As paredes que deixaram de ser minhas
Sabes uma coisa? perguntei ao meu marido, a esfregar o mesmo prato pela quinta vez Penso que já nem uma simples colherzinha do chá é mesmo nossa. Está tudo naquele quarto. E dou por mim, cada noite, deitada na minha própria casa a pensar se não estaremos a fazer demasiado barulho na sala a ver televisão. Se não estaremos a incomodar.
Ele ficou calado, olhar perdido na noite lá fora. Suspirou fundo, daquele fundo onde só se vai quando já não se sabe por onde continuar.
Virámos hóspedes, disse ele baixo, sem me olhar. Os donos da casa já não moram aqui.
Naquele instante, como se alguém tivesse escrito o guião, ouvi-se da sala o riso contido e miúdo da minha sobrinha, seguido pela voz grossa e grave do namorado dela. Viam um filme na nossa antiga sala.
E ali ficámos, eu com o prato nas mãos, o Artur junto à janela, ambos cheios de perguntas que nunca íamos conseguir responder: Como chegámos aqui? Em que momento passámos a ter receio de puxar o autoclismo ao deitar, para não incomodar? Tudo começou tão inocentemente… com aquela boa vontade muito de família.
Agosto estava quase a acabar, passaram já dezoito meses, quando a minha irmã Mariana me ligou. Na altura ainda estava eu na cozinha, agarrada aos frascos de pepinos em conserva, cabelos colados à testa, tudo a ferver. Quando o telefone tocou, limpei as mãos ao avental antes de atender.
Olá, Inês, a voz dela vinha hesitante, quase esforçada. Mariana não telefona simplesmente para conversar: ela vive em Braga, ocupa-se muito dela própria, falamos uma ou duas vezes no ano. Olha, lembras-te da Joana, a minha mais velha?
Claro que sim. Aconteceu alguma coisa?
Não é nada de grave, até é uma coisa boa. Ela entrou na Universidade aí em Lisboa, ficou com vaga de mérito. A questão é o alojamento… não sai logo, talvez só para o segundo semestre. E então pensei… como vocês vivem sozinhos no vosso T3, podia arranjar-lhe uma morada temporária? Só para entregar a declaração na faculdade, percebes? É só por papelada. Morar-mesmo, ela fica com amigas noutro lado, não te preocupes, já combinaram tudo.
Fiquei com o telefone preso no ouvido, cabeça já a mil. Por um lado, era a minha sobrinha, uma miúda impecável, sempre se falou dela como a aluna de excelência. Por outro, uma mudança de morada é coisa séria. Artur sempre disse: não inscrevas ninguém, nem família, nem estranhos; depois, para tirar, é um pesadelo. Mas era a sobrinha, e só por uns tempos tão curtos. E como dizer que não à Mariana? Nem que pouco falemos, é família.
Mariana, tens mesmo a certeza que ela não fica cá? arrisquei, a medo. É que isto de ter gente a morar muda as rotinas, sabes…
Oh Inês! Riu-se ela alto. Aos dezoito anos? Ela quer é liberdade. Vai dividir casa com amigas, já estão a tratar disso. Isto das moradas é mesmo só para a faculdade carimbos, documentos, aquela chatice toda, sabes como são.
Deixei passar um dia para pensar e contar tudo ao Artur à noite. Assim que ouviu, torceu o nariz:
Não faças isso, Inês cortou ele, seco. Uma coisa é registar, outra é tirar depois. Já ouvi histórias no trabalho, dá sempre confusão.
É só a Joana, filha da Mariana tentei ainda convencer-me, mais que a ele. É por pouco tempo. Só para papelada.
Vais ver, começa por pedir a declaração, a seguir aparece com malas, depois amigos, e depois vais-te ver à nora para a tirar daqui.
Mas a culpa pesou-me, parecia injusto fechar-lhe a porta. A Joana… Tinha-a nos meus anos, caladinha e doce, sempre educada. Disse à Mariana que realmente podia vir conhecer a casa, trazia os papéis.
Naquele início de setembro, Joana veio cá: alta, magrinha, de cabelos castanhos apanhados numa trança e sorriso de quem vê o mundo pela primeira vez. Trazia um rafeiro de mochila às costas, e uma voltinha de prodigalidade: mel, compotas, uns rebuçados caseiros. O meu coração derreteu-se: tão educada, tão bem formada.
