O casamento não vai acontecer
Lisete entrou na sala e ficou estática junto à porta. À sua frente, vestida de noiva, estava Margarida e estava deslumbrante. O vestido caía-lhe como uma luva, realçando as curvas, e nos olhos brilhava um sorriso leve, quase etéreo. Não consegui conter o entusiasmo.
Meu Deus, estás mesmo radiante! exclamei, sem conseguir desviar os olhos dela. Fico tão feliz por ti! Finalmente conseguiste virar a página e abrir o coração a novos sentimentos, deixando o Vasco lá atrás! Foste mesmo corajosa!
Margarida contraiu o sobrolho e o sorriso desapareceu-lhe dos lábios. Começou imediatamente a desapertar os botões do vestido, evitando o meu olhar.
É melhor tirar murmurou, agilmente a desabotoar os ganchos de lado. Faltam só duas semanas para a festa, se o vestido se estraga, não há outro igual.
Mordi o lábio, percebendo que tinha ido longe demais. Por que raio fui mencionar o Vasco? Quando finalmente a Margarida encontrou um homem digno dela, reviver fantasmas do passado era completamente escusado! O Vasco não merecia nem uma lágrima da Margarida principalmente depois do que lhe fez!
Durante muito tempo, ela achou que o Vasco era o tal. Acreditava que tinham um futuro juntos. Mas tudo começou a desmoronar-se. Primeiro, ele afastou-se, arranjou desculpas para não estarem juntos, depois começou a criticar-lhe as escolhas, os amigos, os sonhos. Convenceu-a a desistir duma excelente oportunidade de progressão no trabalho, persuadiu-a a recusar um estágio em Bruxelas, e em último caso, obrigou-a a mudar de profissão.
A família da Margarida notava que algo se passava, via como ela mudava e aos poucos ia perdendo aquele brilho, mas nada podiam fazer. Quando tentavam conversar, acabava tudo em discussão o Vasco meteu-lhe na cabeça que os familiares não gostavam dele e só queriam destruir o amor ideal. A tensão foi crescendo até que, em determinada altura, Margarida quase deixou de comunicar com os pais.
E depois ele simplesmente desapareceu. Foi-se embora sem explicação, sem deixar uma mensagem, nada. Ficou apenas uma enorme ferida na alma e um filho, o pequeno Vasco, que Margarida decidiu criar sozinha, custasse o que custasse.
Ao vê-la agora a despir à pressa o vestido de noiva, senti um peso na consciência. Só queria partilhar a felicidade dela, vê-la sorrir. Mas despertei-lhe memórias dolorosas.
Hoje, o pequeno Vasquinho já tem quatro anos. É um miúdo esperto, cheio de energia e sempre a fazer perguntas sobre tudo. Ora quer saber por que é que o céu é azul, ora pergunta para onde vão as nuvens, ora fica fascinado a observar formigas no jardim. No infantário, as educadoras estão sempre a elogiar-lhe o raciocínio: o Vasco aprende depressa, tem excelente memória, adora histórias contadas com detalhes.
Quase todo o tempo, está com os avós os pais de Margarida. Foram eles que, generosamente, se responsabilizaram pelo neto, investindo sempre na sua educação. Inscreveram-no num colégio com inglês, inscreveram-no nas aulas de natação, matricularam-no em dança. A Margarida ia lá buscá-lo algumas tardes por semana, mas raramente ficava mais de uma hora.
O motivo era duro: o pequeno Vasco parecia uma cópia minúscula do pai. O cabelo escuro ligeiramente ondulado, os olhos amendoados, o mesmo sorriso maroto. Sempre que Margarida o via, era sacudida por recordações do tempo em que acreditava num futuro feliz em família. Amava o filho com todas as forças sentia orgulho, vibrava com cada conquista. Mas a dor andava sempre à espreita, misturada com o próprio carinho. Bastava pegar-lhe ao colo ou olhar-lhe nos olhos para as lágrimas começarem a cair. Virava-se, fingia que ajustava a blusa ou procurava algo na mala, chorava baixinho depois, quando o Vasco já não via.
