O Homem de Um Só Amor: A História de Fedor, Sua Silenciosa Dor nas Cinzas da Aldeia, os Segredos do Passado e os Rumores Sobre Glafira – O Luto de Zina, os Gémeos Misha e Polina, e a Força de um Pai Frio Enquanto o Povoado Especula Sobre o Destino da Família

Num tempo já distante, no dia do funeral de Maria Leonor, Joaquim não deixou escapar uma única lágrima.
Vês? Eu bem dizia, ele nunca amou a Leonor murmurava Alda ao ouvido da vizinha Margarida.
Cala-te, mulher. Agora já não importa. As crianças ficaram órfãs, e logo com um pai daqueles… respondeu Margarida.
Vais ver que ele vai casar com a Eugénia! garantiu Alda, abanando a cabeça.
Porquê a Eugénia? Que tem ela a ver com isso? Toda a gente sabe que a Glória foi a grande paixão dele, ou já te esqueceste daqueles dois nos fardos de palha do celeiro? Eugénia tem é a vida dela, família e tudo mais. Até já esqueceu o Joaquim.
Mas achas mesmo?
Tenho a certeza. O marido da Eugénia está bem colocado na cooperativa, precisa lá ela do Joaquim com aquele par de filhos. Agora a Glória… coitada, sofre com o Manel dela, aquilo é um tormento. Aposto que os dois vão acabar juntos dizia Alda, convencida.

Maria Leonor foi a enterrar. Os filhos seguravam-se fortemente pelas mãos.
O Manuel e a Rosarinho tinham acabado de fazer oito anos. Maria Leonor casou com Joaquim cheia de amor, mas se ele a correspondia, era mistério, tanto para ela como para as gentes do lugar.
Dizia-se que engravidara cedo demais e que por isso Joaquim não teve outro remédio senão assumir o casamento. A pequena Clarinha nasceu de sete meses e pouco tempo sobreviveu. Depois disso, Joaquim e Leonor passaram muito tempo sem filhos.
Joaquim era sempre taciturno, de poucas palavras. Chamavam-lhe Lobato, de tão fechado e distante. Carinho, então, era coisa rara. Quem mais sentiria isto senão a própria Leonor?
Mas Deus acabou por ter misericórdia dela. Às súplicas daquela mulher só Ele respondia. E assim lhe concedeu um milagre: dois filhos de uma só vez.
Rosarinho e Manuel eram gémeos. Manuel era todo ternura, saíra à mãe, de coração mole. Já Rosarinho era o espelho do pai: fechada e silenciosa. Guardava tudo para si, não revelava nunca os seus pensamentos. Por isso mesmo, acabava mais próxima do pai os tempéremas combinavam. Ele a serrear ou pregar madeira no palheiro, ela sempre a rondá-lo e a ouvir conselhos.
Manuel, esse, não largava a mãe ajudava a varrer, a encher cântaros com água, apesar de pequeno, era sempre uma ajuda. Maria Leonor adorava ambos, mas compreendia Manuel, sentia-o alma gémea.
Quando a doença se agravou e percebeu que a hora se aproximava, Leonor chamou Manuel:
Filho, pouco faltará para eu partir Ficarás como chefe cá de casa. Não deixes que nada falte à tua irmã. És rapaz, tens que protegê-la, ela precisa de ti.
E o pai, mãe?
O quê?
O pai também nos vai proteger?
Não sei, filho. Só a vida dirá.
Então não morras Quem é que fica connosco? chorava Manuel.
Oxalá estivesse nas minhas mãos suspirou Leonor.
De manhã, Maria Leonor partiu.
Joaquim sentou-se ao lado do corpo e segurou-lhe a mão. Não disse palavra, não vertia lágrimas. Apenas ficou ali, curvado e escurecido, como se todo o peso do mundo tivesse caído sobre ele.

A vida voltou devagar ao caminho habitual. Rosarinho, ainda miúda, tomou para si os encargos da casa tentava preparar comida, limpar a casa, mas era tudo novo para ela. A irmã do Joaquim, tia Filomena, vinha quase todos os dias dar uma mão e ensinar Rosarinho nas tarefas.
Tia Filomena, o pai agora vai casar, não vai? perguntou Rosarinho um dia.
Não sei, filhota. O que vai dentro daquela cabeça só ele sabe. Nem a mim me conta.
Filomena tinha a sua própria família: marido, o senhor António, e filhos. Uma casa cheia e alegre.
E se acontecer alguma coisa, pode a tia ficar com a gente?
Não penses nisso. O teu pai gosta muito de vocês e não vos deixará a ninguém respondeu Filomena, certa.

Enquanto isso, pelas ruas, os boatos já fervilhavam: Joaquim e Glória reacenderam o que houve entre eles há anos.
Aquela Glória perdeu mesmo o juízo, anda enrabichada com o Joaquim, como se não tivesse marido e filhos murmurava a Alda à porta da mercearia.
Que disparate, mulher tola! diziam as lavadeiras à beira do tanque.
Pronto, chega de chafurdar na vida alheia resmungou o senhor Manuel Alves, presidente da junta, que vinha sempre pôr ordem.
Só sabem falar dos outros, mas nem conhecem os próprios vizinhos ralhou Manuel, a defender Joaquim.

