Duas Destinações

Duas vidas.

Do outro lado do vidro da caixa, a vida fervilhava no seu próprio ritmo estranho. Para Mariana, aquele mundo retangular de caixa registadora, balança e leitor de códigos era prisão e salvação ao mesmo tempo. Prisão porque ali cada dia era um eterno Dia da Marmota: o bip monótono do scanner, os pacotes de arroz a deslizar, sorrisos falsos só para manter a paz. Salvação porque, mal atravessava a porta da sua casa, começava o verdadeiro inferno, chamado Zé Carlos.

Ó menina, ainda demora muito? Não vim aqui tirar férias na fila! resmungou um senhor barrigudo, com um carrinho de compras cheio até acima.

Estou a despachar, cortou Mariana, sem sequer erguer os olhos. A rudeza era o seu escudo.

Odiava aquele trabalho. Odiava filas, odiava aquelas caras sempre amuadas, o cheiro entranhado de chouriço barato e de esfregona molhada. Mas era dali que saía o dinheiro que ela guardava, escondido atrás dos azulejos da cozinha. O seu plano secreto de fuga.

A fila avançava. Mariana era quase um robô: Boa tarde, precisa de saco? São sete euros e vinte. Obrigada, volte sempre. E de repente… o ritmo alterou-se.

Ele vinha em quarto lugar. Alto, magro, de jeans simples e corta-vento azul-escura. Cabelo curto, barba de três dias e aqueles olhos… olhos de quem já tinha visto tudo menos impaciência, menos tédio, uma tristeza silenciosa, funda, que Mariana reconheceu de imediato. Reconhecer uma alma aflita é quase como ouvir o fado: não se explica, sente-se.

Quando chegou a vez dele, sentiu a voz trair-lhe.

Boa tarde, saiu-lhe mais meigo do que gostaria.

Boa noite, devolveu ele, voz calma, grave, um toque rouco.

Pousou só o básico: uma garrafa de água, um pacote de arroz, uma embalagem de iogurte. Puro kit de solteirão. Ou de alguém a quem já nem apetece comer. Mariana reparou num anel na mão direita. Não era de casamento, era grosso, de aço. “Que estranho”, pensou, mas não mostrou nada.

São oito euros e cinquenta, disse.

Ele passou-lhe uma nota, e por um instante os dedos tocaram-se. A mão dele tinha um calor seco. Mariana recuou, como se queimasse. Um sentimento estranho, proibido, apertou-lhe cá dentro.

Guarde o troco, sorriu ele, só com um canto da boca.

Como queira, e ficou a vê-lo sair.

A loja pareceu mais escura quando ele se foi. Mariana abanou a cabeça para afastar o feitiço. Zé Carlos. Ter que pensar no Zé Carlos. Mais logo, voltar aos esquemas de fugir da sua mão pesada, às conversas embriagadas sobre como ela era uma desgraçada ingrata. Mas a imagem do estranho não saia da cabeça. E ele voltou. Às vezes todos os dias; outras, passavam-se dois ou três, que pareciam tão cinzentos e vazios.

Soube o nome dele quando ouviu, de relance, a Dona Rute da mercearia acenar-lhe: Ó André, filho, estás bom? André. Que nome português, forte e bonito. Era o nome certo para ele.

Cada ida dele era um mini espetáculo. Mariana tentava ser profissional, mas ajeitava o cabelo ou esticava o avental sem dar por ela, sempre que ele se aproximava. E ele olhava para ela. Não como caixa de supermercado, mas como pessoa. Com interesse e compaixão. Um dia, enquanto pagava, disse baixinho:

Dia difícil?

A pergunta apanhou-a desprevenida. Ninguém ali lhe perguntava nada sobre si.

Mais um, respondeu, com um nó na garganta. Apetecia-lhe abrir-se: O dia é sempre difícil porque pode acabar com o lábio rebentado. Mas limitou-se a sorrir.

André não insistiu. Só acenou e saiu.

Nessa noite, Zé Carlos estava especialmente chato. Nem sequer se embebedou com os colegas, mas com uns tipos estranhos, que deixaram beatas e garrafas espalhadas. Ela, depois de horas de pé, entrou em casa e viu-o na cozinha a olhar para o nada.

