— Inês… — o João olhou para a esposa e suspirou fundo. — Desculpa, mas este ano vamos ter de cancelar a viagem à praia.
— Como assim cancelar? Porquê? Já tínhamos tudo planeado. Até reservámos o quarto no hotel.
— O trabalho está um caos. Ninguém me vai deixar ir agora.
Quando o marido, três dias antes da viagem marcada, disse que não podia ir à praia por causa de um projecto urgente, a Inês primeiro ficou desanimada.
Tinham estado tanto tempo a preparar isto.
Até acertaram as férias para poderem passar pelo menos duas semanas juntos.
— João, não podes falar com o teu chefe, explicar-lhe a situação? — perguntou a Inês, com esperança na voz.
— Não. Neste momento ninguém sai de férias, e não vão abrir excepções para mim. Claro, posso pedir a demissão, mas tu sabes que isso não é solução. Onde é que vou encontrar outro trabalho assim?
Inês suspirou. O trabalho do João era mesmo bom.
Foi graças a ele que conseguiram mudar-se de um T1 para uma casa própria. Não muito grande, mas ainda assim uma casa.
Portanto, pedir a demissão era parvo. Mas a Inês também não tencionava desistir da viagem. Há quatro anos que sonhava com isto.
Sentou-se, pensou e decidiu: se o João não podia ir de férias, ela com o Tomás podia ir sozinha.
Claro que inicialmente iam de carro, mas também podiam ir de autocarro.
Sim, demorava mais tempo e teriam de sacrificar o conforto, mas depois ela e o Tomás teriam emoções inesquecíveis — duas semanas de sol, água quente e longos passeios pela marginal. Além disso, limonada, gelados e outras alegrias da vida.
— Inês, para ser sincero, não gosto nada desta ideia — franziu o cenho o João, quando a mulher partilhou os seus planos. — Como é que vais sozinha com uma criança pequena?
— O Tomás já tem quase quatro anos. Não é assim tão pequeno — retorquiu Inês. — E eu simplesmente quero muito ir à praia.
— Então vamos todos um pouco mais tarde, no final de Agosto, por exemplo. A água ainda deve estar quente.
— João, querido… no final de Agosto já não tenho férias. Primeiro. E segundo, nessa altura costuma haver muitas águas-vivas no mar, não se consegue nadar bem. Portanto, temos de ir agora mesmo.
— Vou ficar nervoso e preocupado convosco. E esses pensamentos vão distrair-me do trabalho.
— Eu telefono-te todos os dias, para não ficares preocupado — sorriu ela.
— Mas…
— João, por favor, não vamos discutir por uma coisa destas. Já não sou uma menina, consigo resolver os meus problemas se aparecerem. Não vou ligar a pedir que venhas buscar-me, podes estar descansado para tratar do teu projecto. O Tomás e eu vamos descansar sossegados.
O João não ficou satisfeito com a resposta. Mas a Inês já tinha decidido. E quando uma mulher decide, é para cumprir.
*****
Os primeiros dias das tão esperadas férias correram quase como a Inês imaginara.
Todas as manhãs o Tomás corria pela areia com entusiasmo, fazia castelos, tentava apanhar as gaivotas e pedia sem parar para entrar na água «só mais um minutinho». À noite, a passear pela cidade, bebiam limonada e comiam gelados. Em suma, estavam a divertir-se.
Mas ao fim do terceiro dia, o Tomás ficou mais calado.
A Inês, no entanto, não deu muita importância — atribuiu ao cansaço.
Ela própria estava um pouco cansada nesse dia. Por isso, foram dormir quase duas horas mais cedo do que o habitual. A meio da noite, o Tomás começou a chamar pela mãe e a soluçar alto.
Inês saltou da cama e olhou para o filho, sem perceber o que se passava.
— O que foi, Tomás?
— Mamã, estou mal — gemeu ele, apontando para a garganta.
Inês, assustada, pousou a mão na testa dele — estava muito quente.
O termómetro marcava quase quarenta graus.
Meia hora depois, uma ambulância já estava parada em frente ao hotel.
— Bom, parece amigdalite — disse o médico jovem, depois de examinar a criança. — Melhor não arriscar. Vamos para o hospital pediátrico.
Inês acenou em silêncio.
Percebeu que as férias tinham terminado ainda a caminho, quando o mesmo médico lhe disse que teria de ficar internado talvez uma semana, ou mais se houvesse complicações.
Quando Inês saiu da ambulância com o Tomás sonolento ao colo, dirigiu-se com o médico para a entrada da urgência e de repente…
…parou a meio.
