Não gostam que eu queira a minha própria família? Fugi de vocês, comecei a construir a minha vida e voltam cá para tudo recomeçar… Zina, não fiques assim! Eu entendo que para uma citadina seja difícil viver no campo, mas vou ajudar-te! Eu consigo dar conta do recado; só preciso que fiques do meu lado! Zina está confusa. Porque é que se apaixonou por um rapaz do campo? E logo tanto assim, de lhe tremerem as pernas! Ela já tem vinte e oito anos e uma carreira de sucesso, enquanto Dinis, com trinta, tem muitos familiares e uma casa própria numa aldeia perto da cidade. Conheceram-se num parque de diversões – Dinis por acaso, enquanto a mãe fazia compras, e Zina arrastada pelas amigas. Trocaram números e começaram a falar. Ele fazia de tudo para a surpreender, ia vê-la à cidade, era atencioso e carinhoso, e Zina acabou por se render. E, ao contrário dos outros rapazes, ele era genuíno, aberto e bondoso! Depois pediu-a em casamento, e ela aceitou. A mãe apoiou: Experimenta, filha. O Dinis é trabalhador, do campo, boa pessoa. Se não der certo, voltas para a cidade. Zina não tinha nada a perder. Poderia trabalhar à distância; essa modalidade já era bem vista. Já não era uma miúda e, afinal, ar puro do campo só faz bem! Mas… “Dinis, e vou para aí como quê?”, perguntou Zina. “Como minha noiva – e daqui a um ano casamos e até vamos de férias. Eu até lá junto o suficiente para não termos de nos preocupar com dinheiro”, envergonhou-se ele. “Eu já percebi que estás habituada a outra vida.” Tudo parecia certo, mas algo deixava Zina desconfortável. Sem perceber bem o quê, decidiu arriscar! Assim, tirou uma semana de férias, fechou o apartamento T2 que conquistou com muito trabalho, encheu o carro com malas e rumou à aldeia, onde Dinis já a aguardava. O primeiro serão agradou-lhe. Era verão, e juntos trataram da horta e fizeram o jantar – tudo rápido e em equipa. “Querida, os meus pais vêm aí!”, avisou Dinis ao chegar a casa. “Porquê?”, assustou-se Zina. “Para te conhecerem e darem uma mão. Vem também o meu irmão e a mulher.” Dinis andava nervoso. “Ficam muito tempo?”, perguntou ela, ainda mais preocupada. “Espero que não! Não te preocupes, juntos conseguimos.” Estas palavras deixaram-na ainda mais ansiosa. “Não stresses, filha. Olha isto como um teste. Se não correr bem, voltas. O mais importante é que tens sempre para onde voltar”, tranquilizou-a a mãe com humor. “Fazes como te der jeito. Eles que se habituem. Ou não – o problema é do Dinis!” Pois é… Porque me preocupo? Nem sou mulher dele ainda! Quando ouviu o carro chegar, Zina acabava de pôr a mesa. Dinis foi recebê-los e ela foi também. Uma mulher volumosa, de vestido largo e pestanas carregadas deu-lhe um abraço e virou-se para o filho; um homem forte, barrigudo, cumprimentou; o irmão, alto e brincalhão, saudou-a logo; já a cunhada, loira rosada, olhou enviesado para Zina e virou costas para ajudar com a bagagem. Zina tentou distender o ambiente com boa comida. A sogra elogiou, o sogro também, mas a cunhada picou: “Isto é frango? Alguém cozinha assim? Quem come uma coisa destas?” Vlad, o irmão, defendeu: “Está ótimo!” “Tanto te faz o quê – só queres encher a barriga”, disparou a mulher, largando o garfo. Dinis lançou um olhar triste a Zina. “Olha lá, tem respeito! E não sejas assim ciumenta, a Zina esforçou-se”, interveio por ela. “E esse nome? Zina! Até parece a vaca da nossa vizinha, que também é Zina”, troçou a loira. Zina riu-se por dentro. “Que se passa?”, sussurrou Dinis. “A amiga minha chama a cobaia de ‘Lena’…”, devolveu Zina, mas todos ouviram. A sogra não gostou, os homens riram, e