Sentámo-nos à mesa com chá. Contou dos cursos, do sonho de ser jornalista, trabalhar em televisão. Mostrou fotos do quarto alugado perto do Campo Grande, três camas encostadas, poucos metros mas muito entusiasmo.
Só preciso mesmo da morada para não ter problemas na universidade, repetia. Nem dou trabalho, talvez venha cá, de longe a longe, só mesmo se precisar.
Quando o Artur chegou do trabalho, Joana cumprimentou-o cheia de respeito. Ele acenou e manteve-se reservado. No dia seguinte fomos então juntos ao registo. Preenchimentos, assinaturas, e tudo arrumado: morada por um ano. Duas semanas depois, Joana ligou a agradecer mil vezes.
Fiquei a achar que a vida corria simples: ela tinha o que queria, nós éramos os tios solícitos, tudo em paz.
Mas a vida é o que é.
Durante quase dois meses, Joana nem deu sinais. Umas chamadas rápidas, saudações em feriados. Mariana também agradecia pelos telefonemas, elogiava notas, dizia que a filha se tinha adaptado bem. Eu, tranquila.
Até que, em novembro, Joana pede para ficar uns dias por aqui. Conflitos com as colegas, diz, uma delas fazia festas até tarde, música sempre alta, não dava para estudar. Sorri ao telefone, aceitei, afinal era época de testes.
Chegou à tarde, mala pendurada, Artur nem protestou, manteve-se distante. Ficou no sofá da sala é só por uma semana, pediu desculpa mil vezes se estava a chatear, prometeu procurar logo outra solução. Era mesmo discreta: acordava cedo, ia à universidade, voltava à noite para se enfiar nos livros. Televisão deixámos de ligar, Artur fugia para o quarto a pretexto do sono, eu passava horas a remexer panelas, sem vontade sequer de sentar-me na sala.
A semana virou duas. Depois, veio a época de exames e Joana justificou: impossível buscar novo quarto a meio dos testes. Aceitámos. No inverno não ia deixar a rapariga na rua durante exames.
Pouco depois, Joana conseguiu um estágio no jornal aqui perto meio horário, bom para ganhar experiência. Decidiu poupar para uma viagem de estágio em Madrid. A renda podia poupar. Pede:
Tia Inês, posso ficar mais um tempo? Pago as despesas. Não vos incomodo. Compro as minhas coisas, não vos faço peso.
Artur já não conteve:
Inês! Eu não te avisei?! Só aproveitamento! Primeiro a morada, agora vive cá… depois traz as mochilas, logo vem a mobília! E ainda achas normal?
Ela está a trabalhar, a estudar, precisa de ajuda atrevi-me a argumentar, já ciente eu mesma do absurdo das desculpas. E paga despesas…
Despesas! bufou o Artur. Dá-nos cinquenta euros no mês e acha que isso cobre tudo?! Está a ocupar espaço e a gastar luz, água… Não é pagar, é aliviar a culpa.
Mas não discuti. Era mais fácil calar-me, com pena sim dela, mas também sem coragem de dizer basta. Falar com a Mariana? Nem pensar ia logo virar drama de família: concordaste, resolve.
Em fevereiro, Joana já era comandante do corredor. Uma asa do roupeiro da entrada era dela, livros e apontamentos ocupavam o varanda, e até o frigorífico tinha uma prateleira só para ela: iogurtes, fruta, tupperwares. Comprava tudo seu, mas ia faltando isto ou aquilo… açúcar, azeite, pão. Depois repunha, mas o desconforto ficou. Era estranho: já não era só a visita era alguém com as suas rotinas, o seu espaço. E que não éramos nós.
A pouco e pouco, eu e o Artur deixámos de conversar como antigamente. Ele, cada vez mais ausente, fugia dos serões em casa, dizia-se cansado. Joana tentava ser invisível passava com educação, ajudava quando lhe pedíamos… mas isso só fazia pior. Era um incómodo perpétuo: uma pessoa estranha, educada mas intrusa na casa.
Numa noite, sozinha a cortar legumes na cozinha, vi-a aparecer para fazer chá. Tranquila, natural, com o seu bule cor-de-rosa que ela própria comprara porque o vosso é lento, e uma caneca toda modernaça. Sabia a casa de cor, mexia tudo naturalmente.
