Há alguns anos, mudámo-nos para um novo bairro em Lisboa. Antes dessa mudança, o meu filho frequentava uma escola mais distante, algo que acabou por tornar-se desconfortável. Por isso, achei que seria melhor encontrar uma escola mais próxima de casa.
Encontrámos uma escola a cerca de um quilómetro e meio. Como trabalhava remotamente, podia ir buscar o meu filho e levá-lo de carro à escola todos os dias. A nova escola era bem moderna, cheia de atividades interativas, e os professores eram bastante simpáticos. Nas reuniões, conheci a maioria deles, mas quem mais me cativou foi a professora de Português, Leonor, que também era a professora da turma do meu filho.
Curiosamente, Leonor morava mesmo ao lado do nosso prédio. Depois da mudança, passámos a cruzar-nos ocasionalmente no jardim, na mercearia ou no mercado do bairro. Numa dessas manhãs, ao sair de casa, reparei que ela vinha na minha direção, claramente a caminho da escola. O meu filho estava pronto para sair, então convidei-a a juntar-se a nós para ir de carro.
Leonor, venha connosco o Gonçalo está de saída, vamos todos juntos para a escola.
Ela aceitou sem hesitar. Para mim era simples. Fomos de carro, ela agradeceu e seguiu o dia dela. Gonçalo, por outro lado, ficou envergonhado por levar uma professora de boleia. Será assim tão estranho conhecer professores fora da escola?
Acabou por acontecer mais algumas vezes eu deixava-a na escola quase por acaso. Só mais tarde percebi que começava a tornar-se uma rotina pouco usual.
Depois de umas duas ou três boleias, em abril recebi uma mensagem.
Bom dia. Vai para a escola hoje?
Era Leonor, a professora. Respondi que sim, que íamos. Espreitei pela janela ela já estava à espera junto ao carro, toda apressada. Gonçalo não estava preparado para esta novidade. Eu própria senti um certo embaraço; saímos de casa e fomos para o estacionamento.
Fiquei mesmo contente por poder ir de carro convosco hoje. Tenho três sacos enormes de cadernos, é impossível carregar tudo sozinha.
Não consegui recusar. Mas percebi que não podia continuar assim. Era preciso tomar uma decisão. Afinal, a professora estava a aproveitar-se um pouco. Decidi lançar uma proposta:
Leonor, que tal amanhã combinarmos à mesma hora e ninguém espera ninguém? Assim podemos levá-la de carro sem problema.
Esperava que ela recusasse por educação.
Que maravilha! Assim posso dormir mais vinte minutos todos os dias. Combinado, estarei à porta às 8:00, sempre!
Que surpresa… Gonçalo olhou-me irritado, claramente insatisfeito. Agora penso como vou resolver este impasse. Talvez volte a trabalhar no escritório, só para poder justificar a mudança. Porque, na verdade, às vezes é difícil dizer não a um professor…
No final, aprendi que por mais que queiramos ajudar, é importante encontrar limites e preservar o equilíbrio entre ajudar e manter a independência. Afinal, pequenas gentilezas são importantes, mas é necessário aprender a dizer não quando sentimos que a nossa disponibilidade começa a prejudicar a nossa rotina.






