Não há alegria sem luta
“Como é que te metes numa coisa destas, miúda ingénua? Quem é que agora te vai aceitar, grávida de um filho? E achas que é em mim que deves contar? Eu já te criei, agora ainda hei de criar o teu?! Não te quero cá em casa. Faz as malas e põe-te a andar!”
A Leonor ouviu tudo em silêncio, de cabeça baixa. O último fio de esperança, aquele restinho de fé de que a tia Maria a acolhesse nem que fosse só até encontrar trabalho, desvaneceu-se num segundo.
“Se a mãe estivesse viva…”
O pai, a Leonor nunca o conheceu. Já a mãe, morreu há quinze anos, atropelada por um tipo bêbado numa passadeira em Almada. Por um triz não foi parar à Casa Pia, mas apareceu uma parenta afastada a tal tia Maria, prima da mãe. Trabalhava como administrativa num centro de saúde, tinha casa própria nos arredores de Serpa, por isso nem foi difícil ficar com a miúda.
A Leonor nunca passou fome, estava sempre limpa e habituada ao trabalho em casa. Lá havia sempre qualquer coisa para fazer: tratar do quintal, das galinhas, limpar as eiras. Podia não ter recebido muitos mimos, mas quem é que pensa nisso?
A escola correu-lhe bem e, quando acabou o secundário, foi para um curso de educação no Instituto Politécnico de Évora. Foram uns anos bons mas passaram a correr. Mal terminou os exames, voltou a Serpa, já como adulta. Mas a receção foi tudo menos calorosa.
Mais calma, a tia resfolegou, mas manteve-se firme:
“Basta! Vai-te embora, não quero mais confusões.”
“Tia Maria, posso ao menos…”
“Não, já disse tudo.”
A Leonor nem respondeu. Pegou na mala e saiu para a rua, quase a tropeçar de tanto que tremia. Era este o regresso que tinha imaginado? Rejeitada, humilhada e com um filho a caminho. A barriga ainda mal se notava, mas ela já não queria esconder o segredo.
Precisava era de um sítio para dormir. Lá ia ela, devagar e concentrada nos próprios dramas, sem dar conta do calor que fazia nem do cheiro a fruta madura nos quintais.
O verão alentejano estava no seu auge. Nos quintais das casas, maçãs, peras e pêssegos dourados caiam do ramo de maduros. As parreiras estavam carregadas de cachos e as ameixas escondidas entre o verde. O cheiro a doce, a pão acabado de cozer e fatias de carne grelhada andava no ar. O suor escorria-lhe pelas costas e, já quase sem forças, parou ao ver uma mulher de avental, junto ao forno de lenha.
“Posso beber um copo de água, se faz favor?”
A mulher a Dona Paulina, forte e sorridente, perto dos sessenta virou-se.
“Entra, filha. Sê bem-vinda.”
Ela foi buscar uma malga de esmalte ao balde de água fresca e Leonor bebeu-o com sofreguidão, sentada no banco de pedra sob as figueiras.
“Posso sentar-me aqui mais um bocadito? Está um calor…”
“Claro, meu anjo. De onde vens, com essa mala de viagem?”
“Acabei o curso… queria arranjar trabalho como educadora, mas não tenho onde ficar. Sabe se alguém aluga um quarto aqui perto?”
A Paulina observou-a com atenção. Roupas simples, asseada, mas o olhar cansado e triste.
“Se quiseres, fica cá em casa. Preciso de companhia, isto está muito morto. Não cobro muito, só preciso que cuides bem das coisas. Se aceitares, venho-te mostrar o quartinho.”
A ideia agradava à Paulina, confesso, uma vez que o filho trabalhava em França e quase nunca regressava. E ter mais uns euritos ao fim do mês era sempre bom.
A Leonor sentiu um alívio tão grande que mal acreditava na sua sorte. Seguiu atrás da dona da casa, e o quarto não era grande, mas era limpo e tinha janela para o pátio, uma cama de ferro antiga e um armário com porta espelhada. Perfeito. Rapidamente acordaram o preço uns 120 euros por mês, mais nada. Leonor mudou de roupa e foi logo aos serviços de educação tratar dos papeis necessários.
Começaram assim os seus dias: trabalho, casa, escola. Tudo a correr e ela nem via passar os meses.
A Paulina tornou-se amiga, como se fosse família. Leonor ajudava no quintal e, ao fim do dia, sentavam-se à sombra a beber chá com bolo caseiro, a ver o pôr do sol a incendiar a planície.
A barriga crescia devagar, sem enjoos, sem problemas. Uma sorte, dizia Paulina. Um dia, ao serão, Leonor contou-lhe sem rodeios a sua história.
Na faculdade, apaixonou-se pelo Rodrigo, miúdo de boas famílias, filho de professores universitários em Lisboa. Rapaz bonito, educado, querido por todos e, no entanto, acabou por escolher uma rapariga simples, de Trás-os-Montes, em vez das outras colegas. Talvez pela sua doçura, talvez porque Leonor sabia o que era lutar na vida. Andaram dois anos de mãos dadas, a Leonor já se via a trabalhar e construir família com ele.
