.
Que fique ali. Não se acha felicidade numa compota.







