Se sabes abrir caminhos, vai em frente. Mas ao assumir responsabilidade, é melhor renunciar à criança.

O bebê de Lurdes e do marido era o primeiro e tão desejado. Durante nove meses o esposo,TiagoSilva, cuidou dela, acompanhou cada consulta e levavaa ao Hospital de São João.Especialmente nos dias de chuva forte, ele proibia Lurdes de sair de casa, temendo que o asfalto escorregadio a atrapalhasse. Pouco antes do parto, enviaramo a uma viagem de negócios a Faro; poderia ter recusado, mas já planejava deixar o emprego assim que o filho nascesse. Afinal, não seria ele quem ficaria a vigiar a casa; Lurdes e o recémnascido ficariam sozinhos.

As contraindicações começaram assim que Tiago partiu. As dores eram insuportáveis e o marido não estava ao lado. Lurdes nunca sonhara que o parto seria tão solitário; costumava imaginar que, como primogênita, teria o apoio da família inteira.

Quando o pequeno, saudável, chegou, Lurdes ainda não tinha coragem de contar ao marido o que havia acontecido. Deixouo partir, talvez para que descobrisse a notícia nas mãos de outras pessoas.

Ao entrar no quarto, Lurdes reparou numa senhora de quarenta anos deitada do outro lado da cama. Ao lado, uma jovem chamadaInêsPereira falava ao telefone, enquanto, perto da porta, outra mulher chorava, virada para a parede.

Depois de um esforço tremendo, Lurdes acabou no corredor e, exaurida, deitouse sobre um colchão azul com estampa triangular, adormecendo como se nada mais existisse ao seu redor.

Vamos alimentar o bebê? ouviu Lurdes, ainda sonolenta. Virouse sorrindo.

A enfermeira,Carolina, estava ao lado da mulher que chorava, também virada para a parede.

Por que fica calada? Segura o bebê nos braços. Olha que fofinho! disse, mas a mãe não se virou.

Pode espalhar as pernas, mas se quiser assumir a responsabilidade, melhor renunciar à criança completou a enfermeira, ainda meio adormecida, e saiu.

A primeira a falar foi a senhora de quarenta anos,MarianaCosta, que não conseguia conter as emoções:

Você acha que eu queria esse bebê? Tenho quarenta e três, meu filho está casado, a neta vem chegando. E agora? O que faço? O bebê não tem culpa. Se eu não o quisesse, não teria mantido. Como vai viver uma criança que, logo ao nascer, já a abandona?

Anita, a jovem que chorava, aumentou ainda mais o choro. Sem esconder as lágrimas, gritou como se o peito fosse despedaçarse.

Por que choras? Isso não vai mudar nada. insistiuMariana. Leva o bebê, alimentao e não seja tola.

Será que ele foi violado? sugeriuAlícia, que enfim largou o telefone. Ou o bebê veio de outra pessoa talvez de um padrasto?

Lurdes ouvia o relato deAnita e sentia como se fosse culpa sua o que havia acontecido. Ela tinha tudo: marido que a levava pela mão, pais que a amavam, e ainda assim encontrava motivos para se sentir triste.

Ali, naquele hospital, um ser humano recémnascido era visto como ninguém precisava. Uma criança que ainda não havia feito nada para ser rejeitada. Uma menina crescerá amarga, pois sua mãe tem pais que bebem, ou porque o marido a traiu depois de prometer casamento. Aquele que deveria protegêla abandonoua ao saber da existência do bebê.

Não haverá balões nem flores para celebrar o nascimento, nem visitas para a mãe. Ela terá que cuidar do filho sozinha, sem apoio. Sentiu vergonha e pena por aquelas pessoas desconhecidas quando perguntou:

E se houver um lugar, você levaria o bebê?

Anita a fitou como se fosse louca:

Claro, mas isso nunca vai acontecer. Ela riu de forma amarga, voltou-se para a parede e não disse mais nada.

Duas horas depois, Lurdes foi informada com solenidade:

Você e o bebê vão morar no dormitório da universidade. Minha mãe é a responsável. Você vai limpar o chão e eles vão lhe dar um quarto.

Ah, eu já tenho um envelope para a alta, interrompeuAlícia, ainda no telefone. Vou ligar para o marido. Temos dois bebês, por que precisaríamos de tantos?

Eu trago as roupas, disseNatália, outra enfermeira. São da minha filha, já não são novas, mas boas. Lavei e passei. Não precisamos, meu filho tem as próprias roupas. Os netos comprarão tudo novo; essas coisas não servem a eles.

No dia seguinte, mulheres de outros quartos começaram a trazer objetos: carrinhos, berços, cobertores.

Ah, eu não tenho nada, disse uma jovem do outro quarto. Posso comprar a fórmula? Talvez o leite acabe.

Anita chorou alto, mas agora não de desespero, e sim de felicidade ao ver a ajuda inesperada chegar.

Eu dou, eu ganho, murmurou, enquanto as mães lhe acariciavam o ombro, dizendo:

Dê a quem precisar.

Já tarde, ao se deitar, Lurdes pensou em como tudo havia se resolvido. Tudo ficaria bem paraAnita. Ela encontraria alguém digno. E a filha de Lurdes teria um futuro tranquilo, vivendo com a mãe. Não precisava de mais nada.

Assim, a experiência ensinou que, mesmo nas horas mais sombrias, a solidariedade dos desconhecidos pode transformar a dor em esperança. Quem oferece ajuda sem esperar recompensa revela o verdadeiro valor da humanidade. O que importa, no fim, é o amor que espalhamos; ele é a única herança que nunca se perde.

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