É verdade que Joaquim e Glória tiveram uma paixão em novos. Era coisa à novela, daquelas que só se encontram nos livros de cordel. Mas Joaquim fora enviado temporariamente para ajudar outra aldeia, bem longe, nos trabalhos do campo. Dois meses por fora. Glória, nesse ínterim, envolveu-se com o Manel Caroço. Quando Joaquim regressou e soube, perdeu-se de pancada com o Manel, deixou de falar com Glória e cada um foi para seu lado.

Glória acabou casada com o Manel, homem dado ao vício e às mulheres, deixava a Glória sempre em lágrimas. O Joaquim, esse, nem pinga tocava, trabalhador cumprido, mas de poucas falas.
Foi nessa altura que a aldeia reparou no modo como Joaquim olhava Maria Leonor: ela florescia como nunca.
Vê lá como o amor tem força! diziam as vizinhas.
Leonor amava Joaquim desde menina, mas achava-se apagada demais para ele.
No entanto, a vida não obedece a lógicas.
Depois de muitos passeios, foram casar no registo local.
O casamento foi simples. À Leonor só lhe restava a mãe, já idosa e de poucos recursos, e do lado do Joaquim, apenas Filomena.
Diziam as línguas que a mãe de Leonor nunca casara, que tivera Leonor tarde e sempre vivera de amores secretos, em especial com o senhor António Proença, antigo presidente da aldeia. Mulher bela, de sangue quente e muita alegria, embora nunca tivesse tido laços fixos. Leonor era diferente, discreta, apagada. Mas filha não paga pelo que faz a mãe.

Povoava compaixão por Leonor, sobretudo quando casou com Joaquim.
Ai, que tristeza, ainda vai sofrer uma vida inteira por ele não a amar suspirava a Odete.
Mas, para espanto de todos, Joaquim foi fiel à esposa todos os anos. Em aldeia, nada se esconde e não havia nunca discussões nem desmandos naquela casa. A desconfiança só voltou quando Leonor adoeceu, no último inverno, e o diagnóstico foi cruel: doença das incuráveis.
Nada havia a fazer.

Numa tarde triste, Joaquim regressava do campo:
Joaquim, posso passar aí por casa? Trago uns bolinhos para os miúdos, conversávamos um bocado chamou Glória, sorrindo, com uma tigela de tortas doces na mão.
Não, Glória, a Filomena já trouxe bolinhos ontem.
Mas eu trouxe com carinho…
E a minha irmã também.
Vê lá, Joaquim, podíamos voltar a conversar, ao menos como noutros tempos.
Para quê, Glória?
Ainda te lembras do que houve entre nós…?
O que passou, passou. Agora só tenho espaço para os meus filhos. Amo a Leonor.
Mas ela já cá não está…
O amor, Glória, não morre assim tão fácil.
Nunca a amaste. Casaste para me picar…
Vai para casa, Glória disse Joaquim em voz baixa.

Apurou o passo e foi para casa, onde as crianças esperavam por ele.
Glória ficou parada no meio da rua, sozinha.

Passaram-se anos. Os miúdos cresceram e Filomena continuou a visitar os sobrinhos. Mas via, sem margem para dúvida, que o irmão era homem de um só amor.
Ó Rosarinho, ouvi dizer que andas com o Gabriel Salgado, é verdade? disparou tia Filomena à entrada.
É sim. Algum problema? respondeu a crescida Rosarinho.
Não, só quis saber. Olha que te cuides.
Cuidar-me de quê?
Já tens idade para saber… alertou Filomena.
Ai, tia, estou por ele, é para sempre!
Isso pensas agora…
Não, tenho certeza.
Acredito em ti, mas… e o Gabriel?
Se algum dia ele me trair, nunca mais amarei ninguém.
Filomena acenou, convencida da sinceridade da miúda.

Nessa noite, Manuel e Rosarinho esperavam o pai chegar do trabalho.
O pai está a demorar-se hoje… comentou Manuel.
Hoje é sexta-feira…
E?
Ele vai sempre ao cemitério nas quartas, sextas e domingos, visitar a mãe.
E tu como sabes?
Ó tolo, não sentes o teu pai? Não percebes nada…
Saíram de mansinho, caminho dos quintais até ao cemitério. Rosarinho guiava o irmão por atalhos secretos.
Olha ali, disse, apontando para uma figura encurvada entre as lápides.

Manuel parou a escutar. O pai falava baixinho:
Pronto, Leonor, é isso. A nossa Rosarinho vai casar em breve. Já juntei o enxoval, e a Filomena ajudou. Vamos andando, aos poucos
Desculpa, minha Leonor, se fui homem de poucas palavras, mas o coração disse-te tudo. Não sou de falar, sou de sentir… e com isso, Joaquim afastou-se devagar do cemitério.

Rosarinho olhou o irmão. Os olhos de Manuel brilhavam, rasos de lágrimas.

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Od lásky k nenávisti je len krôčik