Diário de Miguel: A lição das comparações
17 de Maio
Hoje foi um daqueles dias em que sinto que tudo está prestes a desabar, mas, ao mesmo tempo, alguma coisa dentro de mim finalmente se rearrumou. Escrevo este diário para nunca me esquecer da noite onde tudo mudou entre mim e a Leonor.
Cheguei a casa já tarde do trabalho, o trânsito na Marginal como sempre infernal, Lisboa inteira parecia querer sair ao mesmo tempo. O cheiro a bifes já vinha da cozinha assim que abri a porta. Fiquei com fome. Sentámo-nos à mesa, o prato ainda a fumegar.
Porque é que os teus bifes ficaram secos desta vez? perguntei, tentando não parecer demasiado crítico, mas, na verdade, mal disfarçando o meu descontentamento. Uso pão embebido em leite, sabias? Ou voltaste a meter só água na carne picada? fui explorando, sempre naquela mania de querer encontrar o erro onde era mais fácil simplesmente agradecer.
A Leonor estava junto ao lava-louças, de costas para mim, enquanto secava a frigideira. Ela já nem se virou, acho que ficou gelada por dentro.
Isso é carne de vaca, Miguel. Comprei no mercado das Amoreiras, fresca, magra. Misturei cebola, especiarias, um ovo. Não ficaram secas, ficaram normais, são mesmo assim, respondeu ela, num tom sereno, mas com a voz a tremer.
Pois, mas sabe como é, minha mãe punha sempre uma fatia de toucinho, pão duro embebido nas natas… Os bifes derretiam-se na boca! Isto é… duro, Leonor. A sério, são duros. Desculpa, mas já devias ter aprendido a fazer isto direito depois de quinze anos de casados.
Nesse instante, percebi que estava a descarregar nela frustrações antigas. Ouvia há anos a comparação com a minha mãe, Dona Graça, rainha das panelas e dos lençóis engomados. Cada vez mais, a Leonor revivia esta novela: a minha mãe assim, a minha mãe assado. No início era em sussurros, agora era abertamente, e sempre ela a perder.
Ela secou as mãos na toalha, virou-se para mim. Olhei à minha volta: a camisa que vestia estava sem uma ruga trabalho dela; a toalha da mesa imaculada, lavada por ela; a casa, limpa e arrumada obra dela. Engoli em seco, mas continuei com aquela atitude mesquinha.
Miguel, se não gostas, há rissóis no frigorífico. Não precisas de comer, disse ela, sem perder a postura mas já visivelmente exausta.
Estás a amuar outra vez… Eu só quero ajudar-te a melhorares, protestei, largando os talheres. É para teu bem! Sempre ouvi dizer: crítica construtiva faz crescer. A minha mãe diz sempre: a verdade pode doer, mas é remédio que faz efeito.
A tua mãe já não trabalha há trinta anos, Miguel! O dia dela é passar horas a demolhar pão, a picar três tipos de carne, a encerar os soalhos… Eu sou chefe de contabilidade. Passei o dia com o fecho do trimestre! Só cheguei a casa às sete e meia, às oito já tinhas o jantar pronto na mesa. Não achas que devia ser suficiente? Ou só o que importa é que falta toucinho nos bifes?
Lá vem a conversa do trabalho, do cansaço, resmunguei, desvalorizando. Toda a gente trabalha. Mãe, na minha infância, também trabalhava, e não faltava nada. Sempre sopa, prato principal, sobremesa e camisas engomadas que até ficavam em pé. Ela cuidava mesmo da família. Tu, nem por isso, fazes tudo para despachar. Falta esse calor feminino, percebe, Leonor?
O silêncio abateu-se na cozinha, tão pesado como uma mala cheia de pedras. Observei-a, de repente, como se não a conhecesse. Já não via a minha mulher, mas sim um filho crescido, mimado, sempre a exigir tratamento de príncipe, mas sem crescer de verdade.
Ela respirou fundo.
Então sou uma má dona de casa? perguntou, com aquela calma de quem já ultrapassou o desespero.
Não és má és razoável. Tens margem para melhorar! A minha mãe com a tua idade
Já chega, Miguel! Não quero ouvir mais comparações. Já entendi. Jamais vou conseguir dar-te o conforto que tiveste em casa da tua mãe. Nem quero! Não tenho energia, nem paciência para isso.
E o que é que propões? ironizei. Vamos divorciar-nos por causa de uns bifes?
Não, por agora não. Proponho um teste. Se Dona Graça é o teu padrão, o teu ideal, então deves experimentar viver lá. Não é justo estares aqui insatisfeito, quando podias ser mimado com os pratos mágicos da mamã!
Estás a gozar? Vais pôr-me fora da minha própria casa?
