Irina não desligou a tempo a chamada do marido e, de repente, ouviu uma voz de mulher do outro lado:…

Leonor não conseguiu desligar a chamada do marido a tempo e, de repente, apanhou um som que gelou o seu sangue: uma voz feminina, jovem, soando claramente do outro lado da linha.

De pé junto à janela, Leonor observava distraída a chuva miudinha que caía sobre Lisboa. A chamada com o marido estava a terminar uma daquelas conversas rotineiras, sem grande emoção, como tantas outras ao longo de dezasseis anos de casamento. Tiago dava notícias da viagem de trabalho ao Porto: tudo corria bem, as reuniões estavam a ser um sucesso, regressaria daí a três dias.

Pronto, amor, então até logo, Leonor afastou o telemóvel do ouvido e ia já carregar na tecla vermelha, mas hesitou. Uma voz de mulher, fresca e doce, soou clara na ligação:

O braço de Leonor ficou suspenso no ar. O coração bateu descompassado, como se quisesse rasgar-lhe o peito. Colou o telemóvel novamente ao ouvido, mas só ouviu o sinal de chamada desligadao marido foi mais rápido.

Com passos inseguros, caiu numa cadeira. As pernas tremiam. Na cabeça, pensamentos desordenados: Tiaguinho… Banheira… Que banheira, numa viagem de trabalho?. A memória lembrou-lhe os pormenores estranhos dos últimos meses: viagens cada vez mais frequentes, mensagens recebidas à varanda, um cheiro diferente de perfume no carro dele.

As mãos de Leonor tremiam ao abrir o portátil. Entrar no e-mail dele não foi difícilconhecia a senha há anos, do tempo em que ainda partilhavam tudo sem reservas. Bilhetes de comboio, confirmação de reserva… Suite nupcial para duas pessoas num hotel de cinco estrelas no centro do Porto.

Logo encontrou uma troca de mensagens. Matilde. Vinte e sete anos, personal trainer. Amor, já não aguento. Disseste que te ias divorciar há três meses. Até quando vou ter de esperar?

É-lhe impossível conter o enjoo. Lembra-se do primeiro encontro com Tiagoele era um simples vendedor, ela uma jovem contabilista. Guardaram dinheiro durante mais de um ano para casar, alugando um T1 modesto na Amadora. Felicitaram-se, apoiaram-se sempre. Agora, Tiago é diretor comercial de sucesso, Leonor chefe de contabilidade na mesma empresa. Entre eles, uma distância de dezasseis anos e vinte anos de uma Matilde qualquer.

****
No quarto do hotel, Tiago andava de um lado para o outro, num desespero silencioso.

Porquê, Matilde? Porquê fizeste aquilo?a voz tremia de raiva mal contida.

Matilde estava deitada, envolta num roupão de seda, os cabelos castanho-claros espalhados pela almofada.

Que tem? esticou-se com desdém. Disseste que ias resolver!

Eu sei decidir quando e como, percebes? Agora estragaste tudo. A Leonor não é tola, percebeu tudo!

Ótimo!Matilde sentou-se de rompante. Já me farto de ser a outra, de andar escondida em hotéis. Quero sair contigo, jantar, conhecer os teus amigos, ser tua mulher, no fim de contas!

Comportas-te como uma criança,disse ele entre dentes.

E tu és um cobarde!ela levantou-se impetuosamente. Olha para mim: sou nova, bonita, posso dar-te filhos. O que é que ela te pode dar? Contar o teu ordenado?

Tiago pegou-lhe nos ombros: Não fales da Leonor assim, não sabes nada do que vivemos!

Sei o suficiente, soltou-se ela. Sei que não és feliz com ela. Que ela está sepultada no trabalho. Quando foi a última vez que fizeram amor? Quando é que saíram juntos?

Tiago virou-se para a janela. Em Lisboa, talvez naquele momento, Leonor estava sozinha num T2 iluminado, sentindo o peso de tudo desmoronar-se. Dezasseis anos a desfazer-se num instante, por uma frase descuidada de uma rapariga.

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Leonor estava sentada na escuridão da cozinha, a chávena de chá frio presa entre as mãos. O telemóvel vibravadezenas de chamadas do marido. Não atendeu. Como explicar? Tiago, ouvi a tua amante chamar-te para a banheira?

A memória servia-lhe imagens dos bons tempos. Tiago ofereceu-lhe o anel, ajoelhando-se no meio de um restaurante. Mudaram-se juntos para o primeiro apartamentopequeno e simples, mas só deles. Ele amparou-a quando a mãe dela faleceu. Celebraram juntos todas as pequenas vitórias…

Depois vieram as horas extras, os créditos, as obras sem fim. Quando foi a última vez que conversaram de verdade? Quando viram um filme juntos no sofá? Quando sonharam o futuro?