Mesmo à porta estava um cão enorme e peludo. Nem se levantou quando o médico passou por ele com passo firme.
Apenas abriu um olho e olhou calmamente para ele.
Provavelmente não era a primeira vez que o via ali.
— O que é isto? — murmurou Inês, sem querer.
O cão deitado mesmo à entrada do hospital pediátrico pareceu-lhe completamente deslocado.
«E se ataca alguém? Aqui há crianças por todo o lado…» — passou-lhe um pensamento inquieto pela cabeça.
— Senhora, está aí parada? — chamou o médico, espreitando pela porta entreaberta. — Vamos, vamos fazer a admissão.
— E isto… — Inês apontou para o cão, assustada. — É normal ele estar aqui?
— Não se preocupe — sorriu o médico. — Ele é muito dócil. Gosta de crianças. Vamos.
Inês apertou o filho contra si e contornou o cão num arco largo.
Ele nem se mexeu. Apenas a seguiu com o olhar preguiçoso e voltou a pousar a cabeça nas patas dianteiras.
— Já não sei… — disse Inês baixinho, olhando para trás. — Isto é um hospital ou um canil? Onde é que os funcionários têm os olhos?
Na verdade, ninguém parecia dar pela presença do cão.
A Inês percebeu isso no dia seguinte. As enfermeiras passavam por ele como se fosse normal, e a auxiliar de limpeza com um balde até lhe sorriu. E ainda o cumprimentou.
— Bom dia, Tareco. Como foi o teu turno da noite?
O cão abanou a cauda preguiçosamente. Como se tivesse percebido cada palavra.
Inês olhou admirada para a mulher, mas não disse nada. Porque nesse momento preocupava-se com outra coisa.
Havia análises, conversa com o médico assistente, medicação e talvez noites sem dormir ao lado do filho.
Durante a noite, ele não melhorara nada.
Por isso, esqueceu-se do cão peludo quase de imediato. Mas, como se veio a ver, foi por pouco.
Os primeiros dois dias foram realmente difíceis. Medir a temperatura. Convencer o Tomás a tomar o remédio. Esperar pelo médico. Dar de comer ao filho, se tivesse apetite. Depois outra vez o termómetro, outra vez os comprimidos.
Só ao fim da tarde o miúdo reanimava um pouco, e à noite a febre voltava.
Apenas ao terceiro dia a temperatura finalmente baixou. O Tomás pediu pela primeira vez, não para ver desenhos no tablet, mas o carrinho que tinham trazido, e apontou para a janela.
Inês suspirou de alívio. Agora podia ao menos sair com o filho para o pátio do hospital para respirar ar fresco, porque…
…os cheiros do hospital não a atraíam nada.
No pátio, cresciam plátanos e tílias, com bancos confortáveis debaixo.
Mães passeavam com os filhos, enfermeiras iam apressadas de um edifício para outro.
E foi ali que Inês viu outra vez o cão peludo.
Tentou lembrar-se do nome.
«Tareco, acho. Sim, é Tareco.»
O cão gingava devagar pelo caminho, mancando visivelmente de uma pata. Primeiro Inês nem percebeu que ele só tinha três patas.
A quarta era muito mais curta e não tocava no chão.
«Meu Deus, que horror…» — pensou Inês, a observar o cão.
Até sentiu vergonha de como naquela noite tratara aquele pobre animal.
— Mamã, olha! Um cãozinho! — exclamou o Tomás alegremente.
Inês segurou instintivamente a mão do filho.
— Não te aproximes, não precisas.
Honestamente, Inês receou que o cão ouvisse o Tomás e viesse a correr conhecê-lo, como os cães costumam fazer quando lhes dão atenção, mas ele nem olhou para eles.
Em vez disso, o Tareco andou mais um bocado, parou junto ao portão e, animado, abanou a cauda.
Entraram no recinto do hospital duas mulheres com sacos pesados.
— Olá, Tareco! — disse uma delas com carinho, afagando-lhe a cabeça.
O cão soltou um latido suave e, saltitando estranhamente sobre três patas, foi ao lado delas.
Acompanhou-as até à porta da cozinha, esperou que entrassem, e depois sentou-se junto ao degrau.
Um minuto depois, uma delas trouxe-lhe uma tigela de metal grande.
O Tareco não se atirou logo à comida.
Primeiro olhou à volta, como a verificar se estava tudo calmo.
Só depois se aproximou lentamente da tigela e começou a comer.
— Que educado — disse Inês sem querer.