Numa dessas tardes, Margarida chegou a casa dos pais para ir buscar o miúdo. Encontrou-o sentado na alcatifa a compor um puzzle, com as sobrancelhas franzidas de concentração. Mal a viu, saltou para cima da mãe, entusiasmado.
Mãe, olha! puxou-a para junto dele. Já quase acabei! Aqui está a casa, ali a árvore, e aqui aqui vai aparecer um cão!
A Margarida passou-lhe a mão na cabeça, sorrindo com esforço.
Está lindo, sim senhor. Foste muito cuidadoso.
O Vasquinho pensou um pouco, depois ergueu o olhar curioso:
Mãe, onde está o meu pai? No jardim todos têm pai, menos eu
Ela ficou hirta. Sentiu um aperto, mas manteve-se calma:
Não sei, querido. O pai está longe agora. Mas pensa muito em ti, acredita.
Mas porque é que não telefona? insistiu o pequeno, com o ar sério de quem quer perceber tudo ao detalhe. Eu gostava de lhe contar que já sei fazer os nós dos sapatos sozinho!
Ele ele anda muito atarefado murmurou a Margarida, sentindo um nó na garganta. Mas de certeza que está muito orgulhoso de ti.
Vasco escutou atento, aceitou, e voltou ao puzzle.
Pronto. Então vou acabar a casa e ele vai ver que sou muito inteligente!
A Margarida ficou a vê-lo, engolindo as lágrimas. Queria dizer-lhe mais, mas as palavras não saíram. Limitou-se a passar-lhe a mão pelo cabelo, cheirar o perfume do seu champô, e guardar aquele momento aquele instante de felicidade ingénua em que o filho estava ali, ao lado dela, seguro, sem se aperceber das incertezas para as quais ela não tinha resposta.
No fundo, Margarida ainda pensava no Vasco-pai. Procurava desculpas para ele. Talvez lhe tivesse acontecido alguma tragédia? Quem sabe se estava em apuros, sem poder dar sinal de vida? Esse tipo de pensamentos davam-lhe força, impediam-na de cair no desespero.
Os familiares não deixavam de a tentar abrir os olhos. A mãe insinuava que fazer luto do passado era necessário, que a vida era ali, naquela criança. As amigas eram mais diretas: “Ele foi-se embora, aceita e segue em frente!” Mas a Margarida recusava ouvir lembrava-se dos momentos felizes, das promessas que juravam ser para sempre. As discussões acabavam com ela a fechar-se, enquanto os outros, deitando as mãos, desistiam de insistir.
Mesmo assim, Margarida não ficava parada. Ia espreitando as redes sociais, ligava para antigos cafés, publicava apelos em fóruns. Sem sucesso. Não se resignava ou não queria à ideia de que o Vasco se tinha ido embora por vontade própria.
Cinco anos depois, finalmente apareceu alguém capaz de abalar o gelo no coração de Margarida. Foi por acaso: conheceram-se no aniversário de uma conhecida. O Eduardo chamou-lhe logo a atenção. Era um homem do mais tranquilo que existia seguro, genuíno, amável. Daqueles que se nota que são boa pessoa logo à primeira conversa!
Desde os primeiros encontros, Margarida sentiu que podia baixar todas as defesas. O Eduardo não exigia sorrisos constantes. Se ela estava cansada, ele sugeria irem para casa cedo. Se apetecia silêncio, ele respeitava. E sobretudo, era sincero no carinho.
Notava-se o amor do Eduardo nos gestos pequenos: reconhecer o café preferido dela, decorar nomes dos colegas, mostrar interesse genuíno pelo dia-a-dia. Tomava iniciativas nos problemas domésticos não podia ser mais dedicado. Margarida, não negava, aproveitava-se desse afeto.
O que mais me espantava era o modo como ele se ligou ao pequeno Vasco. Na primeira visita, o miúdo observou-o desconfiado, segurando-se à mãe. Mas o Eduardo baixou-se à altura do garoto, quis saber que desenhos animados gostava, e em meia hora estavam no chão, a construir castelos com legos.
