Hoje, como todos os dias, acordei às seis. Sem pensar, pus a chaleira ao lume. Hábito que já me faz companhia. A xícara, o alpendre, o silêncio.
O café passou rápido. Saí, sentei-me no degrau. O quintal estava igual: as canteiras de alface, o muro que o Joaquim sempre dizia que ia arranjar, a cancela com as dobradiças a chiar. E a tigela.
Aquela tigela azul de plástico, com uma racha na borda. Vazia. Limpa.
Um ano ali.
A vizinha Teresa, quando vinha pedir sal ou só para resmungar, não se calava:
– Maria, tira-a daí. Que é que andas a sofrer? A cadela já não está. Há um ano.
Mas eu não tirava. E nem sabia explicar porquê.
A Bela desapareceu numa trovoada. Daquelas de Julho em que o céu se rasga e o vento uiva como se fosse levar o telhado. De manhã, a cancela estava escancarada. O trinco partira-se. E a Bela, nada.
Procurei. Meu Deus, como procurei. Pus papéis em todos os postes. Andei ruas inteiras a chamar. Espreitei em cada obra, em cada quintal. Pedi aos vizinhos, liguei para o veterinário, e até à GNR fui – olharam para mim como se fosse maluca.
Um mês. Dois. Três.
Depois deixei de procurar. Mas a tigela ficou.
A Bela veio para casa no mesmo ano que o Joaquim morreu. Uma cachorrinha ruiva, com um peito branco e orelhas grandes. Olhos como dois pires. A Teresa trouxe-a, pousou-a no degrau e disse:
– Fica com ela, Maria. Sozinha é que não podes.
Na primeira noite, a cachorra sentou-se no meu colo. Eu acariciei-lhe a cabeça e falei sozinha:
– Pronto, agora somos duas.
O hábito de falar em voz alta ficou. Até a Bela se foi. Mas já ninguém me ouvia.
Acabei o café. Levantei-me, estiquei as costas. A cancela rangeu baixinho. Escutei.
Silêncio.
«Devem ser gatos», pensei. E entrei.
À noite, estava a ver televisão. Uma novela daquelas em que berram todos, batem com as portas e acusam-se de traições. A caixa de sons enchia a casa vazia de vozes.
Algo passou pela janela.
Afastei o cortinado.
Ao pé do muro, no escuro, estava uma cadela. Parada. Olhava para a casa. E junto dela, um pequeno novelo encolhido.
Vesti um casaco e fui ao alpendre.
A cadela não fugiu. Os cães vadios fogem, encolhem-se, abanam o rabo nervosos. Esta ficou. Inclinou a cabeça de lado – como os cães fazem quando escutam.
Avancei. Mais um passo.
Ruiva. Com uma mancha branca no peito.
Segurei-me ao corrimão.
– Bela?
A voz saiu num fio. Mas ela ouviu. Abanou o rabo.
E de trás dela, com as patas desastradas, saiu um cachorro. Pequeno. Ruivo. Peito branco.
A minha cópia.
A Bela aproximou-se, encostou o focinho molhado aos meus joelhos. Como se tivesse feito aquilo ontem. O cachorro ficou atrás da mãe, a espreitar com um olho só.
Acariciei a cabeça da Bela e chorei. Em silêncio. As lágrimas escorriam sem eu as limpar. Por baixo dos dedos, o pêlo quente, emaranhado. E as costelas – podia contá-las. Uma cicatriz no flanco. Comprida, rosada, já sarada.
– Bela… De onde vens? Onde estiveste?
Ela não respondeu. Apenas se encostou mais e fechou os olhos.
Aquela noite, a Bela deitou-se no sítio de sempre – ao pé da porta, sobre o tapete. Como se nunca tivesse partido. Como se aqueles três anos tivessem sido um sonho. O cachorro enroscou-se ao lado, com o nariz enterrado no pêlo dela.
