O Taxista que se Manteve em Silêncio

O taxista que não dizia nada

Tu nunca ouves!

Atirei o prato para o lava-loiça com tanta força que a água subiu até ao tecto. Onze anos. As mesmas palavras a ecoar nas mesmas paredes. E ele, a dizer sempre aquilo primeiro como se fosse culpa minha, como se tudo isto fosse só meu.

João estava parado no portal da cozinha, de braços cruzados. Quase quarenta anos e a discutir como um miúdo teimoso, áspero, até ao fim. Já tinha decorado aquela cara de cor. Mandíbula tensa. Olhar perdido. Virou-se para a janela, a mostrar que a conversa tinha acabado.

Mas para mim, só estava a começar.

Esqueceste-te de ligar à mãe, disse eu, e a voz já me tremia. À minha mãe. Ela tem sessenta e três anos. Esteve o dia todo à espera. Não era pelo presente era pelo telefonema. Três minutos. Não conseguiste.

Esqueci-me. Acontece. Sempre a fazeres tempestades num copo de água…

Acontece? Tu esqueces-te sempre. Dos anos, do nosso aniversário, do meu próprio aniversário o ano passado também foi esqueceste-te?

Já falámos disto mil vezes. Pedi-te desculpa na altura.

Pediste desculpa e voltaste a esquecer! Então sou agora o quê? O teu despertador?

Virou-se para mim de frente. Os olhos zangados, exaustos.

Tu nunca ouves, repetiu, mais baixo. Digo uma coisa, tu entendes outra. Cansei de explicar.

Agarrei no casaco e procurei o telemóvel no bolso.

Vais para onde?

Para casa da mãe.

Outra vez a mãe. Sempre a mãe.

Já nem ouvi o resto. Fechei a porta atrás de mim, o corredor do prédio engoliu-me naquele frio surdo de um fim de tarde em Março. Os meus dedos bailavam pelo ecrã finos, duros, sempre tensos de tanto apertar os punhos. Chamar um táxi. Cascais. Pagamento por cartão. Três minutos a esperar.

Esperei mesmo os três minutos debaixo do prédio, a gola do casaco levantada, a olhar a janela do segundo andar. Tinha frio. E uma tristeza irritada, dirigida a mim e ao João. Pela gritaria toda. A luz da cozinha ainda acesa isso dizia que ele ficou parado ali, braços cruzados, à espera que eu voltasse.

Eu não voltaria. Não hoje.

O carro negro parou ao passeio, mais silencioso que as sombras. Abri a porta de trás e sentei-me, sem olhar para o condutor. O carro cheirava a pinho não do ambientador, mas verdadeiro, como se um ramo tivesse sido escondido lá dentro. E estava tudo calado. Um silêncio denso. Nem rádio, nem navegação por voz, nem música. Só o painel a brilhar num azul pálido que desenhava o caminho.

O motorista acenou com a cabeça, olhos no GPS, e arrancámos.

Encostei a testa ao vidro e fechei os olhos. Só precisava de um minuto sem mais nada. Mas não consegui paz. Tudo fervia cá dentro e as palavras empurravam-se para sair. Acabara, horas antes, de bater com a porta. De o deixar a meio de uma discussão, de fugir para casa da mãe, coisa que já tinha feito dez vezes em três anos. E sempre a voar: desta é a última vez E nunca era.

Será que isto vai ser assim até ao fim?

Desculpe disse, quase para mim, para o vazio. Se calhar vou falar agora. Pode ser? Preciso mesmo de dizer isto em voz alta. Mesmo que seja só para alguém que me ouça.

Silêncio. Ele não respondeu. Mas também não protestou. Interpretei aquilo como permissão.

Estamos casados há onze anos comecei, e a voz fraquejou logo ao segundo onze. Casei-me com ele aos vinte e cinco, e achei: é isto. Finalmente alguém que me entende, que me ouve quando falo, que fica quando estou em baixo.

Lá fora, as luzes de Tires passavam depressa. Conhecia cada uma. Eram tão indiferentes como este fim de dia. O carro curvou suave, e o meu corpo acompanhou o balanço.

Depois ficou tudo igual. Sempre igual, percebe? Sempre as mesmas discussões, iguaiszinhas. Ele diz que não ouço. Eu digo que ele não ouve. Os dois certos e ao mesmo tempo completamente enganados. Tentámos de tudo. Conversar serenamente já tentámos. Calarmo-nos também. Psicólogo o João desistiu à terceira sessão. Não vou pagar para um estranho ensinar-me a viver, disse ele. E pronto, ficou por aí.