Já chegaste? rosnou. Passas o dia fora e nisto aqui é uma desgraça. Não há nada de jeito para comer.

Mariana calou-se. Era a sua melhor arma, o silêncio. Por vezes até fazia passar mais depressa.

Vais ficar aí calada? Estou-te a falar! Ele levantou-se, cambaleante, bloqueando-lhe a passagem com o corpanzil. Não tens respeito nenhum, pá!

Ela tentou passar, mas ele segurou-a no braço. Os dedos cravaram-se-lhe, enterrando-se até deixarem marca.

Larga-me, Zé Carlos, suplicou.

E se não largar? O que me fazes tu? Sem mim não és nada, percebeste? Nada!

Libertou-se e fechou-se na casa de banho, abriu a torneira no máximo para abafar os gritos e os murros na porta. Sentada na borda da banheira, olhou para as mãos. Já não tinha nódoas negras a pele estava dura, gasta. Mas a alma… a alma era um hematoma inteiro.

No dia seguinte, o braço estava roxo. Teve de vestir uma camisola de manga comprida, embora estivesse calor no supermercado.

Eis André, outra vez, a passar-lhe os produtos. O coração de Mariana saltou, mas o medo logo a gelou: e se ele via que mexia o braço só de um modo? E se percebesse?

Não preciso de saco, disse ele, passando o cartão. E naquele momento os olhos dele caíram sobre o pulso dela. O tecido subiu ligeiramente, deixando à mostra o princípio da marca. Um traço escuro na pele clara.

Os olhos de André mudaram. A tristeza foi trocada por algo frio, cortante. Um fogo gelado, rapidamente camuflado por uma fachada de calma.

Obrigado, disse, e saiu.

Mariana sentiu-se ainda mais inquieta. Não teve medo do Zé Carlos, mas daquela reação contida, terrível, do homem das compras de arroz.

Nessa noite, ao fechar o supermercado e passar pelo jardim, uma silhueta familiar esperava-a. André. Surgia-lhe do nada, como se estivesse à espreita.

Mariana, posso falar contigo um instante? A voz não tinha dúvida, só doçura e firmeza.

O que queres? ela recuou, pela primeira vez sozinha com ele fora do supermercado.

Vou-te acompanhar a casa, disse, como se fosse óbvio.

Não é preciso. Moro aqui perto, protestou, mas ele caminhava já ao lado.

Eu sei. Sei tudo sobre ti, Mariana, continuou André, baixando a voz. Sei onde moras. Sei o nome do teu marido. E sei que ele te bate.

Ela ficou imóvel. O coração aos pulos.

Eu posso ajudar-te.

Não preciso de ajuda! quase gritou, mas a voz fraquejou. Tu não sabes nada! Vai-te embora!

Sei, insistiu ele. Porque eu próprio fui assim. Fui.

Essas palavras gelaram-na. Olhou para ele. Não havia mentira naquele olhar. Só uma ferida muito antiga.

O meu padrasto matou a minha mãe, disse André, sem emoção, como quem lê um artigo antigo. Eu tinha doze anos. Ouvi-a a gritar no corredor. Depois ele saiu, limpou as mãos e disse-me: “Vai fazer arroz de pato.” E eu fui era um puto, fraco e assustado. Fui-lhe fazer o arroz.

Mariana ouviu, presa ao chão. O ar parecia espesso entre eles.

Desde então fiz uma promessa, encarou-a André. Se vi isto, se posso impedir, não fujo. Não posso fugir. Não é tua culpa, Mariana, mas também já não é só teu problema. É nosso. Se tu quiseres.

Ela já não via ali só um homem bonito, mas um menino de alma estilhaçada, com um anel de aço como lembrete diário.

E o anel? sussurrou. Porque usas isso?

Era do meu padrasto, respondeu, voz áspera. Tive-o na mão quando a polícia o prendeu. Para nunca esquecer até onde pode ir a maldade. Para lembrar que o silêncio mata.

Mariana sentiu uma lágrima rolar. Não sabia bem se era de medo, dó ou de um estranho alívio: já não estava sozinha.

Anda, disse ele, estendendo-lhe a mão. Só te acompanho à porta. Não entro, se não quiseres. Mas hoje entras em casa acompanhada.

