— Daniel, quem são estas pessoas? De onde veio tanta gente? — a voz de Cristiana tremeu, e ela apertou com mais força o cotovelo do filho. Na cabeça passou-lhe um relâmpago: «Vendeu. Vendeu a casa de campo sem me dizer, e estes são os novos donos que vieram tomar conta.» Com este pensamento, a boca secou-lhe, e ela, soltando-lhe o braço, ficou imóvel a olhar para o próprio quintal.
As tábuas cheiravam a pinho. Cheiravam tão forte e acre que o nariz de Cristiana começou a arder ainda antes de chegar ao portão, e agora aquele odor misturava-se com cal e suor. No quintal havia pessoas. Muitas. Umas vinte, talvez mais. Homens de t-shirts velhas e jeans poeirentos, duas raparigas com rolos de plástico, um rapaz em cima de um escadote, outro mesmo no telhado, com um martelo. Alguém arrastava sacos de cimento, outro mexia num balde uma pasta branca que exalava um cheiro forte a cal. O seu terreno da casa de campo, sossegado e triste ainda ontem, parecia agora um formigueiro em abril.
— Daniel, — disse ela, seca, quase sem voz. — Estás a ver isto? Se vendeste a casa sem me consultar, nunca te perdoarei. Diz-me a verdade: são pessoas estranhas?
— Mãe, espera aí, que novos donos? — Daniel ficou mesmo atrapalhado. — O que é que tu tens? São meus. Todos meus.
— O que é que queres dizer com «teus»? O que se passa aqui? Tenho o telemóvel na mala, se não me explicares já, chamo a polícia.
Ela estendeu mesmo a mão para a mala que lhe pendia do braço. Os dedos não lhe obedeciam. Na cabeça passou-lhe tudo ao mesmo tempo: a casinha que ela aguentara durante quinze anos, o alpendre que nunca construíra porque primeiro eram os estudos do Daniel, depois o crédito do carro, depois a dentadura postiça — espera, depois o linóleo da cidade — espera. Tudo esperava, e agora pessoas estranhas pisavam o seu terreno. Dela. Que ela tratara como a uma filha.
— Mãe, — Daniel tocou-lhe no ombro. — Ouve. Não são donos nenhuns. Fui eu que os chamei.
Cristiana ficou imóvel com a mala empunhada. Olhou para o filho como se o visse pela primeira vez. Trinta e cinco anos, cabelos grisalhos nas têmporas já bem visíveis, ombros largos — puxara a ela, não ao pai. Nos olhos, nem medo nem descaramento. Só uma espera calma e tranquila.
— Tu?
— Eu. Mãe, são meus. Todos. Do trabalho, ainda da faculdade, os rapazes do bairro com quem jogava à bola. Lembras-te do Paulo?
Cristiana lembrava-se do Paulo. Magro, sempre com fome, ficava sempre para jantar porque em casa dele, parece que não era fácil. Ela na altura punha-lhe sempre o dobro e fingia que não via como ele se encolhia.
— O Paulo está aqui?
— Está. E o Alexandre, e o Miguel ruivo, e o Jorge, que foi meu padrinho de casamento. Quase todos os que tu alimentaste, mãe.
Cristiana percorreu o quintal com os olhos. Então era isso. Por isso as caras lhe pareciam vagamente familiares. Aquele no escadote era mesmo o miúdo a quem ela dera a bicicleta velha do Daniel quando a família dele se mudou para uma casa partilhada. E aquele com o balde era o Alexandre, que no nono ano partiu o vidro deles com uma bola, e ela não ralhou, só pediu que pusesse um novo. Eles tinham crescido. Tornaram-se homens adultos de mãos fortes e caras sérias. E estavam no seu terreno com tábuas e mudas.
— Para quê? — perguntou Cristiana baixinho. — Daniel, para quê?
Daniel ficou calado. Depois pegou-lhe na mão — com cuidado, como se fosse de vidro — e voltou-a para si.
— Tu passaste a vida a juntar para esta casa de campo, mãe. Lembras-te de quereres um alpendre? Grande, com vidros deslizantes, para beber chá no verão e ver o pôr do sol? Ainda tinhas uma foto de uma revista no frigorífico. Há uns quinze anos.