a cunhada ficou vermelha de raiva: “Quem és tu para falar assim?” “Falas assim com toda a gente, resolvi responder-te”, encolheu os ombros Zina. “Eu sou mulher legítima do Vlad, tu quê? Só vives com ele”, atirou. “Pelo menos tenho educação e não sou malcriada quando sou convidada.” “Eu não vim cá ver-te!” “E eu não te convidei”, atalhou Dinis, já saturado. “Vocês vieram para ficar quanto tempo?” Fez-se silêncio. “Viemos ensinar a princesa a viver no campo”, respondeu a mãe. “Dispensamos. Estou bem com a Zina, vamos ficar assim!” “Pois, já puseste a citadina às costas. Quanto tempo até te fartares?”, lançou a cunhada. “Na nossa família há só uma preguiçosa – e não é a Zina!”, rebateu Dinis. “Agora, obrigado pela presença, mas podem ir descansar.” Juntos começaram a levantar a mesa. Zina pensou que ter quem a apoie dá força. Não ia deixar-se pisar! E se as coisas mudam, casa tem sempre! O sábado não começou bem. “A dormir até esta hora? Aqui acorda-se cedo, é para ir fazer o pequeno-almoço!”, entrou de rompante a sogra às oito da manhã. “Maria Micaela, há comida no frigorífico”, respondeu Zina, encolhendo-se nos lençóis. “Só me visto e já desço.” “Ui, que senhora! Aqui não se engonha. Anda ajudar!” Já na cozinha, Dinis preparava comida. “Ai mulher, já acordaste?”, saudou ele. “Pois, se não sou eu, ela dormia até ao almoço”, queixou-se a mãe. O ciclo de provocações continuou: Ocampo é assim, cedo! Quando tiverem vaca, seis da manhã é a ordenhar!, provocou a cunhada. “Não vamos ter vaca”, respondeu Dinis. “Porquê? Isso é porque a Zina não sabe ordenhar, nem acorda a horas! Para ela é impossível!”, riu-se a loira. “Tu também não sabes, e sobrevives”, ironizou Dinis. “Desde que a Zina chegou, estás impossível!”, interveio a mãe. Zina perdeu a paciência: “Dinis, vou para minha casa. Quando este circo sair, chama-me se quiseres continuar”, anunciou, cansada. “Desde que essa apareceu, o meu filho esqueceu-se da família! Já mal atende chamadas, não ajuda nada… E achas que aceitamos alguém assim? Estás a destruir a família!”, gritou a mãe. “Acabou! Não gostam que eu queira a minha família? Fugi de vocês, estou a fazer a minha vida e voltam cá para tudo recomeçar!” “Filho, escolheste – ou eu, ou essa ali”, exigiu a mãe. “Mas aceitaram logo a Olena!”, contrapôs ele. “O quê? Não compares!”, disse a cunhada. “O que vai ser?”, apressou a mãe. “Eu escolho a felicidade!”, respondeu Dinis sem hesitar. “Então já não tenho filho!”, saiu a mãe, levando a cunhada. O pai sorriu compreendendo o filho: “Estamos contigo! Eu trato da mãe!” O irmão abraçou-o: “Cuida da tua felicidade! Nós cá em casa também precisamos mudar algumas coisas…” A família foi-se embora. Zina sentiu-se estranha mas percebeu que Dinis era mesmo sério quanto a ela. Retomaram juntos a rotina, apoiando-se mutuamente. Já na outra casa, Vlad apresentou novidade: “Mãe, Olena! Comprámos-vos uma vaca!” “O quê? Estás maluco?” “Não. A Olena vai aprender a ordenhar e levá-la ao pasto! E pequeno-almoço às sete, sempre, nada de sandes – comida a sério! Vida de campo.” E assim começou a lição. Tudo o que disseram à Zina, ouviam de volta. Maria Micaela lá fez as pazes, mas agora visitar o filho, só quando tivesse a certeza de não ser surpreendida com as habilidades de Zina. Já Dinis pediu Zina em casamento – com direito a festa e toda a família! Não se pode dizer que Maria Micaela e Olena tenham passado a adorar a nora, mas pelo menos aprenderam a calar-se: ficar contra Zina já era perigoso… Zina, essa, estava feliz! Continuavam a fazer tudo juntos, a ajudar-se, e já não temiam visitas inesperadas!

