O Último Desafio

O Último Chamamento

Desde cedo, Mafalda sentia um certo aperto, como se alguma coisa estranha estivesse para acontecer.

Algo de mau, vá…

Ligou logo para a mãe, mas a Dona Leonor garantiu-lhe que estava tudo bem:

Olha, a tensão está impecável, nem a cabeça me dói. Mas porque perguntas, filha?

Ah, nada, mãe, só para saber… respondeu Mafalda. Pronto, vou-me despachar para o trabalho. Liga-me se precisares, sim?

Sim, minha querida.

Teoricamente, depois daquela conversa, Mafalda devia ter ficado mais descansada; mas não, a inquietação continuava a moer-lhe o juízo.

Nem sabia bem porquê, já que não havia razão direta para tal. Embora, com o trabalho que ela tinha, podia sempre acontecer de tudo e mais alguma coisa. Ainda por cima era segunda-feira, e segunda-feira já se sabe… vem sempre com azia.

Bebeu o resto do café, olhou para o relógio eram seis e meia vestiu-se à pressa, agarrou num lanche rápido e lá foi ela para o seu turno.

*****

Na base do INEM, encontrou-se com o Nuno, o condutor que lhe calhou para aquele dia. Assim que a viu, Nuno acenou com boa disposição, ao que Mafalda devolveu só um aceno cansado.

Ó Mafalda, hoje estás cá com uma cara… riu Nuno, acendendo um cigarro. Então, já aconteceu alguma coisa?

Não, Nuno. Por enquanto ainda não… Mas tenho cá um pressentimento murmurou.

Eh pá, mas de manhã já a deitares essas ideias cá para fora? Foste dormir, ao menos?

Mafalda encolheu os ombros.

Olhou o céu. Cinzento escuro, até ameaçava trovoada. Mais um agoiro…

Será só do tempo? Se calhar isto nem é pressentimento, mas mau feitio por causa da meteorologia… consolou-se, chegando mesmo a sorrir com essa conclusão.

Passados dois segundos, a angústia voltou em força.

Boa sorte com a vossa ronda! desejou uma jovem a passar.

Mal ouviu, Nuno quase se engasgou com o fumo, sacudiu o punho e a rapariga piscou os olhos, apavorada.

Ai, que disparate o meu, desculpem… disse ela, aflita.

A rapariga era a nova estagiária de enfermagem, só tinha entrado na semana passada e ainda não tinha decorado que nunca, mas nunca, se deseja boa sorte antes de uma ronda é má sorte, toda a gente sabe.

Pronto, agora é certinho que algo vai correr mal… sussurrou Mafalda, sentindo um calafrio.

Bate na madeira, pá murmurou Nuno, atirando a beata para o balde de lixo metálico.

******

Mafalda mordia o lábio cada vez que a central despachava um novo caso para o tablet, com voz animada a anunciar:

Homem, 35 anos, queixa-se de fortes dores de cabeça. Pela fala, parece AVC.

Era só o que me faltava… pensava Mafalda. Médicos do INEM deviam estar prontos para tudo, claro, mas…

A verdade é que levava cada ocorrência a peito e sofria, principalmente quando envolvia finais trágicos. E AVC, já se sabe, não costuma acabar bem.

Felizmente, este caso era só ressaca. O senhor tinha andado a festejar até de manhã o aniversário de um amigo, e a dor era daquelas de prometer nunca mais beber. Mafalda deu-lhe um comprimido e sugeriu-lhe descanso.

E se eu bebesse uma cervejinha agora, não ajudava? perguntou ele, cheio de esperança.

Nem pensar! Vai era piorar. Se quer viver muitos anos, melhor cortar no alcoolzinho, homem.

Quando saiu do prédio, foi quase com alívio.

Se calhar o Nuno é que tem razão… Este meu mau pressentimento é só cansaço acumulado de quem trabalha demais.

Ia já começando a acalmar-se, mas eis que a central chamou de novo: saída para… Cemitério dos Prazeres.

O quê?! questionou Nuno, desconfiado.

Ao cemitério confirmou Mafalda, a segurar o tablet com força.

Ia haver funeral de um artista famoso de Lisboa (ao que parece, Mafalda nunca ouvira falar dele).