Eu fiquei na cozinha, de queixo apoiado na mão. Olhava para eles e não conseguia desviar o olhar.
Peguei no telemóvel. Duas da manhã. O André vai resmungar. Mas não podia esperar pela manhã.
– Mãe? – voz sonolenta, preocupada. – O que é que se passa?
– A Bela voltou.
Silêncio.
– Mãe… Que Bela? Ela desapareceu.
– Voltou, André. E com um cachorro. Igual a ela.
– Tens a certeza? Pode ser uma cadela parecida.
– André. Conheço a minha cadela.
Ele calou-se. Depois disse, cauteloso:
– Está bem, mãe. De manhã falamos, sim?
Desliguei. Olhei para a Bela. Ela não dormia – olhava para mim. Olhos escuros, cansados, que pareciam compreender tudo.
De manhã, levei a Bela e o cachorro ao veterinário. O enfermeiro, um rapaz novo, examinou-os em silêncio. Apalpou as patas, olhou a boca, tocou na cicatriz.
– A cicatriz é velha. Sarou, mas foi uma ferida grave – rasgada. Os dentes gastos, falta um canino. As almofadas das patas estão ásperas, calejadas.
Tirou as luvas e olhou-me.
– Onde ela esteve, não sei. Mas andou muito, Maria. Patas destas não são de vida caseira. O cachorro tem uns três meses. Saudável, forte.
Eu acenei, a pensar no meu. Um ano inteiro. A viver nalgum sítio, a ter medo de alguém, a fugir de outros. Talvez a tivessem recolhido e abandonado de novo. Talvez se tivesse juntado a matilhas. Depois voltou.
No dia seguinte, a Catarina ligou. Primeira vez em dois meses. Voz contida, cautelosa. Como sempre nos últimos dois anos.
– Mãe, é verdade? O André contou.
– É verdade.
– E o cachorro é mesmo igual a ela?
– Cópia fiel.
Pausa. Eu ouvia-a respirar.
– Vou no fim de semana. Para os ver.
Desliguei e fiquei muito tempo com o telemóvel na mão. Parada ao meio da cozinha. A Bela estava à porta, a olhar para mim – calma, paciente. Como se soubesse que havia de ser assim.
A Catarina chegou no sábado, à hora do almoço. Saiu do carro, parou à cancela – como a ganhar coragem. Ou a lembrar-se da última vez que ali estivera. Empurrou a cancela, entrou no quintal e viu logo a Bela.
A cadela estava no alpendre, com as patas da frente esticadas. O cachorro brincava ao lado, a roer uma lasca de madeira, a grunhir a sério. Ouvindo os passos, a Bela levantou a cabeça. Não ladrou. Apenas olhou.
A Catarina agachou-se devagar, estendeu a mão. A Bela cheirou-lhe os dedos – muito tempo, muito devagar. E depois encostou-se à mão, como antes. Reconheceu-a.
O cachorro saltou logo, enterrou o focinho molhado na palma dela, lambeu. A Catarina riu-se – um riso curto, surpreendido. E depois calou-se.
– Mãe…
Eu estava à porta. Acenei.
A Catarina levantou o olhar. Os olhos dela brilhavam.
– Ela encontrou-te. Passado um ano.
Não respondi.
Ao fim da tarde, sentámo-nos na cozinha. Falámos da Bela. Não das zangas, nem do André, nem daquelas palavras ditas dois anos antes que ficaram entre nós como um muro. Falámos do cão. Como desapareceu, como a procurei, como deixei de procurar. Como a tigela ficou no alpendre o ano inteiro.
– A sério que não a tiraste? – perguntou a Catarina.
– Porquê?
Encolhi os ombros.
– Não sei. Não consegui.
A Catarina ficou calada. Pousou a colher.
– Podia ter ficado em qualquer lado, mãe. Um ano não é uma semana. Viveu nalgum sítio, teve um cachorro. E mesmo assim voltou.
– Voltou, – repeti.
