A Leonor levou o noivo para passar uns dias na aldeia, mas ele logo impôs uma condição…
O Tiaguinho avistou o autocarro a guiar-se pelo caminho de terra batida que atravessava a aldeia, deixou cair a bola e desatou a correr para a paragem, como só os rapazinhos de oito anos sabem. A camisa aos quadrados aberta, o cabelo clarinho voava ao vento só pensava: A mãe! A mãe chegou! Só isso conseguia pensar enquanto corria.
Mas a Leonor não chegou sozinha do autocarro. Ao lado caminhava um homem rechonchudo de fato cinzento-claro. Avançava balançando a pasta, pose de diretor geral acabado de sair do Banco de Portugal. Tiaguinho correu para a mãe e agarrou-lhe a mão com força, com um sorriso de orelha a orelha.
Olá, filho! disse Leonor, já na casa dos trinta, enquanto lhe dava um beijo no alto da cabeça.
Olá, miúdo! exclamou o homem, e logo lhe atirou uma palmada nos caracóis. A mão do estranho era pesada e Tiaguinho desequilibrou-se com o entusiasmo do cumprimento.
Entrem, venham sentar-se convidava com respeito a Dona Rosa, mãe da Leonor.
Obrigado, obrigado, minha senhora respondeu o Sr. António Mota, lançando um olhar gulosão à mesa carregada.
Isto sim, é vida de aldeia! exclamou ele, apontando para a mesa. Na cidade é tudo senhas e racionamentos, crise e blá blá blá, aqui vive-se do que se planta, mastiga-se o próprio enchido.
E o leite e a nata vêm diretamente do curral acrescentou Dona Rosa, cantando as vantagens da aldeia e a fruta da horta, tudo nosso.
Enquanto houver força, continuamos a fazer tudo à moda antiga respondeu o Sr. Joaquim, pai da Leonor, homem reservado, magro, que passou a vida a trabalhar no trator do herdade.
Nós lá nos vamos safando, senhas ou não senhas. Ainda apanho umas coisitas pela mão da minha irmã, que tem jeito para desencantar uns produtos da cooperativa vangloriou-se o António, dando uma festa na careca rala até vou abastecendo a Leonor de iguarias.
Tiaguinho estudava o novo dondo, matutando em mil desculpas para se aproximar. Na cidade, onde vivia com a mãe, ia à escola, jogava à bola com os amigos, e via com inveja os pais dos outros miúdos. Imaginava como seria ter um pai: ir ao zoo com ele, ou jogar futebol. Ainda pensava se o pai seria tipo o senhor do Vítor, ou mais como o do Sérgio. Agora, sentado à mesa, este homem barrigudo parecia mesmo ser a versão aldeã de pai.
Agarrou então no aviãozinho de madeira que o avô Joaquim lhe tinha feito com as asas bem lixadas para parecer avião a sério e, todo envergonhado, foi mostrar ao convidado: Olhe só o avião! e estendeu o brinquedo.
Eh, pá, deixa cá ver isso António pegou no avião e, de repente, deu-lhe uma bordoada no hélice com os dedos, o qual, em vez de rodar, voou logo para longe.
Isso está fraco disse António, entregando o avião de volta.
Tiaguinho apanhou o hélice e foi olhar para o avô.
Pronto, depois meto isso no sítio prometeu o avô Joaquim.
O António é nosso encarregado lá na fábrica interrompeu logo a Leonor, mudando de assunto. Chefe da oficina.
O António armou-se ainda mais, enchendo o peito, e olhou para a Leonor com ar de quem perdoa tudo:
Pois, é o que há.
Leonor, costureira de mãos cheias, ia casar-se pela primeira vez, contente com o partido um homem de respeito, mais velho, com estatuto. Puxava sempre mais um petisco para o lado dele: sardinhas fritas, panquecas com nata, tudo servido com um sorriso.
Cá fora, na varanda, António abriu os braços: Ó que maravilha, pá! E este ar?! Isto sim!
Estás a gostar, António?
Claro, muito.
Então olha, amanhã vamos para Lisboa, levamos o Tiaguinho, temos de lhe comprar a roupa da escola.
Ó Leonor, para que o levas para cidade? Aqui não há escola?
Aqui só há escola primária, António…
Que fique aqui mais um ano, que mal é que faz? A gente aproveita, remodela a casa, mete uns móveis novos… Aquilo que tens lá parece saído do museu.
