Leonor, minha querida, eu entendo perfeitamente, mas não temos outra saída. Vai ter que ser assim. Vamos precisar vender a casa. Depois de dividir o dinheiro, só vai sobrar o suficiente para comprarmos um apartamento noutro bairro. Juro que também gostava de ficar aqui, mas não está a ser possível. Maria segurava as mãos da filha, de vez em quando limpando as lágrimas, tanto das suas como das da menina.
Estas mudanças estavam a ser muito difíceis para ambas.
Maria e o marido, António, viveram juntos quase dezassete anos. Passaram por muita coisa, claro, mas gostavam realmente um do outro, e qualquer discussão acabava rapidamente, antes mesmo de começar a sério. Educada pela avó, Maria percebeu desde cedo a lição mais importante que esta lhe tentou ensinar sobre a vida em família: «Em casa tem de ser sempre acolhedor! O homem nunca deve procurar outro lugar onde se sinta compreendido, acarinhado, aceite. Onde sinta que está melhor do que ao teu lado. Faz com que todos se sintam bem na tua casa: marido, filhos, amigos, até os animais. Todos, sem exceção!»
Maria assentia, sem perceber bem no início, apenas sentia que a avó queria partilhar o que tinha aprendido na vida. A casa e a família dela sempre tinham esse conforto. Até ao dia em que o avô morreu ao tentar salvar o filho e a nora que se afogavam no rio, junto à casa de campo. Um rio que parecia calmo, mas que só os locais sabiam esconder perigosas correntes. Maria do Céu nunca se perdoou por não ter sido mais cautelosa, por não ter perguntado aos vizinhos sobre os perigos daquele rio Achava sempre que, se tivesse perguntado a tempo, o filho, o marido e, principalmente, a nora que a avó considerava uma filha , estariam vivos. Anos e anos Maria disse-lhe vezes sem conta que a culpa não era dela, mas a avó nunca se perdoou realmente.
Quando ficou sozinha com a neta, Maria do Céu tentou deixar de lado o próprio sofrimento, sabendo que a menina precisava de continuar a viver e de encontrar alegria e esperança, e não viver eternamente de luto. Só em dias especiais, quando visitava os entes queridos no cemitério, se permitia soltar as lágrimas e deixar correr toda a dor acumulada. Depois, contava-lhes as novidades, dizia como ela e Maria estavam, e prometia sempre que faria tudo para que a neta fosse feliz.
Deu-lhe uma casa cheia de amor, deu-lhe uma educação por que se podia orgulhar, casou a neta, e ainda teve tempo de conhecer e pegar ao colo a bisneta, antes da doença a levar para onde os seus já a esperavam. Maria ficou então totalmente sozinha, sem mais família chegada.
Mais tarde percebeu que Maria do Céu tinha razão quanto ao que significa um lar e uma família, mas não completamente. Ter uma casa acolhedora é importante. Mas há exceções
Raramente havia motivos realmente sérios para discussões entre Maria e António. Mas, quando havia, quase sempre tinham a ver com a sogra.
Rosário Antunes era daquelas pessoas que todos, no bairro de Campo de Ourique, conheciam como «A Mãe», mesmo com M maiúsculo. Na cabeça dela, a sua opinião era sempre a correta, indiscutível.
António não foi fácil de criar. Era o sexto filho, mas o único a sobreviver ao parto. Toda a ternura e amor, tal como Rosário sabia demonstrar, foi despejada no filho.
António gostava muito da mãe, talvez por isso nunca conseguiu de facto opor-se a ela, embora tentasse, como também o fez o pai. Ambos optaram por ouvir em silêncio, anuir, e depois fazer as coisas à sua maneira.
Quando começou a gostar de Maria, António adiou ao máximo conhecer os pais dele, prevendo como seria difícil. Já Maria apresentou-lhe rapidamente a avó. Sem dar razões, António só reconheceu o verdadeiro motivo quando Maria, sentida, lhe disse:
Estás a esconder-me? Não sou digna de conhecer os teus pais? Falas à tua avó como se eu fosse tudo para ti, falas do casamento e ainda não conheço a tua família.