Com o tempo, o Eduardo tornou-se visita habitual em casa dos pais dela. Levava o Vasco ao parque, ensinava-o a andar de bicicleta, lia-lhe histórias para adormecer. Um dia, Margarida chegou a casa e apanhou-os a pintar juntos. O Eduardo disse-lhe serenamente: Gostava de ser realmente pai dele. Se aceitares, trato de o legalizar como filho.
Era impossível não ficar tocada. No final, através do processo de adoção, seria preciso alterar o registo do miúdo e aí, talvez, mudar-lhe o nome. O Eduardo sugeriu que seria mais fácil para todos, fosse um novo começo.
Senti-me tentado a perguntar à Margarida se queria trazer o Vasco de volta para casa dela.
Quero, sim respondeu, agora num tom sério. O Eduardo acha fundamental. Até já propôs escolhermos outro nome para o menino. Diz que seria mais fácil para mim. Quando a adoção for concluída, tratamos desse assunto.
Olhou pela janela, a ver a chuva a escorrer no vidro.
Antes pensava que o pequeno Vasco me iria torturar para sempre, por ser igual ao pai. Agora percebo que isso não faz sentido. Ele é meu filho. Merece um lar normal, com pais verdadeiros. Avós são ótimos, mas não substituem o resto. O Eduardo sabe disso. E apega-se tanto ao Vasco, tu não fazes ideia!
Muito bem sorri. Deixa o rapaz escolher ele próprio um novo nome. Assim vai habituar-se melhor à mudança.
Talvez Ainda não sei o que fazer. Há tempo.
Mas Margarida não era totalmente sincera. Continuava a amar o Vasco, por mais que a vida tivesse ensinado que esse amor não a levava a lado nenhum. Os pais cada vez lhe restringiam mais as visitas ao filho, pois ficava a chorar nas despedidas, assustando o rapaz. Os amigos já só comentavam as suas crises entre dentes, com pena ou irritação. Estava na hora de largar o passado e agarrar-se ao presente.
Ao casamento, por exemplo.
Só que custava tanto!
O Eduardo era um homem bom pelo menos era claro. Mas não era o Vasco. Margarida nunca tinha amado verdadeiramente o Eduardo limitava-se a agarrar-se ao seu afeto por conforto.
Se o Vasco voltasse Daria tudo para estar com ele.
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Não vai haver casamento! exclamou Margarida, quase a dançar de entusiasmo. Vamos cada um à sua vida como barcos ao mar!
O Eduardo ficou atordoado, a tentar processar o que ouvia. Faltava uma semana para as núpcias já tinham combinado o menu, escolhido as flores, enviado os convites. Estava tudo pronto e ela agora dizia que nada ia acontecer?
Como assim, não vai haver? perguntou, ainda a tentar acreditar que isto não podia ser a sério. Margarida, o que aconteceu? Diz-me claramente.
Mas ela já metia roupas na mala, com aquele brilho nos olhos, a sorrir de forma diferente, verdadeira.
O Vasco voltou! soltou, sem o encarar. E a felicidade era tão genuína, que o Eduardo sentiu o chão a fugir-lhe dos pés. Chegou ontem, falámos Custou-me acreditar, mas é verdade!
Por fim, virou-se e nele só via entusiasmo, nenhuma hesitação.
Estou-te grata pelo que fizeste por mim nestes meses. Ao teu lado tive paz, segurança És um homem incrível, Eduardo. Mas nunca consegui amar-te de verdade. E agora, com esta oportunidade única, quero tentar ser mesmo feliz. Não vou desperdiçar.
O Eduardo sentiu um frio no peito. Vasco, outra vez o Vasco. O homem que ela nunca deixou de amar. Sempre suspeitou disso, embora desejasse que o tempo e a vida juntos mudassem este destino.
Já falaste com ele? conseguiu perguntar, a voz rouca. O que te disse? Que desculpa arranjou agora?
Não se desculpou de nada cortou Margarida. Disse que finalmente percebeu o erro. Que só pensou em mim!
Ela voltou para a mala, enquanto o Eduardo sentia a realidade fugir.
