A Muralha de Vidro Invisível

A Muralha de Vidro Invisível

O trovão de há dez anos

Nessa noite, o céu sobre Lisboa estava cinzento e carregado, igualzinho ao semblante de Maria Leonor.
Nesta casa só vive quem respeita as minhas regras! o seu tom de voz, habituado a impor respeito nos corredores da escola, ecoava em todos os cantos da sala.
As tuas regras são uma prisão, mãe! protestou o jovem Diogo, atirando o saco de ginásio ao chão. Sufocas-me. Não quero ser o teu rascunho que tu voltas a escrever à tua maneira!
Então vai procurar outro ar, se é liberdade que queres! apontou-lhe a porta, o dedo firme, sem tremer. Sai. E não voltes até aprenderes a dar valor a tudo o que te dei.
Diogo olhou para ela; havia nos seus olhos um fogo frio. Levantou o saco sem dizer palavra, atravessou a ombreira e atirou-se ao aguaceiro. Maria Leonor ficou à janela, convencida de que, daí a uma hora, ou quanto muito de manhã, ele voltaria. Encharcado, esfomeado, arrependido.

Mas Diogo não voltou naquela manhã, nem naquela semana, nem dez anos depois.

Diogo Carvalho tornou-se aquilo com que sempre sonhara arquiteto. Os seus edifícios eram como ele próprio: de vidro, betão e aço. Belos, funcionais e frios até à raiz.
Tinha um apartamento no 20.º andar, um Mercedes novo à porta e o hábito de nunca olhar para trás. Mas no seu mundo perfeitamente desenhado, havia um buraco negro o velho T2 de Chelas, cuja morada tentava sempre esquecer.

Senhor Diogo, amanhã entregamos o projeto avisou-lhe a assistente. E no sábado… tem marcado no calendário: aniversário da sua mãe.
Diogo ficou imóvel a contemplar a cidade. Dez anos. Nunca ligara. Ela não procurara. Todos os anos comprava um presente que acabava por ficar no porta-bagagens, até decidir doá-lo a uma associação. Mas desta vez, algo mudou por dentro. Talvez percebesse finalmente que betão é pouco abrigo contra a solidão.

Sábado. O pátio antigo cheirava a jacarandás floridos e ao ranger dos baloiços enferrujados. Diogo desligou o motor do carro. O seu automóvel de luxo parecia um OVNI aterrado no passado.
Saiu; as pernas estavam pesadas, como se acorrentadas. Passo a passo chegou ao prédio, onde se misturava cheiro a humidade e cebola refogada. Segundo andar. Porta 14.

Diogo ergueu a mão para bater. Os nós dos dedos pararam a um centímetro do antigo estofo em pele, já gasto.
E o que vou dizer? Olá, vim depois de dez anos? Ou Desculpa não ter voltado de manhã? pensava, com a mente num redemoinho difícil de acalmar.

Do outro lado, Maria Leonor encostava-se à porta. Vira-o da janela. O coração, que ela julgava de pedra, batia agora dissonante. Encostou as mãos à boca para não soltar um grito. Espreitou-o pela frincha do óculo; ali estava o seu filho, um homem, com sobretudo caro e rosto duro.

Abre, sussurrava para si mesma. Carrega na maçaneta. Diz-lhe que o chá já está pronto. Diz-lhe que cada noite esperaste por estes passos.
Mas a mão não se movia. O orgulho, alimentado por anos de solidão, soprava-lhe: Veio só por despeito? Só para saber se ainda estás viva? Ele não ligou em dez anos. Porque tens tu de abrir primeiro?

Ficaram assim cinco minutos. Longos como uma vida. Diogo sentia o calor da porta sabia que ela estava ali. Ouviu a sua respiração irregular.