A mulher da limpeza que passava nesse momento sorriu e comentou:
— Pois é, muito educado. É o nosso guarda local. Vigia, digamos assim.
— Ele vive aqui? — perguntou Inês, admirada.
— Há muitos anos — acenou a mulher. — Não tenha medo dele. É muito inteligente e meigo. Se pudesse, já o levava para minha casa.
Nesse entretanto, o Tomás tirou do bolso uma bolacha que sobrou do pequeno-almoço.
— Mamã, posso? Olha, ele não se fartou.
O Tareco já tinha acabado a papa e lambido a tigela até brilhar ao sol.
Depois afastou-se uns metros e deitou-se à sombra de uma árvore, pousando a cabeça nas patas.
Inês primeiro quis proibir o filho de se aproximar, mas o Tomás olhou para ela com uns olhos…
Como negar a uma criança que tinha sofrido tanto nos últimos dias?
— Só com cuidado, está bem? — disse ela.
E foi atrás dele, segurando-lhe a mão para, se necessário, o puxar para trás.
Não, ela sabia bem que se aquele cão fosse agressivo, não o deixariam estar no recinto. Mas nunca se sabe. Mais vale prevenir.
O Tomás aproximou-se do cão peludo deitado no chão e estendeu-lhe a bolacha.
— Toma… É para ti…
O Tareco levantou a cabeça. Ficou a olhar fixamente para o pequeno ser humano durante uns segundos, depois pegou na guloseima com a ponta dos dentes. Com tanto cuidado que nem tocou nos dedos da criança.
Inês, que observava tudo atentamente, suspirou de alívio.
Ainda bem, nada de mal acontecera. O cão era mesmo muito educado.
— Mamã, viste? Ele pegou na minha bolacha.
— Vi, sim… — sorriu Inês.
— Ele é bom, não é?
— É, filho. Mas vais ter de lavar as mãos na mesma. Quando voltarmos, lavas com sabão, percebeste?
— Sim! — respondeu o Tomás, feliz.
Já mesmo à entrada do edifício, ele parou e olhou pensativamente para a mãe.
— Mamã, podemos levá-lo connosco quando formos para casa? Gostava tanto que ele vivesse connosco, não na rua. Tu própria disseste que ele é bom.
Inês não esperava aquela pergunta e ficou perplexa. Olhou para o filho e calou-se.
Como explicar a uma criança de quatro anos que, por muito que se queira, não se pode levar para casa todos os cães de rua?
Claro que seria o certo, mas…
— Filho, ele já está habituado a viver aqui e provavelmente não vai querer ir para outro sítio — respondeu Inês ao Tomás.
A partir desse dia, encontraram-se todos os dias. Umas vezes o Tomás levava uma bolacha para o Tareco. Outras, um pedaço de pão. Depois do almoço, sobravam ossos, e Inês também começou a levar-lhos.
Ele aceitava a comida sempre com a mesma calma digna.
O Tareco nunca pedia nada, não olhava com olhar suplicante, não ladrava de alegria como os outros cães.
Apenas abanava ligeiramente a cauda, como se considerasse que a gratidão não precisava de ser expressa em voz alta.
Mas que o cão era grato pela atenção e carinho, Inês não duvidava.
E começou a reparar em coisas que antes não via.
Nomeadamente, por que razão toda a gente gostava tanto do Tareco. Ele não comia o pão de graça.
Certa noite, Inês foi testemunha de uma cena.
Um homem embriagado aproximou-se do portão do hospital. Gritava com o segurança idoso e exigia que o deixassem entrar.
Quando o segurança recusou, o homem tentou passar à força.
O Tareco levantou-se num instante. Rápido, tanto quanto as três patas o permitiam, aproximou-se do segurança e parou ao lado dele.
Quando o estranho continuou a abanar o portão de metal, o Tareco começou a rosnar e depois ladrou curto e grave.
Foi suficiente. O homem resmungou qualquer coisa, deu meia-volta e foi-se embora.
Um minuto depois, o Tareco voltou a deitar-se no seu lugar habitual, como se nada tivesse acontecido.
Inês seguiu-o com o olhar.
— És um cão estranho… — disse baixinho. — Mas muito bom, realmente.
No dia seguinte, pela primeira vez, apercebeu-se de que, ao sair com o Tomás para o passeio da manhã, procurava instintivamente por ele — aquele cão peludo.
Faltavam apenas três dias para a alta.
O Tomás recuperava a olhos vistos. Já corria pelo pátio do hospital, fazia amigos e, todas as manhãs, espreitava primeiro pela janela à procura de alguém.