Cristiana lembrava-se. Sim, havia um desenho assim. Amarelecera, os cantos enrolados, mas ela não o deitou fora até mudarem de frigorífico. Nessa altura a recorte perdeu-se, e ela quase se esqueceu. Quase.
— Tu na altura ias pondo de parte, — continuou Daniel, — de cada ordenado. Depois vieram os meus exames, e os explicadores, e a renda da casa quando eu e a Vera casámos… Mãe, tu adiaste as obras no teu quarto durante seis anos. Ainda tens o papel de parede florido que é mais velho do que eu, de certeza. Lembro-me de tu dizeres: «Não faz mal, o alpendre espera.» Sabes que mais? Não espera. Chega de esperar.
Cristiana calou-se. Calou-se tanto tempo que o Paulo, no telhado, deixou de martelar e ficou parado a olhar para eles.
— Estou a pagar-te a dívida, — disse Daniel. — A equipa é de borla. Decidimos: despachamo-nos numa semana. Olha o projeto.
Tirou do bolso de trás uma folha de papel dobrada. Abriu-a. Cristiana viu um desenho técnico — cuidado, com medidas, com notas nas margens. Não era um recorte de revista. Era um projeto a sério. Feito para o seu pequeno terreno, respeitando a velha macieira que ela pedira para não mexer de maneira nenhuma.
— A macieira fica, — disse Daniel, apanhando-lhe o olhar. — Pensámos em tudo. Reforçamos a fundação. E pomos piso aquecido, informei-me, há um sistema especial, barato e fiável. Podes lá estar em novembro, enrolada numa manta, a beber chá.
A primeira lágrima escorreu pela face de Cristiana e ficou presa no canto dos lábios. Ela não a limpou — nem deu por ela. Ficou a olhar para aqueles homens adultos que outrora jogavam à bola no pátio, magoavam os joelhos, roubavam-lhe almôndegas ainda quentes da panela, copiavam os trabalhos de casa na cozinha e discutiam até ficarem roucos sobre jogos de computador. Agora tinham vindo ali. Sozinhos. De graça. Para construir o alpendre dos seus sonhos.
Mas a cena idílica não durou muito. Atrás da vedação ouviu-se uma tossidela, e por cima das estacas apareceu uma cabeça com um lenço colorido. Dona Amélia, a vizinha da esquerda. Uma mulher com a expressão perpétua de «eu bem disse». Pôs as mãos nas ancas e olhou para o que se passava como se estivessem a desmontar a fronteira do país.
— Cristiana, és tu? — cantarolou com voz doce, onde se ouvia claramente o metal. — Eu a olhar: barulho, azáfama, carros desde manhã. O que é isto, uma feira de emprego?
— Amélia, bom dia, — Cristiana limpou a bochecha maquinalmente. — É o meu filho com os amigos. Estão a ajudar. Vamos construir um alpendre.
— Um alpendre? — Dona Amélia abanou as mãos. — E tens licença? Sabes que agora, por construções sem autorização, as multas são tão grandes que vendes a casa e não pagas? E o teu terreno é pequeno, Cristiana, são três metros até à minha vedação, estás a respeitar os recuos? Eu, sabes, não me calo. Tenho um sobrinho na fiscalização da câmara, posso avisar.
Daniel, ao ouvir isto, virou-se e aproximou-se calmamente da vedação.
— Bom dia, Dona Amélia. Temos licença. O projeto está aprovado. E as normas de incêndio estão cumpridas. O meu amigo é arquiteto, antes de desenhar verificou tudo. Quer ver os documentos?
Dona Amélia ficou cor de vinho. Não esperava aquilo.
— Pois, pois, — disse ela, recuando um passo. — Vamos ver o que sai daqui. Sabes, há quem construa e depois tenha de demolir à sua custa. E o barulho, Cristiana. Os meus netos não vão dormir.
— Não faz mal, — disse Cristiana baixinho, e a voz deixou de tremer. — Os seus netos comeram panquecas comigo em agosto passado, quando a senhora se esqueceu de lhes dar de comer. Dormem mais tarde.
Dona Amélia franziu os lábios e desapareceu atrás da vedação. O Paulo, que observava do telhado, soltou uma risadinha e pegou de novo no martelo. E Cristiana sentiu, pela primeira vez em muitos anos, algo parecido com um ardor de batalha. Não. O seu sonho, agora, ela ia defendê-lo.
