Senhora, eu sou uma pessoa importante, não tenho tempo a perder como a senhora! O que aconteceu de…

Minha senhora, eu sou uma pessoa importante, não tenho tempo de esperar como você!

E o que se passou a seguir fê-lo corar de vergonha na frente de toda a gente.

O corredor do hospital cheirava a lixívia e a cansaço acumulado. Num banco de plástico, uma senhora vestida com simplicidade agarrava a mala ao peito, como se lá guardasse a esperança e o medo, tudo bem fechado. A manhã ainda ia fresca. Ela estava ali desde as 7, colada à porta do consultório. Viera de longe, quase 200 quilómetros atravessados de autocarro para chegar ao Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Nada de protestos, nada de reclamações. Apenas aguardava, com a calma de quem está habituada a esperar.

À volta dela, meia dúzia de almas: um homem com o braço engessado, uma jovem com os olhos vermelhos de noites sem sono, uma mãe com uma criança adormecida sobre o ombro. O silêncio pesava mais que a humidade nas paredes. Todos com a expressão de Valha-nos Nossa Senhora…

Até que, da ponta do corredor, apareceu ele. Um idoso com uns 75 anos, impecavelmente vestido. Um sobretudo cinza de marca, bengala reluzente, chapéu alinhado na perfeição. Caminhava com a arrogância de quem está habituado a ver o mundo abrir alas à sua passagem. Ignorou toda a gente, nem olhou de lado. Rumou direto à porta, como se aquele corredor existisse só para o seu espetáculo.

Esticou o braço para abrir a porta do consultório.

Nessa altura, a senhora levantou-se lentamente. Sem fazer alarido, sem dramatismos, só com a dignidade de quem tem pouco, mas muito respeito pelos outros.

Olhe, senhor mas é a minha vez. Estou aqui desde as 7 da manhã e vim de Vila Real até Lisboa.

O senhor virou-se, como se só naquele momento reparasse que o hospital tinha mais habitantes.

Sorriso de canto de boca, gelado feito mariscos nos descantes:

Minha senhora, eu sou alguém, não posso perder tempo como você!
E rematou, ainda mais vaidoso:
Quando chega à minha idade e já fez alguma coisa na vida, aprende que o tempo é ouro e não se gasta em filas!

A senhora ficou imóvel. As palavras pesaram-lhe mais que a espera. Não era pela vez, era pela humilhação.

O silêncio ficou ainda mais denso.

A porta do consultório abriu-se de repente.

O médico, homem de uns 50, bata desalinhada e olheiras dignas de concurso, saiu e olhou em redor.
O que se passa aqui?

O importante avançou confiante:
Sr. Doutor, vim para a consulta. Peço que me atenda já. Não tenho tempo a desperdiçar.

O médico manteve-se calado, a olhar firme para o idoso. Depois, virou-se para a senhora:
A senhora é aquela que chegou às 7?

Ela assentiu com a cabeça:

Sim fiz quase 200 quilómetros

O médico suspirou fundo. E então olhou o idoso, calmo, com a voz serena de quem diz mais numa frase do que muitos num discurso inteiro:

Oh Senhor eu reconheço-o.

O idoso inflou o peito, orgulhoso da fama.

Mas o médico continuou:

O senhor foi meu professor no liceu.

O silêncio cortou o ar. O idoso deixou escapar um sorriso triunfante, como se isto validasse tudo.

Mas o médico prosseguiu, em voz alta e pausada:
Lembro-me muito bem de uma lição que nos repetia vezes sem conta:
O valor de uma pessoa não se vê pela roupa, pelo cargo ou pelo volume da voz mas sim pelo respeito com que trata quem não pode defender-se.

Os olhos do velho piscaram, de repente menos confiantes no apoio da bengala.

O médico deu um passo em frente e disse, sem rancor, só com uma honestidade que fere e cura ao mesmo tempo:

Hoje não foi alguém.
Hoje foi só um homem que se esqueceu de ser humano.

O velho ficou ruborizado, a mandíbula rígida.

À volta, nada de comentários, só olhares e cada olhar era um veredicto.

O médico abriu a porta e anunciou alto, para ninguém ter dúvidas:

Entre, minha senhora. É a sua vez.

Ela entrou, olhos húmidos, mas cabeça erguida e dignidade intacta.

O idoso recuou para um canto, em silêncio. Sentou-se. Esperou.

Pela primeira vez em muito tempo percebeu que ser alguém não é passar por cima dos outros, é nunca lhes passar por cima.

Quando a sua vez chegou, entrou.

Antes de dizer o que o afligia, murmurou apenas:

Sr. Doutor, peço desculpa pelo que aconteceu há pouco.

O médico sorriu, com genuína simpatia:

Nunca é tarde para ser gente, senhor.
O verdadeiro valor vê-se no respeito, não no estatuto.

Podes ser alguém à vista do mundo, mas continuar pequeno diante da educação.
E o contrário também: podes ser simples, modesto, calado e ser gigante em dignidade.

E tu? O que terias feito no lugar da senhora? E no lugar do médico?

Se esta história te tocou o coração, partilha.
Talvez chegue precisamente à pessoa que hoje mais precisa de lembrar-se de ser GENTE.

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