Mãe… murmurou, encostando a testa ao estofo frio.
Maria Leonor estremeceu. A voz do filho soou-lhe como um eco de outros tempos.
Nunca me ensinaste a pedir desculpa continuou Diogo, falando até à madeira fechada. Foste tu que me ensinaste a ser forte. Inabalável. Orgulhoso. Construí centenas de casas, mãe. Mas na tua, nunca tive lugar.
Maria Leonor fechou os olhos. Uma lágrima grossa escorreu-lhe pela face enrugada.
Fui eu que levantei esta parede sussurrou, certa que ele não a ouviria. Expulsei-te, achando que voltarias de joelhos. Aprendeste a voar. E agora tenho medo que, se abrir, vejas que sou pequena e frágil sem a minha raiva.

Diogo ergueu a mão de novo. Desta vez quase agarrou a maçaneta. Do outro lado, a mão dela já tremia sobre o ferro. Entre ambos havia três centímetros de madeira e metal.
Bastava um gesto e a muralha ruía. Um só movimento e o inverno de dez anos acabava.

Mas Diogo deixou cair o braço.
Não abriu. Ainda está zangada. Não quer ver-me, decidiu.
Maria Leonor sentiu a hesitação dele.
Vai embora. Nem tocou à porta. Tanto lhe faz, pensou.

Diogo voltou-se, devagarinho. Tirou do bolso uma caixinha um alfinete de ouro em forma de ramo de jacarandá. Era aquele presente que sonhara dar-lhe com o primeiro ordenado.
Colocou-o com cuidado no tapete à porta.
Parabéns, mãe disse mais alto. Desculpa ter-me tornado aquilo que sempre quiseste.
Desceu as escadas, os passos ecoando na escada vazia.

Maria Leonor não conseguiu esperar mais. Rodou a chave, que caiu ao chão com estrépito, e escancarou a porta.
Diogo! gritou no vão da escada.

Diogo parou a meio caminho até ao rés do chão. Virou-se. No quadro iluminado da porta aberta estava uma mulher pequena, de cabelo todo branco. Já não parecia a directora temível. Parecia frágil, como porcelana antiga.
Na mão, apertava a caixinha que ele deixara.

Olharam-se através do vão.
Vais-te embora? a voz dela falhou. Vais embora sem esperar sequer por uma resposta?
Tu não abriste respondeu Diogo, subindo um degrau.
Tu nem bateste à porta! Maria Leonor avançou para o patamar. Parecias uma estátua. Achei que vieste só para saber se já morri do meu orgulho.

Diogo subiu mais três degraus. Restavam agora apenas alguns passos.
Tinha medo que dissesses: O que vieste cá fazer?
E eu tinha medo que dissesses: Só vim para te dizer que já não preciso de ti.

Ficaram em silêncio. O ar da escada perdeu o peso.

O alfinete é bonito murmurou Maria Leonor. Mas o jacarandá do pátio cheira melhor. O chá já está pronto, Diogo. Há dez anos que o pus a ferver; deve ter evaporado até ao fundo. Mas fiz novo.

Diogo apressou-se a ela. Era forte, alto, arquiteto de sucesso mas, naquele instante, voltou a ser o rapaz de mala ao ombro. Abraçou-a com delicadeza. Ela cheirava a remédios e a jacarandá.

Mãe, não entro se não quiseres…
Cala-te ela encostou-se-lhe ao ombro. Chega de construir muros. Vamos só beber um chá.

Entraram juntos. A porta 14 fechou-se atrás deles, desta vez não com estrondo, mas com um clique leve, separando-os do frio.
Não aprenderam subitamente a dizer coisas bonitas. Continuavam feitos de arestas e silêncios difíceis. Mas, nesse fim de tarde, Diogo entendeu: o projeto mais difícil da sua vida estava enfim terminado. Reconstruiu o lar onde, durante anos, só existira ruína. E, desta vez, não havia muralhas de vidro invisível. Só luz.

Às vezes, a reconstrução mais importante é a que fazemos dentro de casa.

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