Nas duas horas seguintes, Cristiana viveu num estado estranho, quase translúcido. Parecia-lhe que estava a sonhar. Daniel instalou-a numa cadeira de campanha à sombra da macieira, trouxe de casa uma caneca velha com o cabo partido — aquela mesma de onde ela bebia chá quando o levava ao jardim de infância — e serviu-lhe chá quente de um termo.
— Senta-te, — disse ele, severo. — O teu trabalho hoje é olhar. Nada de «só vou varrer aqui», nada de «já vou regar os pepinos». Percebeste?
Cristiana ia responder — por hábito, porque respondia há quarenta anos sem parar — mas de repente desistiu. Reclinou-se na cadeira e pôs-se a olhar.
O Paulo e o seu companheiro a serrar tábuas, e a serra a guinchar de modo que o cão vizinho começou a ladrar. O Miguel ruivo, que já não era ruivo, mas careca e respeitável, a misturar argamassa e a explicar qualquer coisa à rapariga das mudas. O Daniel a andar de um lado para o outro, a perguntar, a ajudar a segurar, a acenar a alguém, e a sua cara — adulta, concentrada, de dono. O seu filho. O dono daquele quintal. Não — o dono da vida que ele agora devolvia a ela, à sua mãe.
Por volta das três da tarde, Cristiana levantou-se. Já chega. Pode-se olhar, mas não assim.
— Vou fazer o almoço, — disse a Daniel.
— Mãe…
— Nem «mãe». Temos vinte pessoas, estão de pé desde as oito. O que comeram, sandes?
— Bom, temos pão e chouriço…
— Exatamente. Vou depressa.
E entrou em casa. Lá dentro estava fresco e cheirava a pó de verão. Abriu o frigorífico, que no início da temporada estava sempre triste — ovos, manteiga, um pacote de kefir, mostarda de três anos atrás — e suspirou. Não há nada. Vai ter de improvisar.
Mas quando saiu ao alpendre para chamar o Daniel e mandá-lo ao supermercado, já a esperavam. Uma das raparigas — a dos floxes — estendeu-lhe dois grandes sacos.
— Isto tem legumes, frango, ovos, farinha, manteiga, — disse ela. — O Daniel já ontem comprou tudo e disse: «A minha mãe vai querer cozinhar, não discutam, deem-lhe os ingredientes.»
Cristiana pegou nos sacos. Olhou para a rapariga. Depois para o Daniel, que estava de pé um pouco mais longe, a fingir que examinava a fixação das vigas.
— Tu, — disse-lhe de costas. — Quando é que arranjaste isto tudo?
— Mãe, preparei-me três meses, — respondeu o filho, sem se virar. — Diz-me é quando vêm as panquecas.
Isto já era de mais. Cristiana entrou em casa, fechou a porta com força e ficou um minuto com as mãos no rosto. Depois expirou, arregaçou as mangas e meteu mãos à massa.
Uma hora depois, no quintal, estava uma mesa comprida que os rapazes tinham montado com as mesmas tábuas em quinze minutos. Em cima fumegavam batatas que Cristiana estufara em três frigideiras ao mesmo tempo, porque não havia uma panela grande na casa de campo. Havia pepinos e tomates cortados aos pedaços, como na sua juventude, quando não complicavam as saladas. Ao centro, uma pilha de panquecas — fininhas, rendilhadas, com as beiradas crocantes. Aquelas. As suas, de assinatura. Que outrora eram devoradas às manchadas por adolescentes esfomeados em três minutos.
— Dona Cristina, — disse alguém de boca cheia, parecia o Alexandre, o que partira o vidro. — Há quinze anos que não como umas panquecas assim. Palavra de honra. A minha mãe não fazia, na minha casa eram sempre pré-feitas.
— Eu sei, — disse Cristiana, e de repente sorriu. — Por isso é que ficavas cá até à noite.
Todos se riram. Alto, à vontade, com juventude. Na casa de campo dela riam-se vinte adultos, e aquele riso era, provavelmente, o melhor som dos últimos dez anos.
Cristiana levantou-se de repente. Percorreu-os a todos com os olhos. O Paulo parou com a colher na mão, o Daniel ficou alerta. Ela pegou numa concha, tirou de uma panela de refresco de fruta e encheu uma caneca.