Gente por todo o lado velhos e novos, homens e mulheres, uns com cravos, outros de olhos molhados. Alguns contavam histórias do falecido. Mafalda só pensava quando é que ia acontecer, finalmente, a desgraça. Nuno fumava ao ritmo da ansiedade.

No entanto, ninguém se lembrou de se sentir mal. Nem precisaram do INEM, ainda bem.

Depois disto, só chamadas normais, daquelas que se repetem todos os dias.

Quase doze horas passaram num ápice, a ronda a chegar ao fim.

Mais uns dez minutos e voltava à base. Já sonhava com o banho e o pijama, e amanhã, talvez, o humor melhorasse.

No entremeio, ligou à mãe pela décima vez.

Está tudo bem, Mafalda afirmou Dona Leonor. Agora vou jantar e ficar a ver as novelas.

E então, tudo ok com a mãe? perguntou Nuno quando Mafalda guardou o telefone.

Tudo calmo.

Estás a ver? Eu disse que não acontecia nada de mal. Anda sempre com a ladainha do mau pressentimento…

Mas olha que ainda está cá, Nuno. Isto não me larga. Não percebo o que me deixa assim.

Devias era arranjar um bicho de estimação! Olha, o meu gato Chouriço. Basta eu entrar em casa, salta-me para o colo, começa a ronronar… E o mundo já não pesa. Dorme-se que é uma maravilha.

Devias experimentar!

Com o meu horário? Quem é que toma conta dele quando estou de turno? Tu ainda tens mulher e filhos. Eu moro sozinha…

Ia dizer mais qualquer coisa, mas o tablet apitou de novo e ouviu-se a voz da central:

Mafalda, desculpa lá, mas a tua ronda ainda não terminou. Há mais uma chamada. Rua Eça de Queirós, 23, apartamento… espera aí…

Não é o 2.º esquerdo?

Pois é, Mafalda, tens boa memória admirou-se a central. É mesmo o 2.º esquerdo. Conheces?

Claro. É lá que mora o senhor Manuel Fernandes. Já lá vou tantas vezes que até me sinto convidada… O que é que se passa? Está de novo com dores no peito?

Houve um suspiro fundo do outro lado que lhe gelou o sangue.

Mafalda… Ele faleceu… Já de manhã, ao que parece. A polícia já lá está, e vocês também têm de ir. Sabes como é…

Sei… respondeu a custo.

Com a mão trémula pousou o tablet no colo e olhou para Nuno, que só acenou com a cabeça.

O senhor Manuel parecia boa pessoa, pelo que me contaste. Não te sintas culpada, Mafalda. Ele não quis ir à urgência, nem à consulta… Tu não tinhas como obrigar. Ouviste?

Hum…

Mafalda recostou-se, fechou os olhos e ficou assim, uns minutos, em silêncio.

******

Conhecera o senhor Manuel há mês e meio. Ele próprio tinha chamado o INEM por causa das dores no peito.

O senhor disse que a porta ficava destrancada para podermos entrar à vontade explicou a central naquele dia.

Mal Mafalda pôs um pé dentro do apartamento, eis que aparece um cachorro minúsculo, que ladra e rosna com toda a coragem. Só sossegou quando o dono o chamou.

Foi um achado, encontrei-o esfarrapado na rua e trouxe-o sorriu Manuel, numa tentativa de se levantar da cama.

Fique quieto aí, homem! E olhe que belo cãozinho tem aí. Eu bem gostava de ter um, se pudesse.

Então porquê não pode?

É complicado, não importa agora. Vamos ao que interessa: o que sente, há quanto tempo, costuma ser seguido por médico?

O senhor respondeu calmamente. Descobriu que os problemas no coração começaram no ano anterior, depois da morte da mulher. Já tinha tentado ser seguido, mas nunca dava resultado…

Só pioro é nas filas da saúde, percebe? Mas as dores são fugazes…

E pode descrever melhor?

Para quê? Dói, depois acalma. Bebo uma gota de aguardente ou tomo um comprimido, passa.

Nem um nem outro conta como tratamento riu Mafalda. Vamos lá fazer um ECG antes.