Não gostam que eu queira ter a minha própria família? Afastei-me de vocês, comecei a construir a minha vida, e lá vêm vocês de novo com as mesmas conversas
Leonor, vá, não te preocupes tanto! Eu sei que te vai custar viver na aldeia, tu, toda da cidade Mas eu ajudo! tentei acalmar a Leonor. Sei fazer tudo. Dou conta do recado sozinho. Só quero que estejas comigo!

A Leonor estava confusa.
Porque é que me apaixonei por um rapaz da aldeia? E logo assim, de perder as forças nas pernas!

Ela já tem vinte e oito anos e uma carreira de sucesso. O João, que tem trinta, tem grandes ligações familiares e uma casa na aldeia, mesmo perto de Lisboa.

A nossa história começou por acaso, num parque de diversões em Sintra. Eu tinha ido com a minha mãe, que quis perder-se nas lojas, enquanto fui dar uma volta sozinho. A Leonor foi arrastada pelas amigas.

Conhecemo-nos, trocámos contactos e começámos a falar. Fui várias vezes ter com ela a Lisboa, sempre atento, sempre prestável, e a Leonor foi-se deixando conquistar.
Ainda por cima, ao contrário dos outros rapazes, eu era directo, sincero e com boa índole!

Mais tarde, convidei-a para casar comigo, e ela aceitou.

Então filha? Experimenta. O João é homem trabalhador, boa gente, e da aldeia apoiou a mãe dela. Se não correr bem, voltas para casa, para Lisboa.

A verdade é que a Leonor não tinha muito a perder; o seu trabalho já podia ser feito à distância, desde que a empresa passou a permitir teletrabalho. Também já não era uma miúda, e dizem que o ar da aldeia até faz bem! Só havia uma dúvida

João, e eu vou para aí em que papel? perguntou a Leonor.

Como minha namorada. Daqui a um ano fazemos o casamento e vamos de férias. Nessa altura já juntei dinheiro suficiente para não termos de pensar nisso. respondi, um pouco atrapalhado.
Eu sei que estás habituada a outra vida.

Aparentemente tudo estava certo, mas algo deixava a Leonor inquieta. Sem conseguir identificar exactamente o quê, decidiu arriscar!

E assim, com uma semana de férias e uma mala cheia, fechou a sua pequena casa T2 pela qual lutou com muito esforço e veio com o seu carro até à aldeia onde eu a esperava.

O primeiro serão correu lindamente. O calor de julho convidou-nos a regar a horta juntos, ao fim do dia, antes de prepararmos o jantar. Foi tudo feito com alegria e num instante.

Querida, os meus pais vêm cá! anunciei, ao chegar mais cedo do trabalho numa sexta-feira.

Para quê? perguntou, meio abalada, a Leonor.

Para te conhecerem e ajudar-nos com o que for preciso. Vem o meu irmão e a esposa também. expliquei, a andar de um lado para o outro, nervoso.

E vão ficar muito tempo? voltou ela a perguntar, agora já apreensiva.

Espero que não! disse, tentando sorrir para lhe dar confiança. Mas não te preocupes, juntos damos conta do recado.

Depois disso, notava bem que a Leonor estava nervosa.

Isso é só uma prova. Se não gostares, voltas brincou a mãe dela ao telefone. Faz como te for mais confortável. Eles que se habituem. Se não se habituarem, problema deles. O João que se desenrasque.

Mas porquê estou tão nervosa? Ainda nem sequer sou esposa! parece que a Leonor se tranquilizou. Afinal, não a iam comer viva!

Estava a terminar de pôr a mesa quando ouvi um carro chegar.

Já cá estão! fui rápido à cozinha.

Fomos juntos receber a família.

Olá, nora! exclamou a Dona Margarida, uma mulher corpulenta, numa bata colorida, cabelo preto curtinho e pestanas grossas, que abraçou logo o filho com força.

