O presente do papaiEle desembrulhou o presente cuidadosamente, revelando um antigo violino que, segundo o pai, havia pertencido ao seu avô e esperava ser revivido nas mãos do neto.

A minha mãe é muito bonita, mas esse parece ser o único ponto forte que ainda tem. É assim que o meu pai costuma dizer. Eu, que o adoro até perder o fôlego, o olho com todo o coração.

O pai ensina ciência política na Universidade de Lisboa. É um homem inteligente, vindo de uma família culta que nunca aceitou a minha mãe de início. Só mais tarde descubro como se conheceram. O pai fazia parte de um grupo de estudantes que, há alguns anos, viajou para uma cooperativa no Alentejo para construir currais para animais. A mãe tinha 17 anos e trabalhava como ordeira. Só concluiu oito anos de escolaridade, e ainda hoje, após tantos anos ao lado do pai, não consegue ler com fluidez; passa o dedo pelas linhas, sussurrando sílabas para si mesma. Mas a beleza dela é extraordinária! É frágil, tem a pele branca e translúcida, cabelos dourados como mel que chegam à cintura, olhos azuis como a violeta e um perfil talhado. Na foto do casamento parece ter saído de uma revista. O pai é alto, de cabelos escuros, com uma barba densa e muito viril. No verão daquele ano a mãe engravida dele e ele tem de se casar. Talvez tenha sentido algum amor, mas os pais dele pressionam, acusando a mãe de ter o enganado. Na universidade rodeiam-no jovens doutorandas, talvez menos bonitas, mas mais instruídas e capazes de sustentar qualquer conversa. Além disso, nas raras vezes em que o pai tenta levála a jantares ou encontros, ela come desajeitada, não sabe usar os talheres e ri tão alto que ele se envergonha. Ele não hesita em dizer isso à mãe, que apenas balança a cabeça com um sorriso triste, sem ousar contestar.

Eu jamais quis ser como a minha mãe. Quero que o pai se orgulhe de mim. Antes de entrar na escola já aprendo o alfabeto e leio melhor que ela. Passo o dia a praticar contas para, quando o pai me lançar um problema, dar a resposta certa e ganhar o seu elogio. À mesa observo o pai e imitoo como ele, comoço a comer com a boca fechada, não lambo o prato, uso a faca e o garfo. Apesar de todo esse esforço, o pai não me demonstra muito afeto; apenas lança um olhar fugaz e ajeita os meus cabelos macios com a mão dispersa. Nos dias em que consigo conversar com ele, esses momentos tornamse o meu refúgio, e eu repito mentalmente as frases que me direciona.

Quando estou no segundo ano, o pai sai da nossa vida. A mãe tenta esconder a verdade, mas eu descubro que ele tem outra mulher. Quando ouço a palavra divórcio, só penso: Se ao menos o pai me levasse para casa. Mas fico com a mãe. Temos de deixar o apartamento que pertencia aos meus avós; eles só queriam livrarse de nós. Por um tempo o pai envia pequenos depósitos mensais, e a avó manda dinheiro nos aniversários e no Natal. O colapso económico do país faz o pai perder o emprego e os envios acabam. A mãe arranja vários trabalhos de limpeza, lavando pisos de manhã à noite. O salário é baixo e atrasado, e vivemos na pobreza. A beleza da mãe desvanece com os anos e já não consigo enxergar nada de bom nela. Culpoa mentalmente por o pai nos ter abandonado.

O pai, entretanto, vira empresário. Um dia aparece à porta, trazendome um casaco novo e um pouco de dinheiro. Essa cena gravase na minha memória: é inverno, acabo de sair da escola, tremendo no meu velho casaco cujas mangas já não me servem. O pai está à porta do prédio a mãe trabalha, ninguém lhe abre, mas ele não parte, fica a esperar. O meu coração explode de alegria o pai não se esqueceu de mim! Ofereçolhe chá com açúcar, falando sem parar sobre as minhas notas, tentando mostrar o quão esforçada sou. Ele ouve distraído, mas não vai embora, termina o chá, tira o casaco novo e põe o dinheiro na mesa, dizendo:

Dá isto à tua mãe. No próximo mês trago mais.

Vais vir ao meu aniversário? pergunto timidamente.

Ele me encara como se tivesse esquecido que o meu aniversário chega em um mês. Depois responde:

Claro! O que queres?

Uma boneca! digo, corando, embora já tenha idade para brinquedos. Ainda assim, essa imagem da infância me atrai do seu pai. Normalmente ele compra livros para mim.

Está bem concorda ele vai ser uma boneca.

Quando a mãe volta, contolhe orgulhosa a visita do pai e que ele prometeu vir ao meu aniversário com uma boneca.

No meu aniversário corro para casa a toda velocidade, temendo que o pai não me espere. Esperoo à porta, mas ele não aparece. A mãe fez um bolo na noite anterior e de manhã deume um suéter com padrões na moda, que eu desejava há tempos. Não toco no bolo; espero o pai. Ele nunca chega. À noite, quando a mãe regressa do trabalho, partilhamos o bolo, mas não sinto nenhuma alegria; no fim, choro. Ela entende, mas não comenta nada sobre o pai.

No dia seguinte, a mãe entregame uma caixa.

Recebeste isto pelos correios; deve ter havido atraso diz ela. É do teu pai.

Abro a caixa: dentro há uma boneca novinha, embrulhada a rosa. Exclamo de alegria e pergunto:

Por que ele não veio pessoalmente?

Devem têlo mandado numa missão de trabalho responde a mãe, desviando o olhar.

