Leonor estava concentrada nas tarefas domésticas quando a sua amiga Mafalda lhe telefonou. A chamada interrompeu a rotina de Leonor e Mafalda insistiu para que ela fosse lá a casa: Henrique tinha acabado de a deixar. Ele fugira com outra mulher do bairro, uma surpresa absoluta. Juntaram-se apressadas à mesa, celebrando este momento estranhamente libertador com pastéis de nata e um cálice de vinho do Porto.
Mafalda vivera com Henrique tempos conturbados. O homem era ciumento, possessivo, exigia atenção constante e não hesitava em ser grosseiro. Se não gostava do bacalhau à Brás que Mafalda preparava, atirava os pratos ao chão, espalhando migalhas pelo mosaico frio. O silêncio dele podia durar semanas, impregnando a casa de um nevoeiro espesso de ressentimento.
Agora, finalmente livre dessa prisão de afetos, Mafalda deixou escapar um suspiro de alívio. Henrique sempre a proibira de conviver, temendo a “má influência” das amigas. Mas naquele momento delirante, entre sonhos e risos, Mafalda sentia nas veias a vontade incontrolável de recuperar o tempo perdido. As amigas evocaram histórias fantasiosas sobre maridos ciumentos de outras eras, conversando como se estivessem num fado antigo a ecoar nos azulejos.
Não se sabia bem como Henrique conhecera a nova parceira. Ele dizia sair para jogar futebol, mas as vizinhas sussurravam que o viam sempre junto ao rio Douro, com uma estranha figura de vestido vermelho. Perguntavam-se se ele continuaria a ajudar os filhos, ou se Mafalda teria de ir à esquadra ou falar com o advogado, como quem consulta uma bruxa numa noite cheia de nevoeiro.
Leonor passou a noite ali com Mafalda, ambas vagueando nas conversas sobre amores que se perderam em ruas escuras, entre sonhos e ressacas, brindando com uns euros esquecidos no fundo da carteira.
Um mês depois, num entardecer estranho, Henrique apareceu batendo à porta de Mafalda. Esperava encontrar ternura, mas deparou-se com o olhar gelado dela. Só o cheiro a sardinhas assadas lhe confirmou que estava em casa. O que querem afinal as mulheres? perguntou, perplexo, como se pedisse o caminho para o Mosteiro dos Jerónimos numa noite de neblina.
Mafalda respondeu numa firmeza nunca antes sentida, a voz ressoando como um sino de igreja: Queremos amor e respeito. Encontrou em si uma força antiga, como a das mulheres que carregam nas costas o peso do fado e das marés. E nunca mais quis saber dele. E Henrique ficou a olhar, meio perdido, como se tivesse acordado de um sonho estranho, com os pés descalços nas pedras frias da calçada portuguesa.