O senhor António, já com barriga e tom imponente, cumprimentou-me e acenou à Leonor.

O irmão, Vasco, mais alto, entrou com uma piada e bem-disposto conheceu a futura cunhada, enquanto a esposa dele, Inês, loura, robusta, olhou desconfiada para a Leonor, cheia de vida e formas, dirigindo-se logo ao marido:

Estás a olhar para quê? Vá, anda-me ajudar! e foi à mala buscar mais coisas.

Convidei todos para a mesa, a ver se o ambiente se descontraía. Até porque a Leonor cozinha muito bem!

Olhem, isto sim! Capricharam. aprovou Dona Margarida.

O senhor António acenou, satisfeito.

O que é isto? Frango? Quem é que inventa estas receitas? Depois andamos aí a comer comida destas criticou a Inês com ar de enjoo.

Gosto bastante, está excelente! defendeu Vasco.

Aproveitas tudo para comer, não te importas com o quê! ripostou ela, pousando a faca e o garfo.

Olhei para a Leonor, que se entristeceu.

Inês, um bocadinho de respeito não te fazia mal. E menos inveja visível! A Leonor fez isto com imenso carinho, defendi-a.

E quem é que se chama Leonor? Até parece a nossa cadela. Também é Leonor. disse, venenosa, a loura.

A Leonor riu-se só para mim.

Que foi agora? perguntei baixinho.

Tenho uma amiga que chama a porquinha-da-Índia de Inês, sussurrou ela.

Mas todos ouviram.

Dona Margarida não achou graça. Os homens tentaram não se rir, mas a Inês ficou furiosa.

Quem és tu para falares assim? olhou para a Leonor cheia de ódio.

Achei que esse tipo de conversa era o teu registo habitual. encolheu-se de ombros a Leonor.

O Vasco ficou encantado com a resposta da Leonor.

Eu sou a mulher do Vasco, oficial! E tu? És só a namorada! atirou-se Inês.

Ao menos eduquei-me. Se visito a casa de alguém não sou malcriada. respondeu a Leonor.

Não vim cá por tua causa! sorriu, vitoriosa, a Inês.

Nem te convidei, disse eu, já pouco paciente. Por quanto tempo pretendem ficar?

Silêncio. Todos ficaram a olhar-me, surpreendidos.

Só até ensinarmos a tua finória a viver na aldeia e vamos à nossa vida. respondeu a mãe.

Não é preciso, mãe. Temos dado bem conta do recado, vamos continuar assim.

Pois, penduraste-te a uma dondoca, quero ver quanto tempo aguentas! Inês não se calou.

Dondoca só temos uma na família, e não é a Leonor. respondi. Muito obrigado pelo jantar a todos, podem descansar.

Dei a mão à Leonor e, debaixo dos olhares azedos, fomos juntos arrumar a cozinha.

A Leonor pensou que ter um bom apoio familiar é importante, mas aqui não se deixaria ser pisada! E, no fundo, se corresse mal, sempre podia voltar para Lisboa.

O sábado não começou bem.

Que é feito de dormir até tarde? Aqui não há disso! entrou Dona Margarida pelo quarto. E o pequeno-almoço não se faz sozinho!

A Leonor olhou o telemóvel: oito da manhã.

Dona Margarida, está tudo no frigorífico para o pequeno-almoço. respondeu ela, puxando o lençol. Posso vestir-me?

Olhem-me esta senhora, cheia de manias! resmungou ela, abandonando o quarto e batendo a porta.

Vesti-me e fui para a cozinha.

Já acordaste, meu amor? encontrei o João aos fogões.

Ainda bem que a acordei, senão ainda lá estava a dormir bufou a mãe.

Mãe, não tinha de entrar no nosso quarto. Eu já tinha pedido para isso não acontecer.

Não temos só as despassaradas, ainda são preguiçosas! comentou a Inês.

A tua opinião não interessa! atirou a Leonor.

A vida da aldeia é madrugadora! Quando tiverem uma vaca, às seis da manhã já tem de ser ordenhada provocou a Inês.