— Mamã! O Tareco já está no sítio! Vamos depressa lá fora.
Inês espreitou e, ao ver o Tareco, sorriu.
O cão estava sempre deitado nos degraus da entrada da urgência. Umas vezes dormitava, outras observava as pessoas. Parecia conhecer todos os que entravam e saíam do recinto.
Naquele dia, Inês encontrou no corredor uma enfermeira que via mais vezes perto do gabinete de tratamentos.
Era uma mulher muito simpática, de cerca de cinquenta anos.
No crachá estava escrito: Teresa.
— Desculpe, posso perguntar uma coisa? — parou-a Inês.
— Claro.
— O Tareco… o cão que anda pelo recinto… vive aqui há muito tempo, não vive?
A Teresa percebeu logo de quem se tratava e sorriu.
— Vejo que o Tareco também a encantou. Sim, há muito tempo.
Inês riu-se.
— Para ser sincera, a princípio tive muito medo dele. Até fiquei indignada por ter um cão vadio junto a um hospital pediátrico. Agora nem imagino este pátio sem ele.
A enfermeira olhou pela janela.
O Tareco estava a fazer a ronda das suas «posses», a verificar se estava tudo bem.
— Nasceu aqui — disse ela baixinho. — Há uns cinco anos. Talvez um pouco mais. A mãe dele também vivia no hospital. Uma cadela igualmente inteligente. Quando ela envelheceu, o Tareco pareceu perceber que era a vez dele de guardar o recinto.
— E ninguém o expulsou?
— Para quê? Nunca magoou ninguém. Pelo contrário. Salvou-nos muitas vezes…
A Teresa fez uma pausa.
— Só que uma vez quase o perdemos.
Inês sentiu que ia ouvir algo importante.
— Por causa da pata?
A enfermeira acenou devagar. Depois acrescentou:
— Por causa do amor.
Inês ergueu as sobrancelhas, surpreendida.
— Como assim?
— Sim, sim. Não se admire. Nos cães é quase como nas pessoas. Importa-se se sairmos um bocado?
— Não.
Saíram. A enfermeira sentou-se num banco. Inês sentou-se ao lado.
— Há uns anos, apareceu aqui uma cadela pequena e preta — continuou a Teresa. — Magrinha, olhos grandes. Chamámos-lhe Chica.
A Teresa sorriu, como se a visse à sua frente.
— Era tão traquina… Não se conseguia controlá-la. E o Tareco, desde o primeiro dia, andava atrás dela. Todas as manhãs corriam juntos pelo pátio. As crianças olhavam e riam. No inverno, quando caía neve, o Tareco deitava-se sempre ao lado dela. Se fazia muito frio, encostava a Chica a si, quase a abraçava com as patas. Era amor. Amor verdadeiro…
— E o que aconteceu depois? — perguntou Inês, quando a enfermeira calou de repente.
— Depois veio a primavera… — suspirou a Teresa. — E a Chica «passeou».
— Como assim, passeou? E o Tareco? — olhou a enfermeira admirada.
— Pois é… Como digo, nos cães é quase tudo como nas pessoas. Nessa primavera, começaram a juntar-se cães estranhos perto do hospital. Primeiro dois. Depois quatro. Passados poucos dias, formou-se uma matilha de seis ou sete cães, todos muito grandes.
— Lutavam entre si, ladravam alto, assustavam as crianças. O Tareco aguentou algum tempo, mas depois não se conteve. Um dia, colocou-se entre a Chica e os cães estranhos.
— Sozinho? — horrorizou-se Inês, imaginando a cena.
— Sozinho — acenou a enfermeira. — Sozinho contra todos.
A Teresa suspirou pesadamente.
— Ouvimos os latidos e corremos para o pátio. Até me lembrar é assustador…
Ela calou-se. Inês não interrompeu.
— Atacaram-no todos de uma vez. O Tareco defendeu-se enquanto pôde. Gritámos, tentámos afastá-los com paus, mas não foi logo. Quando a matilha finalmente fugiu…
A Teresa fechou os olhos.
— O Tareco nem se conseguia levantar. Quanto mais levantar-se, mal respirava. Pensámos que não sobreviveria.
Inês sentiu um arrepio.
— E a Chica?
— A Chica fugiu com aqueles cães. Nunca mais ninguém a viu.
Ficaram em silêncio por uns segundos.
— Nesse dia, chorámos todos — disse a enfermeira baixinho. — Ele estava todo ensanguentado. A pata estava tão destruída que o veterinário disse logo: só se podia salvar o próprio Tareco.
