Tornei-me mãe quando o meu filho tinha apenas 2 semanas.

Há uns dois anos, como num sonho estranho, comecei a fazer a mala. Era a minha e a da criança. Coloquei uma cadeirinha no carro, cuidadosamente, como quem prepara um altar. Levei um aquecedor pequenino, como um talismã contra a noite fria. Conduzi até ao tribunal, olhando Lisboa através do vidro ao entardecer, para buscar a tão esperada autorização de tutela.

Horas depois, guiava por ruas dobradas de neblina em direção ao quarto do meu filho. Era o nosso reencontro, suspenso naquele dia difuso. Durante uma semana inteira percorri uns sessenta quilómetros para cada lado, ida e volta, para o visitar. Sete dias alongados e líquidos, como só existem em sonhos.

Era tão pequenino naquela altura. Costumava deitar o Tomás de barriga para baixo, e sonhava que ele nascia de mim. Como se já fosse meu há muito tempo. Talvez ele também sentisse assim. Naqueles momentos, tudo era sossego e silêncio na casa.

Quem cá adota crianças chama àquele dia o Dia da Cegonha. Era quando uma família recebia finalmente um novo habitante, aguardado nas conversas e nas fotografias vazias. Todos ficavam leves de alegria. Os pais recebiam de repente um propósito novo, e o filho, pais de verdade. A esperança de uma vida serena.

Demorei meses até sentir a minha filha como sendo verdadeiramente minha, a aceitá-la até ao fundo do coração. Mas com o Tomás foi diferente: aconteceu depressa, como um trovão manso numa noite de verão. Logo tornou-se parte de mim e da casa, como se sempre lá tivesse estado. Ainda hoje me custa perceber como é que a mãe dele teve coragem de partir assim, de deixar o menino atrás dela. Nem olhou para trás. Talvez se tivesse olhado, uma única vez, tudo fosse diferente. Era impossível não gostar dele. Talvez estivesse mesmo destinado a vir para mim. Era nosso destino.

Sempre lhe chamei menino-maravilha. Tem um encanto especial, o meu Tomás. Que cresça feliz, é tudo o que peço à madrugada. Tenho o orgulho maior de ser tua mãe.

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Tornei-me mãe quando o meu filho tinha apenas 2 semanas.
Tenho 46 anos e, se alguém olhasse para a minha vida de fora, diria que está tudo bem. Casei-me jovem, aos 24, com um homem trabalhador e responsável. Tive dois filhos quase seguidos, aos 26 e aos 28. Interrompi o curso superior porque os horários não batiam certo, os miúdos eram pequenos e havia “tempo para isso mais tarde”. Nunca houve grandes discussões nem dramas. Tudo corria como “devia ser”. Durante anos, a minha rotina foi sempre igual. Acordava antes de todos, preparava o pequeno-almoço, deixava a casa em ordem e ia trabalhar. Voltava a tempo de fazer os recados, cozinhar, lavar roupa, arrumar. Os fins de semana eram para almoços de família, aniversários, compromissos. Estava sempre presente, sempre a assumir as responsabilidades. Se faltava algo, era eu que resolvia. Se alguém precisava, era eu que estava lá. Nunca me perguntei se queria outra coisa. O meu marido nunca foi má pessoa. Jantávamos, víamos televisão e deitávamo-nos. Não era particularmente carinhoso, mas também não era frio. Não exigia muito, mas também não reclamava. As nossas conversas giravam à volta de contas, filhos e tarefas. Numa terça-feira qualquer, sentei-me na sala, em silêncio, e percebi que não tinha nada para fazer. Não porque estivesse tudo bem, mas porque naquele momento ninguém precisava de mim. Olhei à volta e percebi que durante anos mantive esta casa de pé, mas já não sabia o que fazer comigo dentro dela. Nesse dia abri uma gaveta com documentos antigos e encontrei diplomas, cursos que não acabei, ideias anotadas em cadernos, projetos deixados “para depois”. Passei fotos do tempo em que era jovem – antes de ser mulher, antes de ser mãe, antes de ser quem resolve tudo. Não senti saudade. Senti algo pior: a sensação de que conquistei tudo sem nunca me questionar se era isso que queria. Comecei a notar coisas que antes achava normais. Que ninguém me pergunta como estou. Que, mesmo chegando cansada, continuo a ser eu a tomar decisões. Que se ele não quer ir a um almoço de família, tudo bem, mas se sou eu a não querer, espera-se que vá na mesma. Que a minha opinião existe, mas não pesa. Não há gritos nem discussões, mas também não há espaço para mim. Uma noite ao jantar, disse que queria voltar a estudar ou procurar algo diferente. O meu marido olhou-me espantado e perguntou: “Mas agora, para quê?” Não o disse por mal. Disse como quem não entende porque é que algo que sempre funcionou teria de mudar. Os filhos ficaram em silêncio. Ninguém discutiu. Ninguém me proibiu de nada. E mesmo assim percebi que o meu papel está tão bem definido, que sair dele é desconfortável. Continuo casada. Não fui embora, não fiz as malas, não tomei decisões radicais. Mas também já não me iludo. Sei que durante mais de vinte anos vivi para sustentar uma estrutura onde era útil, mas não era a protagonista. Como é que uma mulher se reencontra depois disto?