Olha, deixa-me contar-te uma história como se estivéssemos na cozinha, café na mão e aquele cheiro bom de pão acabado de fazer no ar. Chamo-me Filomena, tenho 55 anos, uma dor de costas que já é companhia antiga, dois filhos adultos e um velho Renault Clio comprado já com os trocos e um crédito às costas, só para fazer uns trocos a conduzir para a Uber.
De formação sou contabilista, a vida toda fechada num escritório numa empresa de cortiça ali em Santa Maria da Feira. Depois veio aquela reestruturação sabes o que isso significa, não é? Mandaram metade embora, eu deitada fora como se já não fizesse falta. O descanso que me deram foi-lhes barato: de salário, de descontos, de utilidade.
Com a reforma por doença são só 450 euros por mês. Só alugo casa, pago remédios e o pouco que sobra vai para pão, sopa e fruta do Lidl. Ou trato de mim, ou como, não chega mesmo para tudo. Nunca contei isto aos miúdos, claro. Pensam que me ajeito bem.
O meu filho, o Tiago, já tem 32, trabalha em informática, vive num T2 em Matosinhos, a pagar ao banco, sempre ocupado com os deploys não sei de quê. A Inês, com 27, anda o dia inteiro no salão de beleza da prima, mora em apartamento alugado com uma colega, sempre a comprar coisas a prestações, unhas, telemóvel novo, essas modernices.
Quando perdi o emprego, andei uma semana perdida, a olhar para o chão e para o teto. Depois vi no Facebook: Parceria com Uber, horários flexíveis, ganha a partir de. Pensei: porque não? Conduzir sei eu muito bem carta desde os tempos da faculdade, nunca me meti em álcool.
Fiz o empréstimo, comprei o Clio batido, juntei-me à Uber.
Oh mãe, vais mesmo andar a conduzir estranhos? perguntou a Inês, suspirando e a revirar os olhos quando viu o sinal no tejadilho. Ainda te acontecem coisas, com bêbados no carro…
Ó mãe, não precisas de te rebaixar assim murmurou o Tiago, já com aquela voz de vá, diz que sim que eu faço-te um MBWay todos os meses.
Não quero que me ajudes, nem que me dês esmolas respondi, firme.
Eles olharam um para o outro, com aquela expressão típica de quem não percebe nada dos pais já com mais anos Pronto, mais uma loucura dela.
À noite, o Porto é outro. Durante o dia sou a velha contabilista, de costas enfiadas no sofá. À noite sou só mais uma driver, sem nome, sem conversa, só a ouvir os segredos dos outros.
Conduzo direitinho, música baixa, não forço a língua. As pessoas acabam por abrir o coração zangam-se ao telefone, murmuram já estou a caminho, desabafam para o silêncio, às vezes choram baixinho.
Numa dessas noites mais frias, quase meia-noite, caiu-me um pedido no telemóvel perto do NorteShopping. Uma miúda, destino uma zona mais residencial ali em Rio Tinto vinte minutos pela VCI.
Encostei, entrou uma rapariga muito magrinha, naquele casacão comprido e capucho. Nem vi bem a cara, só o nariz vermelho do frio.
Boa noi tentei começar.
Pode andar mais depressa, por favor? interrompeu-me ela, a olhar para baixo. Voz sumida, arranhada, como quem esteve a chorar.
Passado um bocadinho, toca-lhe o telemóvel. No visor dizia Mãe. Olhou para o telefone como quem escolhe entre dois males, mas lá atendeu.
Estou quase sussurrou.
Então, já chegaste? ouvi uma voz feminina do outro lado, cansada, mesmo a roçar a má vontade.
Estou a caminho Mãe, eu
Vais chorar outra vez? Olha lá, quantas vezes te disse: tinhas era tido filhos quando eras mais nova! Mas tu, sempre carreira, carreira Agora grávida ninguém te pega…
Mãe, vou ter um bebé, mas o pai dele diz que isso agora não lhe interessa a rapariga estava a desabar Posso ir para tua casa?
Para minha casa?! Olha, devias ter pensado antes. A minha vida não é para criar netos de quem nem cuido Tenho direito a viver a vida, não a criar filhos dos outros.
Apertei tanto o volante que doeu. Só me deu vontade de abraçá-la, mas calei-me.
Mãe, não tenho para onde ir ela quase sussurrou.
Faz como quiseres. Disse-te sempre: os homens vêm e vão, a mãe é que fica. Tu preferiste o homem, agora safas-te. Liga-me quando acalmares.
Linha desligada. O silêncio na viatura ficou ainda mais pesado, só se ouvia o ar do aquecimento.
Não aguentei.
Oh miúda disse baixinho não leves a mal, não sou ninguém, mas hoje não vais dormir na paragem.
Ela assustou-se, olhou para mim, olhos inchados, lápis de olhos já todo borrado. E ali, juro, vi a Inês. Mais nova, com dezassete, quando o primeiro namorado a deixou e eu fiquei com ela na cozinha até amanhecer a convencê-la que o mundo não acabava ali.
Tens alguém com quem possas falar, além dela? perguntei, suave.
Não, estou em Lisboa a estudar. Alugo quarto com umas colegas, mas querem que eu saia. O meu namorado diz que isto é demasiado para ele. E agora a minha mãe
Já estávamos à porta do prédio, típico prédio antigo, luz amarela nas escadas, chão molhado.
Parei, mas não terminei a viagem.
Olha, faz-me este favor disse eu, a tremer por dentro vai lá acima buscar as tuas coisas. Espero aqui.
