Sombras do Passado Valentina Soares cuidadosamente limpava o pó dos volumes antigos de Eça de Queir…

Sombras do Passado

Valentina Maria limpava com meticulosidade o pó dos volumes antigos de Eça de Queirós, quando o carteiro bateu à porta de vidro do seu pequeno alfarrabista na Rua de Santa Catarina. No cinzento outono portuense, a chuva lá fora tornava o dia ainda mais sombrio exactamente três meses após o funeral de António.

Tem aqui uma carta, o carteiro entregou-lhe um envelope branco, sem remetente. Assine, por favor.

Valentina ergueu as sobrancelhas, meio surpreendida. Na era do e-mail, cartas em papel eram como moedas de ouro; anónimas então, só se via nos filmes da RTP Memória. Enfiou os óculos de leitura e abriu o envelope ali mesmo, junto ao balcão.

“Estimada Valentina Maria. Sei que não é correcto incomodá-la neste período de luto, mas a minha consciência já não aguenta o peso do silêncio. O seu falecido marido, António Lopes, viveu uma segunda vida nos últimos vinte anos. Se quiser saber a verdade, venha amanhã às duas da tarde ao café Idiota na Rua dos Mártires da Liberdade. Estarei com um cachecol vermelho. Perdoe-me pela dor.”

As mãos de Valentina tremiam tanto que o papel caiu ao chão. Sentou-se na cadeira atrás da caixa, sentindo que o chão girava. António? O seu António, que lhe dava um beijo na testa todas as manhãs antes de sair para a Faculdade? Que lhe lia poesia de Pessoa ao jantar? Que morreu de ataque cardíaco a meio de uma aula sobre Saramago?

Isto só pode ser engano, murmurou para o alfarrabista vazio. Ou então alguém resolveu fazer-me uma piada de mau gosto.

Mas a dúvida já brotava como erva daninha. Naquela noite, Valentina não pregou olho, recordando os episódios estranhos dos últimos anos: as constantes viagens de António para congressos misteriosos, os telefonemas que terminavam sempre na varanda, os extratos bancários que ele fazia questão de apanhar primeiro

No dia seguinte, às duas em ponto, Valentina entrou no café “Idiota”. Num canto, uma mulher jovem, talvez trinta anos, de rosto bonito e olhos cinzentos carregados de tristeza, tinha um cachecol vermelho enrolado ao pescoço.

Valentina Maria? levantou-se a mulher. Chamo-me Constança. Obrigada por ter vindo.

Quem é você? A voz de Valentina tremia de raiva contida. Como se atreve a escrever essas coisas sobre o meu marido?

Constança retirou da mala uma fotografia envelhecida. António, com quinze anos a menos, abraçava uma mulher com uma criança ao colo.

Esta é minha mãe, disse Constança, baixinho. E a criança sou eu. António Lopes… ele foi o meu pai. Não biológico, mas cuidou de mim desde os meus cinco anos. A minha mãe morreu há um ano, de cancro. Antes de partir, pediu-me para encontrá-la e contar-lhe tudo. Nunca consegui, enquanto ele era vivo.

Valentina sentiu o chão fugir-lhe. Uma empregada trouxe água, mas ela nem conseguiu pegar no copo, tal era o tremor das suas mãos.

Isto é impossível, sussurrou. Fui casada com ele quarenta e cinco anos. Nunca tivemos segredos.

Ele amava-a, Constança inclinou-se. Falava de si com uma ternura enorme. Mas a minha mãe precisava dele, desesperadamente. Sofria de doença mental. Após o meu pai verdadeiro nos abandonar, tentou várias vezes dar fim à vida. António era o professor dela no mestrado. Salvou-a. Depois… não conseguiu ir embora.

Vinte anos, Valentina abanou a cabeça. Vinte anos de mentira.

Não era mentira, contestou Constança. Ele dividia-se entre o dever e o amor. Pagava o tratamento médico da mãe, a minha escola. E todas as noites voltava para si. A minha mãe sabia que ele era casado. Nunca pediu mais.

Valentina levantou-se com tal força que tombou o copo.

Preciso de pensar. Não me procure mais.

Saiu do café sem olhar para trás. Na rua, a chuva misturava-se com as lágrimas no seu rosto. Quarenta e cinco anos de casamento seriam uma ilusão? Ou não?

Em casa, Valentina começou a investigar. Vasculhou todas as gavetas de António, todos os papéis. Num velho porta-documentos, atrás do forro, achou uma chave de caixa forte e um recibo em nome de P. S. Correia o apelido de solteira da mãe de António, que ele nunca usava.

No banco, apresentando o certificado de óbito e os papéis de herança, lá teve acesso à caixa. Dentro, documentos: contrato de arrendamento de um apartamento em Paranhos, relatórios médicos da mãe de Constança com diagnóstico de bipolaridade, fotos de Constança em todas as idades, diários, um diploma. E o diário de António.