Na máquina despistou logo uns problemas, quis hospitalizá-lo, mas Manuel nem quis ouvir falar disso.

Então e o Zeca, quem fica com ele? Dê-me um comprimido, isso sim, ou na pior das hipóteses, uma injeção.

Isso só resolve para já. Acho mesmo que devia ir ao hospital.

Os seus colegas anteriores também faziam assim e cá estou eu. Não vou. Se precisa, assino já aqui o papel a recusar.

Não houve nada a fazer. Nem daquela vez, nem das que se seguiram. Agora só lá ia Mafalda. E Manuel chamava para o INEM quase semanalmente.

Antes nunca acontecia. Só que agora, quando dói, é a valer.

Porque a saúde piora e não faz tratamento. Então, bora à urgência?

Desculpa lá, Mafalda, mas não posso. O Zeca não tem mais ninguém. Ele é tão pequeno!

Mas se lhe acontece algo, quem o fica com ele?

Ora, se acontecer, aparece sempre boa gente. Já acertei com a minha vizinha Maria do Carmo, ela prometeu cuidar dele. E até lhe mostrei onde guardo o dinheiro.

Dinheiro porquê?

Para ela comprar ração, ora. Eu percebo que há quem não pegue em cães de rua porque não tem dinheiro para alimentar.

Era boa pessoa, o senhor Manuel.

Agora, Mafalda voltava ali, mas desta vez já não podia conversar e ouvir-lhe as histórias. Que pena…

O último chamamento foi mesmo o último.

E, sinceramente, Mafalda não concordava com Nuno sobre não ser sua culpa. Sentia que devia ter insistido mais para o convencer ao hospital. Devia…

Mafalda, chegámos.

O quê? nem sentiu a mão de Nuno no ombro.

Já cá estamos. Força.

Mafalda subiu as escadas a custo até ao 3.º andar. No apartamento, já lá estavam a polícia de bairro e a dona Maria do Carmo, vizinha que entretanto Mafalda já conhecia bem.

Na última crise, Manuel sentiu-se mal na rua, sempre com o cão ao colo, e pediu à vizinha para chamar o INEM. Assim se tinham conhecido.

Boa tarde, Mafalda.

Boa tarde, dona Maria do Carmo. Foi a senhora que chamou as autoridades?

Fui, claro. Mais ninguém estava cá. O cachorrinho não parava de ladrar desde manhã. Estranhei, porque o senhor Manuel levava-o sempre a passear cedo… Pensei que estivesse só mal disposto, vá-se lá saber. Depois saí, fui à horta, só regressei à tarde e o cão sempre à mesma. Liguei logo à polícia. O polícia e o serralheiro abriram a porta… apontou para o quarto.

Entendi, obrigada.

Mafalda entrou no quarto, olhou demoradamente para Manuel, a conter as lágrimas, e passou a escrever o relatório. Até que, de repente…

…lembrou-se de algo. Começou a percorrer a casa: cozinha, casa de banho, até à varanda.

Está à procura de alguma coisa? perguntou o agente.

O cão. Não o vejo em lado nenhum. Por acaso, viu-o?

Um pretinho pequenito? Vi sim. Estava aqui a meter-se com toda a gente. Acho que a vizinha ficou com ele.

Graças a Deus! suspirou Mafalda.

Teve medo que tivessem posto o cão na rua. Manuel adorava-o e não merecia tal desfecho…

Despedindo-se do agente, Mafalda saiu e foi bater à porta de Maria do Carmo, que entretanto desaparecera com a desculpa de ter o jantar ao lume.

Mafalda? surpreendeu-se a vizinha. Precisa de alguma coisa?

Só queria agradecer por ter ficado com o Zeca. Ele está bem?

Quem está bem?

O Zeca, o cão! Está consigo, não está?

Ah, o cãozinho… Não, não fiquei com ele. Para que havia eu de querer o cão?

Mas o polícia disse que ficou…

Sim, levei-o. Mas só para o pôr na rua um bocadinho. Ele ladrava tanto que até me deu dor de cabeça. Ainda por cima, andava a chatear o polícia. Eu achei que ele ficava melhor na rua. O dono já cá não está…

Mas o senhor Manuel disse que tinham conversado e até lhe mostrou o dinheiro, para comprar comida ao cão…

A vizinha mudou logo de tom, ficou aflita, depois zangada:

Não sei de que é que falas. Nunca combinámos nada sobre dinheiro.

