Sabes, Tatiana, para andar assim toda dourada eu levanto às cinco da manhã, dou de beber às vacas, alimento os bezerros, reparto o alimento, e só depois me preparo para o trabalho da colheita. Não há nada a invejar aqui. Se soubesses como é a vida no campo, não dirias o mesmo.
Oh, Lurdes! Que beleza! Nem parece que vives na aldeia. Olha só, toda enfeitada de ouro: correntes, pulseirinhas, até um bracelete reluzente. Tatiana cantava, sem parar, ao ver a antiga amiga. És mesmo uma campeã! Dizem que a vida na aldeia é dura, mas ao te ver, até o citadino mais ambicioso voaria para cá. Viver no campo, vestirse com elegância, brilhar ao sol!
Sabes, Tatiana, para parecer assim e caminhar entre ouro eu acordo todos os dias às cinco, dou de beber às vacas, alimento os bezerros, reparte o feno, e só então me preparo para o trabalho principal. Não há razão para ciúmes. Se conhecesses a vida rural, nunca pensarias diferente.
Lurdes, eu não sei nada de aldeia! Eu, ao contrário de ti, desde pequena conheci vacas e porcos; mas tu, quando te tornaste a senhora da roça, continua um mistério. Sempre dissemos que depois da escola nunca voltarías ao lar.
Agora não há volta a falar do que passou. Na juventude éramos idealistas, achávamos que tudo seguiria nossos planos; mas a vida tem um jeito próprio.
Lurdes era de temperamento forte, cabeatudo; se dizia algo, fazia. Desde a infância afirmava que os campos, as batatas, as vacas e os bezerros eram inúteis para alguém tão bonita e inteligente como ela.
Mãe, nunca volto à nossa aldeia. Quando terminar a escola vou para Lisboa, encontrar um marido rico, casarme e viver na cidade. Não suporto ficar aqui!
Está bem, Lurdes, mas quem sabe o que o futuro nos reserva? A aldeia não é pior que a cidade; as pessoas também vivem aqui. Se forres as vacas, filha, tudo ficará mais fácil e eu preparo o jantar.
Nem pensar! Se eu for beber as vacas, vou ser motivo de riso na aldeia. As vacas são da sua família, mãe, e eu não as quero ver. Nem te aproximes desse assunto.
Outras crianças cuidam das vacas e ajudam os pais. E tu, filha, o que te faz melhor que os outros?
Mãe, por que devo compararme a eles? Tenho a minha própria cabeça.
Raquel, a mãe de Lurdes, suspirou e, em silêncio, seguiu para o pasto onde as vacas pastavam, enquanto a filha enchia o rosto de maquiagem para a festa da aldeia.
As amigas de Lurdes olhavam com inveja a rainha local, que nunca se abaixava para lavar a louça nem entrar ao celeiro. Lurdes nem sabia por onde começar a cuidar dos animais. Era uma menina tardia, inesperada, fora de hora. A irmã mais velha já estava casada, com netos, e Lurdes descobriu que a mãe também estava grávida. As duas quase nasceram ao mesmo tempo, com apenas dois meses de diferença.
Os anos passaram; as crianças cresceram, os pais envelheceram. Lurdes terminou a escola, com notas medianas, mas ainda cheia de ambição. Decidiu estudar para ser professora de educação infantil, porque o trabalho era limpo, honrado e digno.
Raquel suspirou novamente; venderam dois novilhos ao marido, pagaram o primeiro ano de estudos da filha.
Ninguém percebeu de imediato que Lurdes estava numa encruzilhada. No último ano da faculdade, ela ainda voltava frequentemente à casa da família. Entre aulas e o espelho, arrumavase, olhava pela janela como se esperasse alguém, enquanto a noite caía sobre o pequeno vilarejo.
Um fimdesemana, as sogras apareceram, trazendo mercadorias.
Os pais não entenderam as piadas das sogras. Lurdes, cansada de se esconder, lançouse ao abraço do namorado. Ele, quatro anos mais velho, também nascido na aldeia, ficou na cidade após o curso e, então, reencontraramse. O amor nasceu entre o campo e a cidade.
Casaramse, e pouco depois Lurdes terminou a faculdade, já grávida. Diziam que os descontos nas avaliações foram só por causa da situação, pois nos estudos nunca brilhou.
Alugaram um apartamento em Lisboa e começaram a viver na capital. Os pais enviavam sacos de provisões para que o casal se sustentasse. Lurdes, agora em licença maternidade, cuidava da filha recémnascida, tão linda quanto a mãe. O salário do marido, Vítor, não bastava para dois; para três, era ainda pior.
