Sabes aquele dia em que a minha ex-sogra foi lá a casa e até a cadeirinha da minha filha quis levar?
Quando disse à minha ex-sogra que ia separar-me do filho dela, acredita, ela nem pestanejou. Com aquele tom cortante, tão típico das sogras portuguesas já de uma certa idade, atirou logo:
Então amanhã vamos lá buscar as coisas do meu filho.
E foi, juro! No dia seguinte, aparece o meu ex com o irmão e um amigo, como se estivessem prontos para uma operação de mudança relâmpago. Eu estava ali, com a minha bebé ao colo, a vê-los a esvaziar a casa como se estivessem a fazer um despejo.
Por favor, deixa-me ficar com a televisão pedi-lhe, tentando manter a compostura com a minha filha agarrada ao meu pescoço. É só por causa da miúda… ela adora ver os desenhos animados
Olhou para mim como se eu tivesse pedido um favor do outro mundo.
A televisão é MINHA respondeu ele, enquanto desligava os cabos com um dramatismo completamente desnecessário.
Levaram TUDO. A cama, a mesa, as cadeiras, até o espelho da casa de banho, que já estava meio solto. A casa ficou tão vazia que até o eco se ouvia. Fiquei só com a cadeirinha da miúda, uma cadeira já a abanar e eu, a tentar não desabar à frente da minha filha.
Mas o momento de filme aconteceu quando o camião já estava lá fora, carregado até cima, e ele entra outra vez para a sala vazia, olha para mim parada ali como uma náufraga, e diz-me com aqueles olhos de cão arrependido:
Diz-me para não ir embora, vá.
Olhei bem para ele, inspirei fundo e, com a dignidade toda que ainda me restava, respondi:
Não.
E foi-se embora com tudo. Ou melhor, quase tudo. Deixou as cadeiras da cozinha e o fogão, que tínhamos comprado juntos. Uma generosidade que até dói.
Nessa noite chorei a olhar para as paredes nuas. Mas, sabes uma coisa? Senti ORGULHO preferia passar fome do que pedir-lhe que me deixasse ao menos uma colher.
Um ano depois
Toca a campainha. Era ela. A ex-sogra veio visitar a neta (pois sim e eu sou a Amália Rodrigues). Abri a porta com o meu melhor sorriso digno de qualquer novela portuguesa.
Entre, dona Maria, faça favor convidei, afastando-me para ela entrar.
E, meu Deus, TU tinhas de ver a cara da mulher.
A casa? Cheia. Novos sofás (emprestados da minha família, que ela não sabia), mesa de jantar, estante linda na sala, uma televisão plana enorme onde a miúda via os desenhos animados em HD, cortinados às janelas, carpete, até quadros nas paredes.
Vejo que te ajeitaste disse ela, de boca aberta.
Pois, dona Maria respondi, enquanto lhe servia chá no MEU novo serviço, todo janota. Um ano dá para muita coisa, quando não se tem de aturar bêbados.
Engasgou-se logo com o chá. Eh pá, que sensação de vitória.
É que, durante o tempo que estive a aguentar-me com o filho dela e as figuras tristes depois das noites com os amigos, sozinha com uma bebé, fui eu, e só eu, que enchi esta casa de amor, trabalho e móveis que ninguém mais vai tirar de mim.
A minha filha brincava feliz no tapete com brinquedos novos. E a ex-sogra a olhar à volta, como se estivesse noutra dimensão. Só bebi mais um gole de chá e pensei:
Obrigado por me terem levado tudo deram-me a melhor razão para mostrar de que sou feita.
Conta-me tu agora: já tiveste aquele momento de satisfação pura, em que alguém que te subestimou percebe que não só sobreviveste sem ele, mas que até FIZESTE MELHOR?.