Mas ele dizia, juro.

Desculpa lá, Mafalda, mas agora não posso falar. O cão… olha, se ele quiser viver, há de se safar. Há por aí sempre quem o queira.

******

Mafalda desceu as escadas a correr e saiu para a rua, onde entretanto começava um belo aguaceiro.

Primeiro chuvisco, mas rapidamente engrossava.

Ó Mafalda, estás à espera de quê, apanhando chuva dessas? chamou Nuno. Entra no carro, caramba!

Deixou o estojo médico no banco, mas não entrou.

Fechou a porta e virou-se para Nuno.

Olha, Nuno, tu vai indo para a base, eu ainda tenho de fazer uma coisa.

Fazer o quê?

Encontrar o cão.

Que cão agora, Mafalda? Queres explicar-me isso direito?

Mafalda contou-lhe, resumidamente. Nuno, sereno, acendeu outro cigarro e ouviu.

Olha que ele não pode estar longe. Vai indo tu e eu trato…

Nuno atirou a beata para o chão e, com ar determinado, recusou:

Eu não te deixo sozinha. Está quase a escurecer. Vamos procurar esse bicho juntos.

E a ambulância?

Ninguém precisa de saber, Mafalda. Não vai cair o Carmo nem a Trindade.

Mafalda e Nuno andaram dez minutos a passear à chuva pelo bairro à procura do Zeca, que parecia ter desaparecido do mapa. Logo depois, também o polícia se juntou à busca, curioso com a maratona sob o aguaceiro.

Ofereceu-se para ajudar, e Mafalda não teve coragem de recusar. No fundo, ficou até tocada.

Encontrei! gritou Nuno, e Mafalda correu logo.

O polícia também acorreu ao local.

Olhem só, pá! Encontrei-o e ainda me rosnou! Nuno estava ao pé de um banco de jardim do outro lado da rua de Manuel, a brincar com o cãozinho.

Mafalda respirou aliviada. Debaixo do banco, lá estava o Zeca e não largava dentadas de ar para o Nuno se afastar.

Zeca, meu querido! exclamou Mafalda, talvez a chorar, mas ninguém percebeu bem; entre as lágrimas e a chuva já tudo se misturava. Lembras-te de mim, Zeca?

O cão reconheceu logo a amiga dos almoços partilhados. Veio, olhos tristes, a ganir baixinho.

Eu sei, pequenino, eu sei… O nosso Manuel já cá não está.

Nuno virou a cara para esconder que se comovia nunca tinha chorado à frente de ninguém. O polícia também ficou digamos constipado nos olhos.

Mafalda falou suavemente:

Eu sou incapaz de substituir o teu dono, mas… mas posso tentar ser tua amiga, pode ser? Vens comigo?

E Zeca foi.

Porque percebeu, mesmo sem saber falar, que Mafalda era boa pessoa e que o ia proteger.

Além disso, odiava apanhar chuva…

*****

Nos primeiros tempos, Mafalda pensou que não aguentava. Mas a mãe ajudou: em dias de turno, Dona Leonor ia a casa, tratava de Zeca, passeava-o.

Ao fim de semana, passeios no parque as três: Mafalda, a mãe, o cão.

Nunca se arrependeu de lhe ter dado um lar encheu-lhe a casa e a vida.

Começou até a compreender melhor o senhor Manuel, embora, como médica, nunca conseguisse aprovar aquele medo de hospitais.

E, passado um tempo, a família cresceu! Juntou-se o polícia pois claro, aquele mesmo que tinha estado na busca final.

Mafalda agradou-lhe logo (o Zeca aprovou-o também). Na primeira visita, ainda com flores, foi o cão que fez a vistoria: cheirou-o de cima a baixo, ladrou de aprovação, e deixou-o entrar.

Se o cão diz que pode, é porque a sorte entrou, e ao fim de tanto mau pressentimento, a Mafalda finalmente encontrou a felicidade.

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