Falámos por telefone explicou, a arrumar gavetas. Os pais obrigaram-no a estudar fora e ele não me conseguiu avisar. Imagina: pensou sempre em mim, apenas não conseguiu comunicar. Mas agora está tudo resolvido finalmente ficaremos juntos e felizes!
Na memória da Margarida repetiam-se as palavras da conversa telefónica:
Margarida, sei que tudo isto parece péssimo. Mas foram os meus pais: ou ia para Londres estudar, ou cortavam relações comigo. Tentei resistir, mas cortaram-me todos os cartões, fiquei sem telemóvel!
Porque não arranjaste uma forma de me contactares? estava ferida, mas tentou esconder.
Não tinha coragem. Como podes respeitar um homem que falha assim?!
Agora, ao recordar, Margarida sentia um calor reconfortante. Todas as mágoas diluíram-se num instante. Percebeu que, no fundo, esteve sempre à espera deste contacto todos os dias, todos os minutos.
Agora tudo será diferente garantiu o Vasco. Largo tudo, regresso e desta vez não falho.
De volta ao presente, Margarida certificou-se que não deixara nada esquecido. Só então notou que o Eduardo estava branco, parado.
Não te preocupes disse-lhe, mais meiga mas certa. Já avisei toda a gente. Peço para não te incomodarem. Vais ter quem te apoie, mas tu és forte.
Pegou na mala, endireitou o cabelo. Depois olhou-o nos olhos, determinada.
Peço só que não me procures, não tentes contactar-me. A minha decisão está tomada, sem voltas a dar.
Ergueu a mala com algum esforço, mas seguiu directa para a porta.
O Eduardo ficou a meio da sala, sentindo uma dor surda e profunda. Quis gritar, pedir explicações, mas conteve-se.
Talvez estejas a avançar depressa demais disse calmamente.
Ela ficou imóvel com a mão na maçaneta, mas não virou o rosto.
E se ele recusar voltarem? Ou não aceitar o teu filho? Ou não for como pensas?
Margarida virou-se bruscamente, rosto afogueado.
Vai receber-me. Marcámos um encontro! Basta isso. Não o critiques, o Vasco não é como pensas!
A voz dela fraquejou, mas recompôs-se e avançou para a porta. Ainda resmungou baixinho:
Ao menos podias ajudar-me com a mala.
O Eduardo, por impulso, deu um passo, mas logo recuou. A Margarida já não estava ali. Nos olhos dela, a felicidade e a certeza de quem ia a caminho de outro mundo. Imaginava-se já de novo nos braços do Vasco, pronta a acreditar em todas as promessas.
Na verdade, o Vasco apenas queria pôr fim ao passado e começar de novo mas sem Margarida. E ela, vidrada na fantasia, não enxergava o óbvio. Arrastou a mala até à entrada, hesitou um segundo com a mão na porta, mas saiu sem olhar para trás.
O Eduardo ficou a ouvir, no silêncio, o eco das palavras: “O Vasco não é assim”.
Afundou-se numa cadeira, sentido o peso de tudo o que se perdera. Era um ponto final, violento, injusto, mas inequívoco. Teria de aprender a viver, sem Margarida, sem planos futuros, sem ilusões.
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O Vasco abriu a porta, surpreendido. Margarida estava à frente dele, radiante, com dois volumes grandes. Ele hesitou, incrédulo: “Como é que ela saiu tão iludida?”
Já tinha deixado tudo para trás. Quando soube do novo relacionamento da Margarida, sentiu-se finalmente liberto. Regressei à cidade de Coimbra, tranquilo para formar família com a minha mulher, sem receio de telefonemas ou discussões inesperadas. Até agradeceu mentalmente à ex-namorada por isso.
Sim, ligou-lhe um dia, para encerrar o passado de forma civilizada. Sugeriu até conversarem pessoalmente, por mera cortesia.
Agora, ali estava ela, com bagagem, à espera de muito mais. O Vasco deu um passo atrás, a cabeça num turbilhão.
Vasco! exclamou Margarida, radiante. Tomei uma decisão. Viemos para ficar juntos!
Ela dava um passo à frente, ele deteve-a com um gesto calmo.
