Dasha chegou a casa mais cedo trazendo mimos dos pais. Queria surpreender o marido, mas em vez de uma receção calorosa, João mandou-a ao supermercado. As consequências foram inesperadas.

Rita chegou a casa mais cedo, carregada de iguarias que a mãe lhe tinha preparado. Ela queria surpreender o marido, mas, em vez de uma receção calorosa, o João mandou-a ir ao supermercado. As consequências, no entanto, foram inesperadas.

A mala pesava tanto no ombro que Rita não conseguiu conter um gemido. As dores na zona lombar atormentavam-na há dois meses e já pareciam não querer largá-la. Soltou as malas cuidadosamente no pavimento irregular da paragem.

Respirou fundo. O bebé dentro da barriga mexeu-se com impaciência. Seis meses de gravidez isso não era brincadeira. E Rita, que decidiu antecipar o regresso a casa em três dias para fazer uma surpresa ao marido, sentia já tantas saudades que, nas últimas horas da viagem de autocarro, contou cada quilómetro.

O que estará o João a fazer agora? Provavelmente nem imagina que ela já está ali, a poucos minutos a pé de casa. O caminho até ao prédio parecia interminável. As malas, cheias de doces caseiros, chouriços e maçãs do quintal, pesavam-lhe como chumbo.

Depois de uns cinquenta metros, tornou-se evidente: não ia conseguir levá-las. As costas não aguentavam mais.

Tirou o telemóvel e ligou ao marido.

Joãozinho, olá sussurrou ela quando ele finalmente atendeu.

Rita? O que se passa? Está tudo bem? perguntou ele, alarmado.

Está, está tudo bem. Cheguei! Estou na paragem mesmo em frente ao prédio. Vens buscar-me? As malas são impossíveis, a mãe encheu-me de coisas

Na linha, um silêncio estranho. Rita até olhou para o visor, a ver se a chamada tinha ido abaixo.

Estás na paragem? Agora mesmo? Mas porquê que não disseste nada? Combinámos que vinhas só quinta!

Queria fazer-te uma surpresa respondeu ela, já a franzir a testa. João, não ficas contente? Estou exausta. Anda lá, preciso de comer e deitar-me.

Espera! Não venhas já. Ou melhor, vem, mas… Rita, olha, aqui em casa não há nada para comer. Ontem acabei o que havia. Faz assim: aproveita e passa já no supermercado 24h, o do fim da rua. Compra carne, boa vitela. Fiquei em casa hoje, tirei o dia de folga. Quero preparar um almoço em condições para te receber.

Carne, João? Rita ficou confusa. Estás a ouvir-me? Estou grávida, com seis meses, cheia de sacos gigantes!

As minhas costas não aguentam. Há batatas e ovos em casa. Anda só buscar-me, preciso de comer e descansar.

Não percebes disparou ele, falando ainda mais depressa, sem lhe dar tempo. Quero que esteja tudo perfeito. Anda lá, é só ires ali buscar vitela e umas batatas novas, que as que temos já estão murchas. Ou pede a alguém para te ajudar, ou então leva aos poucos… Por favor! É pelos dois. Eu preparo tudo aqui.

Rita olhou para as mãos vermelhas. Sentiu-se queimar por dentro, uma onda amarga a subir-lhe ao peito.

João, tens mesmo noção? a voz perdeu força. Estás a sugerir que, neste estado, cheia de malas, vá ao supermercado porque queres fazer almoço?

Tu não podes descer e ir tu?

Já comecei… a… preparar tudo! Se for agora, estrago tudo. Rita, por favor, faz isso por mim. Compra 800 gramas de vitela e um saquito de batatas. Anda, estou à tua espera!

Ele desligou. Rita ficou a olhar o ecrã negro do telemóvel. Não queria acreditar. Apetecia-lhe chorar ali mesmo, sozinha, sob o candeeiro frio da rua. Em vez de abraço e cama quente, ia ao talho. Talvez ele esteja, de facto, a planear algo especial? Suspirou, ergueu as malas e lá foi, a mancar, até ao supermercado.

No supermercado, empurrava o carrinho lentamente, sentindo o olhar de pena da funcionária do caixa. O tabuleiro da carne era pesado, o saco de batatas quase impossível de erguer. Quando saiu, já não sentia as mãos; os dedos rígidos como ganchos.

O telemóvel voltou a vibrar.

Já compraste? perguntou o João, todo entusiasmado.

Comprei, atirou ela, entre dentes. Já estou à porta do prédio. Abre.

Espera! Não subas! Fica sentada no banco à entrada. Só uns dez minutos.

