“Sem Ti, Vais-te Enterrar! Nunca Conseguirás Sozinha!” — Gritou o Marido a Empacotar as Camisas, Mas…

Sem mim, tu não te safas! Não és capaz de nada! gritava o meu marido, enquanto enfiava as camisas na mala grande.

Mas eu consegui. Não me fui abaixo. Talvez, se tivesse parado para pensar em como havia de sobreviver com duas filhas pequenas, teria inventado mil desgraças na cabeça e até perdoado a traição. Mas não houve tempo para isso, era preciso levar as miúdas à creche e correr para o emprego. O Pedro, o meu marido, ainda apareceu em casa meia hora antes, todo satisfeito com a paixão nova, cheio de si mesmo.

Por isso, enquanto vestia o casaco, dei ordens rápidas e diretas:
Leonor, ajuda a Matilde a fechar o casaco e, no jardim de infância, vê se ela come tudo. A educadora disse que ela anda a recusar o leite-creme.
Pedro, faz o favor de levar já tudo o que é teu. Não deixes nada para trás, nem te demores. E põe a chave do apartamento na caixa do correio. Adeus.

A Leonor nasceu meia hora antes da Matilde e, por isso, era a mais velha. Ambas têm agora quatro anos. São muito autónomas, cada uma com manias próprias. A Leonor, se tem de comer leite-creme, come porque sabe que tem de ser; já a Matilde contesta logo: Está cheio de grumos, não quero.

Ainda bem que a creche fica aqui ao lado dez minutos a pé. As miúdas tagarelam pelo caminho e distraem-me dos pensamentos sobre o que será a vida daqui para a frente. No trabalho, também não sobra tempo para dramas: clientes no consultório um atrás do outro, e depois ainda tenho visitas domiciliárias. Só à noite, ao ver os cabides vazios na entrada onde estavam sempre os casacos do Pedro é que percebi: daqui em diante, estou sozinha. Mas não sou feita de lamentações: tudo deve ser como sempre, ou até melhor. Podemos sempre cruzar os braços e queixar-nos, ou então avançar, pensar nas soluções e procurar um pouco de luz. Para começar, era preciso tratar do jantar.

O que mudou cá em casa com as miúdas? refletia eu enquanto cortava tomate para a salada. O Pedro foi-se embora. Que fazia ele, mesmo? O que é que vai cair em cima de mim agora? Nada que eu não aguente. Só preciso de ajustar um bocadinho os horários. Eu dou conta do recado. Vai correr tudo bem. E vai correr ainda melhor. Não vou passar a vida a pensar onde anda ele, se está com a outra. Mais vale sozinha. É mais difícil, mas tenho paz.

Depois de ler mais um capítulo das Aventuras do Pinóquio e dar um beijo às meninas, fui à casa de banho: a máquina já tinha acabado, era hora de estender a roupa. Antes de deitar, sentei-me com uma chávena de chá e fui planear o dia seguinte. As minhas raparigas são iguais, mesmo sendo gémeas quem tem dois percebe, pode cansar mais do que ter só uma, mas nunca me queixei disso. Até achava estranho quando me olhavam com pena.

Cá em casa está tudo bem respondia , ninguém anda de rastos. Eu consigo dar conta.

A chaleira apitou. Preparei o meu chá de erva-cidreira, acendi o candeeiro de mesa. Lá fora, tempo de cão: chuva misturada com frio, mas em casa sente-se calor e silêncio. Só o tic-tac do relógio se ouve

Nesse momento, tocaram à porta. Quando vi a D. Eugénia à entrada, fiquei admirado: sempre a achei distante. Vive sozinha, reformada, sai de manhã para levar a sua cadela ao passeio, cumprimenta-me com secura, quase sem sorrir. Já apanhei a cadela perto dos contentores, magrela e de pêlo ralo, a olhar para os sacos do lixo, silenciosa. Suponho que foi pena que a fez levá-la para casa. Ninguém vai a casa dela, só sai para fazer compras, sempre sozinha com a cadela.

Peço desculpa incomodar murmurou, aconchegada na sua echarpe de lã , mas vi o seu marido hoje a fazer as malas e meter tudo no carro. Ele deixou-vos?