Margarida, espera falou, tentando ser gentil. Não sabes tudo.
Ela perdeu o sorriso.
Como assim? Combinámos encontrar-nos e decidir juntos!
O Vasco inspirou fundo.
Sou casado, Margarida. Há dois anos. E sou feliz.
Ela ficou gelada, olhos enormes de choque. Demorou a reagir, até que a dor se transformou em incredulidade e raiva.
O quê? Tu disseste que tudo ia mudar, que
Só quis despedir-me dignamente explicou, com pesar. Era altura de reconhecermos que cada um segue caminho próprio. Mas tu ouviste outra coisa.
Ela cambaleou, as mãos tremeram. Fechou os punhos, resistindo ao choro e à zanga que sentia.
Estiveste sempre a mentir! gritou, descontrolada. Deixei tudo por tua causa!
O Vasco sentiu apenas um cansaço enorme. Não queria discussões. Apontou calmamente:
Nunca te prometi nada. Tomaste a tua decisão sozinha. Não quis magoar-te, tentei ser delicado. Agora está tudo esclarecido.
A Margarida, furiosa, atirou a mala para o chão a roupa espalhou-se no hall. Ela chorou, gritou, pediu explicações, cada vez mais alto.
Veio a vizinhança espreitar. O Vasco teve de guiá-la até ao patamar e fechar a porta, finalmente. Mas Margarida continuou a bater, a chamar, a fazer barulho. Até que, uma hora mais tarde, alguém ameaçou chamar a polícia e ela desistiu.
Antes de desaparecer, olhando fixamente para a porta do Vasco, entre lágrimas ainda gritou:
Eu volto! Vais arrepender-te!
O Vasco fechou os olhos. Sabia que não era o fim. A Margarida tinha uma teimosia legendária não parava facilmente.
Sentou-se na sala e decidiu: “Tenho de vender a casa. Procurar outro lado de Coimbra.”
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A Margarida vagueou pelas ruas horas, perdidinha, os olhos ensopados. Não conseguia digerir o que aconteceu. No seu imaginário, o Vasco ia recebê-la de braços abertos. Mas a vida mostrou-se outra: dura, implacável.
De tão exausta, sem rumo, acabou à porta do Eduardo. Limpou as lágrimas, compôs-se e subiu até ao andar certo.
O Eduardo demorou a abrir, mantendo uma expressão fria. Olhou-a sem expressão, nem fez menção de a convidar a entrar.
Eduardo, por favor começou ela, a voz trémula. Sei o que fiz. Fui parva, cruel até. Mas quero emendar tudo.
Calou-se, indecisa. Os olhos novamente húmidos.
Nunca mais menciono o nome do Vasco jurou, fitando-o nos olhos. Juro. Só contigo é que posso ser feliz. Deixa-me voltar, por favor.
Falava sinceramente, cheia de esperança. Mas o Eduardo, sem ressentimento, abanou a cabeça.
Margarida, tu já escolheste. Hoje, há poucas horas, estavas aqui, mala na mão, pronta para ir atrás dele. E estavas convicta.
Enganei-me! cortou ela. Foi o calor do momento! Estava cega!
O Eduardo respirou fundo.
Não foste só embora de mim foste atrás dele. Tomaste a tua decisão, aceitei. Agora que foi diferente do que esperavas, queres voltar?
Quero, porque amo-te! Só a ti!
Calou-se, mas ele concluiu com firmeza.
Já não acredito em ti. Adeus.
Sentiu-a quebrar-se por dentro. Ele olhava sereno, mas estava realmente decidido.
Por favor sussurrou.
Perdoa-me. Mas é melhor para ambos.
Fechou a porta. Margarida ficou ali, imóvel, e foi deslizando até se sentar no chão, mãos na cara, num choro amargo não de raiva, mas porque percebeu, finalmente, que perdeu tudo: o Vasco, o Eduardo e não sabia como recomeçar.
***
No final disto tudo, percebi uma coisa: por muito que tentemos, não conseguimos construir futuro agarrados a ilusões. E por vezes, é mesmo preciso perder tudo para nos encontrarmos a nós próprios.