A boneca tornase a minha favorita. Levoa para a escola, sem medo das piadas dos colegas. O pai nunca mais aparece. A avó nunca me envia mais o habitual envio de dinheiro. Aos poucos aceito que só tenho a mãe. Ainda assim, todos os dias sinto falta do pai e faço tudo na esperança de que um dia ele volte, veja o que me tornei e se orgulhe de mim.

Depois de terminar o 11.º ano, entro na faculdade de medicina. Quero contar a novidade ao pai a qualquer custo, então decido procurálo. Lembrome vagamente do endereço do apartamento onde vivi oito anos, e do apartamento dos avós, onde só ia nos feriados. Sem dizer nada à mãe, parto em busca dele.

Chego ao antigo apartamento do pai; uma mulher abre a porta e diz que não há ninguém aqui, que vive ali há sete anos. Tento obter informações sobre os antigos inquilinos, mas ela fecha a porta. Nos avós, ninguém responde. Já estou a sair quando a porta ao lado abre e uma senhora idosa, com óculos grandes, pergunta:

Quem procura?

Vim ao apartamento do Sérgio. Sou a neta deles.

A senhora olhame atentamente e diz:

Se és neta, deves saber que eles há muito tempo já estão na sepultura.

Corro de vergonha.

Eu não sabia Os meus pais divorciaramse e eu

Sim, sim. Divorciaram Então tu és a Maria?

Isso, sim.

Queres ver a avó e o avô?

Queria. E também o pai suspiro.

A senhora me olha de um jeito que tudo fica claro.

Todos eles foram mortos. Por dívidas. Num só dia. Por causa do teu pai

A verdade me atinge como um golpe, tirando o ar dos pulmões.

Não te mates assim grita a senhora. És jovem, ainda tens a vida pela frente. A mãe ainda está viva?

Assento a cabeça.

Olha, vou darte os endereços das sepulturas que anotei. Vai lá, fala com eles, isso vai aliviarte.

Ela revira várias gavetas até encontrar um caderno de notas, ditame os números de sepulturas e o nome do cemitério. Agradeço e saio rapidamente, antes que o medo me paralise.

As sepulturas estão cobertas de ervas daninhas, descuidadas. Limpoas com dificuldade para ler as lápides. Todas estão alinhadas, atrás de uma cerca. Ao ver a data da morte, percebo que foi dois dias depois do meu último encontro com o pai.

No caminho de volta, tremendo num velho elétrico, lembrome de que o pai nunca poderia ter enviado aquela boneca no meu aniversário. Guardoa até hoje, preservandoa entre os outros presentes que a mãe me deu. Então penso: será que a boneca não veio da mãe? Um rubor sobe às minhas faces, um nó prende a garganta. Sinto vergonha. Descubro que o meu pai era um bandido que destruiu a sua própria família. Ainda bem que não vivíamos juntos, caso contrário teríamos acabado ao lado da mãe, enterrados.

Não conto nada à mãe sobre a viagem. Digo que andei com amigas. Depois abraçoa, declaro o meu amor e minto outra vez:

Obrigada por tudo.

A mãe surpreendese, levanta o olhar, ainda levemente cansado, mas com os olhos ainda de um azul violeta.

Sempre soube que a boneca era tua diz ela por isso a amei tanto.

Lágrimas grossas escorrem dos olhos da mãe. Não sinto vergonha da minha mentira. Sinto vergonha de todos os anos em que pensei que não havia nada de bom em mim, além da beleza que escapa rapidamente E eu também nunca deixei de sentir o peso daquela caixa, de saber que o que mais valorizo pode ter sido criado por quem me traiu. Mas ao olhar para o teu sorriso cansado, vejo algo que não tem preço: a força que carregaste nos anos difíceis, o amor que ofereceste antes mesmo de eu entender o que fosse amor.

Fecho os olhos e lembro das mãos da mãe, calejadas pelo sabão e pelos dias sem fim, enquanto ela me ensinava a dobrar as roupas com a mesma paciência que eu ainda procurava aprovação no pai. Naquele instante, a culpa que carreguei por toda a vida se desfaz em pó, como a luz que se espalha ao amanhecer sobre o telhado da nossa casa humilde.

Decido então, antes que o próximo semestre comece, escrever um relato do que vivi, transformar a dor em palavra, e entregálo ao departamento de psicologia da universidade. Quero que a história de uma menina que aprendeu a ser forte sem o reconhecimento de quem deveria ser seu herói sirva de ponte para outras que ainda carregam sombras de pais ausentes.

No final, ao colocar a boneca na prateleira ao lado dos diplomas ainda por conquistar, sinto que ela não é mais um símbolo de traição, mas um lembrete silencioso de que a resiliência nasce das fissuras. A mãe, ao ver aquele gesto, sorri com um brilho nos olhos que há muito não aparecia.

Vamos jantar?, pergunta ela, e eu respondo com um simples Sim. Enquanto preparamos a refeição, o cheiro do arroz e da sopa preenche a cozinha, e, pela primeira vez, o futuro parece um caminho aberto, onde o que importa não são os fantasmas do passado, mas a certeza de que, juntos, podemos construir uma nova história.

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O presente do papaiEle desembrulhou o presente cuidadosamente, revelando um antigo violino que, segundo o pai, havia pertencido ao seu avô e esperava ser revivido nas mãos do neto.
Maria faz tudo o que pode! Se o marido já não está, então vive para os seus filhos. Ela apressa-se de um para o outro. Espera algo deles. E eles? Não, não é para construir uma vedação ou pintar as paredes… Eles competem entre si. O que está a acontecer agora na aldeia?