No dia em que me reformei, vivia sozinho num apartamento grande com duas assoalhadas, ali no centro de Lisboa. Reparei que muitos outros pensionistas do nosso prédio também ocupavam casas bem maiores do que precisavam. Quando os filhos crescem e a família se vai dispersando, um apartamento grande é uma necessidade natural, mas quando todos seguem caminhos diferentes, aqueles metros quadrados vazios só trazem pensamentos de solidão e vazio. Não era solução, nem em termos de conforto, nem do ponto de vista económico era altura de renovar a casa, mas nem forças, nem dinheiro tinha para as obras e melhorias que um reformado como eu, sinceramente, já não consegue enfrentar.
Para pagar a eletricidade, a água e o condomínio, gastava quase metade da minha pensão, e nem sequer utilizava metade do espaço. A limpeza também me começava a ultrapassar lavar as janelas, o chão, limpar tanto canto só de pensar já ficava cansado.
Sabia que precisava de me mudar, mas fui adiando durante muito tempo. Fiquei apegado a esta casa e a este bairro ao longo dos anos, por isso, as dúvidas não me largavam. Todos os meus amigos estavam ali, praticamente toda a minha vida, e eu prestes a deixá-la. O que acabou por me empurrar foi perceber que, financeiramente e fisicamente, já não conseguia manter um apartamento tão grande a idade não perdoa.
A família ajudou-me com a mudança. Sem a minha filha, Leonor, e o genro, Duarte, não teria conseguido fazer nada disto. Foram eles que encontraram o novo T1, trataram das pequenas obras. E apesar de o apartamento novo ser bem mais pequeno, nunca me arrependi.
Para quem vive sozinho nesta fase da vida, um T1 chega e sobra. Poupança nas contas, limpeza feita numa hora e, a partir daí, basta um simples cuidado diário de dez minutos para manter tudo em ordem.
Não me sinto apertado. Todos os bens essenciais, móveis e eletrodomésticos cabem perfeitamente e ainda sobra espaço.
Fiquei com um armário de canto enorme, deixado pelos antigos proprietários, que me serve de arrumação. Alguns sacos foram para o pequeno marquise. Na sala, só o essencial: o sofá, uma estante, uma mesa de centro.
Mobília velha, pratos ou quinquilharias acumuladas que nunca usei, despachei tudo. Não tinham lugar nem utilidade nesta nova casa. Só serviram para ocupar espaço durante tantos anos.
Muitos acham que um T1 não tem espaço para viver com conforto. Claro que, se recebo alguém para dormir, não tenho onde o acomodar. Mas não tenho esse tipo de visitas, e sinceramente, nem pensaria criar um lugar extra para dormir. Não gosto de ter pessoas de fora a passar a noite ao longo dos anos fui criando os meus próprios hábitos e rotinas que não quero ver interrompidas por um estranho no meu espaço. Como não há cama extra, também ninguém pede para dormir.
A Leonor vive cá perto com a família. Quando vêm cá, passam umas horas e, depois, regressam a casa. As amigas aparecem para um café, mas fazem o mesmo, vão dormir ao seu canto. Até gostariam de ficar mais, mas já não seria cómodo partilhar a mesma divisão.
Cada um tem a sua ideia de como quer passar a velhice uns preferem ficar na casa grande de sempre, mesmo sem necessidade, outros gostam de trocar por algo mais pequeno e prático. Eu, pessoalmente, não preciso de grandes espaços nesta idade. Se tivesse saúde e dinheiro, até podia viver sozinho num T3, mas não faz sentido.
Acho que, ao escolher entre ficar ou mudar, os reformados deviam olhar para mais fatores além da área da casa:
Uma boa localização farmácia, supermercado, centro de saúde por perto; Ficar próximo dos filhos, para não se tornar difícil visitar; Ter um jardim ou mercado perto para um passeio diário…