Para quê? estava entre confusa e assustada.
Porque em minha casa há um quarto livre: o Tiago já saiu, a Inês também. Tens cama, armário e uma chaleira. Não pago para dormires lá, mas há uma condição.
Qual?
Amanhã comes um bom pequeno almoço. E a partir daí pensas um bocadinho mais em ti, não só nos que te pisam.
Olhou-me calada, depois tapou o rosto com as mãos e chorou. Não de cansaço, mas de alívio.
De manhã, a casa cheirava a café e pão acabado de torrar. A minha hóspede chamava-se Mariana, tinha 22. Estava sentada à mesa, ainda de pijama meu emprestado, a mexer nas mangas, como quem não quer sujar nada.
Você não tem medo que eu fuja, lhe roube alguma coisa, ou lhe meta problemas? perguntou, a medo.
Oh Mariana, se tu soubesses as histórias que já ouvi numa noite Quem monta tanta máscara não chora assim.
Ajudei-a a ir ao centro de saúde, explicámos-lhe os direitos dela, procurámos juntas um part-time e o apoio à maternidade. Finalista de Economia, ia agora acabar o curso por módulos.
Ao fim de uma semana, contei finalmente aos meus filhos que agora tinha uma inquilina.
Ligámos-nos por vídeo. Do outro lado, o Tiago rodeado de ecrãs, a Inês com as unhas impecáveis.
Oh mãe, tu és de mais Inês revirou os olhos. Vais buscar uma grávida da rua, então? Não tens juízo?
Mãe, isso não é seguro o Tiago estava sério. Ao menos fizeste um contrato?
Não, mas trouxe alguém que ninguém quis, só porque resolveu nascer.
Olharam um para o outro.
Por isso somos maus filhos, não é? Porque não temos problemas, e tu ainda em vez de dizeres preciso de ajuda, vais brincar às mães Teresa! Inês já a ferver.
Inês, tu perguntaste alguma vez como vivo eu? Como pessoa, não como táxi e multibanco?
Depois de um silêncio daqueles, ficaram ofendidos. Duas semanas sem um telefonema.
Depois, o improvável: uma manhã cedo, ouço a tranca da porta, aparecem-me os meus filhos com flores, sacos do Pingo Doce, caras de quem veio para algo importante.
A Mariana estava a pôr água a ferver.
Eu posso sair, se quiserem
Não é preciso, disse eu apresentem-se. Esta é a Mariana, a minha hóspede, cá fica enquanto organiza a vida.
A Inês olhou para a barriga, o Tiago para ela. Olá, disse a medo.
Sentámo-nos na cozinha.
Mãe, pensámos o Tiago encolhia o saco. Fomos uns egoístas. Não percebemos nada do que passavas. Foste sempre a dizer eu consigo. Se te fazia falta, nunca disseste.
E depois ouvimos como falaste com ela, continuou a Inês, a piscar para Mariana Fui mexer no teu telefone e ouvi. Disseste-lhe aquilo que nunca me disseste: que estavas orgulhosa, que ela nunca estava sozinha. E eu perguntei-me: quando é que me disseste isso a mim?
Fiquei sem palavras.
Por isso, disse a Inês chega de seres só empregada para nós. Se gostas de andar de Uber, anda. Mas ao menos deixa-nos pagar a luz e a água, fazer-te uma festa quando fazes anos, ouvir-te em vez de só te pedir favores.
E eu amanhã trago-te pneus de inverno prometeu o Tiago Ai do próximo que te bata no carro!
Olhei para eles, não à espera de um conto de fadas. Continuam a esquecer-se, a explodir, a ser egoístas são humanos. Mas algo mudou.
Três meses depois, a Mariana teve uma menina linda. No hospital ficou registado o meu nome para a tirar dali. Eu estava cá à porta, a segurar cobertores, eles todos atrapalhados.
A Inês a instalar a cadeirinha, o Tiago já de saco na mão:
Cuidado com o pescoço, dizia ela.
Eu já vi vídeos no Youtube resmungava ele.
À noite, jantávamos os cinco: eu, os filhos crescidos, a Mariana e aquele coisinha enrolado na alcofa. A casa estava cheia, barulhenta e tão certa.
Não, não é tudo perfeito. Continuo a fazer Uber à noite sempre gostei dessa adrenalina de sentir-me útil, não só avó. Continuo com dores. Os filhos voltam aos velhos defeitos. A Mariana às vezes fica de rastos, pensa na falta do pai da menina.
Mas agora, quando a Mariana sussurra ao telefone Mãe, preciso de ti, há sempre alguém do outro lado. Às vezes eu. Às vezes Inês. Outras, o Tiago, que descobriu jeito para trocar fraldas.
E percebi: às vezes, para os nossos filhos nos verem como pessoas, basta abraçarmos primeiro o filho de outra pessoa. Eles veem-no de fora e entendem: o que dás ao estranho podias ter-lhes dado, se tivessem reparado a tempo.
Moral da história? Esquecemo-nos tantas vezes que os nossos pais são mais do que sofá, carro ou cartão. São pessoas, cansadas, com medo, com sonhos, como nós. Às vezes é mais fácil ajudarem um desconhecido do que pedirem ajuda aos próprios filhos. E só quando eles abrem o coração, os filhos têm hipótese de crescer e ver quem são os pais, afinal.
Agora diz-me tu: achas que fiz bem em abrir a porta a uma grávida desconhecida, ou foi maluquice sem sentido?