Até que um dia acordou maldisposta, cheia de sono, cheiros a dar-lhe volta à barriga, período atrasado. Comprou um teste na farmácia, foi para o quarto, tremia por todos os lados Duas riscas, positivo. Exames finais à porta, tudo de pernas para o ar. Como iria contar ao Rodrigo?
Mas, mesmo naquele pânico, sentiu logo uma ternura imensa por aquela vida nova. “Meu bebé”, sussurrou, mão na barriga.
O Rodrigo, ao saber, ficou branco. Levou-a à casa dos pais e eles, muito sérios, disseram-lhe para interromper a gravidez, pois o filho teria que seguir carreira e que Leonor só ia atrasá-lo na vida. Pareceram pedras. O Rodrigo nada disse. No dia seguinte, entrou no quarto dela, deixou-lhe um envelope com algum dinheiro e saiu sem olhar para trás.
Fazer aborto nem lhe passou pela cabeça. O filho era dela, ponto. E sabia que o dinheiro ia fazer-lhe falta era pouco, mas aceitou.
Ao ouvir tudo, a Paulina apenas pegou-lhe na mão: “Podia ter sido pior, filha. Ainda bem que seguiste o coração. Criança é bênção.”
Leonor até sonhava, à noite, com reencontros e perdões, mas só de pensar no Rodrigo sentia uma amargura que lhe subia à boca. Nunca mais.
O tempo foi passando. A barriga já pesava, ao ponto de deixar o trabalho e ficar por casa. Não sabia se vinha aí rapaz ou rapariga a ecografia nunca mostrava só queria que fosse saudável.
No final de fevereiro, numa manhã ventosa, começaram-lhe as dores. Paulina levou-a ao hospital de Beja. Nasceu-lhe um rapaz valente, rechonchudo e de bochechas rosadas.
“Vasco”, murmurava, aconchegando-se ao pequenino.
No hospital, Leonor fez logo amizade com outras mães. Contaram-lhe que, há dois dias, uma mulher de um militar da GNR teve uma menina, mas não estavam casados, só viviam juntos. O homem era bom rapaz, levava flores todos os dias, dava chocolates às enfermeiras, até um licorzinho trazia para animar. Mas a mulher, pouco depois do parto, desatou a chorar, deixou uma nota e foi-se embora disse que não estava pronta para ser mãe.
“E o bebé?”
“Coitadinha, ficou entregue às enfermeiras. Comida só de biberon; leite materno fazia-lhe tanta falta… mas aqui todos estamos preocupados com os nossos, ninguém pode ajudar.”
Quando trouxeram a bebé, pequenina e adormecida, uma enfermeira perguntou:
“Alguma mãe poderia dar-lhe de mamar? Ela está mesmo fraquinha…”
“Eu dou”, disse a Leonor, baixinho, largando o Vasco no berço e pegando na menina ao colo.
“Tão fofa… tão loirinha. Vou chamar-lhe Matilde.”
Comparada ao Vasco enorme, a Matilde cabia-lhe quase nas mãos. Leonor deu-lhe de mamar e ela caiu logo num sono tranquilo.
“Bem digo eu, está tão frágil”, suspirou a enfermeira.
E assim Leonor passou a alimentar os dois bebés.
Dois dias depois, a enfermeira avisou: o pai da Matilde vinha ao hospital agradecer pessoalmente à rapariga que tinha salvo a filha. Assim Leonor conheceu o sargento Rafael Gomes nem muito alto, cabelo já a ficar grisalho, olhos de um azul muito sincero.
O resto conta-se depressa: aquela amizade rapidamente cresceu, e toda a maternidade falava do assunto.
No dia em que saíram do hospital, havia uma alegria estranha nas escadas: médicos, enfermeiras e auxiliares juntos. À porta, um Renault antigo com laços de cores, a Paulina dentro a acenar. O Rafael arrumou a mala de Leonor, colocou-lhe o Vasco no colo e, de seguida, a Matilde.
Toda a gente aplaudia quando arrancaram. Dentro do carro, o cheiro da primavera misturava-se com o novo perfume de bebé. O Rafael, que na manhã da saída se ajoelhou junto à cama da Leonor e pediu-lhe que ficasse junto dele para sempre, agora conduzia calado, mas não tirava os olhos do retrovisor, onde via a Matilde agarrada ao dedo mindinho da Leonor.
Chegados a casa, esperava-os o calor de uma cozinha cheia de aromas de doce de abóbora, as chávenas do chá sempre prontas, um velho armário por encher de brinquedos… e uma vida em família, que ninguém sonhou, mas que já tinha tudo para ser verdadeira.
Nunca se sabe o que o destino decide por nós mas as voltas da vida também sabem ser boas.