Não está nos planos uma vaca. respondeu o João.

Pois, tu não sabes ordenhar, Leonor! Para ti é cedo demais. gozou ela.

Tu também não sabes e sobrevives gracejei.

Desde que a Leonor apareceu, ficaste mais ríspido defendeu a minha mãe.

João, vou voltar a Lisboa. Quando este circo sair, liga-me se quiseres não aguentei mais, disse a Leonor.

O quê? Tu!? O meu filho já nem liga à família exaltou-se a mãe. Está afastado, só pensa em ti. Queres que te aceitemos assim?

Basta! gritei. Ficou tudo num silêncio cortante.

Não aceitam que eu queira a minha família? Afastei-me, construí a minha vida, e estão cá a meter-se outra vez!

Filho, perdeste o juízo todo! Todo o dinheiro e tempo é para ela! Só te quer pelo dinheiro! repetia a mãe.

Mãe, a Leonor é independente, eu é que estou a juntar para o casamento. Para serem felizes, voltem para casa! Aqui só vêm se forem convidados! Especialmente tu, Inês.

Enquanto ainda digeriam o choque, levei calmamente a Leonor ao quarto.

Filho, escolhe! Ou eu, ou ela ameaçou a mãe.

Também aceitaram a Inês desabafei, decepcionado.

O pai e irmão assistiram, curiosos.

Então? apressou a mãe.

Escolho a felicidade! desafiei.

Pronto, então já não tenho filho! saiu de casa, largando as malas para o marido. Inês fez igual.

Estamos contigo! riu-se o pai. Eu trato da tua mãe!

O Vasco abraçou-me:
Cuida da tua felicidade! Esta família tem de mudar.

E saíram.

A Leonor sentiu-se um pouco sem jeito, mas também percebeu que eu a levava a sério.

Retomámos a nossa vida juntos, apoiando-nos em tudo. Do lado do Vasco, o ambiente era bem mais divertido.

Mãe, Inês! Comprámos-vos uma vaca! anunciou o Vasco.

Estás louco? duvidou Dona Margarida.

Não. A Inês trata dela todas as manhãs. disse ele, sem rir.

Brincadeira estúpida, Vasco! a Inês já stressava.

Vocês é que queriam ensinar a Leonor achámos que vos faria bem! levantou os braços o senhor António. E às sete da manhã, pequeno-almoço na mesa! Não quero sandes, quero comida de aldeia.

E começou a educação delas! Ai, o que elas sofreram.

Tudo o que tinham atirado à Leonor, tiveram de pagar na mesma moeda. E era impossível igualar a Leonor à parte da educação, o trabalho dela também não tinham.

Sem tempo Dona Margarida fez as pazes comigo, mas nunca mais quis vir cá. Não fosse a Leonor saber ainda mais coisas.

Finalmente, pedi Leonor em casamento. Festejámos com todos.

Não posso dizer que a sogra e a cunhada passaram a adorar a Leonor, mas aprenderam a não se meter. Ficou mais seguro assim.

A Leonor ficou radiante! Continuámos a trabalhar juntos e a partilhar tudo na vida. E, acima de tudo, deixámos de temer visitas indesejadas.

Aprendi que, no fim de contas, a felicidade constrói-se com quem caminha ao nosso lado, não com quem nos arrasta para trás. A vida é muito curta para não lutarmos por quem realmente amamos.