A sério? gritou ela, já indiferente aos olhares dos que passavam. João, que dez minutos? Tenho as pernas a inchar, nem me consigo manter de pé!

O meu surpresa ainda não está pronto! teimava ele. Se subires já, estragas tudo. Senta-te lá, respira um bocado. Cinco minutos, Rita, prometo! Tenho mesmo que desligar senão não acabo!

Sentou-se pesadamente no banco de madeira, junto à entrada. Os sacos tombaram ruidosamente. Queria mesmo era atirar a carne à janela do terceiro andar.

Dez minutos passaram. Depois vinte. Rita sentia o tumulto a crescer-lhe dentro do peito. Imaginava-se a entrar e… o quê? Um mar de flores? Pequeno-almoço à luz das velas? Um violinista encostado à parede? Nada justificava estar, naquele estado, sentada ao frio depois de tanta viagem.

Ao fim de trinta e cinco minutos, a porta rangiu. João apareceu, com ar decidido e um pouco ridículo: t-shirt ao contrário, suor na testa, cabelo despenteado.

Ah, cá estás! forçou um sorriso, pegando nos sacos. Porque estás assim tão irritada? Está uma noite tão boa… bem, fique, vamos lá!

Porque estás todo suado? perguntou ela, levantando-se com esforço e apoiando-se no corrimão. E cheiras tanto a lixívia…

Vais já perceber! ele saltitou até ao elevador, animado.

Ao subir, João abriu a porta com solenidade, esperava aprovação. Rita entrou, sentiu de imediato o cheiro agressivo da lixívia e do ambientador barato a brisa marinha.

Passou à sala. À cozinha. Espreitou na casa de banho. O apartamento estava limpo, quase vazio. Os trapos do costume tinham desaparecido das cadeiras. O tapete aspirado, restava aqui e ali sinais de ainda estar húmido; nem pó nas prateleiras. As suas estatuetas estavam empilhadas num canto.

Então? João brilhava como uma moeda de euro nova. Que tal? Surpresa!

Rita demorou a responder.

Só isto…? perguntou, num fio de voz.

Como assim só? Rita, repara! Passei três horas a esfregar a casa toda! Lavei tudo, até atrás do sofá! Loiça, sanita, tudo. Queria que chegasses e sentisses tudo impecável, que não precisasses de fazer nada. Corri feito doido enquanto tu… foste às compras.

Rita sentiu o nó na garganta.

Fizeste-me ir ao supermercado… por causa disto? Não podias ter descido? Pedi que me viesses buscar! E tu… limpavas o chão?

Claro! Pensei que era o melhor! Andas sempre a reclamar que nada faço em casa. Quis provar que me esforço. Chegaste mais cedo, não consegui acabar a tempo! Tive que te atrasar. E tu, em vez de agradeceres, ficas com esse ar, parece que te faltei ao respeito!

Ó João, estás bem? não se conteve, e a voz elevou-se. Não quero saber do teu chão! Tenho dores, tinha as malas pesadas! Estou à espera de um filho, João! Percebes? Precisava que me desses a mão e me levasses a casa, não que andasses por aí de esfregona!

João corou, atirou o pano com força para dentro do lava-louça.

Lá está! Nunca estás satisfeita! Desde as cinco da manhã que ando a esfregar tudo, para agradar à minha mulher, faço uma surpresa. E tu chegas e só sabes reclamar! Já viste o estado disto? Nem no dia do nosso casamento!

Para quê essa limpeza à custa disto? ela quase ficou sem ar. Deixaste-me meia hora na rua! Fiquei gelada, tenho as pernas doridas! E ainda me mandaste comprar carne e batatas! Que surpresa é esta?

Olha, desculpa se não sou perfeito! Outra mulher ficava feliz por o marido limpar e ir cozinhar. Tu só pensas em ti! Ai, a minha gravidez, ai, a minha coluna! Eu também estou cansado, Rita! Mal dormi, queria tanto que te sentisses bem!

Rita tapou o rosto com as mãos.

Tu não entendes… choramingou. Não entendes mesmo. Trocaste o meu bem-estar pelo rodapé limpo.

Que interessa o rodapé! João quase gritava. Chegaste antes do tempo! Estragaste a surpresa! Viesse no dia combinado, entravas numa casa impecável e era tudo perfeito! Assim, fizeste-me de culpado. Tu é que és ingrata, Rita. Ingrata.

Saiu da cozinha, bateu a porta do quarto com força.

O bebé mexeu-se de novo. Rita sentou-se na cadeira, olhando para o saco da carne, que o João nunca guardou no frigorífico. Sentia-se mal, a náusea voltava-lhe ao estômago.

Dez minutos depois, a porta da cozinha abriu.

