Ó mãe, outra vez a fritar peixe? disse Leonor, espreitando para a cozinha.
Sim, mas já abri as janelas e liguei o exaustor, respondeu Teresa.
Nestes últimos quatro meses, desde que a filha fora viver com ela, Teresa ouvia reparos várias vezes por dia.
O almoço ficou salgado demais, ou puseste a roupa no sítio errado. Ou então o televisor do teu quarto está alto.
Teresa nem dera conta de como começou a andar em bicos de pés dentro da própria casa. Esforçava-se por fazer tudo em silêncio, discretamente, para não incomodar a filha e o genro.
No início, tudo parecia bem
Depois do casamento, Leonor e o marido decidiram morar sozinhos. Passaram a arrendar um apartamento e só visitavam Teresa aos fins de semana. Era natural, tinham os empregos deles e negócios próprios.
Um dia, Teresa sentiu-se mal. Os vizinhos chamaram o INEM. Pouco depois, chegou também a filha. Assim que teve alta do hospital, Leonor disse-lhe:
Temos uma surpresa para ti. Acho que vais gostar. Vais ver quando chegares a casa.
Teresa entrou no apartamento e deparou-se logo com uns sacos e malas no hall.
Falámos e decidimos que, a partir de agora, vamos viver contigo. Assim cuidamos de ti.
Teresa ficou atónita com a decisão dos filhos.
Nos primeiros tempos, Leonor tratou mesmo da mãe. Limpava, cozinhava, passava a ferro. Mas ao fim de dois meses com ela, começou a esquecer-se do motivo por que ali se mudara.
Teresa recuperou, regressou às rotinas normais. Quando os miúdos estavam no trabalho, era ela quem fazia o almoço e pôs tudo em ordem.
A filha pediu-lhe vezes sem conta que pensasse mais em si, mas Teresa teimava que estava tudo melhor assim.
Leonor e o marido depressa perceberam todas as vantagens de viver com a mãe. Não precisavam pagar renda. A casa estava sempre limpa e havia comida.
Mãe, hoje vêm cá uns amigos. Não queres ir à vizinha e tomar um chá? Assim ficamos todos mais à vontade e tu também te distrais, sugeriu um dia a filha.
Teresa não queria sair de casa à noite. Além do mais, a vizinha ia cedo para a cama. Estava uma noite amena, por isso decidiu dar uma volta ao prédio para apanhar ar. O tempo passou e os amigos nada de irem embora. Teresa queria deitar-se mas teimava em esperar que Leonor a chamasse para dentro.
O vizinho Luís saiu com o cão e, meia hora depois, voltou e lá estava Teresa sentada no banco.
Desculpe, está tudo bem? perguntou o Luís.
Sim. Os meus filhos têm visitas e não quero incomodar.
Deve lembrar-se de mim. Moro no primeiro andar.
Claro que sim, lembro.
Já se tinham encontrado, mas cumprimentavam-se apenas. Fazia pouco tempo que a mulher do Luís tinha falecido. Os filhos dele viviam noutras cidades.
Venha tomar um chá a minha casa. Isto arrefeceu. Ligue à sua filha e diga que fica comigo.
Teresa marcou, mas a Leonor não atendeu. Não devia querer saber da mãe naquela altura.
Vamos então, disse Teresa.
Beberam chá e conversaram. Subitamente Leonor ligou:
Mãe, onde estás? Os amigos já se foram. Queremos ir para a cama e tu ainda não voltaste.
No tom da filha, voltou aquele desagrado habitual. Teresa já não percebia o que fizera mal daquela vez. Despediu-se, preparou-se para voltar para casa. Luís acompanhou-a até à porta.
São só dois andares, comentou Teresa.
Faço-lhe companhia, assim fico mais descansado, respondeu Luís.
Desde então, Teresa passou a visitar Luís com frequência. Tomavam chá, cozinhavam juntos. Às vezes era o Luís a preparar pratos dos seus. Nesse dia, Teresa estava novamente em casa dele eram anos do genro e havia convidados.
O teu apartamento tem uma paz comentou a Teresa.
Podes sempre ficar aqui comigo, para sempre, propôs Luís.
Olhou-a de forma tão sincera que Teresa percebeu logo que era a sério.
Vou pensar nisso, respondeu Teresa, a sorrir.
Embora já soubesse que ia aceitar.