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Não gostam que eu queira a minha própria família? Fugi de vocês, comecei a construir a minha vida e voltam cá para tudo recomeçar… Zina, não fiques assim! Eu entendo que para uma citadina seja difícil viver no campo, mas vou ajudar-te! Eu consigo dar conta do recado; só preciso que fiques do meu lado! Zina está confusa. Porque é que se apaixonou por um rapaz do campo? E logo tanto assim, de lhe tremerem as pernas! Ela já tem vinte e oito anos e uma carreira de sucesso, enquanto Dinis, com trinta, tem muitos familiares e uma casa própria numa aldeia perto da cidade. Conheceram-se num parque de diversões – Dinis por acaso, enquanto a mãe fazia compras, e Zina arrastada pelas amigas. Trocaram números e começaram a falar. Ele fazia de tudo para a surpreender, ia vê-la à cidade, era atencioso e carinhoso, e Zina acabou por se render. E, ao contrário dos outros rapazes, ele era genuíno, aberto e bondoso! Depois pediu-a em casamento, e ela aceitou. A mãe apoiou: Experimenta, filha. O Dinis é trabalhador, do campo, boa pessoa. Se não der certo, voltas para a cidade. Zina não tinha nada a perder. Poderia trabalhar à distância; essa modalidade já era bem vista. Já não era uma miúda e, afinal, ar puro do campo só faz bem! Mas… “Dinis, e vou para aí como quê?”, perguntou Zina. “Como minha noiva – e daqui a um ano casamos e até vamos de férias. Eu até lá junto o suficiente para não termos de nos preocupar com dinheiro”, envergonhou-se ele. “Eu já percebi que estás habituada a outra vida.” Tudo parecia certo, mas algo deixava Zina desconfortável. Sem perceber bem o quê, decidiu arriscar! Assim, tirou uma semana de férias, fechou o apartamento T2 que conquistou com muito trabalho, encheu o carro com malas e rumou à aldeia, onde Dinis já a aguardava. O primeiro serão agradou-lhe. Era verão, e juntos trataram da horta e fizeram o jantar – tudo rápido e em equipa. “Querida, os meus pais vêm aí!”, avisou Dinis ao chegar a casa. “Porquê?”, assustou-se Zina. “Para te conhecerem e darem uma mão. Vem também o meu irmão e a mulher.” Dinis andava nervoso. “Ficam muito tempo?”, perguntou ela, ainda mais preocupada. “Espero que não! Não te preocupes, juntos conseguimos.” Estas palavras deixaram-na ainda mais ansiosa. “Não stresses, filha. Olha isto como um teste. Se não correr bem, voltas. O mais importante é que tens sempre para onde voltar”, tranquilizou-a a mãe com humor. “Fazes como te der jeito. Eles que se habituem. Ou não – o problema é do Dinis!” Pois é… Porque me preocupo? Nem sou mulher dele ainda! Quando ouviu o carro chegar, Zina acabava de pôr a mesa. Dinis foi recebê-los e ela foi também. Uma mulher volumosa, de vestido largo e pestanas carregadas deu-lhe um abraço e virou-se para o filho; um homem forte, barrigudo, cumprimentou; o irmão, alto e brincalhão, saudou-a logo; já a cunhada, loira rosada, olhou enviesado para Zina e virou costas para ajudar com a bagagem. Zina tentou distender o ambiente com boa comida. A sogra elogiou, o sogro também, mas a cunhada picou: “Isto é frango? Alguém cozinha assim? Quem come uma coisa destas?” Vlad, o irmão, defendeu: “Está ótimo!” “Tanto te faz o quê – só queres encher a barriga”, disparou a mulher, largando o garfo. Dinis lançou um olhar triste a Zina. “Olha lá, tem respeito! E não sejas assim ciumenta, a Zina esforçou-se”, interveio por ela. “E esse nome? Zina! Até parece a vaca da nossa vizinha, que também é Zina”, troçou a loira. Zina riu-se por dentro. “Que se passa?”, sussurrou Dinis. “A amiga minha chama a cobaia de ‘Lena’…”, devolveu Zina, mas todos ouviram. A sogra não gostou, os homens riram, e a cunhada ficou vermelha de raiva: “Quem és tu para falar assim?” “Falas assim com toda a gente, resolvi responder-te”, encolheu os ombros