— Por isso…
— Sim. Tiveram de amputar a pata.
A Teresa sorriu tristemente.
— Recolhemos dinheiro de todo o serviço para a operação. Depois fizemos as ligaduras, demos antibióticos. Ele aguentou calado. Nunca mordeu ninguém. Mesmo quando tinha muita dor.
Inês olhou para o cão. O Tareco tinha parado junto a uma menina que deixara cair um brinquedo.
Empurrou com o nariz um coelho de peluche para a criança e seguiu calmamente. Como se nunca tivesse feito nada de heroico na vida. Mas tinha…
— Depois de tudo o que passou, o Tareco nunca mais deixou aproximar nenhuma cadela do recinto — continuou Teresa. — Digo, cadelas. Ele, sabe, deixou de confiar em alguém.
Sorriu, mas de outra forma.
— No entanto, há um mês, aconteceu um verdadeiro milagre…
— Milagre? — repetiu Inês.
Teresa acenou.
— Nós próprios não acreditámos ao início.
Virou a cabeça e sorriu.
— Ali está o milagre — apontou.
Inês olhou na direção que a enfermeira indicava e viu uma cadela pequena a passar pelo caminho, a saltitar de forma cómica.
O Tareco viu-a e apressou-se a ir ter com ela.
— Quem é? Porque nunca a vi antes? — admirou-se Inês, a observar o Tareco a tentar fazer festas à cadela.
— É a Chica — sorriu a enfermeira. — No dia em que vocês chegaram, levaram-na ao veterinário para ser esterilizada. Hoje trouxeram-na de volta. Ai, que traquina…
A cadela era mesmo muito agitada.
Parava um segundo, voltava a arrancar, rodopiava à volta do Tareco e disparava para a frente.
— De onde é que ela veio?
— Não sei. Apareceu um dia junto ao portão. Esfomeada, suja, mas incrivelmente meiga. Demos-lhe de comer, pensámos que comeria e iria embora. Ficou.
Inês olhou de novo para os cães.
A Chica aproximou-se do Tareco e tocou-lhe no pescoço com o focinho. Ele fingiu não reparar. Mas a cauda abanou uma traição.
— Nos primeiros dias, ele nem ligava — continuou Teresa. — Se ela se aproximava, ele afastava-se. Chegámos a temer que ele a expulsasse.
— E depois?
— Depois ela venceu-o.
— Como?
— Com paciência. E com sabedoria popular. Não dizem que o caminho para o coração de um homem é pelo estômago?
A enfermeira riu-se.
— Todos os dias, a Chica lhe trazia um osso. Ele virava-se. Ela trazia outro. Ele ia-se embora, ela seguia-o. Ele deitava-se, ela instalava-se perto. Nunca se impunha, mas nunca o deixava sozinho.
Inês sorriu involuntariamente.
— E uma manhã, vimo-los deitados juntos. Mais tarde, a correr um atrás do outro, a brincar. Imagine?
No pátio, nesse momento, aconteceu algo parecido.
A Chica pegou num ramo seco e correu para o canteiro.
O Tareco suspirou fundo — pelo menos pareceu a Inês — e depois, inesperadamente, arrancou. Claro que já não corria tão depressa como antes. Mas esforçava-se.
A Chica abrandava de propósito, deixava-o chegar perto, e depois fugia de novo. Ambos pareciam felizes.
— É verdade, com a chegada da Chica, tudo se complicou. Tínhamos esperança de que o Tareco fosse adotado — disse Teresa.
— Encontraram-lhe um dono?
— Encontrámos.
— E o que aconteceu?
A enfermeira abriu as mãos.
— Uma boa pessoa. Veio várias vezes, trazia guloseimas. O Tareco agradou-lhe.
— Então porque…
— Ele queria levar só o Tareco. — Inês esperou. — E o Tareco agora não vai sem a Chica.
Teresa sorriu, embora com tristeza nos olhos.
— Bastava levá-lo ao carro, e a Chica começava a andar de um lado para o outro a ganir. O Tareco corria logo a consolá-la. Tentámos várias vezes pô-lo no carro, mas não resultou. O homem desistiu e foi-se embora.
O Tareco parou junto a uma tigela de água.
Queria beber, mas afastou-se. A Chica bebeu primeiro. Só depois ele se aproximou.
Inês apercebeu-se de que os observava com a mesma atenção que dedicava a pessoas.
— É estranho… — disse baixinho.
— O quê?
— Antes, pareciam-me apenas cães vadios comuns. Agora…
Não terminou. As palavras faltavam.