Lembra-te, Miguel, a casa foi adquirida em conjunto, mas o empréstimo fui eu que paguei com os prémios do trabalho e o sinal veio dos meus pais… Não te estou a mandar embora. Só estou a sugerir: vai passar um mês ao hotel Mamã. Descansa das minhas falhas, das minhas camisas pouco engomadas, dos meus bifes secos. Volta a casa rejuvenescido. Eu, por cá, tentarei aprender a demolhar pão nas natas, talvez.
O meu riso saiu-me forçado. Mas vi nos olhos dela que estava a falar a sério. E, acho, nunca a achei tão forte.
Vais ver, não me faço nada mal. Lá em casa da mãe tenho vida de rei. Não vais aguentar sozinha, Leonor. Vais ver! Até chamas o canalizador porque nem uma lâmpada sabes trocar.
Pago a quem saiba. Ao menos não me massacram a cabeça como tu, respondeu, encolhendo os ombros e voltando à sua leitura.
Em protesto, comecei a arrumar as minhas coisas, barafustando, atirando camisas para dentro da mala e praguejando. Leonor nem se mexeu. Doía saber que, de alguma forma, aquilo era também libertador para ela.
Vou embora! Não esperes que volte ao primeiro telefonema. Vais ver quanto tempo aguentas, atirei, já à porta, duas malas ao lado, a voz embargada.
Deixa os teus cartões na mesa, respondeu ela, sem sequer levantar os olhos.
Fechei a porta. Um silêncio espesso caiu sobre mim.
Nas primeiras noites, Dona Graça tratou-me com todos os mimos. Pequeno-almoço de panquecas, almoço de cozido, jantar de arroz de pato é assim no Norte, onde cresci. Parecia viver num outro tempo.
Até que veio o choque. No sábado quis dormir até mais tarde, como fazia em casa.
Miguelinho, acorda! O pequeno-almoço arrefece! Queres ficar na cama o dia todo? gritou ela, abrindo os estores de rompante.
Mãe, é sábado, deixa-me dormir…
Quem dorme perde a vida! Vá, despacha-te, preciso de ti para mudar as caixas velhas no sótão e depois vais comigo ao supermercado buscar batatas. Cinco quilos!
Depois, quis ver futebol na TV à noite.
Baixa isso! Faz-me dor de cabeça essa gritaria. Liga outro canal, está a dar o The Voice Portugal.
Mãe, quero ver o jogo
Lá em tua casa fazes o que quiseres. Aqui quem manda sou eu!
Senti-me de novo miúdo, mas com quarenta anos. Quis sair, beber um copo com os amigos.
Sair? Às onze fecha-se a porta. Nada de bares a meio da semana!
Percebi, de repente, que a Leonor nunca me proibiu nada destas coisas. Até me empurrava para sair, espairecer. E a comida a comida que eu tanto critiquei começou a fazer falta. Senti falta do agridoce das receitas improvisadas dela, mais leves, com vegetais, não destes tachos cheios de gordura da minha mãe. A minha barriga começou a queixar-se com azia.
Perguntei se podia comer antes uma canja, sem refogado.
Estás doente? Canja é de hospital, homem! Um bom arroz de pato é que te põe forte.
Ao fim da terceira semana, não aguentei mais. Entendi, finalmente, que recordar a comida da mãe é muito agradável, mas viver eternamente no passado, no conforto controlado, é sufocante.
Quando voltei a casa, Leonor nem se levantou do seu lugar. Abriu a porta, viu-me mala num braço, flores murchas na outra mão.
Queres alguma coisa? perguntou, fria.
Expliquei-lhe tudo: que a mãe me tratou como um rei, mas acabei por perceber que não é lá o meu lugar. Que me apetecia era voltar, que sentia falta dela, dos jantares simples, até dos bifes secos.
Então aceita isto: se voltares, nunca mais me compares à tua mãe. Não gostas do jantar? Cozinhas tu. Não gostas como engomei a camisa? Engomas tu. Passas a colaborar de verdade.
Concordei. Jurei que nunca mais falaria em comparações. Seria sincero, mas maduro. Passaria a ajudar, a agradecer, a partilhar as tarefas de verdade.
E assim ficou. Aprendi que casa e família não é para se comparar com outras, muito menos com um ideal de infância impossível de repetir. Cada momento, cada esforço, deve ser agradecido, celebrado no presente. E que muitas vezes precisamos sair do nosso conforto para perceber o valor do quotidiano. Em Portugal, onde tanto se cultiva a saudade, também se aprende a deixar o passado no seu lugar.
Termino o meu dia com um brinde: um copo de vinho verde, queijo com doce, e a Leonor a rir-se comigo, finalmente em paz. A lição ficou. Espero nunca mais esquecer.







