Nunca pensei que os meus próprios familiares me iam levar a sair de casa. Tinham a convicção de que eu era obrigado a sustentar financeiramente todos os membros da família em dificuldades. Desde novo tive bem claro o objetivo de me tornar programador, pois sempre fui apaixonado por esta área. Segui o meu sonho: terminei o secundário, fui estudar para Lisboa e fui dando passos firmes rumo à profissão que tanto queria. O esforço deu frutos e consegui, sem grandes dificuldades, um emprego muito bem pago na área da programação.
Sentia-me satisfeito e não pensava sequer em casar dava muito valor à minha independência e gostava de aproveitar a vida no meu ritmo. Mesmo estando a trabalhar, sempre ajudei financeiramente a minha mãe e levava-a todos os anos de férias pelo país. Sentia uma enorme gratidão pelo que fazia por mim.
Tudo mudou quando o meu irmão mais novo começou a pedir dinheiro constantemente, dizendo que não conseguia arranjar emprego. Ao início não me importava de ajudar, mas comecei a notar que ele aproveitava-se descaradamente da relação. Isso deixou-me inquieto e decidi falar-lhe com franqueza. Disse-lhe que estava na hora de acordar para a vida, de arranjar trabalho e fazer-se à vida em vez de depender dos outros.
A minha intenção não era recusar ajuda por avareza, apenas queria que ele assumisse as rédeas da própria vida e do futuro dele. Para meu espanto, depois de o recusar, a nossa mãe telefonou-me exaltada e começou a discutir comigo. Acusou-me de ser egoísta e de me ter esquecido da família. Algumas tias também se afastaram de mim por causa de tudo isto. O peso da vergonha acabou por me levar a tomar uma decisão amarga: decidi emigrar para França.
Hoje não me arrependo tenho uma vida estável, um bom salário e sucesso profissional, embora isso me tenha afastado de quase toda a família. Ainda assim, faço sempre questão de ligar regularmente à minha mãe e estar disponível sempre que precisa de mim.
A maior lição que levo desta história é que, por vezes, para crescermos e preservarmos quem somos, temos mesmo de nos afastar do que nos é familiar mesmo que doa.







