UMA ESTRANHA NA PRÓPRIA CASA

Olha, deixa-me contar-te uma história que bateu forte cá dentro e que bem podia acontecer aqui ao lado.

A Dalila passou a vida a construir aquela casa junto com o marido, tijolo a tijolo, como só nós sabemos fazer. Quando o filho, o Pedro, se casou com a Rita, ela ficou mesmo feliz achava que assim a casa ia ser ainda mais cheia de alegria e de vida. Mas, passados uns meses, aquilo mudou. O ambiente ficou pesado, quase se podia cortar com uma faca.

A Rita começou com umas guerrinhas silenciosas. Primeiro, mudou todos os móveis da sala sem perguntar nada à Dalila. Depois, foi ao baú das coisas antigas e deitou fora as cortinas de renda que a Dalila tanto adorava, mesmo sendo meio gastos. A Dalila não dizia nada, só queria ver o filho contente, mas a Rita não parou por aí. Queria mandar sozinha na casa.

Oh, mãe, o televisor do seu quarto está altíssimo! Tenho a cabeça a estalar, faça favor de baixar reclamava ela, logo de manhã.
Mãe, não ande pela cozinha enquanto estou a cozinhar, está-me a atrapalhar dizia ela, à hora do jantar.

Mas ao Pedro, a Rita contava outra história: que a Dalila estava velha, que embirrava com tudo o que ela fazia, que estava sempre a fazer dramas. O Pedro ficava num nó, dividido entre as duas, mas com o tempo começou a acreditar mais na mulher.

Foi numa noite de janeiro, daquelas mesmo frias, que tudo mudou. A Dalila estava doente, com febre. Saiu do quarto para pedir um chazinho, mas apanhou sem querer uma conversa.

Ó Pedro, dizia a Rita baixinho eu assim não consigo mais. A tua mãe tem o maior quarto da casa! Porque não a pomos na marquise? Lá tem sossego, e nós também ganhamos espaço. Ou, se calhar, melhor mesmo: que vá para a aldeia com a irmã dela.

O Pedro hesitou: Mas, Rita… Esta casa é da minha mãe!

Era dela, agora é nossa! cortou-lhe a Rita, sem rodeios. Se fica ela, vou-me eu para casa dos meus pais. Escolhe.

A Dalila não esperou pela resposta do filho. Entrou na sala devagar, doente mas de cabeça bem erguida.

Não precisas de escolher, Pedro disse baixinho, mas firme. Rita, tens razão, a família é quem deve ter a casa. Mas a casa é minha, está em meu nome, e não me vou enfiar num anexo. Pedro, gosto muito de ti, mas se achas que já não faço parte disto, a porta está aberta para vocês. Façam as malas.

A Rita achou que a Dalila era fraca, enganou-se. O Pedro, ao ver o olhar de tristeza da mãe e o tom frio da mulher, parece que acordou. Nessa noite, ficou em casa com a mãe. Quem foi embora, aos gritos, foi a Rita, prometendo vingança.

Passou um ano. Agora o Pedro vive só com a mãe e já conheceu outra mulher, alguém que sabe cuidar e dá valor à família. E a Dalila percebeu uma coisa muito importante: ser boa pessoa não é ser ingénua. Se abres as portas da tua casa a alguém, não deixes que te empurrem para fora. Sabes como é.

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