António suspirou, beijou-lhe a testa e respondeu:
Tenho medo que te vás arrepender.
Que disparate! Eu vou casar contigo, não com a tua família!
Como tinha sido ingénua…
O primeiro encontro com Rosário foi gelado. Medindo-a com o olhar, perguntou logo:
Filha, quem eram os teus pais?
A minha mãe era professora na faculdade de Medicina, e o meu pai médico. Mas pouco me lembro deles, morreram quando eu tinha cinco anos. Fui criada pela minha avó.
Está bem, percebo.
E não lhe dirigiu mais palavra nesse dia. Depois de viver alguns anos com António, Maria adotou a mesma estratégia de evitar conflitos, mas isso resolvia muito pouco. Quem mais sofria era António, na tentativa de manter uma paz impossível entre mãe e esposa, enquanto Maria tentava conter discussões e suavizar arestas. Acabada de tudo, pediu ao marido que limitasse ao mínimo indispensável as visitas à mãe. António só abanou a cabeça, já exausto, e abraçou a mulher.
Desculpa, amor
As coisas pioraram depois da morte do sogro. O pai de António adoeceu e partiu em pouco mais de um mês. Rosário fez questão de lembrar ao filho que agora era ele o responsável por ela. Não foi surpresa para António. Passou então a ir jantar quase todos os dias em casa da mãe, chegando a casa só perto da meia-noite. Esta rotina talvez continuasse indefinidamente, se a pequena Leonor, com apenas três anos, não tivesse começado a revoltar-se: recusava-se a estar com o pai, mostrando magoada a sua ausência.
Ela tem saudades, António. Quase não te vê, só nos domingos. Maria percebia o peso no coração do marido, mas sabia que tinha de agir, antes que a relação entre pai e filha se desfizesse de vez.
Maria começou a sentir raiva. Já tinha passado mais de um ano e Rosário, apesar da idade, estava saudável. Mantinha uma vida ativa adorava ir ao teatro e a exposições, e levava invariavelmente o filho com ela. Uma coisa é ajudar a mãe, outra é privar uma criança do pai. Maria aguentava a solidão dela, mas não admitia que a filha fosse privada da presença do pai.
António, temos de resolver isto. A Leonor precisa de ti. E eu também. Maria encostou-se ao marido. Tenho saudades
O ambiente explodiu, mas António conseguiu garantir que só iria duas vezes por semana a casa da mãe. Com o passar do tempo, Rosário acabou por aceitar, ou pelo menos fingiu.
Um dia, ainda em idade de frequentar o infantário, Leonor recebeu um trabalho: desenhar a família como personagens de conto de fadas. Não conseguiu terminar lá, e a educadora deixou-a acabar em casa. Depois do jantar, com toda a concentração, Leonor dedicou-se ao desenho. Quando Maria terminou de lavar a loiça e de estender a roupa, espreitou o álbum de desenhos e chamou o marido, entre risos e surpresa:
António, vem cá! Vais achar isto o máximo!
António olhou para o desenho e caiu para o sofá a rir. Leonor apenas olhava sem perceber, sentindo-se injustiçada, e começou a chorar, sentida.
Que havia de tão engraçado? No desenho, António era um cavaleiro, Maria era a Dama da Floresta, o avô era o Guardador dos Carvalhais, a bisavó uma gigantesca Oliveira de Ouro, e a avó, claro, era um Dragão das Sete Cabeças! As cabeças tinham levado imenso tempo a desenhar, custou-lhe o amarelo partido do lápis, não conseguindo fazer o fogo a sair da boca. Tinha pedido à mãe para lhe afiar o lápis, mas ela viu o desenho antes.