Teresa compreendeu.
— Eles já fazem parte do hospital. As crianças adoram-nos. Os pais também os aceitam. Mas o coração não descansa.
— Porque vivem na rua?
— Claro. Hoje está tudo bem. Amanhã… sabe-se lá. Vem um novo diretor e tudo muda…
Inês virou a cabeça. O Tareco estava deitado à sombra de uma árvore. A Chica enroscou-se ao lado, pondo a cabeça nas costas dele. Ele nem se mexeu.
E foi nesse momento que Inês teve um pensamento que lhe pareceu completamente louco.
«E se os levasse mesmo para casa?»
No entanto, afastou-o de imediato.
Dois cães. Quase 500 quilómetros. Autocarro. Não, não dava…
Mas a ideia já se instalara na cabeça.
E parecia não querer sair.
Depois Inês lembrou-se do marido, a quem prometera não pedir nada, e a quem queria provar que era capaz de resolver os problemas sozinha. Parece que não ia conseguir…
Faltava apenas um dia para a alta.
O Tomás desde cedo guardava os brinquedos na mochila e perguntava sem parar quando iam para casa.
Inês sorria, ajudava a arrumar as coisas, mas os pensamentos estavam longe. Olhava cada vez mais para a janela.
No pátio, como sempre, estavam o Tareco e a Chica.
Viviam o dia de hoje. Não sabiam que, dentro de vinte e quatro horas, Inês iria embora e, muito provavelmente, nunca mais se veriam.
Essa ideia deixava-a triste.
Depois da sesta, Inês saiu para o pátio.
O Tareco estava deitado junto aos degraus. A Chica dormia encostada a ele.
Inês sentou-se num banco perto.
— Raios, apeguei-me a vocês… — disse baixinho. — O que é que hei de fazer?
Os dois cães levantaram a cabeça ao mesmo tempo.
A Chica aproximou-se logo, tocou-lhe na mão com o focinho frio e voltou para junto do Tareco.
Ele ficou deitado. Apenas a olhou atentamente, com um olhar calmo e pensativo.
Inês suspirou e tirou o telemóvel.
Ficou a olhar para o ecrã uns segundos. Depois carregou no botão de chamada. O marido atendeu quase de imediato.
— Então? Amanhã têm alta?
— Sim.
— Ótimo. A que horas é que chegam a casa? Vou buscar-vos à estação.
— João… é que há uma coisa.
— O que foi?
Ele percebeu logo pela voz que a conversa não ia ser fácil.
— Tenho um pedido para ti.
— Qual?
— Não te rias.
— Já estou desconfiado.
— Bom, no recinto do hospital vivem dois cães…
Do outro lado, silêncio. E enquanto o João se calava, Inês contou-lhe tudo.
Sobre o Tareco. Sobre a Chica. Como ele perdeu a pata e encontrou novo amor. Como gostava de crianças e afugentava bêbados.
E também disse ao marido que o Tomás pedia muito para levar o Tareco para casa.
Falou muito. Às vezes perdia-se. Calou-se várias vezes. Mas o João não a interrompeu. Apenas ouviu. De vez em quando, suspirava fundo.
Quando ela terminou, houve outra pausa.
— Inês…
— Sim?
— Eu percebo tudo… Mas estás a falar a sério?
— Absolutamente.
— Estás a sugerir que eu percorra mil quilómetros só para ir buscar dois cães vadios?
Inês fechou os olhos. Era a pergunta que esperava.
— Não só para ir buscar dois cães, mas também a mim e ao Tomás…
A voz tremeu.
— E nós os dois queremos muito que estes cães tenham finalmente uma casa. O que é que há de mal nisso?
João suspirou.
— Nada, só que… Tenho trabalho, tu sabes…
— Sei.
— E são despesas não planeadas.
— Compreendo.
— E, além disso, cães são uma responsabilidade.
João calou-se. Inês já esperava ouvir uma recusa educada mas firme. No entanto, o marido perguntou de repente:
— Eles dão-se bem com pessoas? Não vão dar problemas, Inês? Não são agressivos?
— São fantásticos, a sério. O Tareco protege o hospital e adora crianças. A Chica é a simpatia em pessoa. Vamos levá-los?
Mais uns segundos de silêncio. Depois o João disse baixinho:
— Está bem.
Inês nem acreditou.
— O quê?
— Vou amanhã de manhã.
Ao anoitecer, Inês tornou a sair para o pátio. O Tareco estava deitado à entrada. Ao vê-la, levantou-se. Veio devagar. Parou ao lado dela.