Então queres que faça a carne? Ou agora nem para isso serves, só para me contrariar?

Não faças nada, João disse baixinho, sem o olhar. Deixa-me em paz. Quero dormir.

Pois faz favor! e bateu de novo com a porta.

Rita arrastou-se até à casa de banho. No espelho, via uma mulher pálida, de olheiras, o cabelo desgrenhado.

Lembrou-se do autocarro, de imaginar que o João a receberia com um abraço e Que bom que voltaste, meu amor. Pois. Um abraço…

Quando acabou por sair da casa de banho, recomeçaram a discutir. João ainda a criticou por outro pormenor sem significado.

Nesse dia, saiu como estava, felizmente nem tinha mudado de roupa. E voltou para a casa dos pais.

A família inteira tentou convencê-la a não se divorciar: sogros, cunhadas, até os tios mais distantes. E João telefonava a toda a hora, prometia que tinha mudado, pedia-lhe para voltar. Mas Rita já tinha decidido: aquele homem não era para ela. Iriam divorciar-se. Para quê um marido que põe uma casa limpa à frente da saúde do próprio filho?

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

4 × 1 =

Dasha chegou a casa mais cedo trazendo mimos dos pais. Queria surpreender o marido, mas em vez de uma receção calorosa, João mandou-a ao supermercado. As consequências foram inesperadas.
Bývalý ma pozval na večeru „aby sa ospravedlnil“… no ja som prišla s darčekom, ktorý nečakal. Pozvanie som dostala v úplne obyčajný deň — a práve preto ma zasiahlo tak silno. Mobil zavibroval, ja som stála v kuchyni s mokrými rukami a ledabolo zopnutými vlasmi. Na minulosť som nebola pripravená. „Ahoj. Môžeme sa stretnúť? Len na večeru. Chcem ti niečo povedať.“ Čítala som správu pomaly. Nie preto, že by som nerozumela slovám, ale preto, že som cítila ich váhu. Pred rokmi by som sa tohto posolstva chytila ako poslednej slamky. Vo svojej naivite by som verila, že je to znamenie — že mi osud vracia niečo, čo mi dlhuje. Ale dnes som už iná žena. Žena, ktorá dokáže zhasnúť svetlo a zaspať bez čakania na niečí telefonát. Žena, ktorá je spokojná sama a necíti sa opustená. Žena, ktorá nedá svoje pokojné srdce človeku, ktorý si ho predtým nevážil. Napriek tomu… som odpísala. „Dobre. Kde?“ A hneď na to som si uvedomila jednu vec: nenapísala som „prečo“. Nenapísala som „čo sa deje“. Nenapísala som „ako sa máš“. Nenapísala som „chýbaš mi“. To ma prinútilo sa usmiať. Netriasla som sa. Ja som si vyberala. Reštaurácia patrila k tým, kde svetlo dopadá na stoly ako zlato. Jemná hudba, biele obrusy, poháre, ktoré znejú draho, keď ich cinkneš. Prišla som trochu skôr. Nie z nedočkavosti, ale preto, že je dobré mať čas rozpozerať sa, nájsť východ a utriediť si myšlienky. Keď vošiel, hneď som si ho nespoznala. Nie preto, že by sa zmenil, ale akoby bol… viac unavený. Mal oblek, ktorý akoby kupoval pre niekoho iného. Príliš veľká snaha, málo pokoja. Uvidel ma a jeho pohľad sa na mne zdržal dlhšie, ako je vhodné. Nebola to túžba. Nebola to láska. Bol to zvláštny pocit: „Už nie je tam, kde som ju zanechal.“ – Ahoj – povedal ticho. Prikývla som. – Ahoj. Sadol si. Objednal víno. Potom — bez môjho súhlasu — objednal aj pre mňa, presne to, čo mi kedysi chutilo. Gesto, ktoré by ma vtedy dojalo, mi teraz prišlo ako trik. Muži niekedy myslia, že keď poznajú tvoj vkus, zaslúžia si tvoju spoločnosť. Napila som sa pomaly. Žiadny náhlenie. Začal niečím „správnym“: – Veľmi ti to pristane. Sledoval, či sa rozpustím. Jemne som sa usmiala. – Ďakujem. A nič viac. Hltal nasucho. – Neviem, kde začať – priznal. – Začni pravdou – povedala som pokojne. Atmosféra bola zvláštna. Keď sa žena prestane báť pravdy, muž sa zľakne, že ju musí povedať. Hľadel na pohár. – Urobil som voči tebe