Leonor nunca gostou muito da avó Rosário. Sempre que vinha cá a casa normalmente só nos feriados só lhe apetecia mandá-la embora e fechar-lhe a porta na cara. Não percebia tudo o que se passava entre os adultos, mas tinha o faro certeiro das crianças: sabia que a avó não gostava da mãe e fazia questão de a magoar ou provocar. E era sempre aquilo: jamais gritos, tudo muito educado, mas no fim a mãe acabava triste e chorava. Leonor não sabia como defender a mãe. Chegou ao ponto de, certa vez, tentar empurrar a avó pela porta fora, mas o pai apanhou-a no colo e não deixou.
A tua filha é muito mal-educada, António! Embora, que mais se podia esperar? indignou-se Rosário.
Naquele dia, todos ouviram poucas e boas, mas, a partir daí, Rosário quase nunca mais apareceu, nem sequer em festas. O pai achou melhor assim. Agora, eram eles a ir ocasionalmente a casa da avó, e Leonor tentava sempre esquivar-se. Com a idade, percebeu que o ambiente era sempre pesado e a avó impunha-se de tal maneira que parecia que nem se conseguia respirar. Só verdadeiramente entendeu a avó quando perdeu o pai.
António morreu de repente. Ninguém no escritório percebeu bem o que se passou. Nem deu tempo de chamar os bombeiros. Ataque cardíaco fulminante. Tinha quarenta e quatro anos
Quando deram a notícia a Maria, estava no trabalho, numa ourivesaria. Caiu ao chão, desmaiou e, no impacto, partiu a vitrine das joias, assustando as colegas. Chamaram logo uma ambulância. Enquanto esperavam, cuidaram dela. Depois, quase não se lembrava de quem estava, mas Leonor estava alimentada, a casa arrumada e alguém lhe punha nas mãos uma caneca de chá, ou sopa, e trocava pelas horas, tentando que comesse alguma coisa quente.
Duas semanas depois do funeral, Maria sonhou com a avó.
Avó! Meu Deus, que saudades! Maria tentou abraçar Maria do Céu, mas ela afastou-a e olhou-a de forma severa.
O que andas a fazer?
Que queres dizer, avó?
E a Leonor?
Deve estar a dormir
Vamos! ainda sem se deixar tocar, a avó levou Maria até ao quarto da filha.
Dorme, dizes tu? Leonor estava encolhida sob o edredon, a chorar baixinho. Maria, acorda!
De repente, Maria acordou mesmo. Ouviu os soluços da filha, apercebeu-se que não era sonho. Saltou da cama e correu para o quarto.
Minha querida, não chores! Maria deitou-se junto da filha e abraçou-a. Estou aqui! Sempre!
Leonor retribuiu o abraço, chorando baixinho, enroscada à mãe.
«Obrigada, avó… Como fui capaz? Nunca me deixaste, estiveste sempre comigo e eu… Prometo, agora vou conseguir…»
Na manhã seguinte, Maria levantou-se de mansinho, para não acordar Leonor, e foi preparar o pequeno-almoço. O aroma dos seus famosos crepes de canela e baunilha espalhava-se por toda a casa. Leonor apareceu, enrolada no cobertor, espreitando para a cozinha.
Mãe?
Bom dia! Maria virou-se e Leonor percebeu que a mãe já não tinha a fita preta, que nem de noite tirava da cabeça. Vai lavar a cara. Já pus a mesa. Depois levo-te à escola.
Já é hora?
Maria apagou o fogão e abraçou a filha.
Já é sim, querida. O pai não ia querer que ficássemos a sofrer para sempre. Ele sempre sonhou ver-te feliz, ver sempre alegria à tua volta. Ele amava-te tanto Maria respirou fundo e, com esforço, continuou: E a mim também. Por isso, é assim que vai ser. Vamos em frente! E eu tenho de ir trabalhar, também já é hora para mim
Devagarinho, passo a passo, começaram a reconstruir a vida. Maria voltou ao trabalho, Leonor à escola. Agora, fazia questão de ajudar mais a mãe, arrumando a casa ou preparando refeições simples.
Poucos meses depois, Leonor recebeu o cartão de cidadão e celebraram o momento com um bolo de chocolate.
Olha, pai, já estou crescida! Leonor fez rodar o cartão, falando para a foto do pai na sala. Aposto que agora me puxavas as tranças e dizias que ainda era pequena…
Maria abraçou-a em silêncio.
