Solidão a Dois

SOLIDÃO A DOIS

Há trinta e oito anos atrás, Leonor levou o futuro marido, António, a conhecer os pais em Lisboa. Era o momento de apresentar oficialmente o namorado e anunciar que queriam casar.

Os pais de Leonor perceberam tudo assim que viram o jovem à porta. Antes disso, ela nunca tinha apresentado nenhum pretendente em casa. Dizia sempre:
Para quê mostrá-los? Quando quiser mesmo casar, apresento-vos.

Por isso, os pais olharam com atenção para o António, que, um pouco atrapalhado, se sentou à mesa com eles.

Leonor saiu da sala por uns momentos e o pai foi atrás.
Estás prestes a cometer um erro, filha. Não deves casar-te com ele.
Porquê? Leonor logo se defendeu. Só porque é agricultor da Beira?
Não é só isso, embora conta também. Ouve, ele até pode ser boa pessoa, mas vocês são de mundos diferentes. O que é que vão conversar? Cresceste em ambiente militar, tens curso superior. E ele? Rapaz do campo, trabalhador, sim, mas muito básico. Salta à vista. Se ficares com ele, vai haver sempre uma palavra entre vocês: cultura.

Leonor coube um sorriso irónico.
Deixa isso, pai. Isso são preconceitos. Ele ama-me, isso é o que importa. Nunca é tarde para aprender. Eu ajudo-o respondeu, convicta.

O pai suspirou:
Está bem, depois não digas que não te avisei…

O casamento fez-se. As paixões acalmaram e começou a vida rotineira.

António, por insistência, matriculou-se para terminar o secundário à noite, mas nem chegou a apanhar o jeito. Leonor fazia-lhe os trabalhos, mergulhada em assuntos que nunca lhe diziam nada. Ele ainda foi a algumas aulas, mas depressa largou tudo:
Para quê? Se precisares, vais tu estudar.

Leonor resignou-se. Pensou que, apesar de tudo, António não era burro. Leu os livros dela, interessava-se por política, era respeitado no trabalho. Cheirava a terra e campo, é certo, mas foi desse homem que gostou, que podia fazer?

Com o passar dos anos, o convívio com António tornou-se mais difícil. Ele nunca levava a sério as opiniões da esposa e tentava constantemente rebaixá-la, impor-se como o chefe da casa. Em público, dizia o impensável com tal convicção, que Leonor ficava até envergonhada.

No fundo, António não sabia resolver nada complicado. Todos os problemas iam parar nas costas de Leonor. Ele aceitava sem pestanejar:
Quer remodelar a casa? Força!
É preciso comprar frigorífico? Vai lá tu!
Envidraçar a varanda? Não sou eu que preciso, trata tu disso!

Só na quinta, António era diferente adorava trabalhar na terra, não havia ali nada a apontar. Mas três ou quatro meses de quinta por ano não compensavam o resto. Leonor era mãe e pai o ano todo.

Quando era jovem, nem se dava conta. Mais tarde, o peso tornou-se duro de carregar. António, habituado a ter tudo feito, não queria mudar. Para quê? Ele estava satisfeito. Nunca ofereceu uma flor a Leonor pelo Dia da Mulher. Quanto a presentes, um dia declarou:
Já te dei dois presentes, ali tens elas a correr pela casa.

Referia-se às duas filhas.

Leonor não discutia, aceitou e até desculpou: Ele não cresceu com isso, lá na terra ninguém dava prendas.

António desde sempre foi pouco sociável, não gostava de falar e a sua timidez até suscitava dúvidas do género: O António sabe falar?. Ela respondia a brincar, mas a comunicação era difícil.

Nem lhe agradava que Leonor convivesse com toda a gente, falava mal dos amigos e família dela, mas nunca o viram com um amigo próprio.

Além de gerir a casa, Leonor sempre arranjou forma de ganhar dinheiro. Sabia que não podia contar com António para mais. Se queria mais, teria de trabalhar mais. António ia trabalhar e já estava satisfeito com isso.

Com o tempo, ficou claro que já não tinham conversa. Viam tudo de maneira diferente. Se ela gostava de um filme, ele desdenhava. Os dele, ela nem tolerava. Sobre livros, música, nem pensar.

Os temperamentos também não batiam certo: Leonor era altruísta, vivia pelos outros. António, egoísta até ao tutano, só via a sua própria importância. Resultado: cada um com a sua comida, interesses separados, sentiam-se estranhos na mesma casa, com mais de trinta anos juntosjuntos só no nome.

António achava que Leonor era ingrata, não o respeitava, esquecia o quanto fazia. Embriagava-se e descarregava nela, dizendo tudo o que lhe vinha à cabeça até da família dela, já passada. Avaliava todas as atitudes da mulher, humilhava-a, e parecia fazer-lhe gosto.

Depois, não percebendo a frieza da esposa:
Só disse a verdade!

Mas nunca lhe passava pela cabeça que era uma visão só dele. Não sabia ouvir, nem entender outro ponto de vista.

Agora, sentada à minha frente, Leonor chorava:
Estou tão cansada… É viver sobre brasas. Nunca sei o que lhe vai dar, quando vai explodir. Cansa-me andar sempre em compromissos, a ceder e a aguentar. E que faço? Separar-me? Para quê? Este homem não sai. Vai ficar, a moer. O pior é que está convencido de que tem razão. Depois de cada ataque dele, passo semanas de cama. Mas olho para a família, para as filhas e agora para os netos. Arranjo desculpas para continuar, tento conversar, evitar discussões. Ele vê isso como vitória e volta ao princípio.

Cansa tanto que apetece gritar Mas não dá para abandonar a casa, deixá-la ao abandono. Sei bem o que pode acontecer.

Enquanto as filhas eram pequenas, esta diferença não pesava tanto. Havia afazeres, tudo era correria. Agora, a sós, tornou-se insuportável. Dois estranhos, trinta e oito anos sob o mesmo teto.

O meu pai tinha razão O tal mundo, a cultura, sempre esteve entre nós

Na vida, muitas vezes o amor faz-nos ignorar sinais que mais tarde pesam muito. O tempo revela que afinidade e respeito são tão essenciais num caminho a dois como o próprio sentimento. É preciso não esquecer nunca de cuidar da própria felicidade e valorizar quem caminha ao nosso lado, para não descobrir tarde demais que solidão a dois também dói.

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