Sentou-se no chão frio do cofre do banco e começou a ler.

Sou um cobarde. Sei bem. Mas não consigo agir de outra forma. Valentina é a minha luz, a minha âncora, a minha verdadeira vida. Mas Helena e Constança… elas morreriam sem mim. Helena tenta outra vez cortar os pulsos quando falo em sair. Constança… vê-me como pai. Como posso abandoná-la?

Hoje Constança entrou em Letras na Universidade do Porto. Quer ser como eu ensinar literatura. Tenho orgulho nela e ao mesmo tempo detesto-me. Valentina perguntou porque chorava. Disse que me emocionei a ler Os Maias. Era verdade também chorava pela minha vida partida.

Helena está a morrer. Cancro. Os médicos dão-lhe meses. Ela pede apenas uma coisa que conte a verdade a Valentina após a sua morte. Prometi, mas sei que não terei coragem. Sou um cobarde. Sempre fui.

A última entrada era de uma semana antes da morte de António:

O meu coração não aguenta mais. Literalmente. Cardiologista diz que preciso de operação, mas sei bem isto é o preço. Vivi duas vidas, e agora o coração quebra-se. Valentina, se um dia leres isto perdoa este velho parvo. Amei-te todos os segundos da nossa vida juntos. Mas também nunca consegui abandonar uma mulher doente e uma criança. Perdoa-me.

Valentina fechou o diário. Sentada no chão gelado, pensava nos quarenta e cinco anos de casada. Teriam sido uma farsa? Ou António realmente a amava, apenas foi apanhado numa encruzilhada impossível?

Lembrou-se dos olhos dele cansados, mas sempre meigos ao olhar para ela. Lembrou-se da mão dele, firme, ao segurar a sua na urgência com pneumonia. Das leituras de poesia; das gargalhadas com os seus trocadilhos.

Naquela noite, Valentina ligou para Paulo Sérgio o amigo fiel de António, da Faculdade.

Paulo, tu sabias?

Longo silêncio.

Valentina… sim. Ele pediu-me para assinar como testemunha no contrato de arrendamento. Desculpa.

Por que não me deixou? a voz tremia.

Porque te amava. Juro que sim. Mas aquela mulher… tentou morrer várias vezes. António não conseguia viver com a culpa de ser a razão da morte de alguém. Depois veio a menina, que o chamou de pai

Valentina desligou. Aproximou-se da janela e olhou para o Porto iluminado, refletido no asfalto molhado.

Uma semana depois, encontrou-se novamente com Constança, desta vez no alfarrabista.

Conte-me sobre ele, pediu Valentina. Sobre a vida que eu nunca soube.

Constança narrou durante horas. Como António lhe ensinou a andar de bicicleta na Foz. Como resolvia os trabalhos de casa. Como consolava a mãe nos dias sombrios. Como chorou na sua formatura.

Falava muito de si, confessou Constança. Chamava-a de seu anjo. Dizia que não merecia uma mulher assim.

Estava enganado, Valentina limpou as lágrimas. Eu é que não sou digna de um homem capaz de carregar o peso de amor e dever durante vinte anos sem quebrar.

Não está zangada?

Estou. Zangada sim. Mas também… compreendo. A vida nunca é preto no branco, minha querida. Especialmente quando é sobre amor e responsabilidade.

Valentina retirou da prateleira um volume de Saramago.

Ele adorava O Conto da Ilha Desconhecida. Agora percebo porquê. Leve-o. Era o exemplar dele.

Constança segurou o livro, mãos tremendo.

Valentina Maria… lamento tanto.

Não lamentes, Valentina tocou-lhe no braço. Não tens culpa. Nenhum de nós tem. Nem António. Ele só quis ser uma boa pessoa num cenário impossível.

Constança partiu; Valentina ficou muito tempo sentada no alfarrabista vazio. Pensava em António, na vida dupla, no fardo levado tantos anos. E no amor esquisito, cheio de falhas, mas verdadeiro.

Abriu o diário do marido e na última página acrescentou:

“António, meu querido. Agora sei tudo e entendo. Perdoo-te. Mais ainda orgulha-me saber que foste capaz de carregar este fardo. Descansa, meu amor. Os teus segredos ficam comigo, e a tua memória pura. Vou cuidar da Constança. Afinal, ela é parte de ti, e portanto parte de mim.”

Valentina encerrou o diário e guardou-o no cofre. Amanhã seria um novo dia. Continuaria a viver, a honrar o marido, e talvez encontrasse em Constança a filha que nunca teve com António.

A vida continuava complicada, repleta de verdades e segredos, mas autêntica. Tal como o amor, que venceu a mentira, a morte e tudo o mais.

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