Zina. “Eu sou mulher legítima do Vlad, tu quê? Só vives com ele”, atirou. “Pelo menos tenho educação e não sou malcriada quando sou convidada.” “Eu não vim cá ver-te!” “E eu não te convidei”, atalhou Dinis, já saturado. “Vocês vieram para ficar quanto tempo?” Fez-se silêncio. “Viemos ensinar a princesa a viver no campo”, respondeu a mãe. “Dispensamos. Estou bem com a Zina, vamos ficar assim!” “Pois, já puseste a citadina às costas. Quanto tempo até te fartares?”, lançou a cunhada. “Na nossa família há só uma preguiçosa – e não é a Zina!”, rebateu Dinis. “Agora, obrigado pela presença, mas podem ir descansar.” Juntos começaram a levantar a mesa. Zina pensou que ter quem a apoie dá força. Não ia deixar-se pisar! E se as coisas mudam, casa tem sempre! O sábado não começou bem. “A dormir até esta hora? Aqui acorda-se cedo, é para ir fazer o pequeno-almoço!”, entrou de rompante a sogra às oito da manhã. “Maria Micaela, há comida no frigorífico”, respondeu Zina, encolhendo-se nos lençóis. “Só me visto e já desço.” “Ui, que senhora! Aqui não se engonha. Anda ajudar!” Já na cozinha, Dinis preparava comida. “Ai mulher, já acordaste?”, saudou ele. “Pois, se não sou eu, ela dormia até ao almoço”, queixou-se a mãe. O ciclo de provocações continuou: Ocampo é assim, cedo! Quando tiverem vaca, seis da manhã é a ordenhar!, provocou a cunhada. “Não vamos ter vaca”, respondeu Dinis. “Porquê? Isso é porque a Zina não sabe ordenhar, nem acorda a horas! Para ela é impossível!”, riu-se a loira. “Tu também não sabes, e sobrevives”, ironizou Dinis. “Desde que a Zina chegou, estás impossível!”, interveio a mãe. Zina perdeu a paciência: “Dinis, vou para minha casa. Quando este circo sair, chama-me se quiseres continuar”, anunciou, cansada. “Desde que essa apareceu, o meu filho esqueceu-se da família! Já mal atende chamadas, não ajuda nada… E achas que aceitamos alguém assim? Estás a destruir a família!”, gritou a mãe. “Acabou! Não gostam que eu queira a minha família? Fugi de vocês, estou a fazer a minha vida e voltam cá para tudo recomeçar!” “Filho, escolheste – ou eu, ou essa ali”, exigiu a mãe. “Mas aceitaram logo a Olena!”, contrapôs ele. “O quê? Não compares!”, disse a cunhada. “O que vai ser?”, apressou a mãe. “Eu escolho a felicidade!”, respondeu Dinis sem hesitar. “Então já não tenho filho!”, saiu a mãe, levando a cunhada. O pai sorriu compreendendo o filho: “Estamos contigo! Eu trato da mãe!” O irmão abraçou-o: “Cuida da tua felicidade! Nós cá em casa também precisamos mudar algumas coisas…” A família foi-se embora. Zina sentiu-se estranha mas percebeu que Dinis era mesmo sério quanto a ela. Retomaram juntos a rotina, apoiando-se mutuamente. Já na outra casa, Vlad apresentou novidade: “Mãe, Olena! Comprámos-vos uma vaca!” “O quê? Estás maluco?” “Não. A Olena vai aprender a ordenhar e levá-la ao pasto! E pequeno-almoço às sete, sempre, nada de sandes – comida a sério! Vida de campo.” E assim começou a lição. Tudo o que disseram à Zina, ouviam de volta. Maria Micaela lá fez as pazes, mas agora visitar o filho, só quando tivesse a certeza de não ser surpreendida com as habilidades de Zina. Já Dinis pediu Zina em casamento – com direito a festa e toda a família! Não se pode dizer que Maria Micaela e Olena tenham passado a adorar a nora, mas pelo menos aprenderam a calar-se: ficar contra Zina já era perigoso… Zina, essa, estava feliz! Continuavam a fazer tudo juntos, a ajudar-se, e já não temiam visitas inesperadas!
Zistila som, že mi bývalý manžel zahýba, keď zrazu začal zametať našu ulicu. Znie to neuveriteľne, ale presne tak sa to stalo: celý život bol elektrikár, dielňu mal v garáži, domácim prácam sa vyhýbal ako čert krížu, no odkedy vedľa nás bývala nová susedka, každé ráno o siedmej bral do ruky metlu a stretával sa s ňou pred domom…