— Rapaziada, — disse ela, e a voz soou-lhe estranhamente alta. — Perdoem-me, hoje chorei três vezes. A primeira de susto. A segunda de alegria. A terceira por não saber como vos agradecer. Agora já sei. Quero beber à vossa saúde. De cada um. Porque se lembram. Eu nunca esqueci as vossas caras, mas pensei que vocês se tinham esquecido de mim. E não se esqueceram. Portanto, não foi em vão que vos alimentei. À vossa.
Bebeu o refresco de um trago, como se fosse algo mais forte. Houve um segundo de silêncio à mesa, e depois um «viva» tão alto que uma gralha caiu da macieira vizinha.
Ela andou entre eles, pôs mais panquecas, serviu mais chá, ouviu as conversas e percebeu que já não tinha ansiedade. Aquela ansiedade habitual com que adormecia e acordava nos últimos anos. Ansiedade pelo Daniel, pelo seu casamento, pela hipoteca, por ele ganhar pouco, trabalhar muito, ligar raramente. Tudo aquilo recuara. Porque ali estava o seu filho, sentado numa caixa virada ao contrário, com uma tábua no colo a fazer de prato, a barrar panqueca com doce, e a dizer a alguém: «Não, os caixilhos amanhã, hoje o que importa é acabar o frontão, senão vem a chuva e desfaz tudo.» E ela percebeu: ele crescera. Era capaz de organizar vinte pessoas e construir um alpendre. E fizera aquilo — por ela.
Ao anoitecer, quando o pessoal começou a recolher-se às tendas (montaram acampamento mesmo ali, junto ao bosque, para não se amontoarem), Cristiana estava sentada no velho alpendre. Daniel sentou-se ao lado.
— Então, o que achaste? — perguntou.
— Não sei como te agradecer.
— Mãe, o quê? Que agradecimento? Sou eu que te agradeço. Por tudo.
Ficaram em silêncio. Depois Cristiana disse:
— Sabes, sempre pensei que os pais dão aos filhos, e os filhos vão-se embora e pronto. Bem, é assim com toda a gente. Não esperava nada. Sinceramente, Daniel. Só queria que tivesses melhor do que eu.
— E tenho, — disse ele. — Tenho melhor precisamente porque tu quiseste. E agora quero que tu também tenhas melhor. Pelo menos um alpendre.
Cristiana sorriu e deu-lhe uma cotovelada — como na infância, quando ele trazia um quatro a português e dizia: «Mãe, não sou o Camões.»
— Pronto, construtor. Amanhã tens outra vez esses frontões.
— Os frontões não vão a lado nenhum, — disse Daniel, e estendeu-lhe a mão para a ajudar a levantar-se.
A semana passou num dia. Na sexta-feira ao entardecer, Cristiana estava no seu novo alpendre a ver o sol poente inundar o jardim de laranja. O alpendre era exatamente como no recorte: claro, espaçoso, com vidros deslizantes e cheiro a madeira nova. As tábuas ainda não estavam pintadas, mas não faz mal. Há tempo. No chão, já estava a manta velha, e no parapeito, uma caneca de chá. A alfazema que as raparigas plantaram à entrada cheirava subtil e inquietante, como uma promessa de futuro.
Amanhã iam-se todos embora. Mas hoje estavam outra vez à mesa, a rir, a beber chá e a comer panquecas. E Cristiana deu por si a pensar: o que mais queria no mundo era que cada um daqueles vinte — o Paulo que se divorciava, o Miguel que ficava careca, as raparigas das mudas de quem nunca chegou a saber o nome — todos eles tivessem um dia um momento assim. O instante em que percebessem que o bem volta. Não precisa de ser com panquecas. Talvez com tábuas. Talvez com um alpendre. Ou talvez apenas com vinte pessoas que se põem atrás de nós sem contrato e dizem: «Lembramo-nos de como nos alimentaste.»
Em outubro, quando vieram as primeiras geadas, Cristiana estava sentada no seu novo alpendre com uma manta sobre os joelhos. Lá fora, o vento vergava os ramos nus, mas dentro estava quente — o piso aquecido funcionava bem, e o chá na caneca não arrefecia. Pegou no telemóvel, fotografou o pôr do sol sobre a macieira e escreveu a Daniel: «Filho, cá chegaram uns pássaros. Vem. Há panquecas.» A mensagem foi, e ela recostou-se na cadeira e sorriu — devagar, tranquila, como alguém que finalmente deixou de esperar.