Olhei pelo espelho retrovisor. Vi-lhe os olhos. Tão abertos, castanhos, com aqueles vincos de quem está sempre a apertar os olhos ao sol. Olhava a estrada, mas de vez em quando verificava o espelho. Não para me avaliar. Só para saber que eu estava ali.

Continuei. Tinha de continuar. Era mais forte que eu.

***

Sabe o que mais me dói? já não falava para ele, mas para a noite, para os candeeiros que desapareciam atrás de nós em Carcavelos. O que mais me custa é que ele é, de verdade, uma boa pessoa. O João. Não bebe, não sai com outras, o ordenado vem direitinho para casa. Quando estive doente há três anos uma bronquite que virou pneumonia ficou duas semanas ao meu lado. Fazia-me caldo horrível, salgado, mas fazia.

O carro mudou de faixa, o GPS ajustou o percurso deve haver trânsito lá à frente. E reparei: não ouvi o som do aparelho a avisar. Estranho. Normalmente está sempre aquela voz metálica: A trezentos metros, vire à direita. Ali, nada. Talvez o taxista gosto do silêncio. Entendi-o.

Mas ele não me ouve disse mais baixo. Não é de propósito. Ele simplesmente… não sabe. Digo-lhe: estou cansada, sinto-me sozinha, só preciso que assintas. E ele responde: que mais queres?, temos casa, carro, eu trabalho.

O silêncio ali dentro era especial. Nem tenso nem hostil. Era como um quarto vazio onde se pode gritar, e as paredes nunca julgam. Ri-me da ideia comparar o táxi a um quarto vazio. Deve ser cansaço.

Mas sentia-me mais leve. Sabia mesmo bem.

Discutimos sempre por ninharias. Hoje foi por causa do aniversário da minha mãe. Na semana passada por uma toalha molhada em cima da cama. Uma toalha molhada! Gritei como se ele me vendesse a casa. Ele gritou que estava farta de picuinhices. Tínhamos ambos razão e nenhum.

Passei a mão pelo rosto. A máscara deve ter-se esborratado, mas já não importava. Ia para casa da mãe. Ela já me tinha visto de todas as formas: sem rímel, toda inchada de chorar. Ela só queria que eu lá estivesse.

Não consigo ligar à amiga. A Martinha está na terra, o telemóvel não pega. A Sónia o marido dela está no hospital, não vou incomodar. E ligar à mãe a chorar só a assusta. Depois não dorme a noite, passa o tempo a ver o telefone. Por isso é que vou sempre pessoalmente, para ela ver que estou mesmo bem. Ela abre a porta, lê-me o rosto, e não diz nada. Só mete água para o chá.

Espiei o motorista no espelho: mãos grandes, sólidas, dedos grossos de pedreiro, com firmeza no volante. Corpo robusto, talvez mais de cinquenta anos. Um aceno de cabeça, confirmando um acordo invisível. Ou então, a estrada era só a descer.

Interpretei como vai, continua. E fui. O que ele pensasse, já não me importava. Nem lembrava que ali estava um estranho. Só queria desabafar.

Eu também tenho culpa. Eu percebo. Também grito. Também digo coisas irreparáveis. Ontem disse-lhe: se calhar nunca devíamos ter casado. Vi-lhe a cara a mudar. E não consegui parar. Sabe como é? Quando se perde o controlo, sabe-se que se está a ser terrível, mas não se consegue calar?

Passámos por uma bomba de gasolina, luzes de néon a deslizar pelo carro. Lembrei-me: nós costumávamos passar aí, eu e João, à noite, só para ir buscar café à máquina. Só porque sim. Porque gostávamos de ir juntos.

Ontem disse-me: tu nunca ouves. E ele tinha razão. Eu não ouço. Fico ali à espera que acabe, para me defender a seguir. Isso não é ouvir, é esperar a tua vez. E a diferença é enorme.

As lágrimas tinham acabado algures ali perto do cruzamento. Agora só falava sem tremer. Cada frase dita limpava um bocadinho o peso do peito. E eu respirava melhor.

E penso: talvez tenhamos os dois medo do mesmo? Que o outro vá embora. Por isso gritamos. Para não deixar que o outro fuja primeiro. Gritar até cansar. Ficar em silêncio até doer. Depois recomeçar. É um ciclo. E não sei como sair dele.

