— A minha mãe vem morar connosco e é assim que vai ser, — afirmou o meu marido. Mas nessa mesma noite, já ele fazia as malas.

A minha mãe vai passar a viver connosco, ponto final, anunciou o Mário, com a solenidade de quem dita leis. Mas, já nessa noite, andava a enfiar meias num saco de viagem.

Há homens de uma cepa especial: tomam decisões como quem espeta pregos depressa, sem grande estudo e convencidos de que acertaram no alvo.

O Mário era um destes.

Não era mau tipo. Trabalha, é pessoa de confiança e, melhor ainda, gosta muito da mãe ninguém lhe tira isto. O problema é que sempre achou que, uma vez decidido, fica decidido. Que a mulher resmunga um bocadinho, faz beicinho e acaba por concordar. Sempre foi assim.

Leonor também sempre foi dessas aceitava. Com aquele sorrisinho paciente de quem já percebeu tudo e mais alguma coisa.

Até que, numa calma de fim de dia, o Mário chega a casa, mete a chaleira ao lume e dispara:

A minha mãe vai viver connosco. E não se fala mais nisso.

Frase atirada assim, como se dissesse que ia chover na Covilhã. Nem pediu opinião, nem mostrou grande pena.

Leonor estava ao fogão a mexer o arroz.

Espera lá disse ela. Nós nem sequer…

Leonor Mário disse-lhe o nome naquele tom que fecha discussões. Ela está sozinha, já vai nos sessenta e tal. É meu dever.

Dever. Pois claro, bateu-lhe a palavra.

Nada de o que achas tu?; era dever, como se só a ele concernisse e a Leonor estivesse ali só para encher a casa.

Mário, tentou ela com delicadeza estamos a falar da tua mãe, que é uma mulher boa e eu reconheço. Mas lembra-te: isto é a nossa casa. Dois quartos, tu e eu.

Dois sofás interrompeu ele. Onde é que está o drama?

Leonor desliga o fogão. Vira-se, olha para ele, com aquele olhar de quem tenta perceber: será que ele me ouve? Ou só escuta a si mesmo?

Decidiste sozinho? perguntou ela.

Sim.

Sem mim.

É a minha mãe.

Pronto, está dito.

Leonor assentiu lentamente, num ar filosófico.

Percebi, disse, e foi-se embora para o quarto.

O Mário ficou um bocado na cozinha, depois vagueou pelo corredor, sentou-se, levantou-se, rodou em seco. O homem que decide mas não previa que ninguém fizesse uma festa com a decisão.

Leonor sentou-se à ponta da cama e ficou a olhar pela janela.

Decidiu tudo sozinho, repetia para si.

A conversa não andou nem nessa noite, nem no dia seguinte.

No segundo dia, Leonor ainda tentou.

Mário estava no sofá, enfiado no telemóvel como em quase todas as noites, e ela foi sentar-se ao lado dele, mãos entrelaçadas nos joelhos.

Mário. Preciso que conversemos a sério.

Ele pousou o telemóvel isso, por si só, já era um milagre.

Fala, disse ele.

Compreendo a tua preocupação com a tua mãe. É natural. Ela está sozinha, deve ser difícil. Mas nós só temos dois quartos. Já às vezes nos sentimos apertados Três pessoas seria mesmo complicado. Eu sentir-me-ia desconfortável.

Não gostas dela?

Leonor fechou os olhos um instante.

A pergunta de sempre. Mal uma mulher diz não me dá jeito, logo alguém responde: então não gostas. Como se não se pudesse gostar da sogra, mas não querer partilhar vinte metros quadrados em permanência.

Tenho uma boa relação com a tua mãe, respondeu Leonor pacientemente. Lidar com ela de vez em quando é uma coisa. Morar juntas, outra bem diferente, Mário.

Mas ela não é estranha, é família.

Eu sei.

Custa-lhe estar sozinha.

Claro.

Então qual é o problema?

Leonor olhou demoradamente para ele. Depois disse baixinho:

Será que me ouves mesmo?