Subiram juntos as escadas. Mariana ia a tremer, mas com um calor novo por dentro. À porta, olhou para trás. André mantinha-se na sombra, discreto.

Obrigada, murmurou.

Vou estar aqui. Todos os dias. Se ele te tocar grita. Só grita alto. Eu vou ouvir.

Mariana entrou. Zé Carlos, sóbrio, ficou ainda mais insuportável. Sentado em frente à televisão.

Por onde andaste? bufou, sem olhar.

No trabalho, disse Mariana, e pela primeira vez cruzou a cozinha sem pedir licença.

Ele virou-se, surpreendido, mas ficou calado.

Assim começou a guerra silenciosa e a amizade secreta deles. André esperava por Mariana cada dia. Falavam pouco, mas o silêncio valia ouro. Às vezes ele trazia-lhe chá quente do quiosque, e ficavam ali, na rua, de olhar nas janelas dela. Ela contava os sonhos pequeninos fugir, começar de novo, abrir uma padaria. Ele ouvia, atentamente.

Vais conseguir, dizia ele.

E tu? perguntou um dia. Tens alguém?

Ele abanou a cabeça.

Não deixo ninguém aproximar-se demasiado. Tenho medo de não proteger. Outra vez.

A tempestade rebentou num sábado. Zé Carlos, a notar que a mulher lhe desobedecia, descobriu o esconderijo. Mil e quinhentos euros em notas, duas anos a guardar, espalhados em leque na mesa. Ele a vê-la chegar, cara de raiva.

Isto quê? grunhiu, de pé. A guardar para fugir? Bilhete só de ida, era?

Dá-me isso, pediu Mariana, gelada por dentro. Não é teu.

Não é meu? berrou. És a minha mulher! Tudo o que é teu é meu! Anda cá, vamos discutir isto!

Puxou-a pelo cabelo. Mariana gritou. Mas o grito ainda saiu abafado. Até que se lembrou. Só grita bem alto.

Gritou. Com tudo. Pôs ali a dor, o medo, o desespero de dois anos.

Ajudem! André!

Zé Carlos parou, chocado. E logo, pancadas estrondosas na porta. Mais, outra vez. A porta, velha, cedeu. André surgiu à entrada, o anel de aço apertado na mão como soco-inglês.

Zé Carlos largou Mariana e atirou-se ao rival. Era maior, grosso, mas André movia-se ágil e frio. Socos caíram certeiros. Ouviu-se um urro quando o aço encontrou queixo. Zé Carlos caiu desfeito.

Nunca mais lhe toques, rosnou André, por cima dele. Apanho-te outra vez, mato-te. Pela minha mãe não vacilo.

Mariana encostou-se à parede, a tremer. André voltou-se.

Vem. Pega só no essencial. Compramos o resto.

E ela foi. De robe, de chinelos, tremendo mas finalmente livre.

Foram viver para casa de André. Era um apartamento quase assético, só livros de psicologia, um saco de boxe ao canto e a foto de uma mulher de meia-idade numa prateleira.

Mãe, explicou André, quando Mariana olhou.

Ela não perguntou. Limitou-se a reaprender a viver. Dormir sem medo, acordar sem terror. André era afetuoso, mas respeitoso. Dormia no sofá, dava-lhe o quarto. Fazia-lhe o pequeno-almoço, levava-a ao trabalho e esperava-a ao fim do dia.

Um mês depois, Mariana encontrou uma carta antiga na sua mesa, escrita com letra de criança.

Querida mãe, perdoa por não te ter protegido. Quando crescer, serei forte. Vou proteger todos os que precisam. Nunca mais deixarei que maus façam mal aos bons. O teu filho, André.

Mariana chorou. Entendeu, então, que vivia com alguém que fez da dor escudo para os outros.

Casaram-se ao fim de seis meses, quando o divórcio com Zé Carlos ficou completo. Ele nem apareceu ao tribunal. A festa foi discreta: assinaturas, um almoço com Dona Rute e duas colegas.

No dia seguinte, foram ao cemitério. André tirou o anel de aço. Deixou-o junto à campa.

Cumpri a minha promessa, mãe, murmurou. Aprendi a proteger. E a amar.

Mariana estava ali, ao lado, com um ramo de flores campestres. O sol furava por entre as árvores do cemitério, desenhando manchas douradas na relva.

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