Mudámos para a faixa da direita. Trocámos outro olhar pelo espelho olhos castanhos-mel, morno. Fixou-me um segundo, voltou à estrada. Não havia piedade, nem impaciência. Só presença. Um estou aqui.

Isso chegava. Era disso que eu precisava alguém só lá.

***

Sabe qual era o meu sonho aos vinte e cinco? tentei sorrir e saiu torto Chegar a casa e ele perguntar: então, como correu o teu dia? E queria mesmo saber. Não por hábito. Não para cumprir papel. Mas porque lhe importava. Porque queria saber o que penso, o que sinto, o que me assusta. Será pedir muito?

O carro meteu por uma estrada apertada, as árvores ficaram mais próximas, tudo mais escuro. Só via o vulto dele ombros largos, cabelo rapado. O GPS lá, ainda só a brilhar, nunca a falar.

Ele chegava e perguntava: o que há para o jantar? E eu pensava: típico. Vai melhorar. Mas não melhorou. Foi arrefecendo. Como a água do banho no início quente, depois morna, depois gelada. Só damos conta quando já não lembramos do calor.

Calei-me. Dez, quinze segundos. Naquele silêncio consegui ouvir o coração. Não doía de medo, mas de alívio. Tinha dito tudo aquilo a um desconhecido. Nem à mãe, nem à Martinha. E não fiquei envergonhada. Senti-me mais leve.

Talvez porque ele não disse nada. Um silêncio completo. Sem o pois, já devias saber, sem conselhos nem juízos. Só estava ali, não atrapalhou.

Já pensei no divórcio disse completamente baixo. Três vezes nos últimos dois anos. À primeira, foi quando ele esqueceu do nosso aniversário. De manhã pus a mesa, vesti um vestido, comprei vinho. Ele chegou à noite e disse: o que se passa? Fugi para a casa de banho e fiquei meia hora sentada no chão.

Ele acenou de leve. Ou foi impressão minha.

À segunda, foi depois de eu ter estado doente. Ele cuidou de mim, fez o caldo duas semanas, depois começou a lembrar disso todos os meses. Qualquer coisa que eu pedisse: lembras-te, cuidei de ti, fiz caldo!. Eu disse obrigada. Várias vezes. Ele não ouviu. Ou não quis.

A terceira agora, hoje. Quando ele voltou a dizer: tu nunca ouves. Percebi que aquelas palavras não têm já peso nenhum para mim. Como uma parede a que bato com a cabeça dói, mas já é costume.

Mas percebi outra coisa: não ia divorciar-me. Sabe porquê? Não pela casa, não pela rotina. Porque lembro do que ele é, às vezes: sem trabalho, sem raiva, ele é aquele por quem casei. Sorri só com os olhos. Leva-me chá à cama ao domingo. Endireita-me o colarinho do casaco quando acha que não vejo.

O semáforo ficou vermelho. A luz preencheu o carro, vi-lhe metade da cara. Calma, concentrada. Um homem que já não se espanta com nada. Os que aprenderam a viver devagar.

O nosso problema é falarmos aos gritos. Ou nunca termos falado baixo. Talvez os dois só saibam gritar, porque nunca ninguém nos ensinou a falar devagar. Na minha casa, os meus pais também gritavam. O meu pai foi-se embora quando eu tinha catorze. A mãe ficou sozinha, tratou de mim. Eu prometi: eu não. Eu vou ser melhor. Mais paciente. Mais sábia.

O semáforo abriu. O carro andou. Ri-me de mim mesma: sempre igual, sempre a chorar.

Mas paciência não é silêncio. Paciência é ouvir sem explodir. Eu calei, calei, calei… e depois rebento tanto que os vidros estremecem. Afinal, nunca fui paciente só aguentei.

Olhei para o GPS: sete minutos para Cascais. Em breve.

Senti de repente que não queria sair daquele carro. Não era fugir da mãe era porque ali dentro, no silêncio, sentia sossego pela primeira vez em muito, muito tempo. Ninguém a interromper. Ninguém a julgar. Só paz.

O silêncio tinha propriedades de remédio. Eu sentia-o no corpo como um peso a ser retirado, devagar.

Acho que contei agora mais do que a qualquer outra pessoa nestes anos surpreendi-me com o pensamento. E o senhor nem uma vez interrompeu, nem aconselhou. Nunca disse: já tentaste conversar com calma? Todos dizem isto. Dos psicólogos aos amigos. Como se eu não soubesse. Como se fosse só falta de vontade.