Dona Rosa lançou um olhar aflito ao marido diante do plano de António. O Sr. Joaquim, no seu jeito quieto, franziu o bigode numa careta que já denunciava aborrecimento, a matutar nas ideias do genro.
Isto nem é proposta, é uma condição murmurou o Sr. Joaquim, puxando ainda mais o bigode.
No dia seguinte, enquanto Leonor explicava porque não levava o filho de volta à cidade, Tiaguinho assentia com a cabeça, sem dizer uma palavra. Mas, quando Leonor e António se encaminharam para o autocarro, o miúdo desapareceu procuraram-no no sótão, no barracão do avô, mas nada.
Mas onde raio se meteu o rapaz? A bicicleta está cá inquietou-se Dona Rosa.
Com certeza está com os amigos! desvalorizou António.
Leonor espreitou pela quinta desesperada Tiaguinho, que se escondera no galinheiro, espreitava por entre as tábuas. Morreu de vontade de sair a correr para a mãe, agarrar-lhe a mão, mas aguentou calado. Sentia-se a mais desde que o careca lá tinha aparecido.
Com o aviãozinho partido na mão, soltaram-se-lhe as lágrimas pelas bochechas. Ele não era de chorar, nem quando o avô lhe deu uma palmada por ter tentado fugir com o bote do rio sempre soube que o avô era justo. Mas agora, sem ninguém lhe tocar, não parava de chorar, limpava os olhos à manga, tudo com vontade de secar aquela chuva pelos próprios punhos.
Já apareceu! gritou a avó, quando Leonor e António já tinham partido. Não chores, menino, mãe volta daqui a um mês como prometeu. E nós tratamos tudo, até te compramos a farda na loja do concelho tu gostas de cá estar, não gostas?
Tiaguinho baixou a cabeça. Lembrou-se dos colegas, dos amigos, e uma saudade de ir para Lisboa cresceu. Tinha, claro, amigos na aldeia, mas sentia-se sempre de passagem: vivia o verão com os avós, mas era rapaz de cidade, onde tinha escola, amigos, tudo.
A semana passou num instante. Entre corridas e brincadeiras, a saudade da mãe ia-se esbatendo.
Dona Rosa quase deixou o balde cair ao ver a Leonor à porta:
Ó filha! Nem te esperávamos já.
Leonor sentou-se cansada no banco:
Prometi que voltava em mês, mas daqui a duas semanas já cá estava vim buscar o Tiaguinho.
Então e não era para o deixares cá o ano? Mudou de ideias o António?
Quem mudou fui eu, mãe. Não vou andar a despachar o meu filho. O António afinal gosta muito de visitar a dona Sílvia, a contabilista agora leva-lhe os queijos e enchidos da irmã, que ela é solteira Eu, pelos vistos, é que sou a embalagem extra, com o dote do Tiaguinho pôs-me uma condição: ou deixava o rapaz na aldeia, ou nada.
Dona Rosa olhava a filha com um misto de alívio e pena queria-lhe felicidade, mas não era assim que a via.
Se calhar foi o melhor, filha.
Claro que sim, mãe. Vou levar o Tiaguinho, compro-lhe a farda, a mochila nova, e ele lá vai para o segundo ano Vamos ficar como antes. Vivemos bem só os dois, não precisamos de favores nem de dádivas. O que queria era uma família, mãe, não cabazes.
Tiaguinho apareceu à porta e ficou pasmado ao ver a mãe ali. Esqueceu-se imediatamente do que o tinha magoado, correu para ela com um grito sufocado: Mãããe!
Filho! Tive tantas saudades! Leonor apertou-o com força. Vim-te buscar para arranjar tudo para a escola.
Tiaguinho olhou incrédulo:
Vamos viver como antes: tu a estudar, eu a ver os teus trabalhos de casa, e vou inscrever-te no clube de futebol, lembras-te?
Tiaguinho entalava tudo o que conseguia na mochila, não fosse a mãe carregar peso demais.
Calma, filho, isso pesa…
Não faz mal, eu sou forte!
O avô Joaquim e a avó Rosa acompanharam-nos à paragem. O autocarro parou, piscando os faróis, e só arrancou quando mãe e filho estavam sentados.
Tiaguinho encostou-se à janela, acenando até perder os avós de vista. Nas mãos levava o aviãozinho de madeira reparado com jeito pelo avô e foi espreitando a mãe, sentindo-se finalmente em casa. Era uma alegria tão grande sentar-se ao lado do seu maior tesouro: a mãe.