Isso agora não lhe diz respeito respondi, seco.

O seu marido realmente não é assunto meu. Só queria que soubesse: se precisar de ajuda, pode contar comigo. Se quiser, posso ficar com as meninas enquanto faz recados, assim, de coração, não é por dinheiro.

Entre, faça favor. Como se chama? perguntei, enquanto enchia duas chávenas de chá e punha bolachas numa taça.

Eugénia da Silva, e a senhora é o Ricardo, certo? , disse, partindo uma bolacha ao meio. Só quero que saiba: se precisar, estou mesmo aqui ao lado. E, insisto, é só pela companhia, nem me passa pela cabeça cobrar nada. Para mim, até é um gosto.

Deu um gole pequenino no chá, aprovou com um aceno e comentou:

Muito bom. É chá de cidreira? Tenho montes disso na horta da minha casa na aldeia, plantei bastante. Olhe, no verão, venha lá descansar. Tenho lá uma macieira, as maçãs são uma delícia

Olhei para ela e pensei: porque me parecia ela tão antipática? Talvez porque não fazia conversa fiada, nem vinha saber se eu andava de rastos com as gémeas. Nunca se metia na vida dos outros, passava calada. E eu, tolamente, achava-a convencida. Agora vejo: não anda a perguntar do Pedro, nem mexe onde dói, limitou-se a ajudar.

De repente reparei que a dona Eugénia é elegante, sempre arranjada, chinelos limpos, cabelo apanhado num rolo, vestido com gola de renda. E um cheirinho suave, qualquer perfume discreto.

Se fiquei a ouvi-la contar sobre a sua casinha no campo, as maçãs, o forno a lenha, o lago onde andam patos todo o verão os pensamentos sombrios foram-se evaporando. Senti-me melhor.

Recordo esse momento como se fosse ontem, mesmo já tendo passado cinco anos. Lembro-me de quando o Pedro me gritava: Vais-te abaixo! Não consegues!

Mas tudo isso ficou para trás.

Dona Eugénia corta agora as maçãs com destreza, espalha-as sobre a massa, coloca o tabuleiro no forno quente. As saladas já estão prontas, o guisado borbulha no fogão. Hoje faz anos a vizinha do coração. É Agosto, a casa da aldeia de janelas e portas abertas, e na cozinha o cheirinho a tarte de maçã espalha-se pelo ar.

Que sorte a minha tê-la na minha vida! pensava eu, ao ver o rosto da dona Eugénia rosado do calor do forno. O que seria de mim sem ela? As minhas filhas adoram-na. E ela podia, naquele dia, ter fechado a porta na minha cara. Agora as meninas têm nove anos, já são crescidas. Todos os verões é aqui que querem estar: ao pé do lago, dos amigos e da avó do coração. Uma avó verdadeira próxima, generosa e doce.

Vou apanhar mais maçãs para fazermos um refresco digo, pegando no cesto e indo para o quintal.

À sombra da macieira está deitada a cadela Milú. Quem diria que aquela cadela magrinha e feia do lixo se transformaria nesta linda labradora?

Só o amor salva penso eu, enquanto lhe estendo na mão uma bolachinhaMilú abana o rabo, feliz, e eu sorrio, lembrando-me do tempo em que todo o nosso mundo parecia desabar. Quem podia imaginar que uma pausa para um chá de erva-cidreira mudaria tudo? Fui buscar as maçãs mais vermelhas, enquanto ouvia ao longe as gargalhadas das meninas, livres e felizes como nunca imaginei possível. A vida não ficou mais fácil ficou outra. Não somos as mesmas, e ainda bem. Quando volto à cozinha, encontro Dona Eugénia a ensinar as gémeas a estender a massa, de mãos cheias de farinha e olhos brilhantes de alegria.

O aroma do verão, a doçura da maçã, a companhia silenciosa da vizinha que virou família. Penso: é assim que recomeçamos com uma tarde de agosto, um coração aberto e a certeza de que, por muito que tudo mude, há laços que nunca se soltam. E, no fim de contas, descobri que “não ser capaz de nada” era só mais uma história mal contada. É juntos, em simplicidade, que vencemos cada medo e escrevemos, todos os dias, um final feliz que nunca acaba.

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