No verão, fui a uma clínica de jejum terapêutico, para limpar o organismo. Num dos dias, aproveitei para apanhar sol e, ali perto, numa espreguiçadeira, estava deitada uma rapariga lindíssima, com um ar de modelo. Acabámos por nos conhecer e conversar. Falámos sobre os motivos de cada uma para estar ali a jejuar.
Preciso de perder 400 gramas disse ela. Ri-me, achando que era brincadeira. Mas não.
Há um ano que ando assim, gorda. O meu namorado disse que me largava se não emagreceste… Olha, vês? apertou a pele da barriga com dois dedos. Até tenho vergonha de me sentar…
Fiquei imensa tempo a pensar naquilo, passei a chamá-la de Luísa 400 gramas. Pelos vistos, para o namorado dela, mulheres como eu podiam ser lançadas de um penhasco, porque só podem viver na Esparta ideal dele as magras para as restantes não há lugar.
Há dias fui parar a um jantar grande num restaurante, com muita gente que não conhecia, numa ocasião especial. Uma senhora muito cuidada sentava-se numa poltrona, perna sobre perna, as meias transparentes a brilhar na luz e a mostrar umas pernas impecáveis, o sapato quase a saltar do pé, balançando na ponta dos dedos, enquanto ela bebia água de um copo de vinho, irradiando charme e chamando a atenção dos homens.
Quando chegou o marido dela, aproximou-se da mesa, cumprimentou todos os homens de mão e, a ela, atirou com desdém entre dentes: Componha-se! Vai pôr as coxas à mostra!…
A senhora endireitou-se assustada, corou, pediu ao empregado uma manta, mesmo estando ao lado da lareira, enrolou-se nela e passou o resto da noite como um passarinho encolhido.
Resolvi ler biografias de grandes escritores e poetas portugueses, na esperança de encontrar segredos de sucesso nos seus estilos de vida. Rapidamente desisti: é frustrante tentar conciliar os defeitos e manias das pessoas reais com as obras geniais que deixaram.
Desisti na biografia de Eça de Queirós. Adoro Os Maias, mas há coisas na vida dele difíceis de engolir. Para além da obsessão com o sofrimento, quando, por exemplo, após o nascimento do quinto filho, Maria, a mulher Ana ficou doente, fraca, os médicos proibiram mais gravidezes pois o corpo dela não aguentava, e ele respondeu: Então de que serve ela para mim?. No fim, Ana teve 13 filhos…
Olho para o Instagram. Está povoado por bonecas perfeitas, versões portuguesas das barbie-girls. O dia delas resume-se a fitness, solário, envolvimentos e spa. Criam corpos perfeitos com a ajuda da indústria da beleza. Vivem de serem belas, e é uma profissão que sai caríssima e exige muito.
Respeito qualquer trabalho, mas parece-me que está tudo de pernas para o ar. As raparigas querem ser bonitas para serem amadas, para que os rapazes as escolham. Disseram-lhes: ser bonita é isso magreza, sobrancelhas finas, lábios cheios, rabo firme e elas alinham pelo padrão. Os rapazes, coitados, nem sabem como escolher entre tantas cópias iguais…
Uma vez, eu e o meu marido fomos ao mercado das plantas ele a comprar coisas para o quintal e eu a passear sem pressa. Fui ter a uma banca de decorações de jardim: lanternas, floreiras, moinhos de vento, regadores, coelhinhos, raposas. Dois homens estavam junto dos grandes duendes com chapéu vermelho, de cogumelo, e tentavam escolher o mais bonito. Um deles pegava neles, rodava, analisava; o outro ri-se e diz:
Vá lá, Zé, despacha-te… Ontem escolhias as meninas nos bares com a mesma cara…
Achei hilariante.
Meninas, minhas queridas, Luísa 400 gramas, Vera Componha as Coxas, Ana 13 filhos… Como é possível não nos amarmos, não nos sabermos valorizar? Porque aceitamos ser tratadas como mercadoria com defeito, convencidas de que isso é amor? Quem disse que corpo e rosto perfeitos são condição para relações felizes?
Tenho provas mais que suficientes de que a aparência não tem nada a ver com amor. Uma amiga conheceu o marido num hospital em Lisboa, no serviço de nefrologia conquistou-o de bata, pálida, desgrenhada, com o saco de urina à mostra por baixo da camisa.
E a Frida Kahlo? Já viram bem? E aquelas sobrancelhas? Pois. Lutaram por ela os melhores homens do tempo dela.
Há anos me arrancaram um siso e foi um desastre a boca rasgada, infetou, febre altíssima, gengiva em carne viva, a cara toda inchada. Já em casa, fraca, cuspia sangue, desfigurada, o meu marido alimentava-me às colheradas de kefir, porque era a única coisa que passava. Fiquei com bigodes de leite, olhei-me ao espelho e chorei horrorizada.
E ele diz-me: És linda, linda, ouves? Agora também! Queres casar comigo? Queres?. Quando recuperei, veio o jantar, o anel, de joelhos, aplausos, flores, balões… mas é aquele primeiro pedido que recordo com o coração apertado. Porque aí acreditei. A beleza não está na aparência, o amor não se faz da perfeição.
São as nossas imperfeições que nos tornam únicos. É por elas que somos amados! Na verdade, a perfeição nem existe. Existe para cada um de nós, de forma diferente.
Agora decidi pôr aparelho nos dentes estão mesmo tortos. O meu marido apoiou-me:
Adoro o teu sorriso, não vejo motivo para torturares a ti mesma com isso. Se é por ti, força. Se dependesse de mim, deixavas como está.
Depois do nascimento do nosso primeiro filho, pesei 118 quilos. O meu marido enchia-me de elogios, tirava-me a vontade de emagrecer. Só perdi peso quando eu mesma quis.
Vimos há pouco fotografias antigas: eu com o bebé, enorme, esparramada no sofá. Perguntei-lhe:
Como não me disseste para emagrecer? Olha bem para mim…
És uma fofinha deliciosa, emagreces se e quando quiseres. Gosto de ti assim.
E quando há uns anos, no verão, fui atacada pela psoríase, com manchas pelo corpo todo, fomos de férias e recusei despir-me na praia. O meu marido perguntou: Mas o que é que se passa? e percebi que… ele genuinamente não via nada de errado. Para ele, sou sempre bonita.
Não estou a fazer publicidade ao meu marido, mas sim à relação. Se o homem que está ao vosso lado exige que se moldem ao padrão dele, isso não é amor é dominação. Se ele só vê os vossos defeitos não quer uma maçã sumarenta, quer poder sobre vocês.
Claro, podem segui-lo por medo de perder, mas pensem: perder o quê? Um tirano, para quem vocês são só mais um duende de jardim de chapéu de cogumelo?
Qualquer homem quer sentir-se macho alfa, mas a verdadeira autoridade baseia-se não no medo, mas no respeito e admiração. A vossa entrega tem de ser uma escolha, não uma obrigação. Escolham alguém que levem convosco até ao fim do mundo porque vos inspira confiança, força, carinho. Alguém que mereça segurar-vos a mão. Porque conduzir uma mulher é privilégio, não direito adquirido.