Uma semana depois, numa noite fria, Rosário apareceu lá em casa.
Boa noite, Maria. Precisamos de conversar.
Não se viam desde o funeral. Nessa altura, a sogra tinha-se aproximado e murmurado:
A culpa é tua! Se não fosses tu, ele estava vivo! Sempre a pedir, a pedir… e foi assim que ele se consumiu… Tua culpa!
Denis, amigo de António, afastou Maria e ajudou-a a sair dali.
Não ligues, Maria! Olha para mim ajeitou-lhe os ombros , não ligues! Ninguém tem culpa. O António amava-vos mais do que tudo
Maria encostou-se ao ombro dele, mal se aguentava de pé.
Sentaram-na num banco em frente à Igreja, ficou ali até todos saírem Leonor ao lado dela, a ouvir um insulto da avó ao passar.
Agora, Rosário senta-se à mesa da cozinha, abatida, rosto pálido, mãos a tremer.
Quer chá?
Não vim para isso. Vim resolver o assunto da casa.
Maria ficou em choque.
Como assim?
A casa tinha sido construída depois de anos a poupar. Quando Maria estava grávida da Leonor, acompanhava sempre as obras, os pedreiros faziam-lhe as vontades, António brincava:
Contigo ninguém se atreve! Daqui a nada estamos aqui a morar!
O dia em que entraram na casa ficou gravado na memória de Maria. Era o seu ninho, decorado com carinho.
Maria, estas cortinas são iguais às do nosso antigo quarto.
Não percebes nada, o tom é diferente!
Discutiam, mas António achava piada.
Agora, diziam-lhe que não podia continuar ali.
Não tens escolha! Rosário resolveu-se, pousando firmemente as mãos. Vais ter que vender. Quero a minha parte da herança.
Que herança?
Aquela a que tenho direito por lei. Vais-me dar tudo, até ao último cêntimo.
Nenhuma notou Leonor à porta.
Vai-te embora! Leonor entrou, punhos cerrados.
O quê? Estás a falar comigo assim?
Estou sim. Vai-te embora, não voltes cá!
És malcriada! Em quem é que te tornaste?
No meu pai! Leonor gritou.
Não, és como a tua mãe
Não volte a dizer mal da minha mãe! Ainda pensa que sou pequena e não entendo nada? Entendo tudo. Saia daqui e trate de nunca mais voltar.
Do nervosismo, Leonor passou a tratar a avó por você.
Maria levantou-se, abraçou Leonor e conduziu-a para fora.
Obrigada, querida, agora deixa que eu trato disto. Vai para o teu quarto.
Leonor saiu, Maria voltou à cozinha, os olhos fixos em Rosário.
O que foi isto? Criaste a minha filha contra mim!
Não criei nada, foi você mesma…
Rosário quis responder, mas Maria interrompeu-a, firme pela primeira vez.
Basta! A Leonor tem razão. Não é bem-vinda cá em casa. Vou falar com um advogado e depois saberá da nossa decisão. Vai receber tudo a que tem direito e depois não quero ver mais ninguém.
Não penses! disparou Rosário.
Não penso, faço. Tenho pena de si pela primeira vez, olhou a sogra com compaixão. Vai ficar sozinha…
Não te metas! quase gritou Rosário, agarrando a mala e saindo rapidamente.
Leonor ouviu a porta e apareceu na cozinha, encontrando a mãe sentada, cabeça entre as mãos.
Mãe?
Sim, filha Maria limpou os olhos, sorriu.
Ela fala a sério? Temos mesmo de sair daqui?
Não sei. Logo vejo. O que fazes em casa a esta hora? Ainda tinhas aulas.
A de matemática foi cancelada, a mãe da Matilde trouxe-me. Nem me apeteceu ligar-te.
Pronto… Tens muitos trabalhos para casa?
Voltaram à conversa habitual e, aos poucos, a tempestade que Rosário deixara começou a dissipar-se.