O telemóvel vibrou de novo. Desta vez, uma mensagem: Nô, precisamos de falar. Deixa-me explicar.

Explicar exactamente o quê? Que ela envelheceu, que ficou submersa na rotina? Que uma personal trainer de vinte e sete anos lhe compreende melhor os desejos?

Diante do espelho, Leonor encarou-se. Quarenta e três anos. Rugas no canto dos olhos, cabelos grisalhos que pinta todos os meses. Quando nasceu este cansaço no olhar, esta vontade de desaparecer na rotina, esta obsessão pela estabilidade?

****
Tiago, onde é que andaste?Matilde lançou-lhe um olhar pouco paciente, quando ele regressou ao hotel depois de tentar desesperadamente ligar à mulher.

Agora não,ele desabou numa poltrona, desapertando o nó da gravata.

É agora, sim!Matilde colocou-se à sua frente, assertiva. Quero saber. E agora? Vais resolver finalmente?

Tiago olhou-a de frentebonita, cheia de vida, determinada. Assim era Leonor, há dezasseis anos. Meu Deus, como é que ele podia tê-la magoado tanto?

Matilde,passou ambas as mãos pelo rosto tens razão… Isto tem de acabar.

Ela abriu um sorriso e correu para ele, eufórica: Amor! Sabia que escolhias bem!

Sim afastou-a docemente acabar connosco.

O quê?!ela afastou-se, como se a tivessem atingido.

Isto foi um erro. Amo a minha mulher. Sim, temos problemas. Sim, afastámo-nos. Mas não consigonão quero apagar tudo o que já vivemos.

És um cobarde!as lágrimas saltaram-lhe dos olhos.

Cobarde fui eu quando me envolvi nisto, quando menti à Leonor, que dividiu tudo comigo estes anos. Não sou feliz, tens razão. Mas a felicidade constrói-se, não se pede emprestada.

****
A campainha tocou já depois da meia-noite. Leonor já sabia que era eleapanhou o primeiro Alfa Pendular para Lisboa.

Nô, por favor, abre. a voz soava abafada através da porta.

Abriu. Tiago estava à portamal barbeado, fato amarrotado, olhos vermelhos de tanto chorar e vergonha.

Posso entrar?

Fez-lhe sinal para passar. Foram para a cozinhao lar dos antigos sonhos, o local das decisões importantes.

Leonor…

Não vale a pena,ela levantou a mão. Sei tudo. Matilde, vinte e sete anos, personal trainer. Li os teus e-mails.

Ele assentiu, sem palavras.

Porquê, Tiago?

O silêncio instalou-se. Ele olhou Lisboa dormida através da janela.

Porque sou fraco. Porque tive medo que nos tivéssemos tornado estranhos. Porque ela me lembrou de tide ti antes dos anos pesados em cima de nós.

E agora?

Agora…virou-se de frente, olhos de súplica.Agora quero consertar tudo. Se me deixares.

E ela?

Já terminou. Percebi que não posso nem quero perder-te. Sei que não mereço perdão. Mas queria começar de novo. Ir a um psicólogo, passarmos mais tempo juntos, tentar reencontrar quem fomos…

Leonor olhou o homem à sua frenteenvelhecido, grisalho, mas profundamente seu. Dezasseis anos não são só um número. São memórias partilhadas, rotinas, piadas privadas. Saber estar em silêncio juntos. Saber perdoar.

Não sei, Tiago chorou finalmente.Não sei mesmo…

Ele abraçou-a com delicadeza. Ela deixou-se ficar. Lá fora, Lisboa mergulhava em silêncio, banhada pela luz húmida da noite.

Longe dali, num quarto de hotel do Porto, chorava uma jovem que finalmente entendeu: o amor a sério não é paixão ou romance. É uma escolhadiária, silenciosa e difícil.

E naquela cozinha, dois adultos tentavam reconstruir as suas vidas feita em pedaços. Estava-lhes reservado um longo caminho: entre mágoas, desconfianças, consultas de terapia e noites em branco. Mas ambos sabiam, no fundo, que por vezes é preciso perder algopara perceber o seu verdadeiro valor.

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Irina não desligou a tempo a chamada do marido e, de repente, ouviu uma voz de mulher do outro lado:…
Prisahám na svoje ešte nenarodené deti, ak som si naozaj nezabudol nabíjačku na mobil v tej hotelovej izbe…