Silêncio. Não respondeu. E eu agradeci. Os meus ombros largaram-se aqueles que estavam suspensos o dia inteiro, à espera da próxima discussão. Agora, repousavam.

Obrigada disse. Imagino que esteja farto de passageiras assim, cheias de dramas para despejar. Mas obrigada, mesmo assim.

***

Entrámos na rua da mãe. Reconheci a sebe verde, pintada no verão anterior. O candeeiro junto ao portão, a luz ainda acesa na cozinha. Ela já não ia cedo para a cama dizia preferir ler à noite, mas eu sabia: ficava à minha espera. Todas as sextas, para o caso.

É aqui, por favor avisei.

O táxi parou suave. Motor desligado.

Paguei pelo telemóvel. Olhei para o motorista.

Obrigada e pus todo o sentimento possível ali. Obrigada por me ouvir. Sei que não precisa, que só está a fazer o seu trabalho. Mas fez por mim mais do que o João em três anos. É verdade.

Ele virou-se para mim. Pela primeira vez em toda a viagem, de frente. Vi-lhe o rosto: largo, sereno, olhos de mel quente. Sorriu breve, afável. Depois levantou a mão. Não percebi logo. Leva-a à boca, baixa-a devagar à minha direção.

Obrigado. Em língua gestual.

Fiquei suspensa. E ele já estava a estender-me um cartãozinho. Pequeno, branco, letras grandes. Peguei, li.

Motorista Tiago. Surdo-mudo. Se quiser desabafar outra vez ligue. Não conto a ninguém. Literalmente.

Levantei os olhos.

Ele não ouvira nada. Uma hora inteira a debitar tudo, e ele, zero de som. Nem João, nem os onze anos, nem o caldo salgado, nem o divórcio pensado três vezes. Nada.

Simplesmente conduziu. Calado porque não podia falar. E acenava, porque me via no espelho e sabia: aquela mulher precisava só de presença.

O GPS claro, por isso não falava. Ele não precisa de avisos sonoros. Lê no ecrã.

Desatei a rir, daquela gargalhada pura que não vinha desde manhã. Não histérica, nem entre lágrimas. Uma risada de quem acabou de ter uma surpresa absurdamente improvável e maravilhosa.

Tiago sorriu, mostrou o polegar. Bateu no peito com a mão não sei o que quer dizer em gestos, mas senti: qualquer coisa quente e próxima.

Saí do carro. Fiquei um segundo ainda de cartão na mão. Olhei para trás ele não arrancou. Esperava eu entrar. Acenei-lhe. Piscou-me os faróis. E senti aquele baque no peito um agradecimento real, comovido, que morde nos olhos.

A mãe abriu a porta antes de eu bater. Maria do Carmo, sessenta e três, ex-bibliotecária, mulher que sempre sabe quando se faz chá ou se fica calada.

Anda, descalça-te disse. O chá está pronto.

Tirei os sapatos. Pendurei o casaco. Sentei-me à mesa a velha, de toalha florida, onde fazia os deveres aos nove anos e chorei a primeira separação aos dezoito.

Outra vez? perguntou. Não censurava. Só confirmava.

Outra vez respondi simplesmente.

Ela pôs-me a chávena à frente. Pegou numa taça de doce de figo, do ano anterior. Abracei a caneca com as duas mãos. Que quente. Tão necessário.

Mãe disse eu vou contar-te uma coisa que nem acreditas.

Tenta respondeu, a sentar-se defronte.

Contei-lhe. O táxi. O meu desabafo, uma hora a falar sem interrupção, e o motorista surdo-mudo. O cartão de visita.

Ela ouviu. Sem interromper, sem pois!, sem lições. Só chá nas mãos, atenta. Depois serviu-se mais.

Sabes disse , quando o teu pai se foi embora, eu passei seis meses a conversar com o frigorífico. A sério. Chegava do trabalho, abria a porta e falava-lhe tudo. O ordenado. O chefe. O telhado a pingar. Ele zumbia e eu falava. E ajudava.

Oh mãe é só um frigorífico.

E o teu taxista não fala. Qual é a diferença? O que interessa não é quem ouve. É finalmente dizeres alto. Os pensamentos, enquanto só na cabeça, são como um enxame de abelhas num frasco. Fazem barulho, batem-se, não te deixam viver. Dizes em voz alta: voam.