Joana, e as casas? Tens visto alguma coisa? As colegas já atinaram?
Sorriu, encolhendo os ombros.
Já nem falo com aquelas raparigas, não vale o esforço. Tenho visto, mas é tudo caro ou longe da faculdade. Aqui é perto, prático, o metro a dois passos. Se vos estiver a atrapalhar mesmo, prometo procurar mais a sério.
O que ia responder? Dizer estás a mais? Não fui capaz. Era um peso enorme, misto de mágoa, pena e… fraqueza.
Procura murmurei simplesmente. Faz-te falta uma vida em liberdade, o teu espaço. Aqui só tens um sofá…
Mas ela riu-se: Aqui estou bem.
E lá voltou para a sala. Fiquei a olhar, sabores de derrota na boca. Tímidos, passámos a jantar na cozinha, cada um a seu canto. A sala, o nosso antigo palco, já não era nossa.
Nesse dia, ao deitar, Artur disse-me baixinho:
Tens mesmo de a tirar daqui antes do verão. A renovação da morada acaba em agosto, não assines mais nada. Não facilites, por favor.
Prometi que não ia renovar.
O problema é saber assumir que não se tem coragem. Joana já estava há meio ano connosco; falava-se, mas ninguém concretizava nada. O medo do confronto, do papel de tia má. E se se zanga, e se a Mariana se enche de razões?
O tempo avançou. Joana estudava, estagiava, às vezes voltava tarde. Às noites, o toque distraído no teclado do portátil ecoava na sala. Irritava-me, sentia raiva de ouvir os seus projetos pela noite adentro. Queria explodir, mas calava.
E em maio, o caldo entornou-se.
Joana voltou para casa com um rapaz. Alto, cabelo à moderna, casaco preto. Apresentou:
Tia Inês, este é o Pedro, meu amigo da faculdade, estávamos a trabalhar num projeto. Podemos ficar um bocado na sala?
O Artur estava atrasado. Assenti, olhos no chão. Ouvi-os conversar e rir detrás da porta. Ferveu-me o sangue: agora trazia rapazes? Era a NOSSA sala!
O Artur chegou, viu logo que algo se passava.
Quem está cá?
O namorado da Joana, estão fechados na sala, a trabalhar…
Artur enrubesceu, fechou-se no quarto.
Ao sair, Joana pediu desculpa, prometeu não trazer mais ninguém. E, vê-se, sentia-se inocente Não estamos a fazer barulho, prometo.
Joana, tentei percebes mesmo que é desconfortável? Esta é a nossa casa. Tu apareces com amigos, parece que somos estranhos cá.
O que ela respondeu deixou-me sem chão: triste, o queixo a tremer:
Eu percebo, nem queria dar problemas.
Depois silêncio. Mas eu não dormi. Artur, ao deitar, foi claro:
Agosto, Inês. Vai procurar casa, ela e as colegas, e sai. E tu não assines mais nada!
Dito e feito, em junho já Joana procurava renovar a inscrição, jurava sair no início do novo ano letivo. Precisa dos papéis para a universidade, se não me renovam podem-me expulsar! Liguei à Mariana, confusa. Tem paciência, Inês, mais um bocadinho, ela é boa miúda, não te arranja sarilhos. Cedi. Renovei sozinha, Artur recusou-se por honra.
No verão, Joana voltou a Braga um mês. Parece mentira, recuperámos a casa: víamos televisão na sala, jantávamos sem medo, até a respiração parecia mais leve. Mas setembro trouxe Joana de volta desta vez com a mala a abarrotar. Mãe mandou livros, roupa, desculpou-se e decidiu investir no melhor diploma.
Em outubro, Pedro voltou a aparecer. Fui apanhada de surpresa: desta vez, entrada directa, sem pedir permissão.
Joana, não tínhamos combinado que não tinhas visitas cá em casa?
Mas é um trabalho de grupo. Vamos apresentar juntos.
Não respondi. Fui para a cozinha, fumei um cigarro (há séculos que não fumava). Senti-me expulsa, uma hóspede no meu lar.
Pedro passou a visitar duas ou três vezes por semana. Artur cada vez mais ausente. A normalidade resumia-se a sobreviver.
Em novembro, não aguentei:
Joana, tens falado que vais sair, mas já passou um ano. Procuraste mesmo casa?