Nenhuma resposta. Mandou-se de volta ao telemóvel.

E pronto, morreu aí o assunto.

No dia seguinte, toca o telemóvel de Leonor: era a Dona Emília.

Olá, Leonor uma voz suave, quase envergonhada. Desculpa estar a ligar. O Mário contou-me mais ou menos o que se passa, sei que isto está um bocadinho estranho.

Não faz mal, Dona Emília, respondeu Leonor, na defensiva.

Faz, sim, retorquiu a sogra, gentil. Sinto pelo teu tom de voz.

Leonor ficou em silêncio.

Eu, honestamente, não percebo como é que será, acabou por confessar.

Eu percebo, asseverou Dona Emília. Percebo perfeitamente. Também tive sogra, há quarenta anos. Foi vem morar connosco, ponto final. Aguentámos três meses, sobrevivemos por milagre.

Leonor não conteve um sorriso.

Dona Emília, mas o Mário está decidido.

O Mário é assim mesmo a sogra riu-se baixinho. Filho prestável, mas, quando mete uma coisa na cabeça, não há quem o pare. Era igualzinho miúdo. Uma mula.

Leonor guardou os comentários para si.

Fala com ele de outra forma, sugeriu Dona Emília. Não fales dos metros quadrados, diz-lhe só: Mário, para mim é essencial ser consultada e sentir que contam comigo. Diz-lhe isso.

E se mesmo assim ele não perceber?

Pausa.

Então a conversa terá de ser outra, murmurou a sogra. Mas acho que ele vai perceber. Só precisa sair do modo chefe de família. Isso passa devagar nos homens, são como um navio a virar na foz do Tejo.

Leonor soltou um riso improvável.

Obrigada, disse.

Não tens de quê. E acrescentou, baixinho: Não quero ser a desculpa de desavenças entre vocês. Esquece lá o que o Mário diz, a última coisa que queria era isso.

Naquela noite, logo a entrar, Mário sentiu o ambiente diferente.

Então? perguntou.

Nada.

Jantaram em silêncio, até que Leonor pegou no assunto:

Mário, deixa-me dizer só uma coisa? Só uma. Não interrompas, pode ser?

Ele fez sinal que sim.

Não importa se é a tua mãe, a minha, se vivem duas pessoas ou dez aqui. O que me magoou foi tu tomares uma decisão que diz respeito aos dois, sem sequer me perguntar. Como se eu fosse invisível.

Mário ia abrir a boca.

Por favor, não interrompas, atalhou ela.

Ele ficou calado.

Era só isto.

Levantou-se, foi arrumar a loiça.

Mário continuou à mesa a olhar para a tolha grossa de algodão, depois sentou-se no sofá, levantou-se outra vez, espreitou o pátio. Acabou por ir para a cozinha e, sem jeito, abraçou-a de lado.

Vá, disse ela. Anda beber chá.

Mário agarrou a chávena com as duas mãos, em silêncio.

Ligaste à tua mãe, hoje? perguntou Leonor.

Ainda não.

Ela telefonou-me.

Mário olhou-a de lado.

Disse-te o quê?

Que tem juízo, a tua mãe.

Ele anuiu, envergonhado, com aquele ar de quem ouve um elogio ao clube do coração.

Tem sim, assentiu.

Lá fora, a chuva miudinha tornou-se aguaceiro. O ambiente, pesado há dias, começou a desanuviar.

No terceiro dia, Mário ligou à mãe. Mesmo com Leonor de ouvido aguçado na cozinha, disse:

Mãe, vai começando a juntar as coisas. Ao fim de semana vou aí ajudar.

Leonor escutou, parada à porta. Mário pousou o telefone, mirou-a:

Não, disse ela.

Mário fez só aquela careta.

Leonor, não posso simplesmente deixá-la sozinha, entendes?

Não te peço que a deixes atalhou ela só te peço que me perguntes. Só isso.

Mário levantou-se, deu umas voltas pelo corredor.