Ela disse baixinho, sem me olhar:
– Mãe, pensei que estavas a definhar aqui sozinha. O André longe, eu… – hesitou. – É parvo. Dois anos a ter razão. Parvo e…
Não acabou. Não perguntei. Levantei-me, enchi a chaleira.
Aquela noite dormiram todos. Menos eu.
Saí para o alpendre. Maio, quente, húmido. Cheirava a jasmim e a terra molhada. A Bela levantou a cabeça, olhou-me, abanou o rabo e pousou outra vez o focinho nas patas. O cachorro dormia ao lado, enrolado como uma bolinha. Um novelo ruivo, quente.
Sentei-me no degrau. Pousei a mão na cabeça da Bela. Ela encostou a orelha à minha palma.
Um ano, Bela. Um ano sem ti. Onde andaste? Quem te magoou? Essa cicatriz… Alguém te recolheu. Ou corrida. E tu vieste. Com as patas feridas, o flanco dorido.
A Bela suspirou – fundo, de cão, o corpo inteiro. E pousou a cabeça no meu colo.
No dia seguinte, a Catarina ajudou na horta. Eu mostrava-lhe onde estava cada coisa, e ela ouvia distraída, a acenar. O cachorro metia-se por tudo – ora nas canteiras, ora a roubar a pá, ora a puxar a mangueira com os dentes, fincando as quatro patas no chão. Pequeno, mas teimoso. Filho da mãe.
A Catarina riu-se. Eu fiquei imóvel, com a enxada na mão. Há tanto tempo que não se ouvia um riso naquele quintal. Talvez desde que o Joaquim se foi.
– Mãe, – disse ela, a limpar os olhos. – Como é que lhe vamos chamar?
– A quem?
– Ao cachorro. Não há-de ficar sem nome.
Olhei para o novelo ruivo que roía a mangueira com todo o afinco, a grunhir severamente, como um bicho de verdade.
– Que tal Luz? É ruivo.
A Catarina sorriu.
– Luz. Gosto.
Ao fim da tarde, ela preparou-se. Fechou a mala, veio ao carro. A Bela estava sentada comigo no alpendre. O Luz, ao lado, como sempre.
A Catarina abraçou-me. Demorado, apertado. Senti que ela tremia um pouco.
– Vou voltar, mãe.
Acenei. Não disse «vamos ver» nem «claro, minha filha». Apenas acenei. Porque acreditei.
Passou um mês.
O Luz cresceu, ganhou força, alargou as patas – e corria pelo quintal de tal maneira que as canteiras estremeciam. Já tinha replantado a alface duas vezes, porque aquele redemoinho ruivo achava que as canteiras eram o sítio ideal para escavações. Ralhava-lhe sem vontade, só para cumprir. Ele sentava-se, inclinava a cabeça de lado, e olhava-me com um ar tão inocente que eu acabava por desistir:
– Pronto, cava. Não te consigo acompanhar.
A Bela seguia o cachorro com um andar tranquilo, sem pressa.
Esta manhã saí com uma chávena de café. O olhar de sempre: as canteiras, o muro, a cancela. Ao pé do alpendre, duas tigelas – a azul com a racha na borda e uma verde nova.
O telemóvel tocou. A Catarina.
– Mãe, no sábado vou aí. Levo um osso grande para o Luz. Um talhante amigo no mercado já me garantiu.
– Vem, – disse eu. – Faço uma tarte de maçã, como tu gostas.
– Tarte de maçã é óptimo, – a voz dela quente, caseira. Como era há muito tempo. Muito tempo.
Desliguei. A Bela estava deitada aos meus pés – quente, tranquila. O Luz, no meio do quintal, lutava com um pau. Percebi, de repente, que há um ano que não contava os dias, nem os meses, nem o tempo que passou desde que tudo ficou em silêncio.
Porque o silêncio acabou.
Duas tigelas no alpendre. E uma filha que vem no sábado.