Desviou o olhar, voz envergonhada:
Procurei. Mas é impossível, tudo caro ou péssimo. Aqui está tudo certo: internet boa, conforto, segurança. Eu pago-vos despesas, não vos perturbo… custa-vos assim tanto?
Confirmei, com honestidade. Custa, Joana. Estamos habituados ao silêncio. O teu Pedro vir cá não faz sentido, isto é casa de família, não é quarto alugado.
Misturou-se então tudo o que eu receava:
Somos só amigos! E eu tenho esta morada legal, não faço nada de mal! E vocês agora querem expulsar-me só porque sim?
Já não pedia desculpas, reclamava direitos.
A morada é temporária consegui responder, já esgotada. Não é para viveres cá. Só ajudámos. Não abuses…
Ela gritou: Não abuso! Pago tudo, não vos falto ao respeito! Levantou-se e saiu.
A partir daí, só o básico: bom-dia, boa-noite. O ambiente tornou-se gelado. O Natal foi triste. Nem árvore na sala apeteceu fazer, limitámo-nos à miniatura velha na cozinha. O coração estava fora de casa.
No início de janeiro, já depois de regressar de Braga, Joana apareceu determinada:
Tia Inês, tio Artur, aviso vos já: o Pedro vem cá viver por uns tempos. O alojamento dele é tóxico, foi roubado. Estamos juntos faz tempo, pensamos casar depois do curso. Ele paga despesas, não vos estorva.
Perdi o chão. A chávena caiu-me das mãos.
O quê?! o Artur esganiçou Trazer um homem cá para casa?
Não é viver-mesmo, é só por uns meses. E pagamos tudo.
Esta casa é nossa gritava o Artur. Tu e o teu amigo têm de procurar alternativa. Tens um mês para sair.
Joana olhou fria:
Legalmente, não me podem expulsar. A minha morada cá é oficial até agosto. Só por tribunal, se provarem que lhes faço vida impossível. Até lá, não saio. E o Pedro também não.
Trancou-se no quarto. Ficámos na cozinha, aniquilados. De repente, éramos apenas titulares de um nome no documento não mais dono da casa.
No dia seguinte, liguei à Mariana:
Ela passou-se! Trouxe o rapaz sem pedir, diz que não sai daqui se não for por tribunal!
O que tu quiseres, suspirou Mariana mas não posso mandar nela.
Percebi que já estava sozinha. A família toda ia estar do lado da Joana, os tios injustos e maus.
Pedro mudou-se com armas e bagagens. Artur falou com um advogado, aconselhou registar tudo: excesso de ruído, de gastos, pedidos de testemunhas de vizinhos. Passámos a viver na nossa casa escondidos no quarto, os serões para sempre fechados na cozinha. Eles faziam as suas rotinas, já nem pediam licença.
Até com o velho televisor nos renderam: instalaram um novo e o nosso foi para o sótão.
Inês desabafou o Artur numa dessas noites, se calhar era melhor vendermos a casa. Comprar uma pequena, só para nós. Que fiquem eles com esta, ao menos paz temos.
Olhei-o, já nem vontade de discutir. Só vazio.
De noite, ouvi passos: Joana a caminho da casa de banho, Pedro a ir buscar sumo ao frigorífico. Tudo natural, e nós quietos, a acenar sem sequer um protesto.
Amanhã falo com uma agência murmurou o Artur. Descubro quanto vale este T3. Pode ser melhor mudar de vida.
Nada respondi; não se responde à derrota, só se vive a mágoa de não ser mais de onde se era.
Naquele dia, entendi de vez: aquilo que doeu não foi perder a casa, mas perder a fé em que o bem volta. Em que a família não se abusa dos laços. Em que uma boa ação não se volta contra nós. Como se, de repente, as paredes tivessem expulso a nossa vida, o nosso passado, a nossa existência dali. Só ficou o vazio, uma ausência de casa, aquele frio do inverno que já ninguém sabe quanto dura.
As noites passam iguais. Ouço o som alheio do televisor deles; o Artur já adormece de cara preocupada, sempre em tensão.
Às vezes sonho com o apartamento como era dantes, nosso, cheio do nosso cheiro, com as gargalhadas ecoando, reuniões que nunca se voltaram a repetir. Era só sonho. O resto, já é só tristeza de gente que foi ficando hóspede no espaço que era para ser lar para sempre.