Olha, se para ti é mais importante o conforto do que a minha mãe

Mário, e a voz dela era de quem se cansa por favor, não digas disparates.

Não, deixa-me acabar! elevou ele, pela primeira vez em dias. Odeio sentir que querem que escolha entre ti e a minha mãe! Isso não é normal!

Ninguém te põe a escolher respondeu ela. Tu é que criaste essa situação ao nunca me consultar.

E não vais concordar, pois não?

Não.

Mário fitou-a longamente, olhar esquisito, entre mágoa e azedume, uma pitada de raiva e outra qualquer coisa sem nome.

Pronto, retorquiu ele.

E foi direito ao quarto.

Leonor ouviu os zips da mala.

Mário apareceu de casaco vestido, mala na mão.

Vou passar a noite em casa do Rui, avisou.

Está bem, acenou Leonor.

Pegou nas chaves, vacilou:

Não te parece estranho estarmos assim?

Estranho é tu achares normal não me perguntar nada, respondeu ela.

Ele abriu a boca, gaguejou qualquer coisa, mas saiu sem mais.

Porta fechada.

Leonor voltou à cozinha.

Enquanto esperava que a água fervesse, tocou de novo o telefone: era Dona Emília.

Leonor, desculpa O Mário escreveu que ia dormir fora. Isto foi por minha causa?

Dona Emília

Não digas nada, murmurou a sogra, triste. Eu já percebo. É por minha culpa.

Por culpa dele corrigiu Leonor. Ele decide tudo sozinho.

Pausa.

Fizeste bem, disse Dona Emília, convicta.

Perdão?

Fizeste bem. A voz firme, sem hesitações. Olha, não vou viver convosco. Tomei a decisão, é minha, não do Mário. Já vou quase nos setenta, sempre dei conta de mim e assim vou continuar. O meu filho é boa pessoa, mas às vezes tem de ser travado. E calhaste tu para isso. A mim ele nem me ouve.

No dia seguinte, Leonor acordou antes das oito. Nem sinais de SMS.

A vida seguia, aparentemente.

Mário reapareceu só no dia seguinte, perto das dez da manhã.

Tocou à campainha, embora tivesse chaves. Só isto diz muito.

Leonor abriu. Lá estava ele, meio desfeito de uma noite na casa do amigo, com a mala de viagem na mão.

Posso entrar?

Entra, sim.

Foram para a cozinha. Ele sentou-se, pousou as mãos sobre a mesa, fitou-as com atenção.

A mãe ligou-me, disse simplesmente.

Já sabia.

Disse que não vem viver connosco. Que foi decisão dela, para eu não a pressionar. Disse ainda que portei-me como um parvo. Em resumo.

Dona Emília é sábia.

É pois, concordou ele, já sem ponta de ironia. Leonor, não sou bom a falar destas coisas. Sabes disso.

Sei.

Mas percebi. Estive mal. Decidi sozinho e esperei que tu alinhasse. Foi injusto.

Leonor olhou-o, séria.

Foi, sim.

Prometo que não repito.

Leonor serviu o chá e pôs-lhe à frente uma caneca de barro.

E quanto à tua mãe, esclareceu ela. Não me importo que venha visitar, ajudar, o que for. Ao fim de semana, combinamos, ajudamo-nos uns aos outros. Nesse caso, é até bom.

Entendi, respondeu ele.

Olhou para ela com aquele olhar novo que Leonor só tinha notado no dia anterior.

És uma mulher de fibra, disse ele baixinho.

Eu sei respondeu Leonor, com um sorriso, o primeiro em três dias.

Lá fora, o sol outonal brilhava. Nem muito quente, nem demasiado forte, só aquele cálido conforto de quem tem tudo, finalmente, no lugar certo.

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— A minha mãe vem morar connosco e é assim que vai ser, — afirmou o meu marido. Mas nessa mesma noite, já ele fazia as malas.
Svetlana, dobrý deň! Ospravedlňujem sa, som vaša susedka z bytu pod vami.