Mãe, porque é que as pessoas não se gostam? Por que odeiam tanto?
Estavam no sofá da sala, aninhadas, com a televisão ligada, mas só a fazer companhia uma à outra.
Existem muitos motivos. Estás a falar da tua avó, não é?
Sim. Porque é que ela te odeia tanto? E a mim?
A mim é óbvio. Nunca gostou de mim.
Porquê?
Porque achava que eu lhe estava a roubar o filho.
E era verdade?
Claro que não. Eu queria uma família, dar-te a ti e talvez mais irmãos. Achei que os pais deviam sonhar com netos.
Mas a mim também nunca quis
Não é bem assim. Ficou feliz quando nasceste. Espera! Maria levantou-se e voltou com um casaquinho de tricô e uma manta. A avó fez isto para ti.
Leonor admirou o bordado.
Isto levou imenso tempo a fazer
Pois levou. Só se faz assim algo bonito quando se quer alegrar alguém. E para um bebé só se espera mesmo, com carinho.
Leonor ficou pensativa.
Então porque é agora assim?
Não sei, Leonor. Acho que é da solidão, da dor. Nem sempre é fácil aguentar. Às vezes, as pessoas caem numa tristeza tão fundo que só veem raiva à sua volta. Não fiques zangada com a avó. O que faz agora só se entende quando é a dor a falar O melhor é sentires um pouco de pena dela. Temos-nos uma à outra, mas ela está sozinha.
No dia seguinte, Maria ligou a Denis e pediu ajuda para arranjar um advogado. Descobriu que tinha mesmo de vender a casa. Os poucos euros que tinham economizado tinham ido todos para a obra.
Naquela noite, falou honestamente com Leonor e começaram a procurar apartamentos onde pudessem viver.
Mas Leonor tinha outros planos. Na manhã seguinte, fingindo que ia para a escola, foi a casa da avó.
O que fazes aqui? perguntou Rosário.
Em silêncio, Leonor deu-lhe o casaquinho e a manta.
O que é isto? a voz tremia.
Está lindo. Sei que o fez para mim.
Entra
À noite, Leonor foi à sala, onde Maria procurava apartamentos online, e abraçou-a.
Mãe!
Sim? Maria mantinha os olhos no ecrã.
Nós não precisamos de sair daqui.
Como assim?
Não precisamos. Falei com a avó.
Maria ficou pasmada.
O quê?
Fui lá hoje falar com ela. Ela vai abdicar da herança.
Não percebo
Disse-lhe que não queria que ela ficasse sozinha. Dei-lhe a escolha: ou insistia no dinheiro, e eu fingia que ela não existia mais, ou aceitava ficar sem a casa e eu continuava a vê-la.
E ela?
Olha Leonor pousou à frente da mãe um embrulho.
Maria desembrulhou-o, surpreendida.
Que coisa maravilhosa!
Vou levar este vestido à minha festa de finalistas! Acho que me servirá na perfeição.
O vestido de renda parecia feito de flocos de neve. Reparando bem, Maria reconheceu rendas de bilros.
Leonor, tens noção do trabalho que isto deu?
Tenho, mãe… Ela está mesmo muito sozinha e sofre muito. Chora. Tem muitas saudades do pai. Chorou, mãe
Chorou? A tua avó Rosário?
Sim…
Maria ficou sem palavras. O telefone tocou, ainda estava a carregar na sala.
Boa tarde, Rosário.
Boa tarde. A Leonor contou-te da nossa conversa?
Sim, acabou de contar.
Então já sabes que não vou reclamar nada da casa?
Sim, obrigada. E obrigada também pelo vestido. É lindíssimo! Tem umas mãos de ouro!
Não exagere! Amanhã, à uma da tarde, no cartório. Mando-lhe a morada. Vou assinar a renúncia à herança. E, Maria
Sim?
A Leonor é uma criança extraordinariamente bem-educada!
Maria ficou a olhar para o telefone durante uns segundos, em silêncio, e depois voltou à cozinha e abraçou muito, muito forte a filha.