chybu. Medzera, ticho. Jeho slová zneli ako vlak, ktorý dorazí neskoro — už ho nikto nečaká. – Akú chybu? – opýtala som sa ticho. Horko sa usmial. – Vieš. – Nie. Povedz. Zdvihol pohľad. – …donútil som ťa cítiť sa malou. Napokon. Nepovedal „opustil som ťa“. Nepovedal „podvádzal som ťa“. Nepovedal „bál som sa ťa“. Povedal skutočné: že ma „potlačil“, aby sa mohol cítiť väčší. A potom začal hovoriť o strese, ambíciách, ako „ešte nebol pripravený“, ako som vraj bola „príliš silná“. Pozorne som ho počúvala. Nie preto, aby som ho súdila, ale aby som videla, či má odvahu priznať si vinu, bez toho, aby zo mňa spravil iba odraz svojho ega. Keď skončil, vydýchol: – Chcem sa vrátiť späť. Okamžite. Bez prípravy, bez hanby. Akoby návrat bol samozrejmosť, keď povie „ľutujem“. A tu prichádza moment, ktorý ženy dobre poznajú: Chlap z minulosti sa vráti nie preto, že ťa pochopil — ale preto, že nenašiel pohodlnejší úkryt pre svoje ego. Pozerala som na neho a pocítila niečo nečakané. Nebola to zlosť. Nebola to bolesť. Bola to jasnosť. Bol to človek, ktorý sa nevracia z lásky, ale z potreby. A ja už nie som riešením cudzej potreby. Prišiel dezert. Čašník položil tanier medzi nás. Úpenlivo ma sledoval. – Prosím… daj mi šancu. Kedysi by ma to „prosím“ rozložilo. Dnes znelo ako neskorá výčitka žene, ktorá už odišla. Z kabelky som vytiahla malú krabičku. Nebola z obchodu. Bola moja — jednoduchá, elegantná, nič okázalé. Položila som ju na stôl. Zažmurkal. – Čo je to? – Pre teba – povedala som. Oči mu zažiarili. Zas tá mužská nádej, že žena znovu „mäkne“, že znova dáva. Vzal ju a otvoril. Vo vnútri bol kľúč. Jediný obyčajný kľúč na jednoduchom krúžku. Zamračil sa. – Čo… to je? Napila som sa vína a pokojne odpovedala: – To je kľúč od starého bytu. Stuhol. Ten byt… tam boli naše posledné dni. Tam sa stalo to poníženie, ktoré som nikdy nikomu nepovedala. Spomenul si. Istotne, že spomenul. Predtým než som odchádzala, povedal mi: „Nechaj tu kľúč. Toto už nie je tvoje.“ V tej chvíli som mala nechať kľúč na stole a odísť. Bez scény, bez vysvetlenia. Ale pravda je… vtedy som si schovala rezervný. Nie pre pomstu. Ale preto, že každý koniec potrebuje bodku, nie tri bodky. A teraz, o roky neskôr, ten istý muž, ten istý stôl, ale iná žena. – Strážila som ho – povedala som. – Nie preto, že som dúfala v tvoj návrat. Ale preto, že som vedela, že raz sa budeš chcieť vrátiť ty. Zbledol. Snažil sa usmiať. – To… je žart? – Nie – odvetila som jemne. – Je to oslobodenie. Vzala som kľúč, zatvorila krabičku a dala ju späť do kabelky. – Prišla som dnes nie preto, aby si sa vrátil – povedala som. – Ale aby som sa presvedčila v niečom. – V čom? Pozrela som na neho. Tento raz bez lásky či nenávisti. Ako žena, ktorá už pozná pravdu a nebojí sa jej. – Že moje rozhodnutie bolo správne. Chcel ešte niečo povedať, no slová sa mu zasekli. Bol zvyknutý ovládať koniec rozhovoru. Teraz bol však koniec v mojich rukách. Postavila som sa, nechala peniaze na stole za svoju časť. Vstal rýchlo. – Počkaj… to je všetko? Takto to končí? Jemne som sa usmiala. Takmer nežne. – Nie. Takto to začína. – Čo začína? – Môj život bez tvojich pokusov vrátiť sa doň. Zostal stáť. Obliekla som si kabát, pomaly, dôstojne. V takých chvíľach sa žena nikam neponáhľa. A tesne pred odchodom som sa ešte otočila. – Ďakujem za večeru – povedala som. – Už nemám otázky. Ani „čo ak…“. Potom som odišla. Vonku bol vzduch chladný, svieži. Akoby mi Bratislava šepkala: „Vitaj vo voľnosti, ktorú si zaslúžiš.“ ❓A ty, ako by si reagovala, ak by sa ti bývalý vrátil s „ospravedlnením“ a chcel skúsiť všetko odznova — dala by si mu šancu, alebo by si zatvorila dvere s noblesou a hrdosťou?