Vítor, irritado, exclamou:
Já chega! Não aguento mais viver à sombra do salário do tio, pagar aluguel. Vamos voltar à aldeia até a Lúcia crescer, ponto final.
Fizeram as malas e partiram. Os pais de Vítor compraram outra casa; a antiga ficou vazia. Na aldeia, o casal instalouse. Vítor arranjou trabalho numa quinta, como mecânico qualificado. O salário era menor que o da cidade, mas tudo era pago em casa, não havia aluguel. Lurdes inicialmente recusou, perguntando por que a tinham trazido de volta, mas depois acalmouse.
Mãe e sogra estavam ao lado, ajudando com o bebê, trazendo comida, como antes. Parecia um conto de fadas.
Logo, o conto acabou. A sogra e a mãe começaram a reclamar: Tu passas o dia inteiro ao espelho, enquanto nós aqui suamos nos canteiros! Deixa a Lúcia sentarse conosco, e tu, Lurdes, trabalhe na horta!. Lurdes protestou, mas Vítor lançou-lhe um olhar tão profundo que ela percebeu que não tinha escolha senão limpar as cenouras. O verão passou sem uma única erva daninha, tudo era belo. No outono, resolveu plantar outro canteiro, cansada de pedir ajuda aos pais para cada cenoura.
Vítor decidiu criar novilhos, achando que seria lucrativo: a fazenda produz feno, ração, tudo cresce. Onde há novilhos, há vacas. Os pais de Lurdes mudaramse para o centro da região e presentearamlhe uma vaca jovem. No início, acordar tão cedo era estranho, mas depois habituouse.
Quatro anos depois, Lurdes conseguiu um posto num jardiminfantil, substituindo a funcionária aposentada. O negócio prosperou, e a vida ficou estável.
Os sonhos de cidade foram-se para segundo plano. Como sonhar com o urbano quando se acorda ao alvorecer e só termina ao cair da noite, entre tarefas e preocupações?
A sogra já estava no centro da vila; a filha estudava na escola local, e Lurdes permanecia na aldeia. Subiu ao cargo de diretora do jardiminfantil. Vítor sugeriu:
E se nos mudássemos mais perto da civilização?
O que, Vítor? Temos a nossa casa, a horta, o negócio. O dinheiro dá. E ainda vamos à cidade quando precisamos. Não quero ir embora; aqui tenho tudo que preciso. Lúcia ainda está a terminar a escola, e depois veremos.
Vinte anos se passaram como um só dia. A turma reuniase pela primeira vez desde a formatura. Muitos antigos colegas apareceram; outros ainda viviam na aldeia. Lurdes não tinha visto as amigas de infância, Catarina e Tânia, há quinze anos.
A reunião foi cheia de surpresas. A vida adulta deu voltas inesperadas. Metade dos antigos colegas eram citadinos, algo que ninguém previa.
Catarina, por exemplo, nasceu e cresceu na aldeia, ajudou os pais na quinta, estudou pouco e nunca planejou sair. Foi para um curso de cozinha, casouse, mudouse para a cidade, agora tem um apartamento e um carro.
Tânia, por sua vez, casouse ainda no colégio com Miguel, agora empresário. Vive numa casa urbana, tem carro, mas nunca sonhou em deixar a aldeia.
Os antigos colegas conversaram, trocaram números, admiraramse com os caminhos tomados e despediramse. Lurdes e Vítor voltaram para casa, pensativos, cada um perdido nos próprios pensamentos.
Perdoa-me, Lurdes, por ter te levado para a cidade, sabendo que não aguantavas o campo. Hoje viverias numa rua de Lisboa, dirigindo um carro.
Ah, Vítor! Ainda ando de carro, mas vivemos tão bem quanto os outros. A vida na cidade tem os seus percalços. Gosto da aldeia; cansada da agitação urbana. Quando eu era criança, nunca ajudava em casa, porque os pais me mimavam demais. Achava vergonhoso cuidar da terra. Se não me tivesses trazido de volta, ainda estaríamos presos num aluguer ou a pagar uma hipoteca. Lembraste de como eu temia limpar o prato? Na aldeia, ao teu lado, aprendi que o trabalho é essencial. Não estamos longe da cidade; podemos mudar quando quisermos. Temos trabalho, um lar o que mais precisamos?
Sim, Lurdes. Quando foi que aprendeste a amar a aldeia?
Sempre a amei, só não percebia. Nunca digas nunca. Lembraste de como gritava que nunca viveria aqui? Olha onde estou.
E assim se faz concluiu Vítor, segurando a mão de Lurdes.
A câmera afastase, capturando o campo dourado ao pôrdosol, enquanto o vento leva as últimas notas de uma história de orgulho, sacrifício e retorno às raízes.