Ela afagou-lhe o pelo espesso.
— Amanhã vamos para casa… Eu e o meu filho Tomás…
O Tareco olhou-a nos olhos.
— E gostava muito que… que tu e a Chica viessem connosco.
O cão inclinou a cabeça, como a escutar cada palavra.
Inês sorriu. Parecia-lhe que o Tareco compreendia muito mais do que se julga dos cães.
— Pronto, pensa nisso. Amanhã preciso de saber a tua decisão. Está bem?
Na manhã seguinte, um carro azul-escuro parou junto ao portão do hospital. Dele saiu um homem alto. Primeiro abraçou a mulher. Depois pegou ao colo o Tomás. E só então reparou nos dois cães sentados calmamente a pouca distância.
O Tareco olhava fixamente para o desconhecido. O João, para o Tareco.
Durante longos segundos, estudaram-se um ao outro.
Depois, o homem sorriu inesperadamente.
— Olá, velho guerreiro… Já ouvi falar das tuas façanhas. Deixa lá apertar a pata, ou quê…
E o Tareco, devagar, com dignidade, deu o primeiro passo na direção dele.
O João esperava ver cães de rua comuns. Talvez um pouco desconfiados ou assustados. Ou, pelo contrário, demasiado efusivos. Mas o Tareco era diferente.
Não tinha medo do João, que via pela primeira vez, nem começou a saltar alegremente à volta do estranho.
O cão aproximou-se calmamente, parou a uns passos e depois olhou-o nos olhos.
O João agachou-se.
— Então, vamos apresentar-nos? — perguntou, estendendo a mão.
O Tareco pousou-lhe a pata com cuidado.
No instante seguinte, a Chica veio a correr — claro, não podia faltar.
A abanar a cauda alegremente, tocou com o focinho na mão do homem. O João até se riu.
— E tu, vejo que também não perdes tempo.
A Chica estava contente. Inês olhava para o marido e sorria. Conhecia aquele olhar.
Ainda ontem o João falava de dificuldades, despesas e responsabilidades. Agora já falava com os cães como se os conhecesse a vida toda.
— Então? — perguntou ela.
O João levantou-se.
— Não sei como é que me convenceste… Mas eles são mesmo fantásticos.
Inês riu-se aliviada e abraçou o marido.
Antes de partirem, entraram mais uma vez no recinto do hospital. Para se despedirem.
Quando as enfermeiras viram o Tareco de trela, muitas não conseguiram conter a emoção. A Teresa abraçou Inês.
— Obrigada.
— Porquê?
— Por ele ter uma casa agora. Acho que o Tareco merecia.
Quando a Teresa se aproximou para o acariciar, o Tareco tocou-lhe na mão com o focinho.
Naquele gesto simples havia tanta confiança e gratidão que a mulher se virou para ninguém ver as lágrimas.
— Tratem bem dele — disse baixinho.
— Claro.
O Tareco aproximou-se do carro, cheirou a porta aberta com cuidado. Depois olhou para a Chica, que abanava a cauda feliz, e foi o primeiro a entrar.
A Chica saltou atrás dele. Sem medo nem hesitação.
Atrás do seu Tareco, estava pronta para ir até ao fim do mundo.
O carro arrancou. O Tomás acenava pela janela.
A Chica instalou-se ao lado dele no banco de trás e, passados minutos, já dormia.
O Tareco, porém, ficou muito tempo a olhar para trás. Para a entrada do hospital. Para os degraus onde se deitara tantos anos. Para as pessoas que tinham sido a sua família.
Inês reparou.
— Não queres ir embora? — perguntou baixinho.
Claro que não houve resposta. O Tareco ainda olhou para trás mais um pouco.
Depois, lentamente, virou-se para a frente.
Ali — lá adiante — esperava-o uma vida completamente diferente.
Durante o caminho para casa, o João olhava muitas vezes para o espelho retrovisor. E via sempre a mesma cena.
O Tomás a dormir, com a cabeça apoiada no pelo macio da Chica. A Chica também a dormir. E o Tareco…
…o Tareco deitado ao lado, a vigiar atentamente a estrada.
— Sabes, nunca percebi as pessoas que se apegam tanto aos animais — disse o João de repente.
Inês olhou para ele.
— E agora?
Ele encolheu os ombros.
— Agora acho que alguns animais merecem mais confiança do que muitas pessoas.
Ela não respondeu. Porque concordava.
Finalmente, chegaram a casa. Esperava-os um pequeno terreno, uma vedação alta de metal e um jardim que o João tentava pôr em ordem todos os verões, mas nunca tinha tempo para acabar o que começava.