Bebi chá. Queimei o lábio. Soprei.

Confessei que pensei em divórcio.

Ao João?

Não. Ao taxista.

A esse podes. Não fala sorriu a mãe. Não há segredo mais seguro.

Rimo-nos as duas. À mesa da casa onde cresci. Ouvimo-nos como só quem já falhou muito. O melhor ouvinte da minha vida nem uma palavra apanhou, e foi a ele que contei tudo. Porque estava calado. Porque naquele silêncio não havia juízos, nem conselhos, nem a culpa é tua. Só espaço. Espaço livre, limpo, onde se pode pôr tudo. Pus lá tudo.

Se calhar não era resposta que eu queria. Se calhar só precisava de ouvir a minha própria voz.

Gostei desse pensamento. Deitei-me de lado e adormeci.

***

De manhã acordei com o telemóvel a vibrar na mesinha. No visor: João.

Fiquei a olhar três segundos. Normalmente atendia logo, para falar primeiro, para controlar, para ele não começar a desculpar-se antes que eu dissesse o que queria.

Hoje atendi e fiquei em silêncio.

Rita… disse ele, rouco, baixo. Não dormi. Rita, desculpa.

Calei-me. Esperei.

Devia ter ligado à tua mãe. Não me esqueci, Rita. Lembrei-me o dia todo. Mas no trabalho, distraíram-me, depois passou. Não é que não me importe. Esqueci-me porque sou burro, não porque não quero saber. E o que te disse tu não ouves era sobre mim. Eu é que não ouço. Tu falas, eu só espero que acabes para responder. Não é ouvir.

Ficou calado. Esperava a minha resposta. Esperava a lista do costume. Ou o meu perdão. Ou um sarcasmo. O guião de sempre.

Mas eu, na cama, de pernas flectidas, só ouvi. Não preparei respostas, nem acusei, nem rebati. Ouvi-o.

E ouvi mesmo ele. Talvez pela primeira vez em muito tempo.

Ainda aí estás? arriscou.

Sim disse. Estou a ouvir.

Houve um silêncio bom daquele lado. Depois:

Acho que nunca me respondeste assim. Costumas sempre falar logo. Agora só estás a ouvir. É estranho. Bom, mas estranho.

Sorri. Ele não viu. Mas sorri.

Vem para casa pediu. Por favor.

Vou sim. Mas não já. Daqui a umas horas. Quero acabar o chá com a mãe.

Ele riu-se. Um riso de quem está cansado.

Está bem. Espero por ti. Enquanto isso, vou ligar à tua mãe e dar-lhe os parabéns, mesmo atrasados.

Desliguei. Fiquei um minuto a olhar para o jardim da mãe. Árvores nús, mas com rebentos já a inchar. Março. Ainda tudo possível.

Fui buscar o cartão do Tiago no bolso do casaco. Li-o outra vez.

Motorista Tiago. Surdo-mudo. Se quiser desabafar outra vez ligue. Não conto a ninguém. Literalmente.

Abri o WhatsApp e escrevi para lá: Tiago, aqui é a passageira de ontem. Aquela do desabafo sem fim. Queria só dizer é o melhor ouvinte de todos. Mesmo sem ouvir. Obrigada.

Respondeu em um minuto. Três emojis: sorriso, carrinho, mão aberta. E texto: Sempre às ordens. Venha sempre que quiser. O silêncio é grátis aqui.

Sorri, outra vez. Já era a terceira em vinte e quatro horas. É isso: passamos anos a gritar para sermos ouvidos. E, afinal, bastou entrar num táxi, falar sozinha durante uma hora, e ninguém ouviu. E foi isso que me salvou.

Porque às vezes não importa se ouvem. Importa pôr cá fora.

A mãe chamou:

Vens tomar o pequeno-almoço?

Já vou respondi eu.

E fui para a cozinha. Guardei o cartão. Não só como contacto, mas como lembrete.

De que a melhor conversa da minha vida foi com quem não ouviu nada. Que a voz que mais importa é a nossa. E que às vezes só precisamos ficar calados e deixar o outro falar. Como fez o Tiago. Como fiz hoje quando o João ligou.

Tu nunca ouves disse ele ontem.

Hoje, finalmente, ouvi.

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O Taxista que se Manteve em Silêncio
O meu maior erro não foi a falta de dinheiro, mas sim o excesso de orgulho.