Inês abriu o portão.
— Bem-vindos a casa.
Olhou para os cães.
— Agora esta é também a vossa casa.
A Chica não hesitou. Correu logo para dentro. Cheirou cada arbusto, explorou todos os cantos.
Depois voltou, como a dizer ao Tareco que gostava do sítio.
O Tareco continuava junto ao portão. Olhava para o terreno, para a casa, para as pessoas e para a Chica, que estava nas nuvens de felicidade. Ele não se apressava.
Inês aproximou-se.
— Sabes, Tareco…
Ajoelhou-se ao lado dele.
— Aqui ninguém te vai magoar nem abandonar. Prometo.
O cão suspirou baixinho. E deu um passo em frente. Depois outro. Finalmente, entrou no terreno. Apenas uns metros…
Mas para ele, foi talvez o caminho mais longo da sua vida.
Ao anoitecer, o João pôs duas tigelas no degrau.
O Tomás escolheu solenemente um lugar para os brinquedos da Chica (na verdade, eram dele, mas ofereceu-os à cadela).
E Inês sentou-se no degrau a ver o Tareco deitado debaixo da velha macieira. A Chica estava deitada ao lado dele.
E, provavelmente pela primeira vez em muito tempo, o Tareco — via-se nos olhos — sentiu-se verdadeiramente em casa.
Passou um ano.
Muita coisa mudou. O Tomás contava orgulhosamente a todos os vizinhos que tinha «o cão mais corajoso do mundo».
A Chica sabia onde estavam os seus brinquedos, a que horas o João voltava do trabalho e…
…onde estavam enterrados os verdadeiros tesouros — os ossinhos com açúcar.
Mas disso não contava a ninguém, claro. Excepto ao Tareco.
O próprio Tareco tornou-se um cão verdadeiramente caseiro.
Já não acordava a cada som estranho nem olhava desconfiado para cada pessoa que passava.
Às vezes, Inês pensava que ele finalmente se tornara apenas um cão, e não um guarda ou um lutador.
Numa palavra, o Tareco já não era aquele que precisava de proteger ou defender os outros. Pelo contrário, agora era protegido. Protegido e amado.
Sim, exactamente.
Durante muitos anos, o Tareco protegera os outros, e agora aparecera alguém que cuidava dele.
No verão, voltaram a ir à praia. Quando regressavam a casa, passaram pelo hospital. Por aquele mesmo…
Inês pensou muito se valia a pena ir. Mas depois decidiu que sim.
Quando o carro parou junto ao edifício conhecido, o Tareco levantou logo a cabeça. Reconheceu o lugar.
Saiu calmamente do carro. Aproximou-se devagar dos degraus. A porta abriu-se e saiu a Teresa.
Primeiro, ela não acreditou nos olhos.
— Tareco?
O cão levantou a cabeça e abanou a cauda. Não com força. Mas como só ele sabia. Um minuto depois, estava rodeado de enfermeiras conhecidas.
Umas afagavam-lhe o dorso. Outras riam. Outras limpavam os olhos, que de repente se tinham molhado.
— Estás mesmo domesticado — sorriu a Teresa. — E a tua Chica?
Como se ouvisse o nome, a cadela saltou do carro e foi logo o centro das atenções.
No pátio, ouviu-se outra vez o riso. Quase como antigamente.
Só que, desta vez, havia uma diferença importante.
O Tareco já não pertencia àquele lugar. Tinha ido visitá-lo.
Inês estava um pouco afastada, a observá-lo.
Quando o vira ali pela primeira vez, pensara: «O que faz este cão junto a um hospital pediátrico?»
Agora tinha vergonha desse pensamento.
Na altura, não conhecia a história dele. Não sabia quanta dor havia por trás daquele olhar calmo.
E também não sabia que, às vezes, os corações mais fiéis se encontram onde menos se espera.
O João aproximou-se.
— Lembras-te de quando me ligaste há um ano?
Inês sorriu.
— Claro que sim.
Ele olhou para o Tareco.
— Ainda bem que insististe para eu ir buscar-vos. A todos vós…
Ela não disse nada.
Apenas viu o Tareco sentado junto ao degrau, com a Chica a rodopiar à volta. E as pessoas que um dia o salvaram.
Talvez a verdadeira felicidade seja mesmo assim.
Sem barulho. Sem ser bonita como nos filmes. A felicidade é simplesmente ter para onde ir. Ter uma casa e alguém que nos ama.







